Pular para o conteúdo principal

MOMENTO DE LUCIDEZ >> Clara Braga

Mais cedo ou mais tarde, a gente acaba percebendo que, realmente, mães têm sempre razão. Em alguns momentos, parecem até gurus, sabem da gente melhor do que nós mesmos.

Eu sou um exemplo de pessoa que demorou para entender isso. Talvez eu até já tivesse entendido antes, mas eu queria testar se era verdade, então algumas vezes escutava minha mãe, outras não. Escutava quando me era conveniente; quando não era, eu fingia que queria testar as leis do universo para não ter que assumir ser preguiçosa.

Uma das coisas que minha mãe vivia me mandando fazer era arrumar meu quarto, então eu embolava tudo que estava na cama e jogava dentro do armário, tudo que estava no chão e jogava no outro armário, tudo que eu não sabia onde guardar e jogava no baú.

Sempre que minha mãe me mandava arrumar o quarto direito, eu dizia que o problema era que meu quarto era muito pequeno, não que estava bagunçado. E na verdade ela tinha razão quando dizia que meu quarto não era pequeno, era entulhado.

Algumas pessoas, incluindo minha mãe, dizem que essa coisa de guardar muita tralha não é bom, você tem que se desfazer de algumas coisas para deixar a energia fluir. Parece papo de doido, mas vai que é verdade né... Então, como no segundo dia das minhas férias eu quebrei o dedo do pé e fiquei de molho no quarto sem poder sair para nada, resolvi arrumar meu quarto. Não fingir que arrumei, mas realmente arrumar. Até agora, três dias após o começo da verdadeira arrumação, já tirei seis sacos de lixo e três sacolas de doação, incluindo bolsas, ursinhos de pelúcia, porta-retratos nunca antes usados e esses tipos de coisa. Nos sacos de lixo, tem cadernos de quando eu fazia ensino fundamental e caixas com cartinhas de colegas de escola que eu nem sei mais se existem!

Foi até legal esperar esse tempo para realmente me desfazer dessas coisas, é bom rever e reviver esses momentos, mas realmente minha mãe tinha razão, meu quarto não é pequeno, é entulhado! E quando eu assumi isso a ela, ela apenas me disse: “Que bom que você teve esse momento de lucidez, né?”

Pelo jeito que ela falou, me pareceu que faz tempo que ela espera por esse momento, por isso é melhor eu terminar logo a arrumação, ninguém sabe quanto tempo essa lucidez ainda vai durar.

Comentários

Vida longa para a sua lucidez, Clara. :) Muito divertida a crônica.
Ana Braga disse…
Sinto muito pelo dedão do pé e dou parabéns aos dedos das mãos. Bom trabalho!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …