quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

MUITO MAIS QUE ISSO >> Fernanda Pinho

Diferentemente da criança que era e da adulta que sou, fui uma adolescente muito introspectiva e tranquila. Posso garantir que, ao menos naquela fase, nunca desapontei meus pais em nada. Mas houve um dia em que eu achei que era a pior filha do mundo. Eu estava na sexta série verde. Na minha escola tinha isso de as turmas terem nomes de cores e, ironicamente, foi uma cor que acabou comigo. Aquele vermelho agressivo manchando com meu boletim.

Na minha cabeça de menina de 13 anos, as piores coisas que podiam acontecer a uma garota era ser ignorada pelo menino da oitava série e perder média. E, quando eu abri aquele maldito boletim, percebi que as duas coisas estavam acontecendo comigo, embora o menino da oitava série tenha se tornado totalmente insignificante diante da minha escandalosa nota vermelha. Fiquei apavorada, minhas pernas bambas, como quem recebe uma notícia de morte. E de certa forma era. Aquele 17 em matemática (a média era 18) estava matando a minha imagem de boa aluna, cultivada com esmero desde os meus dois anos de idade.

Esmaguei o boletim dentro da mochila e voltei para casa, toda sinistra, maquinando como daria essa notícia para minha mãe. Rejeitei o almoço e a rodeei durante horas, como sempre faço quando quero contar algo que considero grave. Tentei iniciar o assunto várias vezes, sem sucesso. Até, claro, ela notar que tinha algo errado e perguntar o que era. Não tive coragem de dizer. De repente, fui acometida por uma mudez parcial que me impedia de falar as palavras “nota”, “vermelha”, “média”, “perdida” e “matemática”. Apenas lhe entreguei o boletim.

Ela pegou, abriu, olhou. Não esboçou nenhuma reação. Comentou sobre o fato de, mais uma vez, eu ter fechado o bimestre em história e me devolveu. “Será que minha mãe ficou daltônica?”, cheguei a cogitar rapidamente para, logo em seguida, me lembrar que daltonismo é raríssimo em mulher. Eu havia perdido média em matemática afinal, não em ciências.

Não teria jeito. Eu teria que FALAR sobre o assunto. “Mãe, você não viu?”. “Viu o quê?”. “Aquiiiilo”. “Fernanda, é impressão minha ou essa aflição toda é por causa dessa nota em matemática?”. “É”. Então ela sorriu e falou com sua espontaneidade característica: “Ah, me poupe. A vida é muito mais que isso”. “Hã?” – murmurei quase decepcionada por não ter levado um sermão. “Relaxa, Fernanda, vai ver televisão. Quando você for adulta, isso não terá feito a menor diferença na sua vida”.

E, óbvio, minha mãe tinha razão. No fim das contas, tudo se resume a analisar a dimensão do problema em relação à grandiosidade que é a sua vida inteira. “A vida é muito mais que isso” acabou virando um mantra que ainda trago comigo e repito sempre que alguma pequeneza aparece para me desviar dos meus reais objetivos. Chefe chato. Cliente irritante. Telefone que não para de tocar. Gente que não atende aos seus telefonemas. Cólica em dia de festa. Conta pra pagar. Fofoca. Escova progressiva que deu errado. Avenidas engarrafadas. Má vontade. Comida ruim. Unha encravada. Fila de banco. Despertador urrando às seis horas. Quilinhos a mais. Relaxa. A vida é muito mais que tudo isso.



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10 comentários:

..DONA DAS BATATAS.. disse...

No primeiro colegial inaugurei meu primeiro 5,5 de média em matemática. O professor me chamou na frente de todo mundo e disse: nossa, que decepção! o que está acontecendo com você? E eu, com todas as letras (já que números não são a minha praia), bradei: não sou uma máquina, sou humana! E ele se calou.

Samara disse...

Olha, desde que vc me falou dessa frase da sua mãe, ela tb virou um mantra para mim. Pura verdade.

Laís disse...

Essa crônica me caiu no momento certo, estou uma pilha por causa de tanta coisa que, depois de ler isso, percebo que esse "tanta coisa" é muito pouco diante do resto. =)

Juliana disse...

Ai ai... quase chorei em "a vida é mais que isso". Adorei a crônica, me fez voltar aos meus tempos de colégio, em que meu pai muito sabiamente sempre me ensinou que "nota não é tudo".
Sei que as palavras dele, sempre ecoaram na minha mente. Até porque, nunca fui "a melhor aluna".
Parabéns pela crônica, me fez migrar correndo para seu blog.
Juliana Bolzan.

Jujú disse...

Amei a forma que sua mãe reagiu. Acho que é esse tipo de mãe que quero ser. Ainda mais se eu tiver a sorte de ter uma filha como vc, amiga!

Às vezes a gente faz muito barulho por nada, e sofre demais por antecipação (né, amiga?)

Mas a vida ensina, e eu ainda preciso aprender muito, mas estou no caminho...

E vc sempre me ajudando!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fernanda, sua mãe só errou em uma coisa: isso fez MUITA diferença na sua vida. E acho que estou precisando adotar esse mantra da sua família. :)

Carla Dias disse...

Lendo a sua crônica, me veio a percepção que de vez em quando fica embaçada pra gente adulta e quase neurótica (presente!): bastam algumas palavras de outro para compreendermos um belo filão da nossa própria vida. Sua mãe foi ótima lhe dizendo aquilo, assim como você foi ótima em tê-la escutado.

albir disse...

Com uma mãe dessas fica fácil se tornar brilhante, né, Fernanda?

Marilza disse...

Fernanda, que gracinha sua mãe! Realmente, a vida é muito mais que uma nota...

fernanda disse...

Muito obrigada, gente! Minha mãe, realmente, é demais! Minha musa inspiradora!
Beijos!!!