O SLAYER >> Fred Fogaça

Eu vou realmente escrever alguma coisa sobre esse protagonista porque devo desinstalar o jogo muito em breve, e então sabe deus quando sai algum outro jogo e eu volto a pensar sobre isso. O personagem sem nome protagonista do Doom, aliás, nem é único nessa lista de interesses. Existem uns pares de personagens que passam uma narrativa longuíssima sem dizer uma única palavra - e eu me pergunto se funcionaria na ficção e devo dizer: sem essa do narrador onisciente saber do que o personagem pensa; em Doom, ninguém sabe o que o Doom Guy pensa. Tem outra coisa, ele usa um capacete, existe um olhar muito breve no reflexo do seu visor que não diz muita coisa, é um aparecimento raro.

Claro que isso abre uma maneira alternativa de construir o personagem: ele anda devagar, naquele balanço de corpo que não chega ser num ritmo malandro , mas definitivamente não é um Caetano passeando no Leblon, é um meio termo, ele não anda como se fosse dono do lugar, mas entra no recinto como se não tivesse medo de se tornar. Ele tenta um tiro contra um tal inimigo dentro de um templo sagrado sem perguntar o quão ortodoxo é o que ele tá fazendo - e quando o tiro vai pela culatra (não se derrama sangue nesse tipo de lugar) ele não fica constrangido.

Talvez seja uma construção, salvo essas dicas discretas que ele dá - e o fato importante dele não dizer nada durante todo o jogo - toda baseada em reações alheias. Isso é interessante, em certo ponto a gente, como indivíduos inseridos em sociedade, tem uma parcela em si, que é um reflexo do outro. Ou mais apurado, um reflexo seu no outro. Com frequência, me abate uma ideia de que a imagem que montamos em primeira pessoa é, também, uma resposta seletiva das impressões alheias que mais nos afeiçoou. Há boatos de não haver um eu categórico a que se possa agarrar tanto quanto queremos.

Então o tal personagem, de repente, é essa espécie de personificação de uma absência declarada e assumida de si mesmo, sem qualquer desculpa social conveniente e preenchedora. Quem sabe só um propósito? Porque de fato, no fim do jogo, sem mais um inimigo, findo sua missão que se confundia com a sua identidade, ele desfalece - não morre, mas entra num coma de contingência, meio vivo, pronto pra algum dia receber algum outro grande propósito. Sendo justo, ele diz uma única palavra e é no momento do enfrentamento final, cito diálogo original:

Davoth: "Tell me... have you nothing to say to your creator... before you strike him down?"
Slayer: "No."

Mas eu acho esclarecedor essa única manifestação dele, porque não é a primeira vez que ele nega a se manifestar. De fato, ele sempre nega a se manifestar, no sentido completo do advérbio, mas qual a ocasião especial que ele prefere deixar isso bem claro? Possivelmente menos por ser o próprio demônio a quem ele se dirigia (não há nele um decoro pra isso, uma etiqueta), mais pelo marco final que aquela decisão de acabar com seu próprio criador representava, e agora um final absoluto: o da sua própria identidade. Ela foi profunda, apesar de transitória, ou, às vezes, especialmente porque era transitória. A extensão muito limitada e evidente do que o Slayer ao menos tempo era e estava favoreceu a profundidade. Mais fácil se afundar num buraco de bueiro de rua do que ter de escolher algum lugar do mar inteiro pra isso - e quando você chega no fundo, não tem que lamentar o final, porque não há um questionamento: é isso, termina aqui, acabou, daqui pra frente a única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Comentários

Albir disse…
Que filosófico, Fred! E poético com o final do Bandeira.
Zoraya Cesar disse…
"Mais fácil se afundar num buraco de bueiro de rua do que ter de escolher algum lugar do mar inteiro pra isso - e quando você chega no fundo, não tem que lamentar o final, porque não há um questionamento: é isso, termina aqui, acabou, daqui pra frente a única coisa a fazer é tocar um tango argentino."
uau. só digo isso, pra nao estragar o momento.

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