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ENTRE CAIXAS E SEGREDOS >> Cristiana Moura


Dia desses, dediquei o tempo a arrumar gavetas, estantes, armários. Estas coisas que, por vezes, deixamos para depois. À medida em que dobro uma roupa, em que separo meias, ou penduro todos os vestidos de um mesmo lado do guarda-roupas, algo dentro de mim vai se arrumando também: emoções, ideias, quereres. Na arrumação encontrei pequenos objetos perdidos pelas gavetas, memórias e segredos de tempos outros preservados em caixas de sapatos.

Numa das minhas memórias, encontro poema escrito em adolescência paulistana. Li e lembtrei-me de Mayara, seus 16 anos repletos de novas experiências, sonhos, altas expectativa e exigência consigo mesma, medos e desejos aglutinados. A menina-moça experimenta o corpo mudando, a paixão, o prazer. Nutre-se mais de livros e suas histórias do que de comida. Sabem aquelas pessoas que mergulham fundo em si mesmas? Ela é assim.

Mayara, dentre tanto novo a ser vivido, também tem provado as viagens e a alteração de consciência possibilitadas por substâncias tanto lícitas quanto ilícitas. Quer também deixar adentar em seu corpo experiências provocadas pelas químicas artificiais as quais desconhece. Teme. Ela tem receio da experiência, de perder o controle, dos próprios desejos e de decepcionar aqueles que ama e por quem é amada.

Até então, um beck dividido entre amigos em fim de semana, era o que fazia parte da sua vida.  Todavia noutro dia,  ganhou um tanto da erva para levar para casa. Mayara a abrigou em uma caixa. Havia de estar escondida, enfim não se trata de coisa para mães encontrarem. A moça-menina a guardou em sua caixa de gibis da Turma da Mônica, leituras que a encantaram quando criança. Lá por baixo de anos de gibis de infância, há um segredo adolescente escondido. Baseados, prazeres e temores guardados na caixa do tempo no qual ainda não existia o peso das escolhas.

Fiquei aqui pensando que as experiências e memórias das nossas infâncias podem mesmo nos proteger. Seja de nossos segredos, seja de nós mesmos.

Comentários

Albir disse…
Que interessante, Cristiana, suas memórias, beks e gibis!
Nadia Coldebella disse…
A adolescência é um período muito ambivalente, não é? Romper com tudo, experimentar tudo, mas não perder o que se tem... Muitos segredos, muitos proibidos guardados bem lá no fundo - alguns deles escondidos vergonhosamente da vida adulta, outros olhados com carinho, aceitação, um pouco de graça e muita saudade.

Acho muito bacana esse remexer de caixas, esse remexer da vida. Sempre há um pouco de nós proibido ou escondido sob pilhas e pilhas de gibis, maquiagens e regras e essas remexidas são importantes para que possamos reavaliar a direção que tomamos e mudar o foco, se for necessário.

Só uma pergunta, o que aconteceu com o beck?