domingo, 13 de outubro de 2013

A COMPANHIA DOS HOMENS >> Whisner Fraga

Fomos a um pet shop hoje. Nunca vi loja igual. Enorme, é um shopping devotado a artigos para todos os animais que dividem casa com humanos. Lá tem desde qualquer artigo para qualquer pet que imaginarmos, bem como tudo o que um gato ou cão precisa: de salão de beleza a farmácia e clínica veterinária. Caminhando pelo local, lendo orientações em embalagens, observando os peixes, os pássaros, um ramster, comecei a pensar em algumas frases que ouvi vida afora.

Uma delas é que em vez de acolher um pet, deveríamos adotar uma criança, já que há tanta passando fome. Poucas vezes ouvi um clichê desse naipe. Primeiro, quem disse que quem tem uma calopsita, na verdade queria ter era um bebê? Vamos lá, a questão do preço, só para começar a discussão: um gato ou cachorro custa, segundo especialistas, uns duzentos reais ao mês. Manter uma criança de quatro anos, filha de uma família de classe média, não sai por menos de um mil e quinhentos a dois mil reais nesse mesmo período. Convenhamos que são valores muito diferentes.

Desconsiderando essa questão financeira, já que todos alegam que quem tem um pet tem grana saindo pelos ralos, poderíamos pensar que um bebê requer algumas centenas de vezes mais atenção, cuidado e dedicação. Todos sabem que alguns animais são bastante independentes, o que está longe de acontecer com uma criança. Nesta mesma linha, se você tem um pet em casa e quer viajar, existem hotéis especializados, existem vizinhos dispostos a ajudar e assim por diante, mas com quem deixar a guarda um filho? Sim, há geralmente a família e pode-se recorrer a ela, mas o assunto rende pano para a manga.

Depois, há aqueles que já tiveram suas crias, já estão em outra fase da vida e desejam, nesta altura, a companhia de um animal. É mais comum do que supõem. Vamos tolhi-los, simplesmente porque existem muitas crianças passando fome? Ora, a questão da fome é muito mais complexa e passa pela injustiça desse capitalismo que apregoa e cultua o egoísmo e o egocentrismo. Vamos tolhi-los, simplesmente porque algum casal resolveu perpetrar sua irresponsabilidade em forma de um bebê, que nada tem a ver com a bagunça alheia e foi lançada em alguma calçada para aprender a respirar sozinha?

Por fim, o ponto mais chato dessa história: muita gente não quer mais a companhia de mais gente dentro de casa. O homem não anda bem, anda falso, egoísta (como disse no parágrafo anterior), mal-educado, belicoso, prepotente, mau, injusto e por aí vai. Dá gosto verificar a lealdade de um cão – coisa rara na espécie humana. Dá gosto ver a sinceridade felina – quase um milagre no ser-humano. Posso até ser acusado de pessimista (e até darei certa razão aos acusadores), mas está complicado defender o mundo de hoje. Está cada vez mais complicado defender uma criança no meio dessa sociedade consumista e armada. Por isso não acuso ninguém que prefere a companhia de um animal.

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