segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

ARAPUCA >> Kika coutinho

Eu morava em um apartamento muito pequeno quando conheci o meu amor. Foi para esse mesmo apartamento que ele se mudou de vez quando nos casamos. Ainda me lembro das flores amarelas que reluziam sobre o sol quando chegamos da nossa lua-de-mel. A cama arrumada, a casa toda enfeitada, repleta de mudas de amor-perfeito que nasciam aos montes nas nossas pequenas janelas. Era primavera naquele meu outono inesquecível.

Nesse mesmo apartamento, eu aprendi a fazer ovo frito, omelete e penne. Errei um milhão de bolos, acertei algumas massas. Nesse apartamento, assistíamos seriados em domingos intermináveis, comendo M&Ms que escapavam entre os lençóis. Lá, brigamos um pouco e rimos muito. Lá, eu chorei sozinha, no chão de um banheiro frio, por um teste de gravidez que dava negativo. Lá, eu chorei sozinha, no chão de um banheiro frio, por um teste de gravidez que, enfim, dava positivo...

Mudamos desse apartamento para a rua de cima e, com um barrigão de sete meses, despedi-me do nosso minipalácio aos prantos, mesmo sabendo que iríamos para uma mansão duas vezes maior que aquele pequenino ninho.

Na casa nova, desisti de cozinhar, perdi os DVDs de seriados e iniciei os infantis. Na grande TV que instalamos na sala, conheci Cocoricó, Galinha Pintadinha e Palavra Cantada.

Nesse apartamento novo, de dois quartos, descobrimos o preço inacreditável das cortinas, dos armários e dos porta-toalhas de banheiro.

Lá, cheguei com um pequeno bebê nos braços, assustada e feliz, angustiada e ansiosa. Andando na sala enorme do nosso pequeno castelo, varei madrugadas cantarolando, balançando um bebê que chorava, ou chorando com um bebê que balançava. Nesse lugar, nessa morada acolhedora, fomos apresentados aos transtornos e delícias de ter empregada e babá.

Era o mesmo bairro de sempre e, enquanto caminhávamos pelas ruas arborizadas, sonhávamos com os próximos apartamentos, sempre vizinhos àquele. “Nunca vamos sair dessa região”, dizíamos com a firmeza tola dos jovens, sem saber que a vida é armadilha, arapuca perfeita dentro de cada "nunca" que soltamos solenemente, como donos do tempo e do destino.

Hoje, sentada no chão de uma sala vazia, em meio a caixas de papelão, papel bolha e fita adesiva, assisto a minha filha brincar com a mudança. Mais uma mudança, agora para o outro lado da cidade. Contrario tudo que sempre preguei. Onde eu estava com a cabeça?, pergunto-me vislumbrando as árvores que despontam na minha varanda. Como foi que decidimos sair daqui? Pergunto para o meu marido, que encaixota os cintos.

Não há resposta, concluo horas depois, já dentro do carro, enxugando uma lagriminha teimosa. Saio do bairro, cheia de saudades e gratidão. Como fui feliz aqui, penso, no longo caminho que divide a casa velha da nova.

Quando chego ao nosso próximo palácio, muitas outras árvores me recebem. É um dia de sol e calor, e eu sorrio agraciada pelo sol da manhã. Acho que vou viver aqui para sempre, falo em silêncio, enquanto abro a enorme janela da sala e vejo uma infinidade de crianças brincando no parquinho. Mal me lembro que a vida é armadilha...

Minha filha acena do térreo, no colo do pai, e eu me encanto com as arapucas preciosas da vida

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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Kika, também sinto dificuldade em deixar uma casa para trás. Boa sorte à família real em seu novo palácio. :)

Fabi/Bia disse...

Kika, amada. É bom ter um lado camaleoa e ver que sim, nos adaptamos às novas realidades e até as brindamos depois. Nem precisa ser muito tempo depois! :o)
O sol e as árvores já deram as boas-vindas à família linda que vcs são. Eu só complemento de maneira simples mesmo com um "welcome to your new home sweet home", já que ali os encontrarei para minhas aulas preciosas com o Bruno, tão querido. Aula esta em que vc palpita, ri junto, participa... e a doce Sofia circula chamando nossa atenção distraindo o aluno, a professora e a nossa convidade especial.
Desejo um universo inacabável de alegrias na nova casa!
Amo vcs!
Bia

Alice Sousa disse...

Kika, que lindo o texto... parabens pela casa nova bjos Alice (Ribeirão)

fernanda disse...

Super te entendo, Kika. Só me mudei uma vez na vida e até hoje sonho com a casa velha. Sinal de que valeu à pena aquela época, né? Boa sorte na casa nova! Muita paz pra vc e sua linda família!
Bjos!

CAFÉ COM ROSAS disse...

Olá,

Sou sincero. Nunca havia visitado o seu blog. Comento apenas para divulgar o meu novo blog. Além de ter alguns textos que venho escrevendo recentemente para o site Horns Up, tem algumas cronicas bem legais.

Um abraço e desculpe-me a sinceridade!
Guilherme Fernandes
http://cafecomrosas.blogspot.com/

Biba Arruda disse...

Kika!!!!
Que delicia de texto e de coração que sente as coisas de forma tao especial. Que maneira bonita de ver a vida...nos mudamos em setembro, dai deste seu novo jardim. E sei bem o que esta dizendo. O cheiro desta mudança nos fez ver as coisas de maneira ainda mais peculiar, e as novidades apresentadas nos fazem sentir que as "arapucas" as quais se refere, sao maravilhosas oportunidades. Bem vinda ao seu novo jardim!!!