quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PORTA DA ESPERANÇA >> Carla Dias >>

Apesar de a minha memória ser seletiva, e nem sempre colaborar comigo, lembro-me claramente de quando minha avó, a Dona Anita, na época em que comecei a estudar música, costumava dizer, com toda seriedade, que iria escrever para a Porta da Esperança.

Você se lembra da Porta da Esperança?

Minha avó amava esse quadro do Programa Silvio Santos. Na época, ela morava conosco, sendo assim, todos assistíamos ao quadro. E nem era a coisa mais difícil do mundo, porque ver pessoas recebendo algo do qual precisavam, mas não podiam custear, ou apenas tendo seus desejos realizados era bem animador, apesar do merchandising de programa de auditório, que me parecia irritante já na infância.

Eu e minhas irmãs ficávamos inventando o que ganharíamos (até parece que não queríamos mesmo ganhar!), como se fôssemos as escolhidas da vez. E sim, às vezes dizíamos “Vamos abrir as portas da esperança”, junto com o Silvio Santos, em coro.

Claro que me incomodava profundamente não entender o motivo de ele dizer “vamos abrir as portas da esperança” se o programa se chamava Porta da Esperança. Mas ok.

A verdade é que minha avó me botava o maior medo. Já pensou eu ter de ir ao programa do Silvio Santos, algo que eu realmente não queria, e esperar que uma porta se abrisse e que lá estivesse um kit de bateria? E se ele me pedisse para tocar, que eu estava apenas começando e era tão, mas tão tímida, que acabaria pagando o maior mico. Pior! E se a porta se abrisse e tivesse nada lá?

Durante anos, minha avó me cutucou com essa história. Às vezes, eu achava mesmo que ela tinha escalado uma das minhas irmãs, das minhas tias ou a minha mãe para escrever uma carta bem chorosa para a produção do programa. Eu ficava imaginando a cara do produtor lendo as palavras de uma avó escolada na linguagem Porta da Esperança, pedindo que atendesse a netinha dela, tão dedicada a estudar bateria que não parava de batucar nas irmãs e no irmão. Em determinado momento, acho que minha avó percebeu que eu teria um colapso nervoso se tivesse de comparecer ao programa, transformando o real desejo dela em uma brincadeira entre nós, do tipo “é melhor você fazer um almoço bem gostoso ou vou escrever pra Porta da Esperança”.  E sempre funcionava, porque acabávamos caindo na gargalhada.

Minha avó era uma mulher a se desvendar. Ela teve uma vida sofrida e um senso de humor que não era fofo, como imaginamos para as avós, mas era muito mais legal. Ainda assim, vivia pregando peças e fazendo cócegas nos netos. Como a televisão fazia parte da rotina dela, em determinado momento, depois de um par de anos estudando bateria, ela decidiu que já estava na hora de eu aparecer na televisão, porque era o que acontecia aos artistas. Seguiram-se assim alguns outros anos com ela ameaçando mandar cartas para uma série de programas que descobriam novos talentos. Mais medo de que ela o fizesse, misturado às muitas gargalhadas que dávamos ao imaginar a mim na televisão, carinha lavada, escutando lerem a carta da lindeza da minha avó.

Ser baterista já havia se tornado outra coisa na minha vida.  Depois do lançamento do meu primeiro livro, o Azul, eu fui entrevistada pela Cristiane Neder para um quadro sobre livros do programa Viva Show, da CNT/Gazeta. Enfim, eu pude dizer a minha avó que, finalmente, eu havia aparecido na televisão.

Abrir a porta da esperança é meio isso, também. Alguém que lhe cutuca porque acredita que você merece determinada coisa, mantendo a vista da janela promissora. Na verdade, para mim já estava de bom tamanho saber que eu merecia uma avó como a Dona Anita, com quem dei boas gargalhadas nessa vida, só porque ela encanou que eu merecia que a porta da esperança se abrisse para mim.

Minha avó foi uma mulher e tanto. Para ela, escrevi um poema sobre as lembranças infantes, construídas à base de um bom cuidar, perfume de feijão sendo cozido no forno à lenha, do café fresco, das muitas novelas, do Zé Bettio e da Ave-Maria.



conversa entre menina e mulheres
para minha avó, anita

antes de a ave-maria
sair do rádio am
o perfume do feijão sendo cozido
invade a sala
onde assisto
a emília deixar sem graça
quem não sabe sorrir
quem nunca quis ter um tantinho
de pó de pirlimpimpim
minha avó
fogão à lenha
ela cozinha o jantar
ela reza tão baixinho mas eu escuto
sempre escuto o que ela não quer contar
tenho acesso ao seu coração partido
à religiosidade dos seus pedidos de proteção
àqueles que aprendeu a amar
ave-maria cheia de graça
eu que a chamo para dançar
ao lado das garças que brincam entre elas
no sítio imaginário
dos prédios em construção
que invadem o céu
e abafam a beleza da lua
ave-maria cheia de graça
eu a convido à minha casa
para jantar feijão e reza
e me contar sobre os milagres engavetados
benzer a água
exorcizar a água do pecado
dar de beber a minha avó
o bálsamo
que ela busca nas preces
eu lhe emprestarei um dos quartos
e você pode ficar ave-maria
vou chamar você para uma conversa
de menina injuriada com a tristeza
que vê no olhar de quem a conforta
nos finais de tarde da infância
e a ensina a ter piedade
essa menina que já sente falta
sem saber do quê
que se comove com quem não sabe ver beleza nos quintais
e não corre por eles
alimentando a imaginação de deuses
e anjos
e flertando com árvores carregadas de frutos
bendito é o fruto do vosso ventre
e bendita é a paz
dona maria
ave e anita
que a gente sente
um pouco antes de o sonho acabar
quando ainda há uma réstia de esperança
de não deixar para trás a lembrança
como se ela fosse filme
guardado para ser assistido mais tarde
e minha avó deixa que eu experimente
do feijão e do sorriso dela
não me lembro dos seus olhos
mas não esqueço da companhia
dona ave-maria
emília e anita me ensinaram
a cortejar a felicidade
e hoje
mulher nem sempre adulta
filha da pungente saudade
enamoro a magia da poesia
crio minhas próprias fantasias
mas sei quem existiu feito benção
na vida de menina que nasceu pronta
para se jogar com intensidade às redenções
benditas são entre as mulheres
emília
ave-maria
anita

carladias.com



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2 comentários:

Tina Bau Couto disse...

Lindo poetar!
Lindo, lindo, lindo!
Sentimentos latentes :)

Meu avô também amava o Programa porta da esperança e Os trapalhões. Assisti muito!

* Sorri e chorei com seus escritos e se vc me permitir publicarei retalhos deles por lá pelo blog, com o devido crédito.
No aguardo de seu feedback: tinabaucouto@gmail.com


Um dia musical e saudoso pra vc, com gosto de feijão fresquinho e carinho de vó!

Carla Dias disse...

Tina, super obrigada!
Vou lhe escrever por e-mail.
Beijo.