A CRIADORA DE HISTÓRIAS >> Carla Dias

 

The Girl I Left Behind Me © Eastman Johnson


Para Zoraya Cesar

Imagine:

Você lendo um livro que lhe faz sentir de um tudo, com uma trama que toca tão fundo, de deixar pessoa insanamente feliz. Em outros momentos, triste pra valer. Não importa o quão imprevisível seja o personagem principal, fato é que ele lhe conquistou, desde o início. Já no primeiro capítulo, você compreende que a leitura será uma jornada difícil, que levará a punhados de dúvidas e amontoados de destemperos, mas também a um sem-fim de afeto.

Amor é construído dessa forma: página a página.

Assim, eles decidiram aparecer, mesmo sem a Criadora de Histórias pedir. Na verdade, ela queria mesmo era o silêncio que somente a ausência deles é capaz de oferecer. Queria se sentar na varandinha apertada do apartamento, aquele pedacinho de espaço que dá vista para uma imensidão de horizonte, que ela não se cansa de apreciar.

É assim, do que julga espelhar a insignificância da sua existência, que ela mergulha no universo dos infinitos.

Os personagens, por mais desalentados que se sintam por ela tê-los deixado de lado, celebram a existência dela, quem sabe como trazê-los à vida.

Imagine o desespero deles... 

Na varanda, ela se perde naquela vista. Está de costas para eles, que se amontoam em um mesmo sofá. Se a Criadora de Histórias estivesse atenta ao parágrafo, certamente incluiria vírgulas e pontos-finais entre eles. Quem sabe, ousaria nas reticências, enchendo a trama com mistérios que ela adora criar, a fim de fazer valer uma justiça literária que bem que poderia se estender aos seres humanos.

Há dias em que apenas personagens a preenchem.

A perna de um enroscada no braço do outro. Inimigos definidos, em capítulos anteriores, agora são obrigados a dividir espaço, como se tivessem nascido da mesma palavra, mas cada um tenha compreendido o sentido dela de um jeito. Olham para ela, ansiosos para que a Criadora de Histórias se vire e os enxergue, que venha destrançá-los, para que possam se tornar os personagens que nasceram para ser, quando ela, sempre impulsionada pela coragem, decidiu imaginá-los.

Eles compreendem a dificuldade que ela enfrenta, porque já estiveram naquele lugar. Não com uma vista tão ampla, de fazer olhar vaguear, sem hora para voltar. Ainda assim, a geografia das páginas de um livro tem medida que não cabe em olhar. É muito mais larga, longa, profunda.

Às vezes, seus narizes se esbarram, por pura falta de verbos que façam seus corpos se movimentarem coordenadamente. E o medo de se tornarem somente um punhado de o que já foi feito é o que os mantém sobrevivendo à custa de breves momentos de inspiração... dela.

Eles entendem o momento que ela vive. Se pudessem dizer, não saberiam quais palavras seriam capazes de ajudar a aplacar dor de quem perdeu alguém que ama. Mesmo que soubessem, seriam incapazes de dizê-las sem a ajuda dela... da coreografia de palavras que ela sabe fazer, lindamente, quando personagens estão à beira do abismo de um ponto de virada...

ou de um fim.

Há algo que aprenderam ao se tornarem personagens que aparecem em todas as histórias que ela cria: morte é para quem fica e ela é de bagunçar enlutados. Por conta da complexidade da situação, eles tiveram de recorrer a uma salvadora de personagens, antes que seus cabelos se trançassem, seus dedos se fundissem, a existência deles fosse finalizada. 

Senhora Inspiração não é das mais dóceis, mas certamente é a amiga mais íntima do único que é capaz de fazer a Criadora de Histórias voltar para a história dela, em vez de se perder inteira na dor da sua perda.

Ele atende ao pedido de uma Senhora Inspiração sem paciência para personagens que temem acabar de vez, serem lançados aos braços de clichês e moldados com o único fim de frequentar um Best-seller. Isso a deixa consideravelmente enfurecida.   

A Senhora Inspiração até tentou, antes de recorrer ao seu amigo mais íntimo. Tudo o que arquitetou não deu certo, não conseguiu trazê-la de volta. Então, ela respirou fundo, enquanto engolia a compreensão de que nada do que dissesse tiraria a Criadora de Histórias daquele transe de dor e perda. Preocupada com a maneira esquisita e intrigante com a qual os personagens se enroscavam, como fossem se fundir, tornando-se algo sem história, decidiu que era hora de recorrer a ele.

Imagine ele...

Ele fica ali, parado à porta, contemplando a Criadora de Histórias. Já viu isso antes, o olhar adiante que impede o tocar em frente. Caminha até a varanda e fica algum tempo ao lado dela. Os personagens enroscados nem pensam mais no que os torna inimigos, apenas torcem pelo mesmo: que a Criadora de Histórias volte para eles.

Senhora Inspiração, a essa altura, tem de controlar taquicardia, porque acredita, há nem sabe quantas existências, que ele é o amor da vida dela, segredo que jamais revelará, porque ele não é dos que ficam.

Ele se senta ao lado dela, segurando a mão da Criadora de Histórias, o que ela sente como um calafrio. Ela o escuta, de dentro para fora: consciência, diálogo interno, demônios e anjos em uma sala de bate-papo. Ele diz, em silêncio. Ela responde, em voz alta.


- Eu entendo o que sente, mas você precisa escutar o óbvio, pois há sabedoria nele. 

- E o que o óbvio me dirá?

- Que nele cabe a impotência diante das perdas. Depois, ele insistirá em aconselhá-la... 

- Por quê?

- Porque o óbvio é óbvio...

- E o que ele dirá?

- Ele a aconselhará a aceitar o tempo, ele que chegará amansando a tristeza que se mistura à saudade que você sente, transformando-a em uma coleção de boas lembranças. 


Os personagens se desenroscam.

A Senhora Inspiração suspira profundamente.

Não há o que o Senhor Tempo não possa colocar no lugar. Ninguém que ele não consiga consolar no durante de suas perdas. Basta aceitá-lo e permitir que ele faça a sua (p)arte.

A Criadora de Histórias se levanta, precisa de um banho frio e café fresco. Os personagens se assanham em seus papéis ao se darem conta de que ainda existem.

A Senhora Inspiração segura a mão do Senhor Tempo e o leva para um passeio. Aprecia que ele dê a ela espaço para trabalhar. Aproveita-se desses raros momentos na companhia dele.

*****
A Criadora de Histórias chora, enquanto desliza a caneta sobre o papel, fazendo a alegria dos seus personagens. Ela sabe que adeus é de vibrar doído, dentro das pessoas. Sabe que melhor é deixá-lo vibrar, até se esgotar.

Também sabe - como se essa ciência tivesse sido deixada por alguém dentro dela - que o tempo há de colocar tudo em seu devido lugar. Que sentir a saudade abrandar não é escolher o esquecimento, mas sobreviver para se lembrar.

Imagine o último capítulo de um livro que você não quer terminar de ler, mas tem fim.


Imagem: The Girl I Left Behind Me © Eastman Johnson

carladias.com




Comentários

Paulo Barguil disse…
Imagino o último capítulo de um livro que não quero terminar de escrever...

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