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QUEM TEM PENA DOS HAMSTERS? >> Mariana Scherma

Beagles sofrendo, com um dos olhos faltando, vivendo em ambientes sujos, maus tratos (aparentemente) descarados... Impossível não se comover e tentar invadir um lugar no qual bichinhos tão inofensivos e fofos (gente, o Snoopy é um beagle!) para salvá-los desse mundo cruel. Tomados por esse espírito heróico, diversos ativistas invadiram o Instituto Royal no interior de São Paulo. Ok, eles deram liberdade aos bichinhos, tanta que alguns ficaram até perdidos na rua. Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade saberia que bichos criados sempre fechados se perderiam na rua. A expressão “mais perdido que cachorro caído da mudança” não existe à toa. E foi isso que me fez questionar a boa vontade desse grupo ativista. Eles queriam vender a causa com uma promoção excessiva ou cuidar dos beagles?

Não, eu não fui contra essa manifestação. Quer dizer, não fui totalmente contra porque detesto excesso de violência. O fato é que testes em animais, infelizmente, ainda são necessários e são permitidos por lei. Agora, o sofrimento dos bichos é proibido (eu só fico pensando em quem fala a língua deles pra saber se uma vacina-teste está agredindo ou não o animalzinho, mas enfim...). O fato é que a maioria de nossas vacinas precisa ser testada em animais para, depois, se mostrar eficiente em nós, humanos. E eu sou totalmente a favor do homem – e da saúde dele. Se a ciência ainda não é capaz de lançar um medicamento confiável sem testes em animais, por mais que doa o coração, que sejam feitos esses testes. Mesmo porque vai doer mais saber que alguém da minha família ou algum amigo corre algum risco porque um ratinho que eu nem conheço foi poupado. É o preço da ciência.

O que sempre me deixa indignada é a fúria que esses manifestantes demonstram: quebrando o que veem pela frente e invadindo como se estivessem em guerra. Era necessário tudo isso? E as pessoas que se revoltaram ao ver o sofrimento dos primos do Snoopy pela tevê, jornais ou posts do Facebook? Será que elas foram atrás de se informar sobre os testes em animais? Um pouco mais fundo: será que os manifestantes de redes sociais que recriminaram ao extremo os maus tratos do Instituto Royal têm certeza de que não possuem nenhum batonzinho ou blush que seja testado em peludinhos? Sim, porque há diversas marcas de maquiagem que ainda usam animais como cobaias. E para o make nosso de cada dia não é necessário fazer testes em bichos, já existe tecnologia suficiente para ficarmos com nossas bocas em tons de vermelho, coral e roxo sem que nenhum animal seja sacrificado. Será que todos esses manifestantes foram atrás dessas listas que encontramos rapidinho na internet. Espero que sim, espero de verdade que não tenham ficado só esbravejando via teclado, sem se dar conta de que pequenas atitudes também ajudam (e muito).

Se toda a revolta e quebradeira serviram pra conscientizar as pessoas de pedirem por formas alternativas de testar medicamentos que não sejam em animais, ok, dá pra ver um lado positivo nisso tudo. Agora, se a maioria já voltou pra sua vida normal sem se importar com aquilo que não está no raio de circunferência do próprio umbigo, haja paciência com os ativistas de butique e seus discursos decorados... Mas o que mais me deixa intrigada é que eu nunca vi nenhum manifestante invadindo laboratório pra salvar hamsters – e olha que eles são bem simpáticos. Pra mim, tão simpáticos quanto beagles.

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