terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

MOMENTO DE LUCIDEZ >> Clara Braga

Mais cedo ou mais tarde, a gente acaba percebendo que, realmente, mães têm sempre razão. Em alguns momentos, parecem até gurus, sabem da gente melhor do que nós mesmos.

Eu sou um exemplo de pessoa que demorou para entender isso. Talvez eu até já tivesse entendido antes, mas eu queria testar se era verdade, então algumas vezes escutava minha mãe, outras não. Escutava quando me era conveniente; quando não era, eu fingia que queria testar as leis do universo para não ter que assumir ser preguiçosa.

Uma das coisas que minha mãe vivia me mandando fazer era arrumar meu quarto, então eu embolava tudo que estava na cama e jogava dentro do armário, tudo que estava no chão e jogava no outro armário, tudo que eu não sabia onde guardar e jogava no baú.

Sempre que minha mãe me mandava arrumar o quarto direito, eu dizia que o problema era que meu quarto era muito pequeno, não que estava bagunçado. E na verdade ela tinha razão quando dizia que meu quarto não era pequeno, era entulhado.

Algumas pessoas, incluindo minha mãe, dizem que essa coisa de guardar muita tralha não é bom, você tem que se desfazer de algumas coisas para deixar a energia fluir. Parece papo de doido, mas vai que é verdade né... Então, como no segundo dia das minhas férias eu quebrei o dedo do pé e fiquei de molho no quarto sem poder sair para nada, resolvi arrumar meu quarto. Não fingir que arrumei, mas realmente arrumar. Até agora, três dias após o começo da verdadeira arrumação, já tirei seis sacos de lixo e três sacolas de doação, incluindo bolsas, ursinhos de pelúcia, porta-retratos nunca antes usados e esses tipos de coisa. Nos sacos de lixo, tem cadernos de quando eu fazia ensino fundamental e caixas com cartinhas de colegas de escola que eu nem sei mais se existem!

Foi até legal esperar esse tempo para realmente me desfazer dessas coisas, é bom rever e reviver esses momentos, mas realmente minha mãe tinha razão, meu quarto não é pequeno, é entulhado! E quando eu assumi isso a ela, ela apenas me disse: “Que bom que você teve esse momento de lucidez, né?”

Pelo jeito que ela falou, me pareceu que faz tempo que ela espera por esse momento, por isso é melhor eu terminar logo a arrumação, ninguém sabe quanto tempo essa lucidez ainda vai durar.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Vida longa para a sua lucidez, Clara. :) Muito divertida a crônica.

Ana Braga disse...

Sinto muito pelo dedão do pé e dou parabéns aos dedos das mãos. Bom trabalho!