sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O ESTRATAGEMA - PARTE II >> Zoraya Cesar

Síntese da Parte I - Lucio mata a ex-mulher, que o estava atormentando e tentando perturbar seu novo casamento, e  que, não menos importante, sabia de todas as falcatruas que ele perpetrava na empresa. Para ler a íntegra de O Estratagema, parte I, clique aqui

Lúcio saiu, e, verdade seja dita, um pouco nervoso. Era a primeira vez que matava alguém. E já que a verdade é para ser dita, vamos esclarecer que seu nervosismo era antes excitação que propriamente arrependimento. Afinal, pensava, aquela louca estava infernizando sua vida. Agora, quem estava no inferno era ela, concluiu, rindo. 

Somente ao chegar à segurança de sua garagem Lucio percebeu a dor no estômago, os olhos esbugalhados e o suor que encharcava sua camisa, apesar do ar refrigerado ligado ao máximo. E se o tivessem visto? E se Violeta deixara alguma carta incriminando-o? E se ela falou a alguém sobre o encontro? E se ele não tivesse álibi? Ele respirou fundo e tratou de tirar a fita adesiva que adulterava a placa do carro. Decidiu que nada contaria à doce Cristiny, para não envolvê-la nessa coisa tão sórdida. 

Algum tempo se passou e ele voltou a se sentir no paraíso. Diferentemente de Adão, no entanto, Lucio foi sendo expulso do Eden aos poucos. Primeiro, ao ler, num pé de página de um jornal de R$0,50, que a polícia havia encontrado o corpo de uma mulher que, pela descrição, ele sabia ser o de Violeta. Depois, ao receber um email cuja mensagem dizia: “Oi Querido, tudo bem? Não se esqueça de mim. Violeta”. Muitos outros se seguiram a esse, sem que ninguém descobrisse como ou de onde vieram. 

Quando um investigador bateu à porta de sua casa, informando sobre a morte da ex-mulher e fazendo perguntas embaraçosas, Lucio sentiu-se às margens do rio Estige. Resolveu contar a verdade ao Dr. Miltinho, seu advogado, que lhe aconselhou a não revelar à polícia sobre os emails post mortem, quanto menos eles soubessem, melhor. Ele iria contratar o hacker para apagar quaisquer vestígios de comunicação com Violeta, estivesse ela morta ou não. Aconselhou-o também a revelar tudo para Cristiny, e esta - como ele esperava - disse que seria seu álibi. O amor é lindo. 

Nada encontrado que ligasse Lucio à misteriosa morte da ex-mulher, a polícia começou a afrouxar o cerco. E, nessa época, alguém posta no you tube o vídeo em que ele aparece - sem sombra de dúvidas ou de montagens - sufocando Violeta com o travesseiro. 

Lucio foi preso, lógico, e levado a júri popular. Dr. Miltinho não conseguiu provar que seu cliente agira sob o efeito de forte emoção, pois a morta estava ameaçando a paz de seu lar – todos os indícios haviam sido apagados pelo hacker, menos a troca de emails marcando o encontro. Avisados por uma denúncia anônima, a polícia encontrou, no carro de Lucio, a fita adesiva que adulterava a placa ali, no mesmo lugar de onde ele tirara no dia fatídico. As câmeras de segurança das ruas fizeram o resto. A tese de que Lucio atraíra a emocionalmente frágil Violeta para um encontro e a matara, sem chance de defesa, foi bem aceita pela mídia e pelo público. Jamais conseguiram saber quem tinha feito o vídeo, então esqueceram esse detalhe. 

Sua única chance era o álibi a ser fornecido por Cristiny. Ela chegou, linda, loura. Lucio sentiu-se comovido, nenhuma mulher era tão maravilhosa quanto sua Cristiny. Ela sentou-se no banco de testemunhas e, antes de afirmar que Lucio chegara cedo e passaram a noite juntos, o jovem assistente do Dr. Miltinho levanta-se e grita: 

- Não, meu amor, você não vai mentir por esse assassino, ele não te merece. Eu conto tudo. Nós somos amantes e passamos até tarde daquela noite juntos. Ela chegou em casa pouco antes dele. Posso provar. 

E provou, por A mais B, que dizia a verdade. Lucio teve uma crise, foram necessários três guardas para impedi-lo de pular em cima do sujeito. Cristiny chorava, repetia desculpa, meu amor, gritava para o amante que ele não deveria ter feito aquilo, Dr Miltinho pedia calma, calma, o juiz atarantou-se, as pessoas se levantaram, a imprensa fez uma festa de flashes espocantes, formou-se um pandemônio. 

As provas, irrefutáveis; o álibi, inexistente. Lucio foi condenado a alguns anos de prisão num manicômio judiciário, pois não conseguia entender o que acontecera, e isso foi demais para ele. Surtou. 

Esses estabelecimentos estão lotados, e eu não vou deixar que você, Amigo Leitor, tenha o mesmo destino do malfadado Lucio. Contarei a verdade que ele ainda está tentando descobrir – tanto mais que está sempre sob o efeito de sedativos. 

Cupidez e luxúria explicam os acontecimentos. 

Dr. Miltinho, como advogado de Lucio, participava de todas as suas falcatruas empresariais, e via que a má gerência de seu cliente o faria perder muito dinheiro. Tinha de dar um jeito de tirar Lucio de circulação e ficar com os negócios só para si. 

Quando conheceu Cristiny e percebeu o tipo de mulher que ela realmente era, Dr. Miltinho - que sempre tivera uma queda por jovens louras - apaixonou-se perdidamente. E os apaixonados, vocês, sabem, são muito criativos. Convenceu-a (muito facilmente, é verdade) a fazer-se passar por Violeta, mandando presentes, emails, cartas. A recolocar a fita adesiva no carro de Lucio. A telefonar anonimamente à polícia e falar da placa adulterada. A fazer todo o teatro necessário ao plano. 

Violeta confiava muito em Dr. Miltinho, pois fora ele quem convencera Lucio a dar-lhe uma boa pensão, que gastava quase toda em bebidas e remédios – estava a caminho de ficar na sarjeta mesmo. Foi, portanto, fácil ao bom causídico embebedá-la e dopá-la, levando-a para aquele local ermo, esquecido até pelo Diabo, que dirá por Deus. Instalar uma câmera no quarto foi moleza. Se Lucio não tivesse matado Violeta naquele momento, Dr. Miltinho teria pensado em outra coisa para incriminá-lo e ficar com seus negócios e com Cristiny. Pagou um bom dinheiro a seu assistente para se fazer passar pelo amante e, assim, desmontou a última chance de Lucio sair livre. 

Dr. Miltinho e Cristiny estão casados e muito felizes. Ele, apaixonadíssimo por sua alma gêmea, sexy e loura. Ela, planejando como se livrar daquele velho chato e ficar com seu dinheiro... e com seu assistente.

(Enquanto isso, Felipe Espada, veterano investigador policial, relendo o caso, começa a achar estranho que nenhum dos presentes ou cartas mandados por Violeta tivessem carimbo dos correios...)


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9 comentários:

Ana Luzia disse...

Minha querida Zô, como você consegue ficar melhor a cada dia? Maravilhosa!!!!!! Você é fantástica, sua história é incrível, ah, como eu queria saber de Felipe Espada o desdobramento de suas investigações paralelas...

beijo enorme!

Anônimo disse...

Zoraya, vc é uma gênia!
Adorei!!! Vc sabe que sou sua fã, né? Acho que devia fazer uma coletânea e publicar - estaria lá na noite de autógrafos rsrsrs.

Ainda bem que vc é uma pessoa do bem rsrsrs com essa imaginação... ai ai ai kkkkkk.
Parabéns! Excelente!! Bjsss
Cristina (Não Cristiny, hein) Maria (SJRJ)

Mauro disse...

Não foi o final que eu esperava... foi MELHOR!!! Principalmente o último parágrafo! huashuashsaushaua
Mas não dava pra esperar menos de você!

Cecilia Radetic disse...

Zo, você está SURPREENDENTE!
Estava ardendo de curiosidade pra saber o que iria acontecer.
E esse dr. Miltinho ainda vai receber o troco da loura, hahaha

aretuza disse...

super!!!! qd é q o Felipe Espada vai entrar em ação? pode ter a parte 3!!!!

Erica disse...

kkkk me pegou de surpresa com esse final. Mas bem que eu acertei pelo menos o contexto..rs

Zoraya disse...

Oi Pessoal! Pois é, a vida tem dessas surpresas. Talvez Violeta ainda venha a se vingar do Além, e nosso Felipe Espada venha a resolver o caso, em dose dupla, pois - eu nao contei a vocês - essa nao é a primeira confusao em que a Cristiny se envolve...
Beijos a todos e obrigada!

Anônimo disse...

Uau Zo! Uma história puxa outra! Muito bom o final, ou melhor, o início de mais uma crônica. Estou aguardando a Violeta!!! Beijos. Aglae

Anônimo disse...

Pô, os advogados são sempre maus nas suas histórias ... não pode! nós somos ainda piores!!! hahaha