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CARROS ANTIGOS OU "O PASSADO" [Ana Claudia Vargas]

O passado, mais ou menos fantástico, ou mais ou menos organizado, posteriormente, age sobre o futuro com um poder comparável ao do próprio presente. (Paul Valéry)

Era só um evento desses que acontecem Brasil afora nos quais carros das décadas passadas são expostos para que (hoje) possam ser vistos com vagar, como peças de museu, como outros sobreviventes de um  tempo que se foi. Na grande praça central da cidade do sul das Geraes, as pessoas vão chegando animadas e sorridentes porque o dia ensolarado e luminoso torna tudo agradável.

Ver os carros antigos sob o manto de folhas das árvores frondosas é um afago na alma: lá estão os carros, dezenas deles, parados em meio à sombra dessas árvores e é como se eles ‘soubessem’ que são alvos de admiração.

São como modelos na passarela, aquelas mulheres que imolam suas existências para serem apenas objetos de desejo e que quando envelhecem, por exemplo, são imediatamente substituídas por outras mais frescas, mais de acordo com o presente. Mulheres que existem de verdade apenas quando paralisadas em fotografias ou em personagens do cinema ou da TV.

Pois os carros antigos também são assim e como não haveria de ser? Eles só existem agora como objetos de adoração porque há uma aura de que o passado sim, é que foi bom, em torno deles.

E olha que as previsões para eles não eram das melhores, uma dessas pessoas que falam frases para a posteridade, disse que carros eram invenções fadadas ao fracasso.

Nem vou me alongar aqui senão vou engatar a falar sobre congestionamentos, aquecimento do planeta por causa do gás carbônico e até a morte dos ciclistas vai ser assunto e não é por aí que quero ir.

Fico olhando é para o passado que se evoca quando se vai numa singela exposição de carros antigos: lá estão eles, enormes, opulentos – um tinha até madeira em sua estrutura, chiquérrimo e ecologicamente correto – tão bonitos – porque foram devidamente embelezados por seus orgulhosos donos – e brilhantes; que resplandecem e adquirem algo de mágico. Nessa hora são quase mitificados e se parecem com os personagens fabulosos de lendas ou daquelas historias que tem deuses ou fadas como protagonistas.

Cada um é mais belo que o outro: Galaxies, Maveriks, Opalas, todos grandes e lentos demais para a velocidade desse começo de século 21 em que vivemos; todos naquelas cores de sonho que só podem existir de verdade no passado: azul celeste, vermelho claro, azul piscina, amarelo ovo... Parece que antigamente o mundo era mais criativo e colorido, parece que as pessoas que trabalhavam na indústria (não só automobilística, certamente) não tinham medo de ousar e experimentar desenhos mais elaborados, curvas mais espiraladas, cores variadas...

E está tudo lá, tudo o que aconteceu na história humana há mais ou menos 50 anos, está lá, nas linhas desses carros que circulavam nas ruas do mundo nas décadas passadas: o jeito contido de um comportamento humano que existiu até a década de 1950 – a época das saias rodadas e das mulheres envergonhadas - a ousadia nascente da década de 1960, quando os carros foram ficando coloridos e enormes – pois aquela foi a década da expansão cultural, social e outras mais -  a psicodelia exagerada dos mitificados anos 1970 com seus carros ainda grandões, mas já perdendo as caudas longas porque aqueles também foram os tempos de muitas tomadas de consciência e a questão ambiental foi uma delas.

Na década de 1980 – como tudo mais daquele tempo – carros de tamanho médio, mas de linhas chamativas fazem com que a gente se lembre de tudo de ruim daquela década: Madonna, bandas new wave, cabelos com topetes e o pior de tudo, o crescente consumismo que hoje a gente sabe muito bem o que nos custou.

Mas os carros, coitados, foram só produto das mentes criativas, geniais ou doentias daquelas épocas, hoje eles estão aqui e são apenas representações simbólicas de fases específicas da história humana. Hoje eles têm permissão para serem fantásticos, magníficos, belos e acima de tudo, admiráveis. 

Representam somente o passado, esses carros, são como aquelas fotos de atrizes belíssimas da década de 1950 e 1960 que a gente recebe por e-mail e ao vê-las a gente finge que esquece que hoje todas já se foram ou envelheceram ou estão tentando deter o tempo com mil aplicações de botox.

Não há como deter o tempo, ele sempre será a nossa enigmática esfinge e todos esses carros enfileirados sob o sol levemente luminoso do inverno, parecem imagens idealizadas dos sonhos daqueles que os criaram. Penso que eles gostariam de vê-los desse jeito: era esse o ideal que buscavam.

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