quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

SOBRE SALTOS >> Carla Dias >>

Um apresentador de um programa de canal a cabo pulou do sétimo andar de seu prédio. Era jovem, talentoso, o típico moço que a sua mãe diria que tem uma vida como a vida deve ser, e de quebra é lindo que só, perfeito para você... Que nunca pensou em saltar nem daquele murinho que separa a sua casa da rua, o que dirá do sétimo andar do seu prédio. Que não é linda que só, está longe do significado da perfeição. Enfim, para a sua mãe, você não é perfeita para ele, mas as mães sempre querem o melhor para suas filhas, certo?

E eu me pergunto: e quando a gente morre, deixamos o corpo físico, mas o que é feito do corpo virtual?

Um amigo me disse que essa vida paralela que levamos através da internet se aproxima, e muito, da ideia que temos do espírito. Podemos nos relacionar com as pessoas sem tocá-las, exercemos influência e somos influenciados, naturalmente, pelas verdades e mentiras contadas nesta terra onde jamais colocaremos os pés.

A noiva do apresentador postou no Twitter, no dia da morte dele, uma declaração dizendo que não sabe viver sem ele, que desejava partir com ele. Através do Twitter dela, tive acesso ao dele, no qual de frases como “Sair do controle é encarar o inesperado”, misturavam-se a comunicados sobre seu trabalho.

O apresentador já se foi, deixando muitas pessoas surpresas e tristes, pessoas que sentirão saudade dele como o moço que apresentava um programa sobre celebridades, e aquelas que o tinham como filho, irmão, amigo...

Quando morremos, o que é feito do nosso ser virtual? Além das mensagens de indignação, desespero, sofreguidão que os conhecidos postam em perfis das redes sociais, o que mais fica? Depois da morte, perdemos o controle dos recados postados nas nossas páginas na internet. Há, abaixo da mensagem “descanse em paz”, um “curtir” de alguém que nunca nos conheceu de perto, de problemas e conquistas, de conhecer nossa visão sobre o que acontece a nossa volta. Como alguém pode curtir um “descanse em paz”? Porque, convenhamos, mesmo enquanto vivos, é um tanto estranho clicar em “curtir” quando a mensagem é “hoje as coisas não andam muito bem”. Porém, também gosto de pensar que as mensagens póstumas sejam como as orações daqueles que desejam a quem partiu uma jornada tranquila.

Acredito que, além do funeral, que serve para se despedir do falecido, rever parentes distantes, discutir com os menos apreciados, devemos também dar adeus aos nossos perfis na internet. O espírito da gente não vai ficar acessível aos 1080 pseudo amigos, ao menos não enquanto não aparecer alguém que se iguale, nas habilidades, com Chico Xavier. Aliás, temo o dia em que serão psicografadas mensagens que devem ser postadas na seção “no que você está pensando agora” do Facebook. Porque imagino que, mudando de plano, indo dessa para outra, meu espírito, que hoje habita meu corpo, e meu outro espírito, que é o meu ser virtual, vão querer aproveitar as redes sociais do seu novo mundo.

As minhas cinzas, alguém que tenha algum afeto por mim, certamente me fará a cortesia de jogá-las ao vento. Mas as minhas senhas do Orkut, Facebook, Myspace e Twitter farão parte do meu espólio. E o herdeiro será aquele que, assim como eu, quer que os perfis de rede sociais descansem em paz, sem direito ao CURTIR.

Que a curtição seja transcendente. E os saltos sejam os radicais, não de prédios... Tenha você 1080 amigos na sua vida virtual, ou apenas um bom amigo na vida real.

carladias.com


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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Carla, você tem o dom: transformou notícia de celebridade em crônica de humanidade. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Obrigada :)

fernanda disse...

O que me impressiona é o interesse que as pessoas têm por esse material virtual de quem já morreu. Tem até comunidade no Orkut só pra reunir perfis de de pessoas falecidas. Pensar sobre essas coisas me assusta...

albir disse...

Carla,
muito interessante essa reflexão do seu amigo sobre vida paralela, internet e espírito. E um texto impecável, como sempre.

Carla Dias disse...

Fernanda... É verdade, também acho meio insano isso de comunidade em rede social só para reunir perfis de pessoas falecidas. Coisa de ser humano mesmo...

Albir... É que eu não consegui escrever da forma como ele falou. Não me lembro bem das palavras dele, mas do sentido.