quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

PASSARAM POR MIM>> Carla Dias >>

A Laura era uma moça bonita, de cabelos longos e loiros, muito animada. Fazíamos aniversário no mesmo dia, duas escorpianas mais diferentes impossível. Foi a Laura que me deu o primeiro buquê de flores da minha vida, no dia do meu aniversário, quando completei dezesseis anos. Já são aí quase vinte e cinco anos, desde lá, e até hoje sou grata a ela, pois com tal gesto, fui eu que aprendi o quanto é bom oferecer flores... Em buquês ou em jardins.

A primeira vez que entrei em uma livraria, sozinha - enfrentando aquele bichinho interior que me fazia temer pra diacho estar em qualquer lugar público, ter de lidar com a dinâmica desses lugares e falar com desconhecidos -, foi para dar um alô a um amigo do colégio, o Gilson, que trabalhava na Saraiva do calçadão da Oliveira Lima, no centro da minha querida Santo André. Agradeço a ele até hoje, porque dei de frequentar livrarias, desde então, como a maioria das mulheres frequentam os catálogos da Avon.

Uma das amigas que eu trouxe daquela época para a minha vida, e que dela não se ausenta, é a Fátima, a Antonia para tantos outros amigos e conhecidos. Com a Fátima eu passei momentos hilários, como quando a escalei para me ajudar a chegar a um ensaio. Seguimos de trem de Santo André a algum lugar de São Paulo, do qual não me lembro. Carregávamos pratos, pedal, caixa... A Fátima ficou dormindo na recepção do estúdio, porque não aguentou o barulho. E fomos embora certas, certíssimas, na verdade, de que eu não servia para bandas punks.

Assim como a Fátima, a Rita esteve presente na minha vida desde quando nos conhecemos. Aliás, presentes elas sempre estão, porque as quero bem demais, porque a amizade é verdadeira. Com a Rita eu dividi apartamento, durante um ano, bem depois de terminarmos o colégio, aqui em São Paulo. Porém as boas lembranças ainda são dos finais de semana que eu passava na casa dela, quando o Seu Pedro, o pai da Rita, fazia o almoço para nós... O melhor frango que já comi na minha vida!

O Bispo é uma pessoa muito bacana, que acabou frequentando a sala da minha casa, na época em que decidiu fazer aula de bateria e passei de sua colega de colégio para sua professora de bateria. O que mais me encantava nele – e encanta -, o que me fazia sentir uma amizade tão honesta quanto, era o sorriso do Bispo. Sorriso de gente boa e do bem, de quem não passa por cima de ninguém para alcançar o que sequer lhe pertence. Simples assim.

Não me lembro bem em qual ano do colégio isso aconteceu, mas houve um concurso de poesias no Américo Brasiliense, onde eu estudava. De tanto a Fátima insistir que eu deveria participar, eu topei, mas com uma condição: inscrever o poema no nome de outra pessoa, porque correr o risco de ganhar e ter de ler o dito em público, estava completamente fora de cogitação. E o poema – que não faço ideia de onde foi parar – ganhou o concurso. Nem a Fátima quis ler o tal em público, e para isso recorremos a outro companheiro de colégio, o Ivanildo, um aspirante a ator, um artista, desde sempre, que não tinha vergonha de ler poesia, acho que ele nunca teve problemas em dizer sentimento.

Na sala de aula, lembro-me de meia dúzia de meninas suspirando pelo Ivan. A mais achegada a mim era a Renata, uma menina muito tranquila, gente boa, que se negava a andar de ônibus com as janelas fechadas, porque adorava vento na cara. Não sei o que foi feito da Renata, mas ela ainda está presente na minha percepção – que é muito falha – do passado, das boas experiências. Quanto ao Ivan, já escrevi sobre ele aqui... É o guardador do primeiro livro de poemas que escrevi, num caderno, com direito a todos os erros de português da época – os atuais são menos gritantes... eu espero! – e citações de letras de música em inglês, com o inglês made in revista Bizz. Alguém se lembra dessa revista?

Quem me vê hoje, pode não comprar a ideia, mas já fui frequentadora assídua das domingueiras do Aramaçãn e do 1º de Maio, clubes lá da minha terrinha. Dos quinze aos dezoito anos, sofria o diabo quando não tinha dinheiro para a balada recorrente. Ficar em casa, em noite de domingo, era ter de ficar assoprando as chamas do inferno.

Havia esse colega de sala de aula, gente boníssima, lembro-me que ele era de uma delicadeza e atenção com as pessoas que eu até me comovia. Era tímido feito sei lá o que, ou seja, da minha tribo, mas isso não colaborava com o bate-papo. Ainda assim, éramos da mesma turma... Éramos amigos, desse jeito sei lá eu. Acho que o Celso foi o meu primeiro amor platônico estudantil, e falo da época do colégio, não do primário, não do ginásio... Do colégio mesmo!

Lembro-me de uma noite em que o Celso decidiu aparecer em uma dessas domingueiras. Eu adorava dançar, o que me deixava leve, permitia-me sair de cena, passar um tempo comigo mesma, apesar da casa cheia. Mas neste dia, passei a maior parte do tempo sentada, ao lado do Celso. Ambos mudos e calados. Foi algo especial, de um jeito meio torto, mas foi. E quando começou a sessão de músicas lentas, ele foi ao banheiro e eu fui tomar um refrigerante. E a gente se encontrou novamente somente na saída.

Meu segundo amor platônico estudantil foi um moço lá do colégio que tinha uma tatuagem de uma teia de aranha no cotovelo. Eu e metade das meninas da escola arrastávamos um bonde por ele. Adorávamos o ar rebelde dele... Fazer o quê?

Sonhar com ele...

Mas tive um par de sonhos foi com o Celso... Vai entender... Acho que, definitivamente, adoro um amor platônico.

Pessoas passaram pela minha vida quando eu estava no colégio, e muitas delas deixaram suas marcas. Fossem as conversas entre - e algumas vezes durante - as aulas, ou mesmo os finais de semana que um aparecia na casa do outro. Fossem os encontros na casa de esfiha que tinha pertinho da escola, onde nos reuníamos para bater papo, de preferência às sextas, e até mesmo os desfiles de fantasias feitas com papel crepom que compartilhávamos, como criadores e modelos de passarela. O fato é que a maioria dessas pessoas não sabe, mas elas fizeram toda a diferença na minha vida. Não foi apenas bacana conhecê-las, mas uma honra, ainda que eu tenha participado por tão pouco tempo da vida de algumas delas.

Porque também foi muito bom conhecer a Edna, a Janete, a Márcia, a Kátia, minha querida punk, o Maurício, a Márcia, a Viviane... E aquele professor de física que tomou o lugar do moço de cotovelo tatuado, assaltando o coração das moçoilas que adoram um amor platônico.

“Presente, professor!”


carladias.com



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6 comentários:

Marilza disse...

Aiiiii Carla, que delícia de crônica. Memórias de uma vida; gente presente, gente distante, mas que de fato fizeram estória.

Marisa Nascimento disse...

Que lindo, Carla! Você, como poucos, sabe contar e encantar. É claro que sua história, merecidamente, é uma biografia colorida de especiais personagens. Que, cada vez mais, você seja presenteada com pessoas que fazem a diferença na sua vida!
Beijos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, adorei esse seu álbum de palavras. :)

albir disse...

Carla,
a sensação é de que vc conduz o leitor através de canteiros, e ele não se conforma com o ponto final.

Carla Dias disse...

Marilza: As pessoas que passam por nós, ainda que não fiquem por perto, fazem diferença, não é mesmo?

Marisa: Obrigada pela coisa da lindeza : )
E obrigada pelo desejo... Que também você seja presenteada com pessoas que façam diferença na sua biografia.

Eduardo: Obrigada!

Albir: No meu entender, o ponto final é apenas para sinalizar que o próximo parágrafo vai começar.

albir disse...

Tem razão, Carla. Eu quis conotar o desejo do leitor de que o texto nunca acabasse.