sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A PRIMAVERA DOS CADÁVERES
>> Leonardo Marona

“Estar mortalmente doente é não poder morrer”
(E. M. Cioran)



O embate cresce na carne por dentro das unhas, longe da filosofia. É claro que caímos de duras quedas, e os holofotes não são mais os mesmos: desbotam a cor. A vontade de viver é diariamente compensada com presságios de fim de mundo, de fim dos homens. Mas nós permaneceremos, justamente porque foi dura a queda.

A conclusão patética: compartilhamos diariamente nossos neurônios com a terra que, em troca, não nos esclarece nada. Somos, em suma, desprezíveis, com a nossa interioridade revoltada, com nossos órgãos expostos, com nosso aspecto amoroso. Mas somente o que é desprezível pode ser santificado. E só um louco seria um santo. Acreditamos em pragas irreversíveis, carregamos flores entre os dentes. Estamos aqui, estamos em lugar nenhum. Somos o que é enquanto é apenas, e trata de ser pouco.

E não teremos empregos, ou teremos qualquer emprego: e não será por falta de habilidade prática, bem mais será porque a ocupação profunda (e ao mesmo tempo intangível) de nossos dias nada terá que ver com a progressão de um falso estado de conforto de uma profissão decente, passível de carreira e méritos. E isso poderia ser grandioso, talvez o seja para alguns ingênuos (e que sorte a deles!), mas para nós é a confirmação tácita de uma patologia corrosível, do não-fazer devido à dúvida sobre a existência, quando giramos a seta das ações para um questionamento diverso de tudo: estou fazendo isso para chegar aonde? E o clichê do não-lugar se estabelece como um fardo, então nos escondemos em quartos escuros e compensamos nossa terrível situação de demência motivacional com divertimentos e rezas, e então nos tornamos bêbados ou santos, ou os dois. Porque o que está oculto: é isso que nos amedronta; e quão ridícula pode ser uma existência sem asas enormes, da qual não colhemos senão as memórias sensíveis de fragmentos incoerentes, e não sabemos, a cada passo, se devemos dar o próximo, porque os passos contradizem-se com seu próprio mérito: não nos levam a lugar nenhum, e não seriam necessários, mas pensamos nisso com asco. E como a completude ilimitada da infância se tornou uma caixa de remorso dentro do esquecimento, atrasamos essa infância o quanto pudermos, e nos tornamos infantes terríveis, que são os adultos de coração frágil aprisionados no espanto, porque sabem que só há felicidade no espanto, e os adultos auto-afirmados são pessoas que já não se espantam com nada.

A angústia – que fica mais poética e, portanto, falsa como o dasein de Heidegger – é saber que não demos nem meio passo a frente. Quer reconheçamos as nossas responsabilidades como ativos no planeta segurando a batata quente de fazer a função de deus, quer contemplemos novos paradigmas andando de casa até a cafeteria. O grande sarcasmo da existência humana: seja lá o que nos criou, não é responsável por nós. Portanto, nascemos com essa fissura, esse espaço de difícil preenchimento que é o espaço entre existir e ser.

Pensando em para frente e para trás, andamos milênios para os lados. Pusemos abaixo os impérios e as crendices, e para o sangue gasto inutilmente demos o nome de justiça. Duro é saber que a justiça real precede os homens, que a um terremoto fulminante não se pode convencer com idéias. Pusemos no chão as paredes mais sólidas, as paredes que nos impediam de pronunciar nossos próprios nomes. Mas agora que temos nomes, não sabemos pronunciá-los. Mais difícil seria admitir a comicidade dos atos monstruosos, a forma como a calamidade que nos cala mais fundo faz rir forças externas a nós, no sentido de que somos marionetes manuseadas por matemáticas funestas – e estão aí muitos exemplos dos mais bizarros para acreditar nisso mais do que em qualquer outra coisa. E depois de derrubarmos tanto, por tanto tempo, o que faltará ser derrubado além de nós mesmos, inchados e esterilizados com nossas filosofias? Na ânsia de legitimar uma luta impossível, entramos num picadeiro com algumas cartas na manga.

Da Síndrome da Fonte da Juventude ou Uma Leitura Imprudente de Bergson:

O tempo é a nossa sereia. Somos apenas capazes de acreditar naquilo que o tempo, através da nossa percepção, não atinge: dinheiro, um diploma, um retrato – essas coisas demoram anos e continuam imutáveis, ou melhor, são voláteis, expandem-se, mas sempre retornam a um certo estado comum. Daí o drama humano: com honestidade, teríamos que admitir que não acreditamos uns nos outros, independentemente de qualquer boa vontade, simplesmente porque mudamos com o tempo, porque, ao contrário das coisas nas quais acreditamos mais profundamente, somos corrompidos pelo tempo, nos absorvemos dele até nos tornarmos o próprio tempo, num movimento crescente e irreversível. O tempo é a sereia, o agiota. E fomos adestrados para nos mantermos distantes de sereias e de agiotas. Assim nos ensinaram nossos pais e assim ensinaremos nossos filhos. Uma farsa do princípio ao fim. Ao menos, uma farsa toda nossa. Porque somos a memória aleatoriamente acumulada do que seremos.


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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

DESNAMORAMENTO >> Carla Dias >>

Comentando uma notícia, minha sobrinha de 10 anos soltou um 'desnamoramento', ao invés do desmoronamento sobre o qual queria falar. Passou o dia e aqui estou, escrevendo a crônica de hoje com essa palavra bagunçando meu raciocínio.

Eu desnamoraria uma série de coisinhas, se fosse possível, mas não me refiro a arrependimento. Desnamorar requer apenas deixar de desejar certas coisas... ou pessoas. Ao menos é como penso o sentido dessa palavra que caiu no meu dia.

Com toda certeza, eu desnamoraria a complexidade que anda de viés na minha rotina. Adoraria um pouco de leveza nos afazeres cotidianos, sem que, antes de responder sim ou não, minha cabeça não descambasse às reflexões mais profundas. Que fosse mais agradável a compreensão de que, às vezes, não há como ser imparcial, agradável, submisso ao desejo de estar bem com quem amamos e respeitamos. Às vezes é preciso desnamorar as certezas.

Mais um ano chegando ao fim. Há algum tempo deixei de fazer listas de desejos por conta da virada do ano. Hoje as faço quando preciso clarear o pensamento, colocar os desejos em ordem. Desejar é engrenagem necessária para o dia seguinte... A hora mais tarde... O próximo capítulo... O desejo pelo prazer e aquele outro, apenas pela benquerença, quando o desejo é da gente, mas os frutos dele são para o outro.

Neste ano, quase fim deste, eu farei uma lista de desnamoramento, buscando, no singelo engano na pronúncia de uma menina de 10 anos, suavizar a vida que é minha há tanto tempo, mas que às vezes parece se soltar de mim, permitindo-me apenas observá-la de longe.

E você? A quem (o que) desnamoraria?

E lembre-se: um ano novo não é sinônimo de vida nova, mas apenas nos dá fôlego para olharmos o ontem com o frescor que ele merece. Tudo para que, neste novo ciclo que se inicia, possamos tratar a nós e aos nossos desejos e desnamoramentos com mais coragem... Um olhar novo sobre uma vida em construção.

Um bom novo ano para todos vocês.


Imagem: Unprofund >> www.unprofund.com

carladias.com

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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

PARA QUEM NUNCA VAI PASSAR >> Clara Braga

É impossível lembrar de todas as pessoas que passaram por nós nessa vida. Estamos constantemente esbarrando em pessoas novas, em novas situações e é normal não lembrar de todo mundo. Lembramos bem vagamente de muitos, com detalhes de alguns e perfeitamente de quase ninguém. E o contrário também é válido, muitos lembram de nós vagamente, alguns com detalhes e poucos lembram de nós como realmente somos.

Isso não significa que as pessoas que não lembramos ou que não lembram de nós não foram importantes, significa apenas que as pessoas seguem caminhos diferentes e acabam se afastando, e como todos estão cansados de saber, não é qualquer tipo de relacionamento que aguenta uma certa distância, mesmo ela não sendo física.

O bom é lembrar que para compensar essas pessoas que passaram existem as pessoas que nunca vão passar. Essas são as que estarão do nosso lado sempre que precisarmos, nos apoiando tanto em momentos maravilhosos quanto em momentos de dificuldade. Realmente é mais difícil encontrar pessoas que sejam assim, elas estão em nossas vidas em número reduzido, mas são tão verdadeiras que a quantidade não importa, é mais ou menos como o ditado: “O que importa é qualidade e não quantidade.”

Estou falando isso tudo pois ontem foi aniversário de uma dessas pessoas que nunca vão passar, sei que vai estar na minha vida sempre e então, para retribuir, quero deixar aqui meus parabéns e muitas felicidades para uma das pessoas mais importantes na minha vida, meu irmão.

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

OS FILHOS DA ROSA >> Albir José Inácio da Silva

Não foi inspiração natalina porque ela já fala disso há algum tempo. Claro que havia opções: novos títulos acadêmicos, viagens, cursos de idioma, trabalho voluntário e outras coisas que sempre planejou. Coisas que ficaram em segundo plano porque ela resolveu “adquirir” dois meninos, de dez e onze anos, num Abrigo da Baixada Fluminense.

Em mensagem recente, Rosa me disse para não ficar estupefato, que depois me acostumaria com a ideia. Na verdade a minha estupefação não é real. É pura encenação. Confundi de propósito o dia em que as crianças sairiam do Abrigo, para as festas de fim de ano em sua casa, com o onze de setembro. Quis simular uma surpresa que não sentia, nem sentem aqueles que a conhecem. Mas não quero falar de Rosa, que ela não gosta. Quero falar dos meninos.

Eles não sabem ler. Uma avaliação, que ela já providenciou na Secretaria de Educação do Rio, mostra que eles cursarão a primeira série. Rosa não é inocente nessa matéria, tem formação em educação, que valoriza tanto, e sabe que vai ter trabalho com os bambinos. Seus filhos já cresceram, estudaram, saíram de casa e não dão mais dor de cabeça como crianças. Pelo menos não mais como crianças. Não que como adultos deem dor de cabeça, mas é que continuam filhos. Mas não quero falar da vida dela, que ela não gosta.

Dos adotandos não sei muita coisa. Talvez nem ela. Talvez nem eles. Mas as histórias deles todos conhecemos mesmo sem conhecê-los. São histórias sempre muito parecidas, com variações que nunca são para melhor. Não têm família, por isso estão num abrigo, por isso serão adotados. Ela sabe em que está se metendo porque também é psicóloga e trabalha com abrigos, crianças e adolescentes abandonados e em conflito com a lei. Não é uma dondoquinha que visita um Abrigo, e se encanta com os olhos lindos de uma criança, como quem escolhe um bichinho de estimação. Rosa sabe o que vai fazer. Mas eu não posso falar de Rosa, que ela não quer.

Os amigos talvez se preocupem porque dois pré-adolescentes, saídos de um abrigo, são muito eficientes para espantar namorados. Mas acho que eventuais espantados não seriam sequer admitidos à candidatura. A questão seria com aqueles que passarem pelo teste dos meninos. Periga se transformarem de fãs em devotos, o que também os deixa imprestáveis para fins de namoro. Mas Rosa não ia gostar que ficássemos aqui elucubrando sobre tais coisas.

Rosa passa serenidade, tem riso fácil e a veemência política de uma adolescente cara-pintada. Carrega bebês e empunha bandeiras com a mesma determinação. Agora quer repetir a maternidade e ninguém, se quisesse, conseguiria dissuadi-la. Tenho uma teoria, que reconheço não muito científica: tanto amor não cabe no metro e meio de Rosa, e transborda sob a forma de adoção.

Ainda bem que vocês não a conhecem, e fica mantido o sigilo. De qualquer forma, ela vai dizer que não é nada demais; que é só uma adoção; que muita gente adota crianças; que é uma coisa simples. E tem razão. Mas esta também é uma crônica simples, sobre coisas simples e pessoas comuns. Como a Rosa.

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domingo, 26 de dezembro de 2010

EX-DESCONHECIDOS >> Eduardo Loureiro Jr.

A amizade é feito uma esquina de clube de esquina: não parece haver nada especial naquele simples encontro de duas ruas, mas dali surgem palavras, sorrisos, abraços e canções que ficarão guardados na lembrança, preservados no tempo.

Há vários tipos de amigos. Os amigos-irmãos, que bem poderiam ter nascido filhos de nossa própria mãe, com os quais crescemos, brincamos, brigamos, nos reconciliamos, seguimos. Os amigos-colegas, que dividem conosco o tempo de certas atividades de estudo, trabalho ou lazer. Os amigos-cometas, que somem de nossas vidas mas reaparecem de tempos em tempos, sempre com o mesmo brilho, e tamanho é o encanto e a afinidade que parece que estiveram sempre por perto. Os amigos-ocultos, mas não aqueles de festa de Natal, e sim aqueles outros que, principalmente na infância e na adolescência, nos auxiliam sem que nós, em nosso egocentrismo juvenil, percebamos ou reconheçamos imediatamente. Existem muitos tipos de amigos, todos queridíssimos e indispensáveis, mas hoje quero falar de um tipo diferente de amigo, que existe desde sempre, mas que se tornou mais perceptível no tempo das cartas e agora é bem mais comum no tempo da internet: o amigo-desconhecido.

Amigo-desconhecido é aquele que a gente conhece mas não conhece. A gente sabe seu hobby, mas não conhece seu hálito; sabe suas qualidades e defeitos, mas não conhece seu cheiro; sabe seus sonhos, mas não conhece seu corpo. Amigos que a gente conhece em sites, blogs, chats, listas de discussão, mas ainda não conhece na temperatura do abraço. E talvez nunca conheça.

Essa semana, esse Natal, eu recebi o grande presente de conhecer pessoalmente quatro de meus amigos-desconhecidos. É, alegria pouca é bobagem quando a gente passeia por Belos Horizontes.

A Paula, eu conheço há mais tempo, desde 2001, quando ela começou a escrever para o Crônica do Dia. Como, além do interesse por literatura, também temos interesse por música, trocamos muitos e longos e-mails. E cheguei a ouvir sua voz, cantada e falada, algumas vezes. Paula parou de escrever para o Crônica do Dia, mas nosso encontro estava amadurecendo, em parte devido às viagens recentes dela para lançamento de seus livros, uma série de sucesso, Fazendo meu filme, mas mesmo quando ela passou por Brasília, não pude ir pois estava eu mesmo viajando. Vocês podem conferir algumas crônicas da Paula aqui.

O Felipe, eu conheci por indicação de uma leitora. Após ler minha crônica Vozes, que fala do sotaque mineiro, Cristiane me indicou uma outra crônica sobre o mesmo assunto, do Felipe Peixoto Braga Netto, chamada Sotaque mineiro: é ilegal, imoral ou engorda? Foi paixão à primeira leitura e, como estava aberta uma vaguinha no Crônica do Dia, convidei o Felipe para ser cronista fixo. Para aceitar, ele impôs a condição de sair quando desse na telha, sem maiores explicações. Infelizmente, deu na telha foi cedo, mas ficou um saldo de excelentes crônicas do Felipe.

(Preciso dizer que ainda tenho esperança de ter a Paula e o Felipe de volta ao time de escritores do Crônica do Dia.)

A Fernanda é a prova de que o Felipe é gente boa, como todos os Felipes que conheço. Aliás, se algum de vocês conhecer algum Felipe que não presta, por favor não me fale para eu não sair dessa minha doce ilusão felipiana. Pois quando o bom Felipe saiu, indicou o nome da Fernanda, que eu só conhecia de alguns comentários, como leitora, feitos no site. Fui conferir o blog da moça e aceitei a indicação do Felipe. Fernanda aceitou o convite e quem lê as crônicas dela às quintas-feiras sabe que a moça é uma delícia de escritora, e de pessoa, que eu fiz questão de chamar para me auxiliar numa surpresinha que conto para vocês ano que vem.

Acontece que Paula, Felipe e Fernanda são de Minas Gerais. O Felipe, que não nasceu aqui, onde escrevo esta crônica, tanto fez, tanto elogiou Minas Gerais, que já conseguiu o honroso título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte.

Quando vim para a capital de Minas Gerais, no domingo passado, para passar o período natalino com a família de minha esposa, uma mineira, naturalmente, escrevi para meus três amigos desconhecidos propondo um encontro. Claro que eu já estava preparado para uma negativa, pois três pessoas dessa categoria deveriam estar com a agenda lotada, cheios de confraternizações para comparecer. Para minha feliz surpresa, os três atenderam ao chamado e nos encontramos terça-feira num lugar chamado Café com Letras, nome, aliás, bem apropriado ao encontro.

Cheguei primeiro, com minha esposa, e ficamos aguardando uma mesa vagar. Fernanda chegou logo depois. Paula, um pouco mais tarde, junto com a mesa vaga. E Felipe quando já estávamos sentados, conversando e quebrando copos. Quem já passou pela experiência de conhecer pessoalmente alguém com quem já conviveu virtualmente por um tempo razoável, não precisa que eu descreva a minha emoção. E não adianta eu descrever a minha emoção para quem nunca passou pela experiência.

Tudo bem, tudo bem, vou falar... É como ver um filme em 3D, sem aqueles incômodos e ainda ineficientes óculos artificiais. As palavras, o rosto, a voz, que eram apenas arquivos de computador, ganham vida e se transformam numa pessoa. É como se todo o conhecimento prévio fosse uma gestação, quando conhecemos o bebê apenas por sons e imagens de ultrassonografia. A diferença é que o "bebê", o amigo desconhecido já nasce com... bom, não vou revelar a idade de ninguém. O leitor que adivinhe, pela foto, a idade de cada um. Que foi, aliás, o que fizemos nós, de brincadeira, entre tantos assuntos: literatura, música, cinema.

Paula, Fernanda, Felipe, Yanne, Eduardo e Alba

Segundo o relógio, passamos umas três horas conversando. Mas o relógio deve ter bebido demais e perdido a noção do tempo, pois eu juro que não se passaram mais de trinta ou quarenta minutos. O encanto se desfez por volta da meia-noite, e este escritor cinderelo voltou para a casa da sogra ainda sob o efeito onírico do condão de alguma fada-madrinha, alguma amiga-oculta, que proporcionou esse encontro.

O leitor atento há de perguntar: "Mas não eram quatro amigos-desconhecidos?" Sim, inescapável leitor, eram quatro. O quarto, que melhor seria chamar de primeiro, já que o conheci antes, um dia antes, chama-se Mário.

— Que Mário? — pergunta o leitor.

E eu respondo:

— Aquele que eu conheci no dia de seu aniversário.

Meu contato com Mário, via internet, veio quando comecei a me interessar por jogos de tabuleiro, que passei a importar da Alemanha. Mário, que criava seus próprios jogos, e fazia versões artesanais, belíssimas, de jogos existentes, tornou-se um de meus mais frequentes correspondentes. Episódio marcante em nossa amizade foi quando enviei o protótipo de um de seus jogos para participar de um concurso na Alemanha. Preparei todo o material com a maior dedicação, como se o jogo fosse meu, e varei a noite para garantir que o pacote atravessaria o Atlântico a tempo. O tempo passou, deixei um pouco de lado o hobby dos jogos de tabuleiro e praticamente perdi contato com meu amigo-desconhecido. Poucos dias antes de chegar em Belo Horizonte, escrevi para o Mário propondo um encontro. Ele me convidou para uma rodada de jogos na sua casa, na companhia de todo o grupo de jogadores, o Clube do Um. Quando cheguei lá, após um caloroso e animado abraço, o Mário falou que era o dia de seu aniversário, e que eu era o presente. Eu ainda não havia sido um presente, pelo menos não tão descaradamente, e gostei bastante da experiência: como presente, bebi deliciosa água com gás, comi pão de queijo e joguei alguns divertidos jogos de tabuleiro. Aproveitei tão bem o encontro que esqueci até de tirar uma fotografia.

E assim meus amigos mineiros deixaram de ser amigos-desconhecidos e passaram a ser amigos do peito do abraço, do olho da vista, do nariz do cheiro. E eu, que já acho um milagre o aniversariante do Natal renascer a cada ano, participei do milagre não menos impressionante de ver nascer esses bebês já crescidos: Mário, Paula, Felipe e Fernanda.

Grato a vocês, meus amigos, por serem esquina comigo nessas ruas da vida. A gente se encontra na próxima passagem de cometa.

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sábado, 25 de dezembro de 2010

NOITE LUZ [Debora Bottcher]

Na noite mais iluminada do ano, normalmente, as famílias se reúnem, trocam presentes, abraços, fartam-se em guloseimas e alegrias.

Fora a correria peculiar, tumultos em shoppings e supermercados, é a época da renovação: antecipando o futuro, faz-se planos e aumenta a ansiedade sobre os sonhos. Nossos desejos se acentuam — e também as determinações. Com olhos espiando através da janela do tempo, o otimismo abre asas e a crença em coisas boas se instala pelas brechas: há que se ter esperanças!

É também um período em que, mesmo sem querer, a gente repensa acontecimentos e atitudes e, eventualmente, o perdão se faz entre os que estão estremecidos. Há uma aura no ar que convida à harmonia: prevalece o bom senso e tenta-se manter a paz.

Nem sempre é possível. Todos nós já assistimos a natais em que as pessoas, por um lapso exagerado de bebida ou mau humor, derramam sua amargura entre os demais: desenterram 'ossos' e os despejam na mesa. Está quebrado todo o cenário de boas intenções.

Não é novidade também que muita gente se entristece, parecendo percorrer o caminho inverso. Perdem-se em lembranças — geralmente as ruins — ou agarram-se ao que lhes faz falta, enumerando numa imensa lista tudo aquilo a que tinham se proposto e deu errado, acentuando suas sensações de incapacidades; pensam insistentemente em quem partiu — de um jeito ou outro — e já não mais está.

Pessoalmente, lembro do meu pai — com saudade, não com tristeza. Lembrar dele com o segundo sentimento seria contraditório a tudo que vivemos a seu lado, inclusive nos natais: ele adorava as noites de dezembro, quentes e cheias de expectativas. Ele adorava, especialmente, a ceia: a mesa decorada, a toalha colorida, velas vermelhas, a casa cheia, luzes piscando. E muito o que comer e beber... Brindar...

Desejo que na noite de Natal todos tenham erguido suas taças — de vinho, refrigerante, água ou champanhe —, para festejar encontros, celebrar junto aos que estão presente, alegrar-se pelos seus — pelos que estão/estavam com você. Que tenham comemorado vitórias, as muitas conquistas. Desejo que o esquecimento do que pode turvar o olhar tenha sido prioridade na noite-luz.

Que cada um tenha se deixado ser feliz — nada mais. Centralizado a atenção nas pequenas coisas, na simplicidade. Que tenham rido e sorrido — e mais ainda: feito rir e sorrir. Tomara todos tenham se desarmado emocionalmente e chorado de emoção — lágrimas de alívio, de saudade, amor. Que tenham dispensado a dor. Pelo menos na noite dourada, que tenhamos deixado a leveza transbordar...

Que o Natal tenha sido uma noite feliz!

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

UMA CARTELA PARA O DIABO
>> Leonardo Marona

01:30 h

Entrei no ônibus 172 bem na boca da Voluntários da Pátria, muito perturbado. Tinha acabado de assistir à Dama de Xangai pela primeira vez, tinha revisto cenas, mas não conseguia entender por que Elsa, ou Roselinda, induziu Mike a tomar aquelas pílulas todas no tribunal. Foram seus olhos? Queria que fugisse para depois liquidá-lo? Queria que ele mesmo se matasse sozinho? Ele estava desesperado de amor e engoliu? E que diabo de tribunal era aquele? Eu estava dividido entre este tipo de pensamento e três ratazanas, que namoravam dentro de uma construção abandonada, em frente à parada, quando subi.

Logo na roleta, a trocadora, uma morena de cabelos crespos num chumaço a frente da tiara violeta, e com muita pele em volta dos olhos remelentos, dormia placidamente. Atrás de mim vinha um senhor muito magro, com as calças rasgadas no fundilho, segurando as calças com uma das mãos e, com a outra, tentando equilibrar uma enorme caixa de isopor, que invariavelmente era arremessada na minha nuca a cada buraco na pista. “Sim, claro, o marido corno e aleijado mostra que sabe que foi Elsa quem matou Grisby, quando diz e ela: ‘eu não confiaria a ele minha mulher’. Ele é Mike O’Hara, o bode expiatório, primeiro de Grisby e de Elsa, depois só de Elsa...”, e deng-deng-deng, a enorme caixa de isopor se encaixava no meio dos pensamentos. Sacudi a trocadora, que apenas levantou um pouco a cabeça, esfregou a palma da mão de cima a baixo no rosto e voltou a deitar sobre os braços. “Porque quando Grisby matou Broome, pôs tudo a perder... E não era mais um parceiro confiável, segundo Elsa, que teve de encontrar um jeito de apagá-lo imediatamente... O que não seria problema, afinal ela tinha O’Hara na sua ratoeira, o que livraria sua cara...”. Parado em pé na frente da trocadora, olhei pela janela, mas já não vi mais nenhuma ratazana namorando.

Uma mão muito firme e grossa, a palma toda como um calo, me sacudiu pelo ombro, e eu senti perdigotos sendo despejados no meu pescoço, enquanto uma voz velha, falha e nasalada murmurava algo como “como é, filho, não vai andar, cacete?”. Dessa vez sacudi com os dois braços a trocadora, que se levantou assustada num pulo, olhando para todos os lados como se estivesse sonhando com o supervisor da empresa de ônibus, um barrigudo de sobrancelha pontuda e bigode de demônio, dando-lhe um flagrante. Passou seu cartão na tarjeta magnética da roleta e liberou minha entrada. Depois voltou a dormir pesadamente, ignorando o velho maltrapilho que vinha logo atrás de mim com sua caixa de isopor.

Ele já vinha resmungando e comendo a própria bochecha constantemente, mas dessa vez soltou um ganido tão violento para acordar a trocadora, com um murro na bancada de apoio, que ela lhe sentou a mão na cara, assim, “por instinto”, como disse ao velho, mas sem pedir desculpas. Em seguida, o motorista parou o ônibus a fim de desgrudar as unhas do velho do rosto da trocadora que, por sua vez, quase arrancava fora seu dedo mindinho com os dentes. O pobre velho era curvado demais e não conseguia olhar para frente muito bem, de modo que foi arremessado fora do ônibus pelo motorista, um gordo oleoso de mangas dobradas numa camisa encardida azul celeste, bigode largo e desalinhado, cabelos enrolados em volta da calva e um chumaço perdido em cima da testa, que o fazia um pouco mais ridículo do que o padrão, mas de qualquer forma, um troglodita continua sendo um troglodita, por mais ridículo que seja.

Quando jogou o velho para fora do ônibus, o motorista beijou duas vezes um medalhão muito dourado que trazia pendurado no pescoço, arrancou com o ônibus e gritou, olhando para a trocadora pelo retrovisor:

- Nossa Senhora da Aparecida que me perdoe, mas deus sabe que aquilo era um vagabundo bêbado... Um sem dono! Não tive escolha... Lanhou o rosto, sua desgramada? Fica farreando e depois dorme no serviço... Deus vê tudo! Dele não escapa nada...

A trocadora limpava um pouco de sangue que lhe tinha escorrido pelo rosto sem reclamar nem responder aos berros do motorista, enquanto este se atracava com o volante como se tivesse muita fome, sede, sono e cansaço, as quatro únicas sensações que ainda lhe restavam, fora um amor incondicional pelas causas religiosas e uma certa inclinação a acreditar nas pessoas, desde que elas saibam mentir. Ficou rindo da cara da trocadora quando viu que ela tinha novamente tombado de sono. Dessa vez com o queixo caído sobre o peito, o lábio inferior lhe emprestando as feições de um babuíno com prisão de ventre.

O velho ficou no meio-fio juntando as latas de refrigerante e cerveja que haviam se espalhado pelo chão, algumas estouradas, tentando ao mesmo tempo manter as calças no corpo, sem conseguir nem uma coisa nem outra muito bem. Grunhia de dor e resmungava, mas não se distinguia uma coisa da outra. O motorista olhou de lado rapidamente e, vendo que o velho não era exatamente um vagabundo bêbado, mas só um bêbado, não encontrou mais que pudesse fazer senão o sinal da cruz três vezes e um beijo no seu medalhão. Houve um minuto de silêncio. Eu ainda estava com Rita Hayworth e Orson Welles na cabeça, o que me parecia bom enquanto pudesse durar, quando subiu no ônibus uma velhinha muito baixa e barulhenta, de cabelos manchados de cinza e branco espatifados para os lados e com meias altas, daquelas de cor bege, para ativar a circulação das pernas.

- Boa noite, motorista, que deus o guie. O senhor, pela graça divina, conhece o bingo que tem logo mais adiante, à esquerda, no final da Voluntários da Pátria? – perguntou a velha com a cabeça inclinada e um sorriso aberto demais para ser sincero.

- Sim, senhora. Conheço o lugar.

- Pois então, meu jovem. Queira me deixar em frente – disse a velha com o mesmo sorriso, mas dessa vez com os olhos fechados, se acomodando em seguida no banco.

- Sim, claro... Mas a senhora tem o cartão para passar a roleta? – perguntou o motorista.

Imediatamente a expressão da velha se alterou drasticamente, fechando numa carranca doentia, e então ela arregalou os olhos e fulminou o motorista, em seguida a trocadora, depois eu, já que só havia mais eu ali.

- Foi deus que me trouxe até aqui, pecador infeliz! – a velha gritou voltando-se mais uma vez para o motorista, com um dedo apontado para cima. – Ele me tirou a visão e me deu uma perna manca, mas eu sou guiada por ele e ninguém pode impedir a guia de Jesus...

Quando vi os olhos no rosto da velha, me deu a impressão de que a qualquer momento deus pudesse aparecer para dizer qualquer coisa a seu favor, já que a velha era o próprio diabo.

- Deus vai aliviar a alma de vocês se me deixarem onde ele me manda estar... Jesus vai resolver o meu problema... Logo mais, na sua esquerda, motorista... Ali no bingo, por gentileza...

- É Jesus ou é deus afinal? – resmungou o motorista entre beiços, depois de muitos segundos de tsc, tsc, tsc. – Velha maluca, safada...

A trocadora olhou para mim e fez cara de tédio, com a cabeça apoiada na mão. Depois ficou mexendo a boca como se estivesse dizendo bla, bla, bla e virou os olhos o máximo que pôde para cima. Então voltou a dormir.

O motorista, muito irritado, dava um jeito de transbordar sua irritação passando por cima de todos os maiores buracos do asfalto. De vez em vez mirava a velhota – que seguia faceira sem dar muita atenção – e resmungava alguma coisa sobre qualquer santa e qualquer pecado universal, sobre usar o nome de deus em vão quando quase tudo de bom é em vão, que não seria mais tão bondoso como sempre foi, que não valia a pena, e por aí vai.

A velha era a única faceira. Manteve um sorriso monalísico no rosto até que o ônibus chegou perto do bingo e ela se levantou bruscamente, reclamando de um jeito na coluna.

- Eu fico aqui, com a graça de deus – e começou um sinal da cruz – meu pai e também de vocês, pecadores sem destino – depois fez o mesmo movimento da cruz para o motorista, a trocadora e para mim.

O motorista não se segurou. Largou o volante e começou a arrastar a velha pelo braço, para fora do ônibus.

- Sai pra lá de agouro, satanás! – gritou o motorista de cara amarrada. – Tu já fez tua malandragem, velha macumbeira... Agora chispa, vai!

Nesse instante, algo estranho aconteceu. O motorista de repente se petrificou e deu dois passos vagarosos para trás. Certamente estava embasbacado por algum motivo e seus olhos pareciam hipnotizados. A velha levantou as duas mãos acima da cabeça e começou a girar uma por dentro da outra, em círculos, enquanto sussurrava numa língua que parecia latim. O motorista e a trocadora, ao mesmo tempo, levantaram os dois braços esticados na altura dos ombros. Os olhos como dois ovos estalados.

A velha se virou na minha direção, mas sem me olhar. “Shalam, shalam, shalam, shalum, shummm... Shalam, shalam, shalam, shalum, shummm…”, ela dizia sem parar, agora com uma voz grossa e rouca e com os olhos rodando muito rápido. Seus cabelos estavam em pé e seu rosto parecia derretido por ácido. Salivava bastante e não parava de mexer as mãos no ar. Parecia ter mais dentes do que antes, e eles pingavam por debaixo de um sorriso indefinível. Não tenho certeza se vi uma cauda. Chifres certamente não tinha. Acho que senti cheiro de enxofre mas, afinal, estávamos na rua mais imunda de Botafogo. “Por que diabos o diabo viria até aqui como uma velha?”, pensei. “Tudo bem que quisesse ir ao bingo... Imagino o diabo no bingo... Agora, como uma velha... Bom, as velhas vão ao bingo... O diabo vai ao bingo... Será que o diabo é sempre uma velha que vai ao bingo?”. Mas eu via tudo muito mal, primeiro porque havia fumaça, depois porque resolvi fingir que estava dormindo para ver se conseguia tapear o diabo, já que não havia mais dúvidas quanto a isso e dado que já era tarde para comprar mais uma briga com ele.

Sendo assim, a velha seguiu no seu Shalam, shalam, shalam, shalum, shummm, primeiro na direção do motorista, que permanecia de pé com os braços esticados para frente. Então ela se aproximou da cabeça do homem e sugou com força algo pela sua orelha. O gordo se dobrou como um saco de batatas vazio e ficou no chão, feito papel sujo. A velha fez a mesma coisa com a trocadora, mas esta continuou exatamente como estava: já era um saco vazio antes. Então vi o diabo descer do ônibus e entrar no bingo, depois de enfiar uma nota de dez no bolso do terno do vigia noturno. “É um mundo belo e culpado”, lembrei das palavras de Mike O’Hara no filme, quando ele já estava encrencado demais para mentir. Assim como eu.


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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O SILÊNCIO >> Fernanda Pinho


Nem o corpo da Gisele, nem a conta bancária do Eike, nem um amor de cinema. O que desejo a mim e a vocês é que em 2011 tenhamos mais chances de ouvir o silêncio.

Não quero ouvir jornalistas solenes anunciando tragédias naturais. Nem jornalistas infames anunciando o último divórcio do mundo artístico. Não quero ouvir lamentos sobre o que já não se pode mais mudar. Nem reclamações vazias de atitudes sobre o que ainda pode ser mudado. Não quero ouvir fofoca sobre meus conhecidos. Nem conversa de elevador dos meus desconhecidos. Não quero ouvir a opinião de quem não sabe o que diz. Nem de quem acha que sabe demais o que diz. Não quero que me chamem de linda se não estiver disposto a fazer isso por, no mínimo, dez anos. Nem que me chamem de louca quando cansarem de dizer "linda". Não quero ouvir atendente de telemarketing tentando me convencer a adquirir o maior benefício do cartão. Nem ouvir aquela musiquinha insuportável quando eu ligar para o SAC do cartão. Não quero ouvir desculpas esfarrapadas de gente sem coragem. Nem mentira de gente que supõe que eu realmente me abalaria com a verdade. Não quero ouvir cliente desmarcando a reunião. Nem entrevistado aplicando o velho golpe do "não recebi seu e-mail". Não quero ouvir ninguém me dizendo que não vai dar certo. Nem horóscopo me avisando que hoje não é um bom dia. Não quero ouvir música ruim no rádio. Nem discurso falacioso de político na televisão. Não quero ouvir elogios com segundas intenções. Nem insultos, quando faltarem os argumentos. Não quero ouvir ninguém xingando palavrão na rua. Nem ouvir motivos que me levem a proferir meus próprios palavrões.

Choro, só se for de alegria. Riso, só se for de verdade. Que ouçamos apenas o que for bom. Quando não for, o silêncio.

Foto: http://www.sxc.hu/
http://www.blogdaferdi.blogspot.com/

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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

PUXE UMA CADEIRA >> Carla Dias >>

Faça-me companhia, é o que peço. Sou pedinte humilde, meu caro, que não se importa com etiqueta ou rótulos, tampouco com dissabores. Abro a boca e aguardo ser alimentada pela sua história, querendo mais é que o mundo acabe em páginas em branco para eu recomeçá-lo dos alicerces da minha imaginação, numa dança de palavras que se encontram em coreografia inusitada.

Sirva-se de mim, do pecado aos bons costumes, paredes, assoalho, no jardim da nobre casa apelidada redenção. E entre um gole e um toque, peço que estreite laços, que ando faminta por aconchego, e novidades... Assopre-as em meus ouvidos. Invente-as se for preciso, que hoje não me importo. Hoje não.

Disseram-me que, se um dia me sentisse só, bastaria o sentir para que viessem todos: sonhos descabidos e irrealizáveis, afetos martirizados pelas mágoas, amizades interditadas pelo tempo e o espaço impostos, sempre prontos a angariar passado.

Acontece que hoje escolho a sua companhia, celebrando um remate amansado. Então, peço que fique, puxe uma cadeira, sente-se e sinta-se em casa, em um lar que é seu e onde conseguimos nos tornar proprietários de memórias na planta a serem construídas e usufruídas daqui a 24 meses, pagamento parcelado com o maior carinho e sem juros. Depois, podemos enveredar pelas estradas da partilha, das concessões, do embrenhar dedos ousados em indicações de saída mais do que necessária, opção há tanto tempo protelada pela ingênua – porém temida – caminhada rumo à novidade.

A novidade é que, meu caro, ando mais à disposição do que jamais estive. E quero tardes acompanhadas não apenas pelas chuvas de verão, mas também pelo olhar reconhecido, pelo dizer sinceridades, até que haja, entre nós, o mais próximo de uma verdade desinibida.

Neste agora me sinto deixada de lado, ao avesso, e reivindico salubridade, porque aprendi a comer em porções e a beber aos goles a honra de estar viva. E nessa vagareza, nesse andamento diminuto, há desejo de conciliar lonjuras e aproximar sabedoria... De estar acompanhada por companhia, e não pela falta que sinto dela, da saudade intrigada com a ausência.

carladias.com

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

MÃE, POSSO NÃO FALAR COM O PAPAI NOEL?
>> Clara Braga

Então é Natal! Todo mundo montando as árvores, iluminando as casas, quadras e bairros, enfim... enfeitando a cidade. E os shoppings não ficam de fora, todos estão superenfeitados e claro, cada um com seu Papai Noel entregando balinhas para as crianças que vão lá sentar no seu colo.

A fila para sentar no colo do Papai Noel normalmente é grande, as crianças com a lista de brinquedos que vão pedir e as mães com as máquinas fotográficas devidamente preparadas para capturar o momento. Mas e quem não quer sentar no colo do Papai Noel? Sim, por mais estranho que possa parecer, existem crianças que têm medo ou simplesmente não gostam da idéia. E vamos ser realistas, não é difícil encontrar crianças assim.

Andando no shopping outro dia, passei por uma menino que se escondia atrás da mãe, literalmente agarrado na perna dela, enquanto a mãe insistia para que ele fosse até o Papai Noel. Logo me identifiquei com essa criança, pois eu era assim, morria de medo de pessoas fantasiadas de qualquer coisa, gatinho, cachorrinho, turma da mônica, personagens da Disney e, pasmem, Papai Noel! Se chegassem perto de mim eu já começava logo a chorar e é por isso que eu nunca sentei no colo do Papai Noel, nunca ganhei balinha, nunca pedi presente, não tenho nenhuma foto com o bom velhinho e estou muito bem com isso, obrigada. Minha mãe também está bem com essa situação, não ficou triste por não ter uma foto minha com o Noel, pelo contrário, ela fica bem feliz em pensar no tempo que ela não teve que esperar na fila e pode fazer as coisas dela, já que ela não é lá uma grande fã de shoppings.

Por isso mamães, se seus filhos gostam do bom velhinho levem eles ao shopping e tirem muitas fotos deles com o Papai Noel. Agora se você é mãe de uma criança que não gosta e prefere saber logo que na verdade é você quem compra o presente dele e espera ele dormir para por embaixo da árvore, não insista e principalmente não ache estranho, sinta-se orgulhosa, pois isso é sinal de que seus filhos entenderam muito bem aquelas duas frases que os pais adoram falar para os filhos: “Não falem com estranhos e nunca aceitem bala de pessoas que vocês não conhecem”.

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O MICO DO ANO-NOVO >> Kika Coutinho

Todo ano, a mesma coisa. Lá pra outubro começam as ofertas: “Passe o réveillon pulando as sete ondas! Cinco dias por R$4.958,00!”. Ou: “Imperdível, curta seu ano novo na Europa!” Eu paro de ler antes de chegar nos números. Chega a ser ridículo. O hotel que fica vazio o ano todo, se oferecendo via sites de compras coletivas que saltam a todo instante na net, no réveillon, não aceita menos do que um pacote por dez dias. Se conseguir fechar cinco dias, deu sorte. Muita sorte. Claro, isso se não contarmos a muvuca da praia. Pular sete ondas, sim, e pular também sete rosas brancas, um barco com mandinga, doze latinhas de cerveja. “Viraram uma caçamba de lixo aqui?”, pergunta um, tentando escapar de pisar em um caco de vidro, da garrafa de champagne que o vizinho, tão simpático, largou no chão logo após desejar muita saúde e sucesso. Sei, sei... "Segura as crianças, cuidado, tem gente estourando rojão aqui, que irresponsabilidade”, murmura outro, que derrama vinho no vestido branco da namorada. “Opa, tá um bucado cheio aqui hein?. Ô. Isso porque custava milão por dia, baratchynho." Ano que vem vou passar no campo, deve ser muito melhor.
Claro, o campo! Um hotel fazenda é tão aconchegante, piscina, calma, monitores para as crianças, uma delícia. E o preço não é tão exorbitante, se pensarmos que já vem com a ceia. A ceia, que deveria ser a melhor parte, parece até agradável a princípio. Mas é só chegar mais perto para ver que as toalhas brancas das mesas têm uma ou outra mancha. “Bobagem”, você pensa enquanto pega mais um amendoim. Logo entra a banda e, aí, é hora de repensar se foi barato mesmo. O senhor de gravata borboleta que cantarola “Adeus ano velho, feliz ano novo” não vale aquele dinheiro. E, pensando bem, qual é o sentido de rodopiar numa pista de dança ao som de músicas estranhas, com pessoas estranhas – que você nunca viu - enquanto crianças dormem em duas cadeiras emendadas e os velhinhos se acabam no champagne? Não, definitivamente não foi barato.

Uma outra saída é ficar em SP, no Rio, ou onde quer que você viva. Vá curtir o réveillon na praia, ver os fogos da Paulista e volte rezando para que não seja verdade que a gente repete o ano todo as sensações dos primeiros minutos do dia primeiro. Não, por favor, não.

Se você tiver muito dinheiro, pode até ir pra Europa. Ou pros States. Daí passa congelando, em cima de uma ponte qualquer com outras milhares de pessoas bêbadas, que, como você, não veem a hora de estar em baixo das próprias cobertas. E você jura que, ano que vem, vai ser diferente. Não vai pagar mico no ano novo, passar todo encapotado, mãos tremendo de frio, que idiotice. Ano que vem vai fazer alguma coisa bacana, vai ter uma noite excelente, no calor, no quentinho.. Vai. Vai sim. Quem sabe na praia, pulando as sete ondas.

www.embuchada.blogspot.com


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domingo, 19 de dezembro de 2010

A ÁRVORE DA VIDA >> Eduardo Loureiro Jr.

A vida é feito uma árvore de Natal.

Embaixo estão os presentes, os embrulhos de presente, a sequência dos dias, nossos 365 presentes anuais. Cada um com peso, tamanho, formato e cor próprios. Todos presentes, todos dias, mas cada um a seu jeito, pedindo um desembrulhar diferente, oferecendo uma surpresa diversa, servindo para um propósito distinto. Cada um de nós tem o seu presente, misturado com o presente do outro, os presentes dos outros. Cada um recebe segundo seu merecimento, disfarçado de generosidade alheia. Cada um dá o que está podendo, ou querendo. Essa é a base da árvore. Poderíamos mesmo dizer que se trata de suas raízes expostas: os presentes, o presente, nosso dia-a-dia.

Depois temos a árvore propriamente dita. Um tronco que quase não se vê, o rumo da nossa vida, aparentemente oculto entre tantos galhos, bifurcações, afazeres, folhas, papéis, agendas, compromissos, distrações. O tronco da vida é duro, é firme, sustenta nossa própria existência. Mas para que suportemos a missão é preciso os galhos mais leves, as folhas suaves. O verde é da esperança, e também da verdade: algo nos sustenta, algo nos nutre, algo cresce, algo floresce. Na parte inferior, a copa da árvore é ampla, são muitas as possibilidades: podemos tudo em nossa infância e juventude. Com o tempo, a copa vai se estreitando, diminuem as opções, mas diminuem também os desentendimentos: quanto mais subimos na árvore, a posição dos outros se aproxima, mesmo aqueles que estão mais distantes de nós estão, na verdade — na verdura — mais perto. Na estreiteza da copa está a comunhão das sensações, dos sentimentos, dos pensamentos. Quanto mais subimos, mais seguimos juntos, mais nos aproximamos do ponto em que estaremos unidos, em que seremos um só.

Nesse ponto, no topo da árvore, está a estrela. Não a estrela cadente dos sonhos que poderão se realizar, mas a estrela firme da iluminação, do sonho realizado realizando-se eternamente. A estrela que expande o que era o ponto final. A estrela que comprova que no fim do afunilamento não está a aniquilação, mas o brilho próprio, inapagável.

A cada Natal, essas árvores se multiplicam nas casas, nas praças, nas lagoas, nos lembrando do sentido vertical da vida. A cada Natal, sentimos o frescor da vida animar nossa consciência. No dia 6 de janeiro, recolhemos as árvores e estamos sujeitos a esquecer sua imagem, sua mensagem: os presentes diários a desembrulhar, a esperança e a verdade para crescer, a luz a alcançar. Mas a cada ano, em dezembro, a imagem retorna, renasce, a nos orientar, refrescar e mover. Até que a guardemos não apenas em sacos plásticos e caixas de papelão, mas em nossa consciência e em nosso coração, recebendo diariamente seus presentes, crescendo dia após dia, se aproximando com convicção do nosso destino: a luz que vem de dentro e que tem um brilho eterno.

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

PINOS SOLTOS NUMA MÁQUINA DE MOER SENTIMENTO >> Leonardo Marona

Não tenho como falar de mim mesmo, como escritor, o que me é bastante difícil fazer, sem falar da minha geração como um todo, da maneira mais generalizada possível. Acredito que o principal problema da minha geração é que perdemos o sentido de viver para o novo. E o novo perdeu o sentido da sua existência: se tornou uma batida inorgânica num compasso pobre. Nascemos numa época em que tudo já foi feito, tudo já foi absorvido devida e indevidamente por oportunistas e gênios. O que mais vejo por aí são idéias muito velhas maquiadas de novas. Os jovens desaprenderam a gritar, o grito hoje, quando sai, sai torto, rouco, um pigarro. E existem três tipos de jovens: os resignados, que eu prefiro chamar de calmamente desesperados, na maioria suicidas em potencial; os artistas, que preferem muito mais falar sobre sua intensidade e suas rupturas flácidas do que fazer alguma coisa de fato para o mundo (são os maiores umbigos do mundo. Vivem por aí nas rodas de café com seus cachecóis e seus livros debaixo dos braços); e os sufocados, os da corda no pescoço, aqueles que se acumulam de si próprios ao tentarem abraçar o mundo com todo o seu lixo e sua beleza e sua mediocridade, mas que não podem simplesmente se afastar. São espíritos antigos que nasceram em corpos contemporâneos. E são estes últimos os últimos também a serem reconhecidos pelos críticos e órgãos de cultura em geral. Simplesmente porque não se adaptam a regras e tendências. Não vendem, justamente porque ninguém mais sabe o que comprar. Primam por uma liberdade estética e de conteúdo porque sabem que ali, no elástico, está o novo, que é um germe antigo no fim, a possibilidade. Mas são os que morrem de fome também.

Se tivesse que falar por mim mesmo, que escrevo, teria que começar por um paradoxo tremendo: o processo da escrita, o que chamam de “processo criativo”, é pra mim um movimento semelhante ao da golfada de um nenê. Eu me volto totalmente a mim mesmo, esqueço por um tempo tudo que não seja eu, me engrandeço da melhor forma possível com isso, justamente para conseguir me expulsar de mim mesmo e de tudo o mais que seja categórico ou convencional; para me afastar das tendências e das quebras de tendência, que são tendências da mesma forma. Acho que comigo esta fórmula funciona, senão muitas vezes em termos formais e de conteúdo – porque se não temos do que falar não adianta termos a escrita de um Hemingway –, pelo menos no que diz respeito à sinceridade e à emoção. É quando me exponho sem ser eu mesmo. Quando toda a carga cotidiana que me sufoca sai de mim na forma de letras uma depois da outra. São tijolos que ficam durante uma ou duas semanas me esfolando os ombros, para depois se tornarem o meu casebre. Eu tenho que fazer dessa forma, ou então seria apenas mais um apertando botões ou fazendo gordas doações para uma instituição da consciência geral de aceitação própria. Não preciso realmente ser aceito no mundo da forma convencional. Não preciso de nada. Tenho o que comer, onde fazer minhas necessidades, onde dormir, o que beber. Com isso tenho tudo o que mais da metade do mundo não tem. Portanto, como se diferenciar? Como limpar uma camada suja e grossa de conformismo e calmaria? E, vejam bem, este conformismo é muito bem disfarçado com camisas rasgadas, bebedeiras intermináveis e cantos de revolução, por jovens como eu em bares, festas e em grupinhos fechados para uma mútua aprovação. A única maneira é andar pra trás para olhar por cima da montanha de lixo. Picasso fez isso. Foi lá atrás, veio com suas máscaras africanas e com suas linhas deformadas, e até hoje continua sendo o que há de mais moderno e, acredito eu, será moderno ainda por muito tempo.

Eu falo sobre mim falando sobre os meus contemporâneos apenas porque não consigo me excluir, não corro, abraço, boto a cara pra bater e apanho bastante com isso, é claro. E é claro também que dessa forma corro os mais perigosos riscos de morte fulminante num domingo à tarde, mas me parece que o agrupamento das pessoas em pequenos nichos – os punks, os escritores, os cineastas, os fanfarrões – é o que há de mais acachapante, o que nos atrasa em relação às outras épocas, nos traz de volta à era medieval. Acredito num futuro prático e num passado criativo. Tento levar minha vida assim. Temos a tecnologia a nosso favor, mas simplesmente parece que perdemos o fervor, a dúvida, aquilo que aquece a barriga, enfim, somos cada vez mais como pedras, mas sem mais nenhum João Cabral de Melo Neto passeando por aí.

Dessa forma, deveria haver uma completa reciclagem da massa produtiva. A ruptura vem exatamente da troca de valores. Vejam como pode ser bom e revigorante: não precisamos mais recorrer às armas. Não precisamos ser Alexandre O Grande para erguer civilizações. Precisamos do contrário disso: saber pensar, nos colocar nos nossos devidos lugares. Os órgãos de cultura precisam voltar a privilegiar a tentativa, o escape, precisam se mexer, observar melhor, aprender a dançar e escapar da caretice do que é retrógrado sendo apenas explosivo ou desesperado. Isso fatalmente estimularia os jovens a se mexer também e a mudar seus discos na vitrola. Esse clima mundial de repartição pública que precisa ser revisto. A melancolia, a resignação, precisamos andar no tempo. Quando quem não tem muito o que dizer diz muito, forma-se um vácuo na cultura, cria-se a ilusão de progressão para um nada maior. Claro, ouvi histórias de tempos heróicos, de grandes passeatas, punhos cerrados por uma causa qualquer. E isso hoje é motivo de piada em bar. Os jovens passam hoje por uma tremenda paralisação dos sentidos. Até as drogas mais atuais são as mais paralisantes, como anestésico para cavalo. Ninguém quer ver mais nada, ouvir mais nada, nos trancamos nos nossos quartos e ligamos nossos aparelhos de som. Fugimos de nós mesmos e da nossa completa falta de atitude. Somos os jovens mais velhos que o mundo já teve. Viveram por nós e agora vem nos dizer que nada mais precisa ser feito. Uma pinóia! Precisa existir alguém, algum órgão público seria o ideal, que diga não à banalização. Precisamos dar um ponto final às antigas regras e teorias e antigas maneiras de se viver e aceitar. O cansaço vem delas. Elas são velhinhas de 100 anos puxando uma carroça com porcos em cima: nós, os jovens, que deveriam fazer alguma coisa. Mas preferimos dançar de olhos fechados ou representar tipos excêntricos: os literatos tímidos, os micareteiros deslumbrados, os suicidas tragicômicos e por aí vai...

Temos que deixar a representação pros palcos e sets de filmagem, ou então estaremos confinados a um mundo como um set de filmagem, apertado demais pra tanto flash e maquiagem. Eu me sinto como um pino solto da máquina do mundo. Hoje são os velhos que dizem novamente o que fazer. Ontem éramos nós que dizíamos ao mundo o que deveria ser feito. Existe o medo de errar, é claro. Mas não tentar me dá muito mais medo ainda. E, pensando bem, com a mediocridade instalada inclusive pelos órgãos de cultura e autorizada por governos, editoras, gravadoras, museus de arte moderna e qualquer outra fundação que estimule a produção comercial de arte para uma massa de cegos, surdos e mudos, eu certamente tenho mais chances do que Van Gogh teve.


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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

PAIXÃO CRÔNICA >> Fernanda Pinho

Suspeito de que eu estava flutuando, e não andando, quando deixei o auditório da Cemig, em Belo Horizonte, na noite da última quinta. E só fui trazida de volta à consciência (ou ao chão) porque, do outro lado da rua, um flanelinha não se conteve e gritou: “Tá feliz, hein, moça”. E aí eu me dei conta de que, além de provavelmente estar flutuando, eu estava também rindo de canto a canto. Confesso, fiquei tentada a guardar o riso para que não me achassem uma boba pela rua afora. Mas não deu. Eu estava feliz demais para conseguir disfarçar ou para preocupar com o que os outros iriam achar. Continuei flutuando, rindo e falando até. Repetindo para eu mesma as únicas frases que trocamos. “Gosto do seu nome, é o nome da minha filha”. “Eu também gosto do seu, é o nome do meu pai”. Fiquei orgulhosa por ter conseguido responder mesmo estando com o coração na boca. E mais orgulhosa ainda por ele, com fama de ser tão econômico em suas falas, ter dispensado uma frase a mim.

Pensei em sair ligando para todo mundo mas, possivelmente, muita gente não entenderia minha euforia. Então deixei para contar tudo aqui. Porque se você é leitor de um blog chamado Crônica do Dia, certamente conseguirá ter noção de como eu me senti estando diante de Luis Fernando Verissimo.

Costumo ser pontual, mas esse era um dia para exageros. Cheguei, portanto, com uma hora de antecedência. O auditório ainda estava fechado, mas nem liguei. Matei o tempo folheando alguns dos seus livros que estavam expostos num estande. “Comédias da vida pública”, “Comédias da vida privada”, “O analista de Bagé”, “Comédias para se ler na escola”, “As mentiras que os homens contam”. Os mesmo slivros que me despertaram para a leitura por prazer – e não para ganhar pontos na prova de literatura. Os mesmos que me fizeram descobrir o que eu gostava de fazer e o que eu queria fazer. Livros que determinaram praticamente tudo em minha vida, a partir daquela época, entre a infância e a adolescência: minha escolha profissional, as relações que construí, os outros livros que li e até os mil e um textos bobos que escrevi.

O que seria, então, uma hora de antecedência para quem esperou, sei lá, quinze anos? E, de repente, aquela figurinha gordinha e simpática desenhada na capa de seus livros surgiu no palco, diante de mim – devidamente grudada na primeira cadeira - e de uma plateia lotada. E ele não estava sozinho. Minha referência literária veio acompanhada de minha referência jornalística: Zuenir Ventura – assustadoramente parecido com meu avô, falecido em 93. Meu queixo tremelicou e eu amparei a lágrima com o dedo indicador.

Eles estavam ali para falar do livro “Conversa sobre o tempo”, no qual os dois, amigos de longa data, dialogam sobre vários assuntos, com mediação do jornalista Arthur Dapieve. Mas falaram sobre muito mais. Veríssimo sucinto. Zuenir prolixo. O falso tímido e o falso extrovertido, como eles contaram que são chamados por um amigo. Veríssimo falou sobre sua amizade com Clarice Lispector – era 9 de dezembro, aniversário de 23 anos de sua morte. E eu quase chorei. Zuenir contou sobre o dia em que ele foi dado como morto. E eu quase chorei de novo. De rir.

Cada palavra que eles diziam provocavam uma reação em mim – como fazem cada palavra que eles escrevem. Eu havia convidado algumas pessoas para irem comigo mas que, por diversos motivos, acabaram desistindo. Com todo amor que eu tenho por essas pessoas, naquele momento, achei foi bom. Não tinha ninguém para conversar comigo, para me tirar daquele estado de plenitude. Na minha cabeça, era como se existisse apenas eu, Veríssimo e Zuenir naquele auditório.

Tanto que não resisti e fiz uma das poucas coisas que me deixa tímida nessa vida: encarnei a tiete. Tirei foto, peguei autógrafo no meu livro. Fiz tudo o que as pessoas costumam fazer diante dos seus ídolos. Acho, aliás, “ídolo” uma palavra muito forte, que em minha vida se aplica em casos raríssimos. Como este.

Quanto ao livro, um deleite. Todo mundo deveria ler. Só não me peçam emprestado porque meu exemplar autografado eu não empresto nem para minha mãe (desculpa, mãe).





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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

RISÍVEL >> Carla Dias >>

Parece-me que a alma escapou do corpo e foi dar uma volta, permitindo que sua carcaça permaneça estacada no chão, representando tudo aquilo que a alma nunca quis se tornar. Apego-me à lonjura do corpo e do espírito, como se fossem dois universos distintos, cada qual caminhando em seu ritmo. Cada qual um olhar.

A mulher se diz indignada com o despreparo dos funcionários para atendê-la, afinal, o chá da tarde é importante de um jeito que subalterno algum deveria rasurá-lo. Benze-se, então, como se Deus estivesse envolvido na sua rixa particular, como se o chá fosse o antídoto para sua vida infeliz.

Aquecer-se com o chá da tarde é o que a faz esquecer que despreparada é ela, mas para a liberdade. Por isso vive à sombra de um homem que chama marido e que mal a encara, procurando sempre algo ou alguém melhor que o distraia daquela mulher que, sabe-se lá o motivo, faz parte da sua vida.

Enquanto sorri um sorriso desbotado, ele lança um olhar indignado à mulher do chá da tarde, a quem tem por mãe há quase quarenta anos. Envergonha-se da fraqueza da mulher que o colocou no mundo, falsifica o afeto que a ela oferece, porque, lá no fundo, todos percebem que ele faz de tudo para não estar no mesmo recinto que ela, que ele a despreza.

Escorrego o olhar para além da janela. Lá fora chove, chuvinha, garoa boa, das que acompanham caminhadas existenciais. E me bate uma vontade imensa de sair andando, sem destino, sem pressa, titular do abandono desse papel que represento em um lugar ao qual jamais pertenci.

A mulher bebe um gole de chá, queima a língua, faz escândalo, exige que o garçom seja despedido. O dono do estabelecimento, amigo de infância a quem a mulher não mais reconhece como tal, sorri um sorriso compreensivo, de quem sabe do que amargou aquela a quem sempre ofereceu benquerença. Diz que não dispensará seu funcionário, porque ele mesmo, o dono, o chefe da tribo, foi responsável pela feitura do chá dela... Como tem sido desde que ela decidiu ser a pessoa que se tornou.

A mulher levanta o olhar, encara o ex-amigo como se ele fosse um inimigo, alertando para que nada nela seja resquício da pessoa que, em algum momento, o quis bem, de quem ela foi ao lado dele. Ele percebe, mas não fecha o sorriso, não se desfaz do carinho que tem por ela, não se despe do sentimento. E o marido bufa, o filho resmunga, ambos preocupados somente com o que pensam e sentem, sem dar mérito algum ao que a consome.

Vejo ali uma fagulha de vida, enquanto o amigo, ainda curvado para que a mulher o veja e escute, enfrenta a teimosia dela em ser completamente vil, e o desprezo ensaiado com qual ela o trata.

Debruço sobre a minha mesa, gerando uma proximidade mínima, mas importante, e os observo, enquanto os homens presentes continuam a se distraírem consigo mesmos.

O amigo da mulher endireita o corpo, e então acena com a cabeça, retirando-se, enquanto arrasta consigo um fardo de tristeza. Imagino o que há entre eles e está invisível ao marido e ao filho. O que eles não enxergam, mas o amigo insiste em acreditar na existência? Por que não há curiosidade entre eles?

A mulher baixa o olhar e pega a xícara de chá, bebendo o líquido com delicadeza que não demonstrara em qualquer outro momento. Eu me aprumo ao perceber o despercebido pelos distraídos egocêntricos... Há ali uma declaração de amor, a cada gole, a cada insinuação de prazer ao sorver o gosto do afeto.

Voltei ao lugar outras vezes, mesmo dia e horário. Marido e filho acompanhavam a mulher, sempre com cara de quem está de mal com a vida. E a cena se repetia... Se não era o chá quente, era alguma sujeira na xícara, no pires, na colher, no guardanapo; algum insulto silencioso do funcionário, motivos que se repetiam, posteriormente. Havia sempre algo que trazia à mesa dela aquele homem de sorriso sincero, que explicava que todos ali a atendiam com todo respeito que uma pessoa merece, e que ele mesmo preparava o chá dela.

Então, houve esse dia, quando o marido e o filho não vieram com ela. Até mesmo a roupa da mulher estava diferente, menos severa, arriscando algumas cores vivas. Os cabelos, sempre presos em um coque, caíam soltos sobre os ombros dela. E desta vez, a todos que a cercavam, a mulher dedicava um olhar mais doce, e um quase sorriso brincava em seus lábios.

Minha alma, ela que sempre se ausentava em tais ocasiões, fez-se presente nessa jornada de observação. Na verdade, ela vinha se alimentando da curiosidade sobre o que havia por detrás de tantas cenas de desaprovação da mulher, e do motivo de fazê-la voltar novamente ao lugar. E foi então que ele apareceu, o amigo, servindo a ela uma xícara de chá, depois puxando uma cadeira e se sentando ao lado dela.

Durante mais de hora, eles conversaram e riram, quase choraram, ficaram silentes. Mas foi quando suas mãos se abraçaram que o cenário se modificou completamente. Diferentemente do marido e do filho dela, o homem a sua frente a encarava com verdadeiro carinho, até certo fascínio. Durante um bom tempo, mãos abraçadas e olhares cúmplices, eles ficaram ali, como se nada mais existisse, além do momento.

Voltei ao lugar outras vezes, mesmo dia e horário, esperando o desenrolar da história da mulher e seu chá da tarde, sua desculpa para ser apreciada, ainda que em segredo. Porém, ela não mais apareceu, e o seu amigo, aquele que sabia como querê-la bem, passou a se debruçar no balcão, permitir que o olhar se perdesse no tempo, lábios secos e nus de sorriso. Tristeza como companhia... Como se a alma dele tivesse escapado do corpo, fugido em busca de onde não há como se estar por inteiro.

Imagem © Jander Minesso

carladias.com

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

AVAIANA DE PAU >> Clara Braga

Sei que algumas pessoas acham que aniversário é como qualquer outro dia do ano, mas eu não sou assim. Sempre gostei de aniversário e fiz questão de comemorar com meus amigos, tanto o meu quanto o deles, mas nem sempre a gente consegue estar presente.

Um dia desses foi aniversário da minha prima, não podia perder, já não tinha ido no ano anterior, mas parece que aquela história de "tudo que eu quiser o cara lá de cima vai me dar" não funcionou muito bem comigo. O compromisso que eu tinha antes atrasou bastante, já sai correndo. No caminho o pneu furou. Trocado o pneu, problemas para calibrar. Resolvido o problema, finalmente cheguei em casa, mas como nem tudo são rosas, percebi que tinha perdido a chave de casa, e assim foi minha noite. Depois de muito tempo consigo entrar em casa, mas já estava tão cansada que resolvi entender todos esses acontecimentos como um sai para não sair mais.

Quando fui me explicar para minha prima, falei a frase que eu não aconselho ninguém a utilizar: "Desculpa, estou te devendo uma!" Nunca diga que você "deve uma" a uma pessoa que você tem certeza que irá cobrar, pois foi assim que eu acabei me tornando a modelo (e sempre que eu usar modelo nessa crônica entendam cobaia) da prova final do curso de maquiagem da minha prima.

Isso mesmo, fiquei sentada das 14h às 18h enquanto ela fazia três maquiagens diferentes, cada uma com um objetivo específico. Um pouco de rímel e sombra dentro do olho, um pouco de batom no dente, mas tudo bem, afinal, eu não fui ao aniversário dela. Tudo estava bem até a hora de colocar os cílios postiços. Tudo bem, fazia parte da prova, mas ela não sabia por onde começar. Resultado disso tudo, na hora de colar os cílios, ela colou meus olhos! Seria cômico se não fosse trágico, ela pedia para eu abrir os olhos para ver como tinha ficado e eu simplesmente não conseguia.

Bateu o desespero, e com o desespero a crise de risos, nenhuma das duas conseguia fazer nada, apenas rir. Depois de quase me cegar jogando colírio no meu olho, eu consegui finalmente abrir os olhos.

A professora dela ficou olhando e anotando tudo no caderninho, ainda não sei se minha prima foi reprovada ou não, mas enquanto tudo isso acontecia eu só conseguia me imaginar com os olhos colados dando um dos depoimentos da Avaiana de Pau: "Eu aprendi a nunca deixar de ir no aniversário da minha prima e nunca dizer que eu estou devendo uma a ela".

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

TALENTO NOS DEDOS
>> Albir José Inácio da Silva

O leitor deve estar pensando em pianista, flautista, violonista ou qualquer outro artista que use as mãos para encantar a humanidade. Mas não é bem isso.

Em certo momento da minha vida, da minha adolescência pra ser mais preciso, eu aprendi datilografia. Não sei até quando se vai saber, mas hoje ainda se sabe o que é isso. O teclado da máquina de escrever está contido no do computador, bastando expurgar deste dezenas de teclas que naquela época não teriam nenhum significado. Saber datilografia dava um status que não pode ser comparado ao conhecimento de informática de agora. Digitar todo mundo sabe. O computador está nas casas, nos quartos das crianças, nas salas de aula, nas mesas de bar e no colo das pessoas em ônibus, trens e aviões.

Datilografar significava ser especial. E mesmo os que sabiam datilografia não eram todos iguais. Media-se o datilógrafo por toques — toques por minuto. Eram respeitados os que conseguiam cento e oitenta, duzentos, duzentos e vinte toques por minuto. Dos maus datilógrafos, dizia-se que catavam milho.

Eu catei milho por muito tempo até que, envergonhado e com muito esforço, cheguei aos cento e oitenta toques. Poucas coisas fizeram tão bem a minha alma. Eu não era datilógrafo nem havia muita coisa para datilografar no meu trabalho, mas eu inventava as oportunidades de mostrar a minha técnica. Técnica não, o meu talento de cento e oitenta toques.

Claro que isso foi de alguma utilidade. Os empregos mais cobiçados da época — multinacionais, empresas públicas e de economia mista — usavam a datilografia como prova de corte. Só os aprovados nessa “arte” estavam aptos a continuar no certame. A maioria dos aprovados, entretanto, depois da posse, jamais voltaria a se sentar na frente de uma máquina.

O mau uso do computador ainda não me atingiu suficientemente os brios para que eu redobre os esforços e melhore a técnica. E os estudos de datilografia não têm hoje qualquer utilidade. Mas confesso que tenho de disfarçar o orgulho quando ouço: “ele digita com todos os dedos!”. Não sei se as pessoas aprendem isso nos cursos de informática, mas só quem estudou datilografia sabe o verdadeiro significado da expressão: com todos os dedos.

Acho que hoje o que eu faço é datilografar no computador. Viu como foi melhor que essa crônica não fosse sobre música? Eu acabaria batucando no piano.

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domingo, 12 de dezembro de 2010

PEPETA PEPETA >> Eduardo Loureiro Jr.

Estou desaprendendo a escrever. E não tem nada a ver com falta de inspiração. Continuo respirando bem — inspirando e expirando, inspirando e expirando — sem a ajuda de aparelhos.

O aprendizado da escrita foi um aprendizado de comunicação: uma desfeita para com a minha timidez. Mas agora as coisas que faço fazendo sentido para os outros não são feitas fazendo sentido para mim.

Hoje eu prefiro as palavras assim:

tanta coisa pra dizer e só me vem
pepeta pepeta
tanta coisa pra dizer e só me vem
pepeta pepeta
o que eu tenho pra dizer é o céu
és o céu na terra e a terra é o céu 
pra quem gosta de aventura 
a vida dura é feito mel 
tanto fala até que muda 
a vida à moda do céu
é preciso ser criança pra dizer
pepeta pepeta 
cada um pode sentir que quer dizer
pepeta pepeta


Não, não se trata da linguagem incompreensível dos excessivamente intelectualizados. É um desaprender da escrita que já é quase desaprender da fala. Música tendendo ao murmúrio. Dizer coisa sem coisa.

Qualquer temporada dessas, desaprendo o próprio som. E ressoarei somente o solfejo do silêncio.

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sábado, 11 de dezembro de 2010

SOBRE PÉS BONITOS E JOANETES
[Ana Gonzalez]

Os pés nem sempre são peças que referenciem a beleza, mas todos somos por eles conduzidos na vida. Além dessa nobre função, eles fazem muitas histórias particulares. Em especial, pés bonitos sempre foram motivo de atenção por parte de homens e de mulheres, embora por motivos diferentes.

Os meus desde que começaram a apresentar joanetes, receberam cuidado especial.

E esta história começa muito cedo em minha vida, quando na adolescência vi um osso lateral começar a crescer no meu pé direito, algo que meu pai tinha. Simples joanete, nada grave, mas tive que começar a escolher melhor os sapatos. Lá estava a paternidade marcada a olho nu, muito aquém dos cromossomos e DNA.

Fui assim andando com o pé direito cada vez mais torto, até que o esquerdo também desenvolveu a anomalia. Nem isso me tirava do sério, ou seja, eu levava a questão naturalmente, mesmo longe da possibilidade de usar um sapato especial de bico finíssimo ou uma sandália cheia de tirinhas brilhantes.
Não havia a menor graça nos meus pés. Nada daqueles pés lindos e delicados que apareciam em propagandas, nas praias com os dedos pintados de muitas cores, lindas. Nada de uma presença para ser acariciada por namorado, em cenas íntimas e românticas. Por sua vez, os ortopedistas sempre me olhavam com interesse, indicando cirurgia. Que pés maravilhosos para uma operação, deviam pensar. Entretanto, nada me fazia sentir a necessidade de operar o desconsolo ósseo. Nem a vaidade nem a hipótese de um namorado tarado por pés.

Eu fugiria sempre do bisturi, como o diabo da cruz. Essa era a minha história. Como advogar pés tão feios de uma cirurgia? Arrumava muitos argumentos, e o principal deles era a ausência de dor.

Mas aconteceu que o pé esquerdo começou a doer de forma estranha. Numa viagem, em meio a largas caminhadas, percebi que não podia apoiar o pé. Sentia muita dor. Muito incômodo mesmo. Comecei a mancar. Um verdadeiro desastre ortopédico estava acontecendo. Era a primeira vez que eu me sentia tão reprimida nos movimentos, por causa dos pés. Rapidamente, comecei a rever meus critérios sobre cirurgia. Se fosse necessária – ai – que fosse logo.

Ao voltar para casa, tinha que resolver a questão do médico, pois o que me oferecia conforto e confiança tinha ficado no outro convênio abandonado. Outro tormento. Do caderninho do novo convênio, marquei logo três consultas.

Na primeira, o médico nem examinou os pés. Mandou que eu tirasse chapas e depois, me mostrando o óbvio, disse que eu deveria fazer a cirurgia. E que fosse logo nos dois pés de uma só vez. Claro que ele nem me ouviu em relação ao tipo de dor ou onde doía. Agradeci e fui ao segundo, dias depois.

Este me ouviu, fotografou o pé, viu as chapas, me pediu para ver a sola do meu pé e aí descobriu algo que eu não tinha visto.

Ele perguntou se era ali que doía. Confirmei. Olhei e fiquei surpresa em perceber que não tinha visto aquilo. Era um pequeno buraco ou uma formação meio dura na pele grossa da sola do pé. Ele então falou claro, diagnosticando: olho de peixe. Quer dizer, então, que a dor provinha daquilo?, perguntei. Sim, disse ele.

Não pude evitar o riso. Alívio e descompressão. Saí dali muito feliz. Como não se sentir cantante em meio a um mundo que se abre novamente?

Bem, o pé continua o mesmo, o olho de peixe (ui) vai dar um trabalhão, mas minha esperança de não passar pelo bisturi se manteve. Quer coisa melhor do que isso?

Site: www.agonzalez.com.br

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

EU TE ODEIO PORQUE NÃO POSSO VIVER SEM VOCÊ >> Leonardo Marona

Estive recentemente à beira-morte, então decidi ir à beira-mar para me despedir de mim (faço isso semanalmente). Fiquei vendo as mulheres com seus biquínis de crochê cavados e os homens como focas jogando bolas para cima com todos os músculos enrijecidos ao mesmo tempo, sem saber o quanto isso fica ridículo quando não é você quem está fazendo o esforço. Rapidamente me esqueci de morrer, o que tem acontecido também semanalmente desde as últimas férias em Miguel Pereira, eu lá caindo da bicicleta e me fingindo de mendigo com um cordão bloqueando a estrada para ganhar uns trocados extras enquanto enterravam minha mãe e ela tinha apenas um resfriado, segundo me disseram.

Sempre me inclinei a inventar teorias idiotas para explicar assuntos que não conseguia compreender. Isso servia de alívio momentâneo quando a cabeça parecia a ponto de explodir, como agora, por exemplo, quando não consigo infelizmente usar as palavras que queria ter usado lá atrás, ao começar isso daqui. E parece tão tarde, às oito e meia da manhã, que não sinto sono algum. Talvez devesse ter me despedido melhor. É tarde. Na praia não foi diferente.

Para formular minha teoria sobre como se comportam homens e mulheres quando estão todos juntos num espaço específico, mental e fisicamente seminus, sentei na areia e tirei meu bloco de anotações da mochila, o que imediatamente alterou o gestual de dois garotos, ambos com franjas enormes, que me impediam de ver seus olhos, e muitas espinhas. Nenhuma menina, no entanto, mudou em um milímetro sua trajetória, nem mesmo desviou um olhar, absolutamente nada aconteceu nesse aspecto, o que logo me fez concluir que mulheres são menos suscetíveis do que meninos, até porque meninos continuam meninos enquanto mulheres já são mulheres antes dos meninos entenderem o que é uma mulher.

Procurei me concentrar nos jovens adultos da espécie e procurei, é claro, idades próximas de ambos os sexos para analisar friamente os comportamentos.

Uma menina entra na água: aos pulinhos. Ela é bem próxima da plenitude dos movimentos sincopados. Talvez fosse mais que a plenitude, afinal, da plenitude não se passa, e ela tinha passado correndo por tudo, deixando apenas delicadas marcas das pontas dos seus pés na areia. Cada deslocamento de músculos e ossos parece repicar em pausas fotográficas. No que aparece um cotovelo coberto de areia, logo atrás vem uma perna com uma pequena cicatriz na altura do joelho. E então, enquanto você observa uma perna, a bela cicatriz no formato de uma harpa, surge um tornozelo com fita do Nosso Senhor do Bonfim, mais uma covinha em cada nádega, apenas para que você derrame seu chá mate na toalha, veja tudo em tom sépia e invente uma nova bossa nova velha.

Ela tem os cabelos crespos, cheios e vermelhos. A pele curtida de sol, sal e iodo, do tipo exportação. Já está na idade em que os músculos, até então afilados e torneados como os de um filhote de gazela, começam a ganhar formas arredondadas e desajeitadas, quase exageradas. A menina ainda não sabe o que acontece à sua volta, quantos garotos enchem os pulmões de água salgada, erram o chute na bola, tropeçam nas próprias pernas e caem, são obrigados a se sentar e enrubescer, escondendo com as mãos a vergonha, quando ela passa com desleixo e indiferença os dedos pelos cabelos por detrás das orelhas que sustentam enormes penas coloridas presas em argolas de prata nos lóbulos. Mas seu sorriso sem dentes num traço de olhos baixos distante mostra que talvez seja tudo um jogo pensado. Ela começa devagar a entender que, de uma mulher linda, qualquer ato singelo, como ajeitar os cabelos atrás das orelhas e inclinar a cabeça, pode causar um cataclismo em quem ainda não sabe de onde realmente vem a asma.

Mas ela, apesar de ser toda mulher sem saber como usar tanto todo, tem ainda uma grande parte de doçura, de infantilidade desprevenida que derruba seus olhos no chão, sem saber para onde apontá-los já que todos em volta os têm para sempre aprisionados nas piores perversões. E eu mesmo me sinto envergonhado por pensar nela como uma mulher.

Detalhe interessante: ela não entra imediatamente na água, de corpo inteiro, num mergulho. “Isso é coisa para animais ou pescadores”, diz a uma amiga quando perguntada, enquanto o pente vermelho se perde derretido dentro dos seus cachos de lava. Primeiro se levanta sem usar as mãos, os pés cruzados servem de alavanca para o corpo. Bate com as mãos delicadamente nos dois sorrisos hipnóticos desenhados pela rigidez das nádegas, para tirar o excesso de areia e causar mais algumas arritmias respiratórias. Ajeita então a frente do biquíni. Sorri para uma amiga que também sorri – preliminares de duas vidas fadadas à eterna felicidade plástica. A amiga galopa ao seu lado, outro exemplo de generosidade genética. E já ninguém sabe mais o que fazer com os olhos. Os meus eu enterro na areia e os perco assim como perdi os chinelos. Mas de algum lugar eles ainda podem ver.

Ela joga água nas axilas, apanha um pouco para o próprio rosto. Gargareja e deixa a água escorrer sorridente pelo corpo. Mais quatro passos, deixa a onda lhe cobrir a cabeça. Com o dedo tampa o nariz. Sai correndo e sorrindo baixo para fugir de outras ondas mais fortes. Ainda não sabe que do seu corpo se forma a onda mais forte da arrebentação. Dispensável dizer que um homem vê esse conjunto de movimentos em câmera lenta. A menina volta no trote, corpo todo vapor, alma tordilha escoa pelas narinas infladas, torce os cabelos pelo lado direito dos ombros. Na impossibilidade dos olhos, posso ver sua omoplata sorrir. E então ela volta correndo para sua canga, seu noivo, um sujeito que, com todo direito, tem o semblante acabrunhado.

Minutos depois, a cargo de comparação, vejo um grupo de quatro rapazes: dois parecem irmãos porque gastam muito tempo batendo um no outro, cuspindo e jogando areia, rindo. Outro é um japonês bem baixo e magro, como um japonês costuma ser, mas sem queixo, com largas bolsas de gordura debaixo dos olhos, dentes confusos. Parece ser o mais velho, ou o mais carente, ou talvez o fato de parecer velho demais para sua sunga florescente o tivesse deixado melancólico, até mesmo histérico, porque permaneceu um bom tempo sozinho rolando na areia – enquanto os outros faziam cara bandida com seus óculos escuros e seus cordões de prata – até afogar subitamente o quarto deles: um rapaz cuja procedência eu não saberia determinar, possivelmente armênia ou turca. Com enorme nariz adunco, boca escancarada, talvez por causa de algum problema respiratório ou de ordem mental, como é o mais alto, e de relance parece também o mais brutalmente feio e desajeitado, quem sabe até o mais romântico, é também o mais violento. Revida o golpe jogando um coco na cabeça do japonês que, por segundos, gira os olhos em convulsão.

A certa altura dos acontecimentos, sem conhecer maneira mais civilizada de chamar atenção, os quatro começam a se atravancar uns sobre os outros com mãos e fundilhos cheios de areia e guinchos desafinados por causa da masculinidade ainda em processo de formação. Um força outro a engolir areia, outro puxa as calças de um terceiro, que grita mais alto, e um quarto rola na areia espantando as criancinhas em volta, que fogem aos prantos com seus baldes.

Em suma: são homens já feitos de corpo, assim como a menina, mas, mesmo assim, em grupo, parecem contentes ao se comportarem como animais selvagens. Isso não os incomoda e, afinal, por que deveria? Estão em grupo no seu habitat, agindo de acordo com seus costumes, comendo areia e rindo disso. Nada estranho.

Mergulhei em anotações digressivas:

Homens são animais que, na maioria dos casos, andam em grupo, pensam aquilo que um pequeno grupo influente determina e exercem força estúpida e patética, geralmente de fundo tragicômico e desesperado. Mulheres são animais que se desenvolvem fisicamente mais rápido – e talvez isso também influencie seu desenvolvimento mental prematuro, pois ao comprovarem a rápida evolução física diariamente diante do espelho, são obrigadas a compatibilizar seu raciocínio e até mesmo sua sensualidade com esta realidade orgânica mutante. Mulheres não andam exclusivamente em grupos. Não precisam de grupos para se sobressair. Inclusive, quando em grupo, mulheres tendem a ser mais críticas e competitivas que os homens, até mesmo mesquinhas e cínicas porque, ao tomarem mais cedo conhecimento da individualidade de um corpo em ebulição, entendem que atributos físicos levam à guerra, mais cedo ou mais tarde. Por isso alguns rapazes menos afeitos a sutilezas consideram as mulheres insensíveis e traiçoeiras, até entenderem que isso que sentem por elas se chama paixão e é tudo que existe de trágico e irreversível misturado de modo a gerar boa impressão aos inocentes românticos que têm medo de chorar.

Todos os movimentos femininos são mais sutis e delicados, porque bem antes elas percebem o quanto o corpo precisa estar em comunhão com o cérebro para funcionar satisfatoriamente. Mas é lógico, isso não significa necessariamente que sejam seres frágeis, e sim um progresso mental mais acelerado – é só perceberem que as mulheres mais vulgares também são as mais machistas. Além do que, as mulheres acabam sendo mais perceptivas porque, pela condição alienígena que lhes é imposta fisicamente desde bem cedo (culotes desastrados, peitos inchados e doloridos, corrimentos em meio a fiapos humanos ainda sem pêlos), conhecem antes a solidão.

Ou talvez isso signifique apenas o bom uso da fragilidade, enquanto que nós homens, com medo do fato de sermos fisicamente bastante ordinários, precisamos nos livrar da mediocridade física da nossa puberdade tardia para nos sentirmos competitivos e atraentes, o que implica luta física, em boa parte das vezes.

Trata-se do velho esquema “macho provedor que vai à selva atrás do maior antílope” enquanto as fêmeas se divertem com os machos mais sensíveis (entre poetas, rendeiros, ceramistas, profetas, vagabundos) que, portanto, são excluídos do grupo de machos da aldeia e – quando não morrem logo assassinados – adotados pelas fêmeas por sua sensualidade. As relações humanas podem ser facilmente resumidas neste esquema, em todas as classes sociais, se formos capazes de assumir nossa evolução animal desde o macaco.

***
Volto para casa confuso – acontece sempre que fico muito tempo debaixo do sol e vejo muitos corpos juntos que brilham – inutilmente tentando montar uma teoria ampla e definitiva que determine exatamente por que animais de mesma espécie, habitat e idade são capazes de se comportar de modo tão radicalmente oposto e, na mesma medida, se desejarem tanto.

Chego em casa e olho a foto dela na estante. Súbito, jogo a foto pela janela. E quando vejo estou com o telefone na mão, gaguejando.


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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

CADA UM TEM O CHICO QUE MERECE >> Fernanda Pinho

Eu sei que de nada adianta ficar tentando entender o mundo, a vida, o imponderável, mas há dois questionamentos que não me sossegam: por que Maracugina se escreve com G e por que Chico é apelido de Francisco? Para minha primeira dúvida cruel eu até cogito a hipótese de haver algo de numerologia nisso mas, para a segunda, nada me convence. Nem pensem que, por isso, eu tenho antipatia de Chico. Não mesmo! Acho simpático, sonoro e já até cogitei batizar meu filho de Francisco só para poder chamá-lo de Chico. Mas eu não quero ter um filho chamado Francisco, eu quero ter um filho chamado Davi e por que eu não posso chamar o Davi de Chico? Por que Chico, por alguma razão sobrenatural, é apelido de Francisco. E nem me venham falar em derivados. Bené é derivado de Benedito. Tião é derivado de Sebastião. Mas Chico não é derivado de Francisco! Cisco seria um derivado de Francisco – embora eu ache que Cisco Buarque não emplacaria.

A verdade é que minha implicância com o assunto vem de uma certa inveja que eu tenho dos Chicos. Chico tem muito estilo. Chico tem força. Os Chicos têm cara de Chico. Chico faz parte de duas categorias de apelidos: aqueles que estão naturalmente ligados a algum nome (tipo Léo, Bia, Gabi, Mari) e aqueles que se incorporam a seu dono de tal maneira que passam a representar toda a sua personalidade sobressaindo-se, inclusive, ao nome de registro (tipo Macarrão, Bola e, sei lá, só me ocorreram nesse momento os amigos do goleiro Bruno).

Esta segunda categoria de apelidos, aliás, é muito amada por mim. Defendo que todo mundo deveria ter o seu – registrado nos documentos e tudo. Por um apelido você já é capaz de traçar um perfil do seu dono, afinal, foi uma alcunha imposta depois dele já ter nascido – diferentemente dos nomes que são escolhidos quando ainda não se sabem nada sobre nós. É por isso que eles se fixam e se tornam maiores, a ponto de ignorarmos o nome verdadeiro. Um dia desses, por exemplo, falávamos sobre os apelidos das pessoas que conhecemos e minha amiga Calypso (nome, não apelido) solta espontaneamente, para logo em seguida cair na risada: “Na nossa turma, só o Cotô não tem apelido”. Um ato falho de quem nunca se lembra que um dia os pais do Cotô o batizaram de...como é mesmo o nome do Cotô?

Não importa, o que importa é que desde criança eu invejo pessoas que, como o Cotô, têm um apelido tão marcante. Lembro-me de, aos cincos anos, questionar minha mãe sobre por que eu não tinha nenhum apelido. Ela me explicou que as pessoas não eram obrigadas a ter apelidos mas que, em todo caso, eu tinha sim. Meu apelido era Nanda. Achei bobo. Que sentido existe em se chamar Fernanda e ter o apelido de Nanda? Achei nada criativo e decidi, eu mesma, me impor um apelido. No dia seguinte, chamei meus colegas de turma – me lembro da cena: eu sentada em cima da merendeira vermelha contando a novidade em tom solene – e expliquei: “Gente, eu queria contar para vocês que eu tenho um apelido e eu prefiro ser chamada por ele. A partir de hoje, me chamem de Batatinha”. (Não, não sei por que Batatinha. Eu tinha cinco anos, lembrem-se!). Melhor foi a cara da minha mãe quando foi me buscar na escola e ouviu uns três coleguinhas gritando: “Tchau, Batatinha”. Mas não durou muito. Criança tem a memória curta, a professora insistia em me chamar de Fernanda e rapidamente Batatinha caiu no esquecimento.

Mas não desisto fácil. Mudei de tática e resolvi trocar de nome. Assim eu teria um nome qualquer e Fernanda eu assumiria como meu apelido. Passei, então, a me apresentar como Loló. E querem saber? Emplacou! Mais de vinte anos depois ainda sou chamada de Loló pelos meus tios e primos. Tudo bem, as mulheres da minha família me chamam de Nanda e meus amigos de Ferdi. Mas Loló é Loló. Loló tem uma essência. Loló é o meu Chico.




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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ELA E O MAR >> Carla Dias >>


estarei eu um desalguém,
ou não haverá mais eus sem fartas sombras
e eu é que deliro de mim
- ou não haverá mais reflexão
senão formatada de sombra do que emana
por acolá?!
Zeh Gustavo, do poema Desespaço


Ela é moça direita, e sabe que cobiçar é pecado dos grandes. Porém, não é somente ela que permite o olhar vaguear pelo horizonte. Cobiçar uma jornada lá pra mais adiante é cobiça ‘despecaminada’, como costumava dizer a tia, quando queria cometer pecadinhos com o aval dos deuses.

Gastou um bom tempo observando a lonjura, o mar a sua frente, tão largo que não cabia na janela do olhar. Gastou esse tempo também torcendo a barra da saia, como se trançasse a trilogia das expectativas sobre a mudança. Ao seu redor, pessoas assanhadas com o feriado, clicando suas câmeras fotográficas, ansiosas por chegarem a suas casas e jogarem o horizonte nos seus computadores. E então, assistir ao mar em forma de pixels, inerte, congelado. Depois esquecê-lo num diretório com nome do qual jamais se lembrarão, e que acabará na lixeira na próxima limpeza virtual, sem que seja conferido o seu conteúdo.

Sempre foi fascinada pelo mar, por encará-lo de frente. Durante as horas em que costuma passar diante dele, ela escreve uma autobiografia silenciosa e criada apenas para suprir os seus desejos. Nas autobiografias desveladas em pensamento, no afã da sua criatividade, ela já foi guerreira ganhando batalhas, uma Joana D’Arc ainda mais destemida, defendendo uma crença, um sussurro em seu ouvido, uma voz escancarando o seu dentro. Também viveu seu quê de desbravadora, de menestrel, de estrela das artes, assim como compartilhou a refeição única do dia com aqueles que compartilhavam da sua condição de itinerante.

Fossem capazes de lê-la de dentro pra fora, as pessoas não fotografariam lembranças para colecionarem já com a pretensão de esquecê-las. Usariam sim este tempo para a compreensão de que as mudanças são constantes, às vezes tão rápidas, que tatuar momentos na alma da gente é uma forma eficaz de mantê-los vivos. Não fabricariam memórias esquecíveis em computadores ou papel fotográfico, mas sim viveriam essa memória inteiramente, até que ela fizesse parte deles como faz parte dela agora. Não há como subtrair da alma de uma pessoa a beleza de uma lembrança.

Saiba que ela nada tem contra computadores e fotografias. Ela mesma comprou notebook e câmera fotográfica em várias prestações. Pagou a antepenúltima ainda ontem. Não é a tecnologia que a incomoda, mas sim como as pessoas depositam nela o dever de ser a extensão segura de suas vidas. Há coisas que devemos viver de acordo com o nosso pulsar, que precisam ser experimentadas sem apego à facilidade. Às vezes, é preciso sentir, ao invés de registrar. Mergulhar em algo, ao invés de colecioná-lo no álbum de fotografias.

Como esse amor que ela sente... A cobiça que considera pecado por acreditar que não merece que a amem de volta. Pensa que alguém que vive as suas aventuras mais ricas, enquanto o seu olhar se afoga no mar; enquanto se perde na imensidão do seu dentro, nesse jeito onde não cabe outro senão os seus inventados, alguém assim não pode merecer que lhe toquem as mãos em conforto, demonstrando apreço e oferecendo companhia. Numa das suas autobiografias inventadas, ela consegue apenas olhar esse amor como agora olha para o mar.

E enquanto ao seu redor as pessoas angariam imagens ao clicarem suas câmeras, e falam todas ao mesmo tempo, criando um burburinho ritmado, ela esquece a si no horizonte, na imensidão do mar, na impossibilidade de mostrar a eles o que, dentro dela, acontece: desejo cingindo mudanças, uma sinfonia de acontecimentos, ora dóceis, ora tempestuosos. Tons e semitons, rupturas e aconchegos. O amor dado e recebido, horizontes fora de diretórios, mar em movimento.

A vida acontecendo.


carladias.com

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