quarta-feira, 16 de outubro de 2013

CONTEMPLADORA DE ALÉM >> Carla Dias >>


Quando criança, eu já era absorvida por assuntos que pescava das conversas dos adultos. A vida me preocupava profundamente, mesmo quando estava metida com as brincadeiras infantes. E não era uma preocupaçãozinha aqui e outra ali, não. Menina de tudo, eu já colecionava preocupações diversas, e a maioria delas não tinha a ver comigo, mas com pessoas a quem dedicava meu afeto.

Obviamente, isso não significa que eu não tenha me divertido muito – e brigado muito, também – com o monte primos e com as irmãs e irmãos, lá no quintal de casa.

O fato é que eu percebia coisas nos adultos que meus companheiros de infância não percebiam, porque estavam entretidos com as brincadeiras, ou seja, estavam fazendo o que deviam fazer: sendo crianças. Essa habilidade em mergulhar profundamente no que não me cabia espiar, levou-me a ser ótima contempladora de além, e péssima em compreender situações realistas e diretas. Até hoje, com quase quarenta e três anos, minhas irmãs me surpreendem com revelações sobre nossa infância e adolescência. Acabei por compreender que me distraí completamente da realidade nua e crua, da conversa direta da vida, especializando-me em profundidades. E por mais que isso me caiba bem melhor do que a outra opção, às vezes não faz sentido algum aos que me cercam.

Contempladora de além acaba escutando mais do que o outro gostaria de dizer. Não que eu invente sentimentos para outras pessoas, ou reescreva a biografia delas - que não sou revista de celebridades, e que para exercitar inventamento eu uso os livros que escrevo. É somente um prestar atenção que segue adiante, que não se satisfaz apenas com o que é oferecido.

Obviamente, ser contempladora de além me ensinou a ser escritora, que escrever sempre foi necessidade pungente de dizer coisas que não cabem em lugar nenhum que não na imaginação. Ainda assim, eu me pego invejando, de leve, aqueles que sabem viver a realidade como ela é, sem poesia para servir de bálsamo ou para atinar dor só porque a palavra rima com amor. Com a poesia apenas nos livros ou nas tarefas da escola. Porque contempladora de além não nasceu para o somente, mas para se jogar nos braços das tempestades, mesmo quando, exteriormente, a paz pareça reinar.

Imagem: sxc.hu



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