quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

VERONICA >> Fernanda Pinho


Há alguns meses decidi que a casa precisava de plantas. Não temos crianças nem animais de estimação. Seria interessante colocar aqui dentro alguma outra vida que não fosse as nossas próprias. Fomos ao mercado e adquirimos dois vasos. Eu escolhi uma linda, com folhas delicadas e minúsculas florezinhas brancas. Veronica.  Ele escolheu uma outra menos atrativa, com folhas maiores, sem flores. E sem nome. Quer dizer, algum nome ela deve ter, me parece que toda planta tem nome. Mas eu andava tão encantada por Veronica que nem dei trela pra outra, coitada.  Nem no ato da compra nem depois.

Sorte é que ela, a outra, é dessas espécies que não exigem tanta rega. É que desenvolvi muito afeto e dedicação pela Veronica, tratava de regar, podar, colocar ao sol nos horários mais apropriados – segundo consultei no Google. Mas para a outra, o que restava eram umas molhadinhas quando eu me lembrava.

O cuidado dispensado à Veronica e meu comportamento relapso em relação à outra, naturalmente, fizeram com que elas tivessem uma trajetória diferente. Mas não a óbvia. Enquanto a outra parecia estar cada vez maior, mais verde e com aparência mais saudável, Veronica começou a secar, perder algumas folhas e todas as flores.  Um amigo que veio nos visitar – e que por coincidência trabalha com flores – deu logo o diagnóstico. “Isso não é planta de apartamento. Esse é o problema”. Mas, peraí, tudo bem que vivemos num apartamento não muito grande. Mas tem varanda, ar pra respirar, sol, água, carinho, afeto, bate-papo. Pois é, eu até falava com Veronica. Dizem que isso faz bem pras plantas, não faz? O que eu deixei faltar? Onde foi que eu errei?

Não aceitei o veredicto do amigo como o fim de tudo e passei os dias seguintes dedicando atenção redobrada. Para piorar, tínhamos uma viagem marcada e seria preciso deixar Veronica com alguém. Mas com quem? Depois de muita confabulação, ficou decidido que ela ficaria no jardim do prédio, junto com as outras tantas plantas, que recebem os cuidados de um jardineiro. A outra? Bom, a outra ia ficar em casa mesmo, já que podia resistir alguns dias sem água.

Ao voltar de viagem, a primeira coisa que quis saber é como estava Veronica. Passei pelo jardim e quase não a reconheci. O desbotado de nosso último encontro simplesmente havia desaparecido. Novas flores nasceram e eram ainda mais vivas que as primeiras que eu havia admirado. As folhas eram de um verde-alegria indiscutível.

Subi planejando encontrar um novo lugar para ela. Afinal, estava tão linda que merecia um destaque na minha sala. Não pude deixar de verificar que a outra, conforme esperado, seguia firme e forte. Decidi muda-la de lugar também. Mas o mais importante era decidir onde eu colocaria Veronica depois que eu a tirasse do jardim. Depois que eu a tirasse do jardim. De repente, a ideia me pareceu sombria e egoísta demais. Por que eu a tiraria de onde ela crescia feliz e saudável? Para torná-la um adorno morto na minha sala? Para ratificar minha condição humana de querer sempre ao nosso lado tudo o que amamos, seja em quais condições forem? Não, definitivamente não. Felizmente eu estava particularmente lúcida naqueles dias e decidi deixá-la no jardim.

Para mim, ficou a outra, a quem acabei me afeiçoando depois, e a lição do desapego. Que, eu espero um dia, saber aplicar também para pessoas, e não somente para plantas. 


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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

ASSUMINDO O SEU PAPEL >> Carla Dias >>

Minha mãe ensinou aos seus filhos, e muito cedo, que com as escolhas vêm as consequências, as responsabilidades. Não é uma lição muito difícil de se compreender, afinal, trata-se da pontuação que damos à nossa vida, a criação do ritmo da nossa existência.

Esse aprendizado, tão básico, tão óbvio, é também relegado quando se trata do que desejamos e do que realmente podemos conquistar. Em algum momento, muitos vão escolher driblar esse aprendizado, tornando-o obsoleto mediante necessidades pessoais. E tudo bem cuidar de si, antes do outro, de colocar-se em primeiro plano, afinal, a sua vida é nada sem você.

A grande questão nesse aprendizado tão básico, tão óbvio, é que ele não é alimentado somente pelas palavras e pelo cuidado das nossas mães ou durante a nossa vida escolar. É o tipo de ensinamento que temos de aceitar a cada dia, a cada escolha. Infelizmente, nem todos compreendem esse aspecto desse aprendizado. Nem todos estão dispostos a aceitar as suas exigências.

É fato que uma pessoa que escolhe, e trabalha muito para construir sua vida atuando na profissão que deseja, construirá um legado de acertos. Claro que nem sempre fará as escolhas certas, porque às vezes a vida pede que arrisquemos. Porém, é preciso compreender, aquele que ama a sua profissão e aquele que tem de se adequar à profissão possível, que as escolhas refletem não somente na sua vida pessoal, naquela onde cabem o senso de preservação e os anseios. Elas também refletem na sociedade da qual você faz parte, na qual você desempenha o seu papel de cidadão.

É mais fácil de se entender do que parece, basta um pouco de boa vontade. É assim: se você trabalha na área da educação e escolhe ser professor, você se torna responsável pelos seus alunos, porque irá ensiná-los a encarar a vida, oferecerá a eles as ferramentas para que construam suas histórias. Se você é um político, deve zelar pelos direitos dos cidadãos, atuando de forma a aplicar as leis e a distribuir as verbas para que se construa um país justo e capaz de crescer, em todos os aspectos. Se você é um empresário do setor alimentício, tomará todas as providências para que o seu produto não agrida a natureza durante o processo de fabricação, e para que o mesmo não ofereça risco à saúde dos seus clientes. Se você é um profissional que tem como função orientar o público, deverá, primeiramente, tornar-se apto a distribuir essas informações. É preciso saber sobre o que é falado, compreender a importância que há nessa função.

Para cada profissão escolhida, as devidas responsabilidades. Não podemos agir como se o que fazemos não provocasse consequências, senão viveremos sempre em um país onde o fiscal não fiscaliza porque recebe um dinheirinho por fora para fazer vista grossa ou por pura falta de vontade de cumprir a sua função. No qual empresários pagam um dinheirinho por fora ao fiscal, ou são bons mesmo na conversa e o dobram, para economizar onde não deveriam, colocando em risco a vida de pessoas que confiam nos serviços oferecidos. Um país no qual é fácil comprar e vender diplomas, colocando no mercado de trabalho muitos profissionais incapazes de desempenhar os seus papéis. Afinal, por que não ganhar um bom dinheiro extra?  E sermos atendidos por um médico que nunca colocou os pés na faculdade de medicina? Que tal?

Você é responsável pela posição que toma diante da vida. Não interessa em que área você atue profissionalmente, outros sempre sofrerão as consequências das suas escolhas. Ao escolher o benefício próprio, o “jeitinho”, ao não se importar com o outro, você compactua, não vem ao caso em quanto, para uma tragédia. Você até pode ser uma boa pessoa, mas também é preciso ser uma pessoa consciente do que suas ações provocam.

Não estou panfletando que você deve ser responsável por todas as pessoas do planeta. Seja responsável por si mesmo e pelas suas escolhas. Pense muito bem sobre decisões que precisa tomar e estão ligadas ao bem-estar alheio. Assim, quem sabe, impunidade e tragédia não tornem temas recorrentes nas conversas de domingo, durante o almoço com a família.

Namastê.

carladias.com

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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

MAIS UMA VEZ O MESMO ASSUNTO
>> Clara Braga

Sei que, de domingo para cá, falar da tragédia de Santa Maria já se tornou exaustivo. Não queria ser mais uma na multidão falando do mesmo assunto que, de tanto que já foi falado, talvez não tenha nada mais a acrescentar, mas estou sentindo necessidade de me expressar a respeito do ocorrido.

Nessas horas em que vivenciamos momentos trágicos, talvez o melhor seja mandar vibrações positivas em forma de orações e nos calarmos. Quando falamos demais, começam a aparecer pérolas como "se eles estivessem na igreja não teriam morrido", como se nunca uma igreja tivesse pegado fogo, ou como se diversão fosse sinônimo de coisa ruim.

Mas a verdade é que, por mais trágico e triste que tenha sido, esse era um incidente anunciado. Espero que não me entendam mal, mas, por mais cruel que possa soar, acho que demorou para acontecer. Há um tempo frequento casas noturnas em Brasília e, de uns tempos para cá, passei a tocar com minha banda em algumas delas, e uma das minhas preocupações sempre foi: já pensou se acontece alguma coisa aqui, nem todo mundo vai conseguir sair. Nenhuma casa tem saída de emergência, e muito provavelmente não terão, pois não convém ao dono deixar o local fechado por uns tempos e perder dinheiro com reforma.

E assim vai continuar até que fiscais, comovidos com o ocorrido, comecem a ir até esses lugares e mandem fechar as portas até que passem a ter melhores condições de funcionamento, ou então que as pessoas, também comovidas e assustadas, se revoltem e parem de frequentar, causando prejuízo ao local até esse ser reformado. Ou ainda que a lei mude e não permita que casas noturnas tenham apenas uma porta. Não sei apontar qual a melhor forma de resolver o problema, mas essa é uma questão de extrema urgência, dessa vez morreu uma quantidade enorme de pessoas que estavam curtindo uma festa, mas o que ninguém diz é que todos os dias músicos, garçons, recepcionistas, seguranças, caixas, etc, arriscam suas vidas trabalhando em locais com essas condições. Vamos esperar mais uma leva de pessoas morrer para tomarmos uma atitude?

Espero que, no mínimo, esse ocorrido possa trazer consequências positivas no sentido de haver mais manutenção e fiscalização nesses locais, que deveriam oferecer lazer e diversão com segurança ao público. Desejo que, pelo menos, além de muita tristeza e dor, essas mortes possam trazer mudança.

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

PURIFICAÇÃO II >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação do dia 14/01/13)


Na praça, em frente à matriz, a Santa Inquisição cumpre mais uma vez o doloroso dever de queimar inimigos da Sé. Lanças mantêm a plebe longe das fogueiras do sacrifício. O escrivão apresenta o primeiro condenado, um tal de Pero, criador de porcos, preso como herege, que não se confessou, não se arrependeu nem pediu clemência ao Tribunal. Bastaria acender a fogueira, mas o bispo não se lembra do caso e pergunta:

- Que heresias ele proferiu? – perguntou o bispo

- Falou mal dos padres e da Igreja.

- Um pecado tão simples! Todo mundo fala mal de padre, atualmente, e não acaba na fogueira.

O escrivão explicou então que Pero danou-se porque quis. Bastava-lhe confessar, pedir clemência, dizer que estava bêbado e nunca mais faria isso. Jurasse obediência à Santa Madre Igreja, entregasse alguns porcos a título de indulgência, e se livrava. Quando muito, pra não falar mais bobagens, ficava sem a língua, mas vivia. Mas não, nem os olhos baixou diante dos juízes. Arrogância e silêncio foi só o que ofereceu. Agora é tarde.

Aqui a clemência máxima que se permite é, em caso de confissão e arrependimento, a corda piedosa que destroça o pescoço e poupa o confesso de ser queimado vivo. Agora só pode escolher entre morrer antes ou durante o fogo. E o bispo grita para o condenado:

- Arrepende-te, pecador! Confessa e te arrepende, e assim mando torcer a corda para que não sintas as chamas da purificação. Não posso dar-te o paraíso, mas irás ao purgatório. Se não confessas, serás queimado vivo e as chamas consumirão tua alma por toda a eternidade.

Pero se remexe no tronco, e brada:

- Que Vossa Reverendíssima me conceda a graça de apressar o carrasco para que eu não mais contemple Belzebu travestido de bispo! Que a morte me livre do inferno desta praça, das suas igrejas, conventos e palácios!

O sacerdote está perplexo. Não esperava isso. Precisa calar o herege antes que a coisa piore, mas o carrasco, confuso, não percebe a ordem, e o porqueiro continua:

- O que devo confessar? Do que devo me arrepender? Eu não tinha o que dizer diante dos inquisidores, mas posso falar agora a essa gente que se diverte com o espetáculo. Minha irmã foi levada pro convento por causa do namoro com um seminarista, protegido do cardeal, que ameaçou largar a batina por ela. Disseram que ela o tinha enfeitiçado e precisava ser exorcizada. Depois de servir à luxúria do clero, foi queimada por carregar no ventre o filho do demônio.

O bispo começa a compreender. Então é isso, o blasfemo é irmão da bruxa. Deveriam ter-lhe arrancado a língua. Malditas palavras, a plebe ainda se lembra da noviça. Péssimo exemplo: além de não confessar, reafirma e acrescenta mais heresias. Esse é o preço que pagava por sua misericórdia. Só queria dar oportunidade ao condenado de não sentir as chamas derretendo suas carnes.

Agora, o estrago está feito. Blasfêmias foram repetidas em pleno Auto de Fé e ouvidas pela turba, que já se assanha contra o Ofício aos gritos de “Assassinos! Corruptos! Fornicadores!” Antes de descer do estrado, o bispo grita com o carrasco:

Acende! Não pergunta mais nada a ninguém. Acende todas as fogueiras!

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domingo, 27 de janeiro de 2013

VENDE-SE FELICIDADE! >> Sílvia Tibo

 

 

Quando eu era criança, ficava intrigada ao ouvir um adulto dizer que não podia comprar alguma coisa. Pensava sempre com os meus botõezinhos (já bem agitados à época) que aquilo não fazia o menor sentido. Afinal, o que é que custava pegar a caneta e preencher uma das muitas folhinhas do talão de cheques, no valor da mercadoria desejada?

E só não pensava que seria mais fácil ainda passar o cartão de crédito na maquineta da loja (como, imagino, devem cogitar as crianças de hoje), porque esse instrumento de compra ainda não havia sido inventado à época.

Mas não demorou muito para que eu passasse a ter noção do quanto as coisas custavam e do quanto era difícil consegui-las. Em pouco tempo, percebi que as folhinhas de cheques, em si mesmas, não tinham qualquer serventia. Era preciso trabalhar (e muito!) para que elas adquirissem algum poder de compra.

Para a minha total decepção, num belo dia, descobri que os tais papeizinhos não podiam ser simplesmente trocados por bonecas, vestidos e cadernos, como eu supunha. Definitivamente, não era bem assim que a coisa funcionava.

Essas lembranças da infância me vieram à mente num dia desses, assim que recebi por e-mail um arquivo intitulado “E se o dinheiro não existisse?”. Trata-se de um vídeo a respeito da influência que o dinheiro exerce sobre nossas vidas, sobretudo no que toca às nossas escolhas profissionais.

De acordo com o narrador, em regra, não somos orientados por nossos pais e professores a escolher a profissão que nos trará maior satisfação pessoal, mas sim aquela que nos proporcionará melhores resultados financeiros, ainda que, para tanto, seja necessário deixar de lado nossas verdadeiras aptidões. E essa educação distorcida faz surgir um sem número de profissionais frustrados e medíocres, que, sem o menor amor pelo que fazem, limitam-se a cumprir suas obrigações diárias para receberem a remuneração ao final do mês.

Por coincidência (ou não), poucos dias após assistir ao vídeo, recebi em casa um jornal cuja reportagem de capa trazia a velha e famigerada pergunta: “O dinheiro compra felicidade?”.

Embora o assunto nada tenha de novo, o que me chamou a atenção, nesse caso, foi o resultado da pesquisa feita por uma empresa de consultoria de investimentos em treze países, inclusive o Brasil, em que noventa e três por cento dos entrevistados responderam de forma afirmativa à indagação.

Não discordo dessa maioria esmagadora. E seria hipocrisia da minha parte dizer o contrário. Afinal, no mundo em que vivemos, o dinheiro é essencial para se concretizar a maior parte dos anseios, que, em geral, estão mesmo voltados, direta ou indiretamente, à aquisição de bens de consumo. Além disso, na prática, é preciso recorrer ao dinheiro até mesmo para que se tenha acesso a direitos básicos como saúde e educação de qualidade, que deveriam ser (mas não são) fornecidos gratuitamente e a todos, de forma igualitária.

Inspirada pelo vídeo e pela reportagem de capa do jornal, fiquei imaginando como nos comportaríamos se, num belo dia, acordássemos com a notícia da promulgação de uma lei determinando a extinção do dinheiro ou proibindo o seu uso como instrumento para a aquisição do que quer que fosse.

No estágio em que estamos, acredito que a novidade, por si só, não nos tornaria consumidores menos ávidos. Afinal, continuaríamos sujeitos aos bombardeios e apelos diários dos meios de comunicação, que nos impelem a comprar sempre e cada vez mais. Na falta do dinheiro, certamente nos valeríamos de algum mecanismo de troca, a fim de darmos continuidade a todo esse processo de acúmulo de bens.

Cheguei à conclusão, então, de que não é o dinheiro o vilão da história. O problema está em nós mesmos, que, insatisfeitos com aquilo que já temos, criamos novas necessidades a todo o tempo e, a fim de supri-las, consumimos de forma desenfreada e irresponsável. Movidos por desejos que parecem não ter fim, compramos coisas das quais não precisamos, com o dinheiro que muitas vezes não temos. Endividamo-nos, irracionalmente, convictos de que o dinheiro pode mesmo comprar tudo, inclusive a tão sonhada felicidade.


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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

UM PRATO CHEIO DE INCOERÊNCIA
>> Mariana Scherma

Eu sou expert em pegar conversas alheias engraçadas, confusas, suspeitas, enfim... Vai ver é por isso que vivo me perdendo pelo caminho, chegando meio atrasada ou esquecendo o que tinha pra fazer: ouvir desconhecidos conversando é sempre mais interessante. Mas admito que o bate-papo de mulheres e seus regimes malucos ainda é o tipo de conversa que mais desperta a minha atenção. Talvez por elas acreditarem num milagre que não existe.

Essa semana dei pause em todos os meus pensamentos só pra ouvir o bate-papo na hora do lanche. Eu, que sou a mais cética quanto a dietas milagrosas, estava feliz com a minha laranja. As moças na mesa ao lado também estavam felizes, mas com um lanche tão cheio de molho, maionese e cia. que dava quase pra tomar de canudinho toda aquela gordura. E, pra minha surpresa, explicavam uma para a outra, como é (sofrido) o regime de cada uma. Uma conversa meio surreal aos meus ouvidos.

— E como anda seu regime?, perguntou uma delas pra outra.
 Tá difícil. No almoço, eu como só uma saladinha de alface com uns tomates, respondeu.
— Eu como só um omelete de claras, emendou a outra.
— Pra mim, os resultados estão demorando a aparecer, fechou a outra.

Precisa dizer que eu olhei assustada pra elas? Ok, no almoço a sujeita come só uma salada, a amiga um pratão de omelete, mas lá pelas 10h30 da manhã elas devoram uma quantidade de gordura trans que poderia entupir fácil qualquer artéria desprevenida. Incoerência, a gente vê na mesa ao lado.

É certo que essa história de conselho é a maior besteira. E, se eu virasse pra dar uma dica a elas, provavelmente seria apedrejada com um pedaço de bacon. Mas perder peso tem a ver com fechar a boca e  com força de vontade. Falar em regime quando se devora um x-absolutamente-tudo não vai fazer a gordura passar reto no seu organismo. A maioria das mulheres que abusam das calorias adora virar e dizer que alguém é magra de ruim. Odeio essa expressão. Genética conta, ok. Mas nenhuma genética é superpoderosa o suficiente pra aguentar os seus deslizes diários.

Uma vez, um amigo me disse que as pessoas não querem emagrecer, querem ser emagrecidas. Ele tem toda a razão. Vai ver por isso que esses cosméticos que garantem que você perde medidas dormindo e ainda deixam seu corpo sarado (pausa pra risada incrédula) fazem sucesso. É muito mais fácil reclamar que você anda com dificuldade pra emagrecer sentada, botando um montão de caloria pra dentro, do que ir todo dia à academia, comer com moderação e encarar uma vida saudável.

Minha teoria é que, quando você come algo com a consciência pesada, seu peso também aumenta. Já recebi um monte de crítica por isso, mas comigo funciona. Eu amo um docinho e repito a sobremesa nos finais de semana, mas como feliz porque malhei com vontade e comi (de fato!) só uma saladinha na hora do almoço durante toda a semana. A gente faz escolhas nessa vida. O que você põe no prato é só uma delas.

A mulherada gasta mais energia falando que odeia fazer esporte, odeia quem ama academia, odeia ficar de dieta, odeia a Gisele Bündchen, que acabou de ter filho e está magérrima, enfim, odeia. Eu sugiro que levem esse ódio pra academia. Depois de uma hora de exercício, ele se transforma em serotonina. E, olha, isso sim é o milagre da felicidade. Nele eu acredito.


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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O POETA E AS FACETAS DO AMOR
>> Carla Dias >>




Quem acompanha os meus textos aqui no Crônica do Dia, já deve ter lido a respeito dele. Kleber Albuquerque, além de um querido amigo, é dos compositores, dos músicos-poetas que frequentam minha benquerença. Ele está com um novo disco, e claro que eu não poderia deixar de falar sobre ele.

Mil e uma, um montão de, tantas outras, 10 coisas para serem ditas no lugar de “eu te amo”, frase que já vem exigindo mais do que antes, desde não se sabe bem quando, porque se tornou frágil de tanto ser dita porque sim, sem que o sentimento tenha a profundidade da verdade.

O novo disco de Kleber Albuquerque, 10 Coisas Que eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo, tem quatorze faixas, não dez. Não é um trabalho baseado na numerologia, mas sim nas inúmeras faces do amor, em todas as suas nuances, acertos e erradas. É um disco de canções que despem o amor na extensão que lhe cabe. Há dias em que o amor ama e há outros em que ele grita saudade. Às vezes ele dói, banca o ciumento, depois o debochado. Há dias de amor e ironia, e de amor pelo filho, pelos pais, pelo país, por uma ideia, por uma ideologia, por um desejo. Há até o amor que se sente pelo amar.


As letras de Kleber Albuquerque se enquadram perfeitamente na sonoridade do disco. Ele é dos poucos artistas que consegue passear pelo rock, pelo samba, pelo pop, e por aí vai, sem perder a identidade ou desandar com a sintonia necessária entre as canções. Em 10 Coisas... ele conta com músicos que vêm colaborando com sua música há um bom tempo, mas também com novas parcerias, o que traz para esse trabalho certo frescor instrumental. O mesmo serve para os parceiros de composição.

A poesia de Kleber continua marcando sua música. O compositor não se atém ao convencional, criando, às vezes com simplicidade deslumbrante, um cenário de emoções diversas. Como em Permitido, na qual entoa, delicadamente, “sabe que o amor é fera voraz/mas sem ter paz não é amor/é vaso sem flor, chapéu sem céu/lápis sem cor, silêncio no breu”. Procura no Google tem um pé na contemporaneidade tecnológica. Kleber se vale da mais importante ferramenta de busca da internet para abordar temas mais profundos: “procura no google/lembra daquilo que te contei/ontem à noite havia uma estrela fora do lugar/pode verificar/eu contei/pra você”. Vazante traz profundidade de mar. Com participação de Elaine Guimarães nos vocais, a canção invoca a fluência das águas para desaguar poesia: “lágrima/água com navalha/migalha de mar/mágoa é água parada/é água parada”. Em Maquinário ele se assume poeta: “sou poeta/que sabe que a morte é certa/sou criança/que sabe que a vida é dança/enquanto dança”. E a poesia continua a se misturar à música, sendo magistralmente conduzida nas outras canções de sua autoria: BesouroCanoeiroConfiança e Ela Tem Fogo.


As parcerias abrilhantam o disco. Tevê, canção que também fez parte do disco anterior de Kleber, Só o Amor Constrói, ganhou um novo arranjo em 10 Coisas... Parceria com Zeca Baleiro, que também participa da faixa, a canção aborda algumas formas de distração que nos impedem de viver a vida com mais propriedade: “um filme na tevê/um corpo no sofá/o tempo pra moer/o vidro do olhar/e a vida a passar/a vida sempre a passar”. Sujeito-Objeto, parceria com Gabriel de Almeida Prado, é um jogo de palavras para dizer o amor perguntando sobre significados aos dicionários Aurélio e Michaelis de forma muito original, assim como ao professor Pasquale. “ei, pasquale/por que o andar dessa menina/sempre rouba palavras da minha boca?/ei, Aurélio/ por que o olhar dessa garota planta versos na minha cabeça oca?”. Devoluto, canção composta em parceria com Sérgio Natureza, e que conta com participação especial de Zeca Baleiro, trata da geografia emocional: “ali.../mapas celestes/de lestes quase orientes/e órion que assiste/ao triste fim da gente”. Brincadeira de Amor, parceria com Sergio Lima, chega ao ritmo baiano: “me deu uma leseira/num domingo em são salvador/mas vou subir a ladeira/pra gente se encontrar no pelô/ó, neguinha, te quero comigo/pra fazer brincadeira de amor”.  Com Lúcia Santos, Kleber compôs duas canções: Terra do Nunca All Star (Single Soul)Terra do Nunca anuncia “antes/que a cegueira me tome/pelo glaucoma/quero ver o amor de perto.” A partir daí, o amor ultrapassa fronteiras, envolve criadores: “quero ver o amor de perto/inventado por da vinci/pintado por michelangelo/com certeza matemática/sem binóculos ou obstáculos. All Star (Single Soul) é uma bela canção que pincela o solitário e sua rotina: “estar sozinho é meu exercício diário/de bordo/aeroporto rodoviária banco de praça/livro de bolso quarto de hotel/tevê a cabo”.

Em 10 Coisas Que Eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo, Kleber diz muito e vai além, mergulhando no amor sem ater-se a uma versão reduzida do seu significado e do seu objeto de desejo. O amor, neste disco, é dito, cantado, tocado com a pluralidade que lhe cabe. 

BESOURO - Kléber Albuquerque




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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

AULA DE DESCRIÇÃO >> André Ferrer


Há um limite para as paixões humanas quando elas provêm dos sentimentos, 
mas não há limite para aquelas que sofrem 
a influência da imaginação.

Honoré de Balzac


A professora pendurou dois cartazes no quadro negro. Casa, riacho e cisnes. Um gato e o seu novelo de lã. O melhor acontecimento da tarde para Luiz Bernardo. Ele estava livre do “Arme e Efetue”.

Aliviado, guardou o caderno de aritmética. O suor da testa escorria para o outro lado, agora, por causa da inversão da cabeça. No próximo ano, de acordo com a sua mãe, ele voltaria ao período matutino. Fabrícia continuaria à tarde. Continuaria por causa da avó, que cuidava dela enquanto a mãe trabalhava. Segundo dissera, os afazeres domésticos rendiam mais para a velha, à tarde, com ela na escola. Ideia estranha, que começava a incomodar Luiz Bernardo.

A sensação que lhe tomava a cabeça também era estranha. O menino costumava ficar invertido até o “limite”. Depois, ele não sabia. Ele tinha medo de descobrir.

No fundo da sala, a imagem de Fabrícia paralisante. O contorno das coisas, devido ao “limite”, já começava a ficar embaçado. Em casa, uma vez, repreenderam-no com inesquecível energia. Perigo enorme se o sangue ocupasse a cabeça por tanto tempo! Ficaria roxo. Desmaiaria. Conforme lembrava, a reprimenda fora desagradável e ajudara-o a fixar o significado de uma porção de palavras.

Toda palavra impressionava-o quando nova. “Limite”, sem dúvida alguma, impressionava-o apesar de já ser uma palavra antiga. Era do ano anterior e a conhecera por causa de um trem que fazia manobras intermináveis e bloqueava o caminho da escola.

— Oh, menino! — Dissera o pai. — Entre no carro. É perigoso! Criança não tem limite. É como este trem a perder de vista...

Então era isso! O que determinava que se visse ou não o fim das coisas era o limite!

Gostaria de usar “limite” na descrição. Endireitando-se, procurou algum motivo para o emprego desejado. Inútil. Nem os pássaros nem a casa davam espaço àquela palavra. No cartaz ao lado, gato e seu novelo, tampouco. Luiz Bernardo adorava escrever. Sentia-se mais à vontade ao compor descrições a partir de figuras do que ao resolver problemas com números. Ele jamais encontrara dificuldade naquele tipo de exercício. Por isso, sentia-se mal. Estava frustrado. Ele não conseguia encontrar uma única frase pertinente às ilustrações na qual figurasse a palavra “limite”.

Olhou para trás e viu no alto da cabeça de Fabrícia como os fios escuros, brilhantes e emparelhados estavam perfeitamente repartidos. Naquele momento, a linda criança também escrevia. Mantinha a cabeça inclinada sobre o caderno.

Luiz Bernardo descobriu, assim, um emprego para a expressão “falta de limites”. O trabalho da mãe de Fabrícia e os argumentos da avó para que a menina continuasse no período vespertino, de fato, aumentavam aquele sentimento estranho, que era desconforto. A sensação de que alguém lhe segurava as costelas quando ele tentava respirar não tinha limites.


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domingo, 20 de janeiro de 2013

TODOS OS NOMES >> Whisner Fraga

Antigamente, o escrivão decidia o nome de muita criança. Em geral, era o pai que ia registrar o filho, uma vez que a mãe se dedicava a cuidar do recém-nascido. Aí é que a coisa desandava, pois homem é menos ligado a detalhes do que mulher. Então, meu sogro chega à mesa do atarefado escriba e pede que lhe faça o favor de oficializar a paternidade. O nome da criança?, indaga o sujeito, enquanto gira uma manivela que posiciona o formulário na máquina de escrever. Gimenna, responde Dorival. Para surpresa de todos aqueles que ouviam, o funcionário retruca: mas não é possível, isso não é nome que se dê a uma criança, coitadinha.

Meu sogro é uma pessoa do bem, humilde até onde não se pode e até onde não mais se encontra. Retornou para casa e foi procurar a esposa. Minha sogra é uma pessoa do bem, humilde até onde não se pode e até onde não mais se encontra e confabularam: se o doutor pensa assim, acho que devemos pensar melhor E é por isso que minha esposa hoje se chama Ana Lúcia.

Já escutei história semelhante de meu pai, só que, no caso, ele não se deixou influenciar. Bateu o pé, inventou que havia sonhado com um alemão, daqueles alemães bem brancos mesmo, barba ruiva, gordo e arrogante, que prenunciava um destino de sofrimento para o filho, caso não aceitasse aquele nome. Supersticioso, foi o bastante para que o oficial cedesse.

Em alguns casos, eu até concordo com a intervenção. Um Dois Três de Oliveira Quatro. Quem gostaria de se chamar assim? Ou Esparadrapo Clemente de Sá? Ou Ava Gina? Ou Adolpho Hitler de Oliveira? Hoje, o oficial ainda detém um certo poder. Se achar que o nome escolhido pelos pais não é conveniente, porque tem dúvida se é vexatório, que pode expor a criança ao ridículo, primeiro questiona os tutores. Se insistirem, o responsável pelo registro pode encaminhar um pedido para que o juiz faça uma análise.

Mais comum são os erros de grafia. Tenho um amigo que deveria se chamar Demis, pois a mãe desejava homenagear o famoso cantor grego Demis Roussous. Acabou se chamando Denis, claro. Como as letras “m” e “n” são muito parecidas, só ficaram sabendo do equívoco algum tempo depois, quando foram namorar a certidão de nascimento. Acho que muita gente tem história parecida, pois aqui no Brasil as pessoas são muito criativas e sempre querem ser diferentes.

Eu também sofri durante muito tempo com meu nome. Não que não goste dele – aprecio bastante, obrigado. É que basta me perguntarem como me chamo para que eu escute, em seguida: Como? Em alguns casos, a coisa piora quando tento soletrar: dábliu agá. Como? Alguns confundem o “w” com o “y” - é mais comum do que podem imaginar. Hoje eu não perco mais o sono por isso. Arranjei uma solução muito simples: quando me pedem o nome, saco a carta de motorista e facilito as coisas para todo mundo. A convivência requer essas soluções, temos de tentar facilitar a vida de todos.

Há algum tempo que os brasileiros se inspiram em personagens de novelas, cantores populares e jogadores de futebol para escolherem os nomes dos filhos. Assim que uma pessoa nos revela como deve ser chamada, já podemos chutar sua idade: sim, isso também é moda. Basta ver como os atores globais mencionam a prole: Jerônimo, Joaquim, João, Maria. Isso é bom. De qualquer maneira, acredito na boa intenção de todos e acho que as pessoas devem ser respeitadas e que ninguém deve ser julgado por uma coisa tão banal como o nome. E é importante nos lembrarmos que qualquer palavra nada mais é do que um amontoado de letras que em algum momento da história fizeram algum sentido a um determinado povo e que se perderão para sempre na finitude do tempo.

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sábado, 19 de janeiro de 2013

PRECISA-SE DE UM VIOLÃO [Ana González]

As cidades possuem personagens. Algumas delas são figuras típicas por comportamentos diferenciados, mais ou menos estranhos. São muitas vezes caminhantes pelas ruas que acabam por se fazer conhecer por todos. Alguns deles ganham simpatia. Outros provocam medo e até repulsa. Mas todos ocupam um espaço que é só seu nesses cenários em que vivemos nossas histórias.

Como uma curiosidade, quase um exercício de fotografia, certo dia, observando tipos urbanos, flagrei um senhor que tocava modinhas brasileiras à frente da Igreja do Largo de São Francisco de Assis, no centro de São Paulo. Sob um guarda-sol-chuva cor-de-rosa grande, daqueles de praia, ele tocava seu violão não se importando comigo nem com quem passava na rua. Mas, olhou para mim e sorriu. Fazendo pose para a foto? Depois disso, andando por lá, ainda ouvi o som de seu violão sob a sombra colorida.

Da penúltima vez, ele não tocava, estava sentado e quieto. Aproximei-me e lhe perguntei por que não tocava. Então ele me contou que o violão tinha caído de um lugar alto e se quebrara a ponto de não ser possível mais usá-lo. Notícia inesperada e desagradável. A vida e suas surpresas, não é verdade? Disse-lhe que ficara triste e esperava que a situação se resolvesse logo. Mas não pude ir além disso.

Uma ou duas semanas depois, passei por lá e o procurei numa mistura de ansiedade e preocupação. Lá estava ele, sentado em silêncio observando a praça.

Aproveitei a oportunidade e puxei prosa. Nome completo: Antônio Conceição da Costa. Vinte e um anos em São Paulo. Origem: Rio Grande do Sul. A esposa e companheira das missas aos domingos na Igreja falecera há cerca de seis anos. A voz dele embargou quando confessou a ausência que sentia dessa parceria. Contive a vontade de lhe perguntar mais sobre essa pessoa de cuja presença eu nunca suspeitara.

Eu não havia esquecido a história do violão caído. Ela havia colado em mim. E eu não saberia explicar o motivo. Isso ocorre sem que possamos fazer nada contra. Um problema, notícia ouvida no rádio ou lida no jornal, ou ainda na TV. Fica conosco dentro de nossa mente, grudada às nossas emoções.

Então ele me contou de pessoas que se preocuparam em ajudá-lo a arrumar um novo violão. Era nisso que eu estava pensando, embora não lhe tenha dito nada. Como arrumar um violão? E fui mais longe em minha imaginação e acreditei piamente que seria natural que todos o ajudassem. Que tal uma colaboração coletiva? Ainda melhor do que essa alternativa seria uma verba pública muito justa para ele que completa a paisagem e encanta os passantes, em evidente utilidade pública. Não é ele mais útil do que muitos de suas excelências (em absurdo número crescente) nos departamentos públicos federais e estaduais e municipais, renovando a frota de carros ou reformando apartamentos com detalhes de luxo?

Pensei nas redes sociais. Pensei tantas coisas. Mas, o meu tempo e a fraca vontade não têm sido tão grandes como as boas intenções de minha parca generosidade. Quem sabe ainda escrevo para algum jornal? Ou para entidades que trabalham pela cidade? Quem sabe eu mesma não banque o Papai Noel em pleno Carnaval?

Cheguei a imaginar uma placa. Veja se ela está boa: “Precisa-se de um violão. Local: Largo do São Francisco. Para pessoa boa, honesta e de bons princípios que toca de graça e não reclama de nada.” Que tal? Acrescento algum dado? E não consigo parar de imaginar, de argumentar internamente nessa surda revolta contra tais peças imprevistas que interrompem nosso ritmo cotidiano. Na verdade, há mais de uma necessidade, são duas (duas placas?). Há a precisão de uma viola para canções em uma praça no imenso espaço urbano. A outra é a precisão de calma em meu coração agitado em relação às leis naturais da vida e do mundo.

www.agonzalez.com.br

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

GENÉRICO >> Zoraya Cesar

Mão-de-vaca era seu apelido. Pão-duro, lhe diziam; econômico, respondia.  Não que fosse inteiramente sovina, ele até gastava, mas invariavelmente optava pelo mais barato, ainda que a qualidade não fosse das mais recomendáveis, mesmo quase sempre se dando mal. Era como uma doença, ele simplesmente não resistia a escolher o mais barato, era irreprimível. 

Há sempre um dia (e, volto a lembrar aos Amigos Leitores, “sempre tem um dia que...”), porém, que a coisa desanda, o sujeito perde a mão e também o bom senso. A mulher passou dias reclamando que a casa estava cheia de montículos de pó, os cupins estavam se refestelando na madeira dos móveis - antigos, herança de família que já causara várias cizânias para ver quem ficava com o quê. Principalmente o baú que guardava as cinzas da avó materna (ah, nem me perguntem por que cargas d’água alguém teria em casa as cinzas de um parente. Não faço idéia. Sei apenas que, neste caso, não era por motivos religiosos. Há quem empalhe os animais de estimação, não é? Tem de tudo nesse mundo, ora pois. Voltemos).

Havia duas empresas de descupinização na cidade; uma, tradicional, de qualidade comprovada (inclusive por amigos e familiares) e, naturalmente, cara; da outra, ele não tinha qualquer referência, a não ser que era muito, muito mais barata. Mesmo sob os protestos veementes da esposa, ele não teve um segundo de hesitação e contratou mesmo esta última.

O fiasco, como era de se esperar, foi retumbante: ao invés de morrerem, os cupins ficaram ainda mais famintos. E vingativos também, porque o baú onde as cinzas avoengas repousavam foi atacado vorazmente. A empregada, pressurosa em manter a casa limpa, varreu alguns – muitos – gramas do pó defunto junto com o pó da madeira, pensando tratarem-se da mesma sujeira. As irmãs mais novas da mulher ameaçaram tirar o sacrossanto baú de sua guarda; os cunhados ameaçaram processá-lo por desrespeito aos mortos; a mulher ameaçou sair de casa e pedir o divórcio. Foi um Deus-nos-acuda. 

Mas, enfim, como para tudo tem jeito na vida, até para a morte, segundo dizem, colocaram o resquício do que sobrara dos restos mortais em um recipiente de ferro trabalhado, bonito e imune a cupins, como convém a um receptáculo destinado a tão nobre função.

Passado o susto, contratada a firma de qualidade indiscutível, cessadas as ameaças, permanceu, no entanto, o mau humor da mulher. Acabaram os chamegos, os beijinhos e... vocês sabem o quê.

Ele já estava ficando doido, e ela, firme, inabalável.

Foi então que o desespero lhe deu uma brilhante idéia. A mulher adorava Roberto Carlos - o cantor, não o jogador de futebol, pelo amor de Deus! E, não por acaso (aqui entre nós, não acredito em acasos), o Rei estava fazendo um show num cruzeiro marítimo.

Decidiu que essa era sua grande chance, ela não resistiria a tal demonstração de amor e arrependimento.

Ele se deparou, no entanto, com dois detalhes (tão pequenos de nós dois): os ingressos estavam caríssimos; e havia uma alternativa bem mais barata. Era o show apresentado pelo sósia do cantor, também em um barco (incomparavelmente menor e mais simples, claro), na mesma época e cidade. E ele, maldito vício, não resistiu e comprou ingressos para esse último, sem o mínimo pudor. Afinal era um sósia perfeito!

Garantindo que ela iria realizar o grande sonho de assistir a um show de música do Roberto Carlos (atentem à sutileza da frase), levou-a para fazer o mini-cruzeiro. Ao se deparar com a realidade, a mulher não deu uma palavra, nem pareceu decepcionada. Cantou, dançou, brincou, participou do baile de máscaras organizado depois do espetáculo. Ele preferiu ficar no tombadilho, e, aliviado pelo fato de a mulher não ter demonstrado contrariedade e estar se divertindo, acabou por dormir em uma das inúmeras espreguiçadeiras espalhadas pelo deck.

Acordou de manhã cedo, assustado, e correu para a cabine, é hoje que meu casamento acaba, ela vai achar que passei a noite na gandaia!

Encontrou-a, porém, de excelente humor, sorridente, feliz.

- Que maravilha de surpresa, querido! Adorei sua fantasia de Batman! Não tinha idéia que você dançava tão bem! Andou fazendo aulas escondido?

Como? Sua mulher passara a noite com um homem mascarado de Batman, pensando que era ele? E você não percebeu a diferença?, gritou, apoplético.

- Qual o problema?– defendeu-se ela, ofendidíssima - Você não disse que eu ia realizar um grande sonho? Se eu tive de me contentar com o genérico do Roberto, por que não podia me divertir com o genérico do marido, hein?

Ele abaixou a cabeça.

(Me disseram que a família o obrigou a fazer um tratamento. Não sei se já teve algum resultado, ou se terá algum dia.)


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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

OS CHILENOS >> Fernanda Pinho




Estou há nove meses em Santiago, de modo que já me sinto apta para parir algumas opiniões acerca do povo chileno que, com exceção dos mapuches, não possuem traços indígenas, muito comuns entre os peruanos e bolivianos. Eis minha primeira observação para quem acredita que chileno tem cara de índio. Pois é, não tem.

Os chilenos são muito patriotas. A princípio eu pensava que a enorme quantidade de bandeiras do Chile espalhadas por Santiago fosse devido ao fato de aqui ser a capital federal. Mas à medida que fui tendo a oportunidade de conhecer outras cidades, notei que é um costume do país inteiro.  Costume ainda mais evidente durante o mês de setembro, que é quando eles comemoram as festas pátrias. Nessa época, todas as casas e prédios, comerciais ou residenciais, levantam um mastro com a bandeira. As ruas se colorem de vermelho e azul. Os supermercados, além de decorados com o mesmo motivo, vendem uma infinidade de apetrechos pátrios. Tipo Brasil em época de Copa do Mundo, sabe como? E quando eu pensava que já tinha visto os chilenos demonstrarem todo o seu amor pelo país, me surpreendi ao ver a multidão entoar o famoso grito “Chi-chi-chi-le-le-le! Viva Chile”, à meia noite da virada do ano, na orla da praia onde eu estava.

Os chilenos são cavalheiros. Certa vez recebi um buquê de flores de um amigo do meu marido, que veio à nossa casa pela primeira vez. Um outro me deu uma caixa de chocolates. Acho que no Brasil esse tipo de coisa dá briga.  E se um homem e cinco mulheres estiverem esperando um elevador, ele só irá entrar depois que as mulheres estiverem devidamente acomodadas e, enquanto isso, ele ficará segurando a porta do mesmo (sempre quis usar isso) para que as moças entrem em segurança.

Os chilenos são estressados no trânsito. Acho que são mal acostumados, na verdade. O trânsito aqui nunca para. O máximo que acontece é uma leve lentidão em horários de pico. Já é motivo para buzinaço. E quando a via está liberada, disparam na altíssima velocidade permitida pelo país sem radares. Os pedestres, no entanto, tem prioridade absoluta. Você coloca o pé na rua e pode atravessar a passos de tartarugas. Vão te respeitar.

Os chilenos cortam as palavras ao meio. Pronunciar S ou Z no fim das palavras, nem pensar. O povo aqui é “feli” e não “feliz”. Também fazem contração de palavras. “Naquever” você escuta a todo momento (“Naquever” = “Nada que ver” = “Nada a ver”). Eu que sou mineira (outra raça comedora de sílabas) me acostumei rapidamente com isso.

Os chilenos tem memória política. Me aparece que aqui todo mundo tem um lado. Ou você é Allende ou é Pinochet. E, seja qual for a orientação, o ponto de vista é sempre defendido com veemência. Os chilenos também são aguerridos e organizados. Protestos das mais várias ordens pipocam pela cidade diariamente. Da outro lado da rua, está a embaixada do Japão. Pelo menos uma vez por mês acompanho de camarote os manifestos contra a caça aos golfinhos praticada pelos japoneses.

Os chilenos são formais.  Percebo isso em pequenos detalhes do meu cotidiano – como o fato de um ter uma cadeira fixa na mesa de jantar da família do meu marido – e em grandes acontecimentos – como o fato dos meus sogros terem viajado de Santiago a Belo Horizonte para pedirem aos meus pais minha mão em casamento.

Os chilenos adoram os brasileiros (e as brasileiras, por supuesto). Sabem muita coisa sobre nosso país, nossa cultura, nossa política. E das duas uma: ou já conhecem o Brasil ou estão loucos para conhecer.  Sou sempre recebida com carinho, paciência (sobretudo no início, quando ainda me faltava vocabulário), interesse e um elogio ao meu país. Os chilenos meu confortam. Quase conseguem com que eu me sinta em casa.  


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