O LIVRO DOS CARREGADORES - 4a e quase última parte >> Zoraya Cesar

Resumo dos capítulos anteriores: O Carregador, antes de morrer, conseguiu clamar por ajuda, enquanto o demônio que o roubara fugia. Quando a Dama dos Portais veio buscar o desafortunado Carregador, não veio sozinha. A invocação fora ouvida. E agora, o ser celestial que atendera ao chamado se encarregaria de recuperar o objeto roubado e vingar a morte do pobre homem. Mas ele precisaria de ajuda. Ajuda especializada.


Lucrécio Lucas dormia o sono dos exaustos. Poderia dizer que dormia o sono dos justos, mas isso seria um chavão imperdoável. E mentiroso. Pois seu sono era mesmo o dos exaustos. Viera da cerimônia de cremação de um confrade, irmão de armas, de derrotas, de vitórias, de vida!

Enquanto os companheiros cantavam 'Ich hatt einen Kameraden' Lucrécio Lucas se acabava em lágrimas. Claro que sabia – e sabia por saber, não apenas por acreditar – que a morte é só mais uma passagem, que o parceiro estava vivo de outra forma, blábláblá, mas, que diabos – com perdão da imprecação - ele sentiria falta do amigo no mundo físico.

Dormia, pois, Lucrécio Lucas, um sono exausto e triste. 


O sonho veio como um filme, do momento em que o Carregador e a mulher demônio se encontraram, os escárnios do ser maldito durante a lenta morte do valente homenzinho e os encantamentos que ele solertemente inculcara no embrulho que carregava, a chegada da Dama dos Portais acompanhada por… Lucrécio Lucas acordou. Eram exatamente 23h23. 

- Salve Miguel! Agradeço por não quase me matar de susto, como da outra vez.

- Salve Lucrécio. A gente aprende. Não quero perder mais um companheiro de combate. Somos poucos demais.

O Arcanjo estava sentado numa poltrona perto da janela, a posição ereta e alerta de quem nunca descansa. Exagero? Afinal, era um Arcanjo, poucas entidades maléficas poderiam lhe fazer frente. O ambiente era protegido por magias antigas, feitas por um amigo que entendia – e muito - do assunto (não sendo Lucrécio Lucas, de jeito algum, um neófito ou desmazelado). Mas São Miguel tinha muitas cicatrizes, algumas derrotas e inúmeros séculos de experiência. Sabia que qualquer descuido poderia custar caro. Caro demais. 

- Amigo, preciso de ajuda. Não tenho conhecimento suficiente do plano mortal para recuperar o objeto roubado antes que seja tarde. E o tempo não corre a nosso favor. 

Lucrécio levantou, preparou um chá de anis estrelado, tão forte, mais  parecia um café. Serviria para despertar de vez seu corpo e também os canais da intuição. Sentou-se ao lado do Arcanjo, olhando, ambos, para o negror de uma noite sem lua, e reviu, calma e atentamente, o sonho. Se o tempo urgia, a última coisa a fazer seria tomar medidas açodadas. A paciência é a virtude dos fortes. Sabia que as pontas soltas de todo mistério sempre levam a algum lugar (aprendera isso vendo o detetive Columbo, também. Que nem só de embates contra o Mal e filosofia vive o homem). 

- Sabemos que Carregadores entregam diretamente os objetos, e somente a quem lhes é devido. (Os dois combatentes contra o Mal se entreolharam - por mais antiga que fosse a irmandade dos Carregadores, bem poderiam se modernizar um pouco. Ou, ao menos, pedir proteção durante a entrega, e não quando fosse tarde demais). - Pelas impressões etéricas que deixou, trata-se de um livro, “O Livro”. Precisamos saber o que é realmente, a quem se destinava. Por que, dentre todos os seres do Bem, ele chamou justamente a você? - falou Lucrécio.

- Não sei. Mas tenho o sentimento que essa será a última coisa que nos será revelada. Felizmente o Carregador embutiu magias de rastreamento e proteção no pacote, podemos segui-lo. Outra coisa, o demônio não conseguirá abri-lo; tentará, no entanto, vender a quem possa tirar melhor proveito. Temos de impedi-la. Não sabemos seu conteúdo, mas se o Carregador o chamava de "O Livro", creio que se cair em mãos mais poderosas que as da mulher demônio, a Eterna Batalha pode ficar bastante desequilibrada. A questão é, Lucrécio, a quem, nesse plano, ela poderia recorrer? Quem, aqui, além dos que lutam ao nosso lado, teria esse conhecimento, esse poder? 

Miguel esperou. Embora seres angelicais costumassem trabalhar com mortais, ele não conhecia todos os humanos que lidavam com o mundo astral. 


Lucrécio Lucas tomou o último gole de chá. Poucos humanos poderiam receber um objeto amaldiçoado, ainda mais entregue por um demônio. Mas havia um, em especial, um dos mais temidos, entre todos. A mulher demônio provavelmente iria em busca dele, ansiosa que deveria estar para vender seu butim antes que alguma outra entidade o roubasse dela.

- Quem é? - repetiu Miguel, curioso, ao ver o olhar desanimado, talvez um tanto temeroso, de um Combatente forte, experiente e, por que não dizer, perigoso, como Lucrécio Lucas.



Continua dia 14 de maio. 
  • A música 'Ich hatt einen Kameraden' é uma tradicional música de despedida das Forças Armadas alemãs, escrita em 1809. É tão pungente que foi traduzida e usada pelas Forças Armadas de outros países, cantada por soldados que sabem o valor da honra e de um bom companheiro de batalha.
  • As horas dobradas têm um significado especial, sendo o 23 o número associado às pessoas que estão aptas a ajudar os outros, lutando por uma boa causa. 
  • O anis é conhecido por suas propriedades mágicas, dentre elas, a de aguçar a intuição.
Outras aventuras de Lucrécio Lucas - algumas com Padre Tércio

Os Caçadores - um dia da caça, outro do caçador.

I Maledetti - todos malditos: vítimas e algozes

O Gato - parte 1 - nem durante as férias ele descansa

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Caçadas noite adentro - nem tudo é o que parece; aliás, nada é o que parece

Viúva Negra - nem sempre o mau se dá mal

A Amante - a origem do nome do Lucrécio Lucas

A hora dos mortos - parte 1 - quando uma Alma pede ajuda

A hora dos mortos - parte 2 - quando a Alma recebe a ajuda

Catadores de Almas - parte 1 - Você pode não acreditar em Catadores de Almas. Mas eles acreditam em você...

Catadores de Almas parte 2 - Se a sua alma for roubada por um Catador de Almas, reze para que as pessoas certas vão ao seu resgate

Catadores de Almas - parte 3 - a Morte é companheira de todo Combatente. Mas é sempre melhor quando se sobrevive para celebrar a vitória.

O Livro dos Carregadores - parte 1 - a irmandade dos Carregadores era tão antiga quanto as primeiras palavras escritas. Seus métodos, também. 

O Livro dos Carregadores - parte 2 - se um demônio injeta a Morte Azul em um corpo, não há saída. Ou melhor, há, uma. 

O Livro dos Carregadores - parte 3 - os Carregadores eram, antes de tudo, afeitos ao estudo e à pesquisa. Mas não eram desprovidos de sagacidade ou coragem. E, mesmo prestes a encontrar a Dama dos Portais para sua viagem eterna, soube a quem invocar em seus últimos momentos.

Comentários

Anônimo disse…
Esse desmembramento da história é de enlouquecer!!! Torcendo por Lucrécio Lucas como sempre!
branco disse…
cada vez mais intrigante (a fuga cômica para o columbo foi um achado). exemplar!
Meu Deus, dois amados juntos, Miguel e Lucreécio, cada vez melhor... essa é a história mais longa que já vi por aqui, é claro que queria devorá-la até o final, mas cada caítulo vale a pena por si só!

"Claro que sabia – e sabia por saber, não apenas por acreditar – que a morte é só mais uma passagem, que o parceiro estava vivo de outra forma, blábláblá, mas, que diabos – com perdão da imprecação - ele sentiria falta do amigo no mundo físico."

assim como todos nós!
Marcio disse…
Zoraya, você sabe que eu prefiro não comentar um texto antes que ele acabe.
Mas hoje eu vou abrir uma exceção - que nem é exatamente uma exceção, porque não vou escrever diretamente sobre o texto, mas sobre a sua volta às publicações.
Que alegria poder mergulhar de novo nesse seu universo ficcional tão peculiar!
Que satisfação ler novamente essas descrições perfeitas!
Que tudo fique bem para você, e que a cada duas semanas você possa nos trazer um pouco dessa sua imaginação tão prolífica!
Albir disse…
Bem... o medo voltou. Mas é bem-vindo porque Lady Zô volta com ele.
Paulo Barguil disse…
Depois de uma pausa torturante, a trama continua para alegria do leitor. :-)

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