quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

EU TENHO UM PLANO >> Fernanda Pinho



Acordo no meio da noite, provavelmente despertada por algum sonho ruim. Olho as horas: duas da manhã. Ui, delícia! Ainda posso dormir muito. Fecho os olhos e viro para a parede. Ei, sono, cadê você? Escapuliu, o danado. Nem discuto. Sei que não adianta. Aproveito para pensar. Raramente tenho tempo para pensar durante o dia. E a imaginação vai longe. Direto, sabe-se lá por que, para um presídio feminino. Imagina se eu for presa um dia? Por engano ou não, isso não vem ao caso. Acho que o ideal é me comportar bem. Não arrumar treta com as outras presas. Mas sem ser boazinha demais. Tá na cara que elas não gostam de puxa-saco. Talvez eu possa ser útil em alguma coisa. Será que ainda tem presa que não sabe ler? Se tiver, eu posso ensinar, né? É bom que ajuda a passar o tempo. Aliás, o tempo deve ser o grande inimigo dos que estão presos e a única forma de lutar contra ele seria me mantendo ocupada. Sendo assim, eu seria uma presa totalmente engajada nas tarefas propostas pela penitenciária e, quando não tivesse nada para fazer, eu me dedicaria a escrever. Talvez eu lançasse um livro, as minhas memórias do cárcere. Acho que o povo aqui de fora se interessaria por um livro escrito por uma presa, não? Mas pode ter caneta dentro da prisão? Preciso pesquisar sobre isso... durmo.

Outro dia. Meio do expediente. Num momento de letargia na frente do computador, em que não consigo produzir uma só linha, paro num site de fofocas de celebridades. Meu Deus, como esses paparazzi são infernais. Paracem uma praga. Se bem que a culpa não é deles. É assim que eles ganham dinheiro e, se ganham dinheiro, é porque tem gente que se interessa em consumir o que eles produzem. Os fotografados, aliás, ganham muito mais. Quer saber, não é mais que a obrigação deles saírem sorrindo nas fotos. Toda profissão tem seu ônus e ser reconhecido nas ruas é o ônus da vida artística. Não gosta? Vai ser advogado, nutricionista ou designer de interiores. Se eu fosse uma estrela global - ou hollywoodiana, quem sabe - seria superlegal com os fotógrafos. E com os programas de televisão também. Até com os mais agressivos, porque eu já notei que, quanto mais arredio é um artista, mais agressivos eles ficam. O jeito é entrar na dança. Com os fãs, então, nem se fale. Seria a Miss Simpatia. Aliás, eu andaria com a bolsa cheia de fotos autografadas. Acho que facilitaria um bocado a vida. E quando descobrissem que eu estava de namorado novo, eu assumiria logo. Criar mistério só faz chamar mais atenção.

Fim de tarde. Estou estatelada no sofá verde limão da minha sala, tentando assistir alguma coisa na televisão. A programação está tão agradável que acabo me concentrando em olhar para a porta da sala. Depois de encarar um ponto fixo por alguns minutos, uma cena me ocorre: a cabeça de um cavalo surgindo, do nada, pela porta, anunciando a presença do bicho no corredor da minha casa. Não tenho ligação especial alguma com cavalos. Podia ser um leão, uma onça ou um chimpanzé. Mas eu pensei em cavalo e a imagem me assustou. Bom. Eu precisaria ser fria diante de uma situação dessas. Nada de dar escândalo e apavorar o animal. Afinal de contas, é um cavalo e não uma barata. Evitaria movimentos bruscos e apenas me limitaria a escorregar discretamente até a ponta do sofá, de modo que meu pé encostasse na porta e eu pudesse fechá-la bruscamente, na cara do cavalo. Depois disso, obviamente, eu pularia a janela da sala (ufa! que bom que moro no primeiro andar) e sairia para a rua a procura de alguém que pudesse tirar o bicho lá de dentro. Se eu não achasse ninguém, iria ao Corpo de Bombeiros que tem aqui perto. Eles teriam que dar um jeito.

Conhecendo minha índole e minha total incapacidade de violar leis e burlar regras, sei que é praticamente nula a chance de eu ser presa um dia. Considerando meu talento para as artes, sei que é mais fácil eu ir parar numa cadeia por engano (isola!) do que me tornar uma estrela da Globo ou de Hollywoody. Sabendo que eu moro numa cidade grande e em um prédio (e que, claro, cavalos não costumam usar elevador), sei que é bem improvável que minha casa seja invadida por um. De todo modo, muito me conforta saber que - saindo tudo dos conformes - eu tenho um plano.

Foto: www.sxc.hu


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10 comentários:

Loreyne disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkk ai ferdi, vc e sua imaginação me encantam!!!
Bjuuss

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Senhora Fernanda Pinho, 'teje presa, em fotoflagrante, por estar com um animal no apartamento. :)

Jujú disse...

Hahahahahaha...

Ai amiga, vc é um alento nessa quinta-feira tediosa e chuvosa aqui no escritório!

E fico feliz em saber que não sou só eu que fico consumindo meus pensamentos com coisas totalmente improváveis!hahahah

Amiga, te amo!

hahahaha

Beijos

..DONA DAS BATATAS.. disse...

Pra mim você é a nata do leite fresco tirado de uma vaca sagrada nos Alpes Suiços numa manhã tranqüila.

Marilza disse...

meu Deus! quanta imaginação... hhehehehe...O mais importante é que prendeu, ops, prendeu? a atenção da leitora aqui....rs

Cristiane disse...

Menina, pois eu gosto de imaginar rostos e cenas no ladrilho do banheiro, nas copa alta de uma árvore, na sujeira da parede. E muitas vezes antes de dormir fico imaginando situações como esta que descreveu, completamente irreal, totalmente deliciosa (só é ruim quando imagino assalto, assassinato, estas coisas).

A imaginação é nossa companheira mais certa para qualquer momento ;)

Elisama Martins disse...

hehe
"Afinal de contas, é um cavalo e não uma barata".adorei a colocação apesar de curiosamente eu passar longe de cavalos e esmagar baratas como se fossem formigas^^ mas como você disse é sempre confortante saber que se tem um plano^^ parabéns pela cronica.

fernanda disse...

Muito obrigada pelos comentários, gente. Um dia ainda tomo coragem e escrevo sobre os pensamentos que não tive coragem de colocar nessa crônica...rs
Bjos!!

albir disse...

Fernanda,
são grandes as chances de vc ir parar na telinha ou na telona através de roteiros adaptados, por exemplo, de eu tenho um plano.

Carla Dias disse...

Muito bom! Isso é que é cobrir todas as possibilidades. Adorei, Fernanda!