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ACONTECEU DE SER >> Carla Dias >>


Contempla o acontecimento. 

Se pudesse, permaneceria nele até que se tornasse o único ambiente onde soubesse viver. Não porque tem medo do novo. Não porque lhe incomodam as mudanças. Não porque os barulhos da cidade lhe agoniem.

Sente como se aqui nem lugar fosse.

Não é o primeiro acontecimento pelo qual se deslumbra. Contudo, se até no mais atrevido de sermos - que é o amar sem pudores –, enganamo-nos no apreço, pode dizer que todos os outros aqui foram paraísos que visitou, onde aprendeu muito e se perdeu por mais vezes do que um habilidoso matemático calcularia ser possível. 

Porém, nenhum dos anteriores é este.

Ocorre de este acontecimento ser único.

Sente-se acomodar no que falta. Não há excesso, transbordamento. Não há a excitação das descobertas e do compor planos. Neste acontecimento, há uma lucidez que se regala da sua intenção de compreendê-la. Lucidez que se sente curiosamente agradecida por ter lhe fisgado a atenção. Então, que ela conta fatos escondidos entre invencionices, desarmando-lhe as ilusões e as reduzindo a enfeites de desejos não correspondidos. 

Sombras. 

Rastros.

Aprendeu, aqui, neste acontecimento, que lugar nenhum será seu lar. Não haverá paredes capazes de lhe abrigarem, sem que haja intenção de aprisionamento. Não existirá uma tribo, um bando, um aglomerado de benquerenças. 

Não haverá paisagem.

Ele é seu pecado, seu desamparo, seu abismo, seu fundo do poço. Um apanhado de medos relampejantes rastejando pelas beiradas da sua esperança desesperançada. Uma solidão apaixonada pelo silêncio.

Nele, reencontra-se. Perde-se no próprio olhar. Toca as próprias faces. Diz o próprio nome. Grita os horrores que lhe habitam.

Mergulha no acontecimento como se nele não houvesse fim. Mergulha, até que não haja volta. Até que seguir adiante seja o que lhe resta. 

Segue, até que o acontecimento se perca no passado.

Certamente, há de revisitá-lo, como quem não se lembra claramente do enredo das suas farpas, e, assim, aceita sua demanda de melancolia. Como quem se recorda, em uma versão aprimorada, das vezes em que o acontecimento lhe ofereceu um apanhado de prazeres comedidos, em troca de decisões revolucionárias.

Sabe que restará a saudade. Mas este é outro capítulo, de uma história que ainda precisa descobrir qual será. 

Imagem: Orfeo trovatore stanco (Orfeu trovador cansado) © Giorgio de Chirico

carladias.com

Comentários

branco disse…
estou ficando repetitivo nos elogios. sublime ! ( acho que este é moderado e sem demonstrar tanto meu apreço pelos seus textos)
Carla Dias disse…
Branco, obrigada. Eu que já não sei mais como agradecer a sua leitura e o seu mergulho nos meus textos.
Nadia Coldebella disse…
oi, Carla!
Texto incrível mesmo, profundamente psicológico.
Esse texto é um daqueles que a gente precisa parar para ler duas, três vezes. A primeira leitura me deu um estranhamento, pois exigiu de mim coisas que não estou muito habituada a dar quando leio um texto. Na verdade, esperamos receber quando lemos, mas o teu texto exige uma certa doação.
Deixa eu explicar. Teu texto me exigiu um reposionamento como leitora. Quando a gente lê, é como se víssemos, em algum grau, o nosso reflexo no espelho - porque sempre há algo da gente que nos leva a identificação com o que foi escrito - mas, nesse caso, é como se eu fosse um terceiro, me observando ao me ver diante do espelho. Um movimento incrível de se fazer, que exige um certa adaptação. Adoro esse tipo de coisa, desenvolve nossa inteligência, nosso espírito.
E ainda, sua escrita é simples, fluída... tudo muito intenso e profundo!
Obrigada por nos proporcionar uma experiência de leitura tão rica!
Carla Dias disse…
Nádia, que bacana que você tenha feito essa viagem pelo texto. Fiquei bem feliz em saber que foi uma boa viagem. Obrigada! <3