quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ÀS VEZES... >> Carla Dias >>


Vendo os dias passarem, feito criança com cara encostada no vidro da janela do ônibus, cantando uma canção inventada, que fala a respeito de como elas dançam sobre nuvens e se dependuram em uma corda formada por gotas de chuva. Cantando uma canção inventada para um público formado por transeuntes, dos quais às vezes enxerga apenas o vulto. Nos quais às vezes se reconhece.

Dias em que a imaginação age feito antisséptico sobre mágoas em carne viva, fazendo as dolências se tornarem apenas o que já deveriam ser: passageiras.

Sentindo os dias passarem, imaginando formas plausíveis de torná-los amparo, desnutrindo-os da capacidade de arrefecer sonho que, hora sim, hora não, rouba-nos o fôlego. E donos plenos da nossa respiração, os tais desatam os nós da nossas gargantas, sopram delírios nas nossas cabeças. Delírios estes que agem como relaxante muscular para esse nosso coração sempre apressado, estressado, batendo além da velocidade máxima, em busca destemida pelo momento de bater, mas não em falso. Para que tudo se enlanguesça de um jeito bonito, o alívio capacitando verdades a viverem em paz dentro de nós, ainda que despolidas, vestidas inadequadamente, antiaderentes.

Dias ruidosamente descuidados, induzindo-nos aos tropeços. Às vezes, os tropeços são extremamente delicados, levando-nos a cairmos nos braços de outro, e de maneira bem-vinda, em forma de abraço. Às vezes, entorta a nossa alma e nos lança aos abismos. Durante a queda: alma exposta, medos por um fio, um grito engolido com um gole de silêncio imposto.

Feito criança com a cara encostada no vidro da janela do ônibus, observando os garis varrerem as calçadas, e pensando que não há gesto mais dedicado e afetuoso que aquele. Que quando crescer, ela fará questão de ir até lá, a rua onde nasceu essa certeza de que no mundo há quem cuide, e a varrerá, abrindo alas para os olhares de crianças que passam de ônibus pelo seu corpo concreto. E a criança pensa que, certamente, irá chorar nesse dia. Porque todo mundo chora no dia em que realiza um grande sonho.

Vendo esses dias passarem, feito aquela criança, a imaginação de uma bondade sem fim ao enxergar o mundo, nós, adultos e cansados das horas gastas nos ônibus, no antes e depois do trabalho, agarramos a imaginação. E adormecemos, em nossas camas, embalados por uma canção inventada, dando braçadas em um mar de nuvens, saindo de abismos por meio de cordas-gotas.

Às vezes imaginando levezas.

Às vezes imaginando fugas.


Imagem: sxc.hu

carladias.com



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3 comentários:

Adriel Duarte disse...

Muito me agrada seus textos. E sempre que posso trago no meu programa de rádio comunitária algum deles. É uma forma de multiplicar sua mensagem que muito me cativa e me transforma a cada vez que os leio.
Muito feliz por esse site, mas ainda por suas obras.
Parabéns!

Carla Dias disse...


Adriel... Muito obrigada pelas suas palavras. Fico muito contente em saber que meus textos participam do seu programa de rádio! Obrigada pela gentileza. Abraço!

Zoraya disse...

Carla, seu lirismo está casa vez mais doce. É um alívio te ler nessa vida conturbada, como se fosse um oásis.