quarta-feira, 9 de outubro de 2013

INTÉRPRETES >> Carla Dias >>


Desenlaçado de tristeza, diz, tremeluzente voz, que me apego aos detalhes e me desvio da importância das tonalidades, que alacridade é coisa para quem aceita olhar no olhar. Quer olhar, então? Olho, e sem reserva, que estou em dieta que esconjura mágoas e acanhamento. Olho no olho, escorrego o olhar para o dentro, mergulho, sem medo de afogamento, na alma.

Revela que minha prosperidade está atrelada a tal excentricidade existencial, a qual eu mantenho a custa de uma dolência de estimação. Não saberia viver sem ela, afirma, que toda a sua jornada tem sido amparada pelo desdobramento dessa expiação. Eu silencio a animosidade do meu desejo de pecar por felicidade, ela que me abraçou inteira, hoje, a princípio me fazendo sentir capaz de qualquer ato em prol da sua existência, para então, nesse instante, ludibriar essa capacidade recém-nascida e me alimentar de desolação.

Agora, encara-me como música precisando de pausa, até arrisca um sorriso em fermata, enquanto deita sobre a mesa a próxima carta. Desculpe, chegamos ao depois. Tudo para que eu entenda o recado: a vida acontece enquanto eu desaconteço, segue seu rumo, às vezes feito trem descarrilado, sem atentar para o tempo que gasto a digerir fatos. Ela independente da minha cadência interna, das referências que me moldam. Sendo assim, eu sou mais de uma. Sou aquela que a vida sustenta com seus próprios desfechos, e a outra, a que construo com minhas escolhas.

Como estar aqui.

E o estalo de sua mão batendo a carta sobre a mesa, o jeito como olha para ela, os gestos miúdos, mas com vasto repertório para dizimar esperança. O coração... Ah, o coração. Entristecemos em uníssono, vagueando os olhos pelo recinto, evitando encontros. Mas então que os entrelaçamos, brilho amuado, e na boca, azedume em conluio com a solidão.

Antes de me dizer palavras, improvisa um silêncio repleto de significados. Quer liberdade maior do que sentir? Só que de sentir eu entendo, que me esbaldo em sentimentos, e seja quais forem, que não nasci para ocupar cargo de censora emocional. E me explica que tão somente sentir é gastar os verbos com expectativas, um desperdício de oportunidades para se sentir sendo o sentimento. O que você faz com o sentir? Incomoda-se com minha honesta resposta: sinto. Esclarece que as habilidades de um intérprete não envolve catequização. Só que não pode deixar de me dizer, assim, feito adendo, cutucação extra, aquém do oráculo, que eu preciso me aprumar se não quiser passar o que me resta de vida, que espero, seja longa, a ver navios. Pior... A ver a vida acontecendo na casa ao lado, sem que ela tenha desejo algum de entrar na minha casa e servir-se da minha hospitalidade.

Marejo os olhos, depois de dedicado trabalho para não aguar com espectador. Quer que eu continue? E eu soluço, enquanto respondo: quero. Com a elegância dos abençoados pela capacidade de ler o outro, por meio de oráculos, de conduzir o outro pelos caminhos tortuosos das suas próprias escolhas, ele me mostra a próxima carta, assim, ao alto, para que tenha certeza de que a vejo. Para uma leiga em tal leitura, o que diz? Coloca-a sobre a mesa, sem virá-la, seus olhos não a seguem, encaram os meus. E com um sorriso desprovido de origem, embaralha as cartas, sem ter feito a última interpretação. Sem ter me guiado no derradeiro de quem sou. É interpretação para um outro dia.

Oferece-me chá de camomila, ou café fresco, ou uma boa dose de tequila, pão de queijo pra ruminar. É quarta-feira, eu adoro quartas, anuncio, enquanto bebo meu chá, sentada ao lado dele, na varanda de sua casa. Durante a contemplação do cenário – rua, casas, sol, céu, pessoas... – falamos sobre gosto: eu pela chuva, pelo dia cinza, pelo inverno. Ele pelas cartas do tarô, pelo incenso de mirra, pelo universo em mutação. E por mais diferentes que sejamos, por mais distantes que estejam as nossas aspirações, o universo nos interpreta como compatíveis para tal momento. E assim eu compreendo a carta não interpretada, a jogada interrompida. É que há dias em que o que realmente precisamos é de uma boa companhia e chá de camomila.

Imagem: sxc.hu




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