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A CASA ALÉM DA ESPERANÇA
>> Eduardo Loureiro Jr.

A esperança é a penúltima que morre. Após seu falecimento, seguimos nós, os vivos, viúvos de tão terna companheira. Levamos os dias sem verde de olhos, de plantas, de mar. Para nós, os últimos a realmente morrer, os dias são cinzas cinzentas de um fogo que já se apagou.

Num desses dias é que chego em casa de minha mãe, coisa que faço a cada três ou quatro meses. Nesses últimos anos, em que tenho morado longe e venho só de visita, tenho prestado mais atenção à sua casa que me recebe por alguns dias.

Em sua casa, há sempre uma novidade. Não uma novidade grande, daquelas que aparecem em revistas de decoração de ambientes, mas pequenas novidades que vou encontrando aos poucos, feito ovinhos de chocolate descobertos na Páscoa.

Desta vez foi um liquidificador, um tampo de mesa e um relógio de parede. O liquidificador não tem luxos, foi ganho num sorteio de quermesse, mas veio em boa hora, porque o antigo já dava sinais de cansaço. O tampo de vidro, hexagonal, foi colocado sobre a mesa redonda, de forma que agora cabem seis pessoas onde antes cabiam quatro. O relógio é pequeno, menos da metade do tamanho do anterior, mas funciona, marca as horas corretamente.

A cada visita, são duas ou três coisas novas que encontro: uma porta corrediça, um chuveiro, um suporte para escovas de dente, um arranjo de flores, um porta-controle-remotos, uma almofada-rede, um box de vidro... coisas úteis que tornam a vida mais confortável e que dão aquela sensação de que tem alguém cuidando dos detalhes.

Minha mãe talvez não saiba — ou talvez saiba e apenas não faz alarde — que assim vai honrando a memória da esperança, que, mesmo morta, é lembrada, nesses pequenos cuidados, da mesma forma que a gente lembra uma bisavó querida, uma Encarnadinha, com a qual só convivemos em nossa infância cheia de sonhos.

Assim minha mãe, religiosa como ela só, vem colocando flores no aparador da sala e no túmulo da minha esperança, vem fazendo missas de sétimo dia e trigésimo dia e milésimo dia pela salvação de minha saudosa senhora.

Minha mãe, que, em sua sabedoria, descobriu que seu filho é ruim de ouvir e seguir conselhos, trocou as palavras pelos consertos. A cada visita, a cada simples novidade, vem, sem alarde, me ensinando que, mesmo sem esperança, ainda é possível tornar a vida mais útil, mais confortável e — como quem não quer nada — até mesmo mais feliz.

Comentários

Eduardo,
um dia você me disse que não tinha muita habilidade em interpretar metáforas, mas se faz gênio na utilização delas. :)
Marilza disse…
Realmente, está tudo ligado: suas metáforas à sua esperança, e aos seus detalhes.
Kr:)s disse…
Que delícia te ler! A.d.o.r.o.
Esta é uma das narrativas mais recheadas de esperança que já vi. Muito bom! Abraços. paz e bem.
Grato, meninas e menino. Assim vocês acabam ressuscitando a esperança. :)
Hertha disse…
Sua escrita faz despertar a nossa sensibilidade. Adorei!!
fernanda disse…
Eu passo o dia escrevendo sobre casas, aquelas das revistas de decoração. Mas nada que se compare a uma deliciosa crônica sobre casa de mãe...
albir disse…
Edu,
mãe quando quer dizer, diz. Se for preciso muda a forma pra preservar o conteúdo. Das palavras e das casas.
Grato, Hertha. Bom tê-la de volta pelo Crônica do Dia.

Fernanda, quem sabe você não escreve, um dia, sobre a casa de sua mãe para as suas revistas?

É, Albir, mãe é bicho insistente. :)
Thayná disse…
Que crônica bonita!
É, bonita não deve ser a palavra, mas é daquelas que traz paz e uma saudade boa! Daquelas carregada de esperança!

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