FANTASIA DE CARNAVAL – A FADA >> Zoraya Cesar
Alguns foliões achavam que aquela foliona, em particular, estava meio fora de seu habitat, por assim dizer. Ela parecia muito rica, e aquele era um bairro classe média baixa. Bem baixa. Mas, enfim, é carnaval, é tempo de murici, cada um cuida de si.
A mulher usava uma fantasia de fada, que devia ter sido bem cara, pois estava completa e convincente. A saia de folhas, um corpete de casca de árvore, cabelos azuis, a varinha de condão – que deve ter sido comprada numa excelente loja de mágicas, pois, quando sacudida, soltava estalidos.
O physique du rôle também era perfeito: esguia, delicada, a pele brilhante – provavelmente usara um creme caríssimo, para causar esse efeito de cores cambiantes - um sorriso claro de dentes pequeninos como os de leite, que combinavam muito bem com sua boca suave.Mas os olhos – pretos como a dor da saudade - cintilavam em outra vibração. Cintilavam a desejo, luxúria, devassidão. Ela emanava perigo.
Essa mistura de inocência com depravação causava uma estranha e inexplicável atração para alguns homens: os feios, os indesejados, os marginalizados. Atraídos como o suicida ao olhar para o fundo do abismo.
O bloco estava animado. Começara no final da tarde e a intenção era ir até o amanhecer. Chamava-se Amigos do Dia Seguinte, e o nome não tem importância para a história, mas eu gostei dele. A Fada imiscuía-se entre os batuques, as gritarias, as cervejas, as canções e os corpos, agora já despercebida. Ela, no entanto, seguia atenta. Naquela noite queria desfrutar de algo especial, que satisfizesse seus desejos tortuosos. Então, tal qual um felino, ela escolheu a presa dentre a manada.
Ele era alto, magro e amarelado como uma espiga de milho, podia passar pelo Visconde de Sabugosa se apenas colocasse uma cartola. Tinha a pele embaciada típica dos que trabalham em escritório o dia inteiro e têm por única companhia o controle remoto da TV e uma mão solitária. O nariz era grande e, os dentes, separados e malcuidados. A regata cavada, estilo machão, pendia de seu corpo ossudo como uma bandeira despregada e triste. Os olhos, juntos e pequenos, perdiam-se na cara achatada. Não seria um homem atraente em nenhuma circunstância, que dirá bonito.
Ela se chegou.
- Aqui perto tem um hotel. Você quer ir comigo?
O sujeito mal acreditou em sua sorte. Uma teteinha daquela! Claro que aceitou, não pegava ninguém sem pagar e aquela gostosa se oferecendo! Devia estar doidona! Ah, o Carnaval! (ele não resistiria nem que quisesse, mas ainda não sabia disso).O tal hotel, uma casa térrea, era uma espelunca. Não tinha porteiro nem balcão, apenas quartos distribuídos por um corredor lúgubre de paredes descascadas. Atrás de algumas portas podia-se ouvir risos grotescos e gemidos de dor. Mas o sujeito não se importou. A essa altura estava encantado demais para prestar atenção a detalhes insignificantes.
Ela abriu a porta destrancada. O sujeito, com o olhar vago dos hipnotizados, não se tocou que não havia chave, nem se perguntou como uma patricinha daquelas frequentava tal pardieiro. Um fogo o consumia agora, e ele não pensava coerentemente, apenas precisava, urgentemente, penetrar nela.
Mal entraram, a Fadinha o jogou na cama como se fosse um reles travesseiro e, num átimo, estava em cima dele. O homem, atordoado, não entendeu direito como tudo acontecera, mas a urgência o consumia. Ela se abriu, ele entrou e tudo acabou rápido. Mas, ainda assim, o folião se sentiu absolutamente exaurido. E com uma incoerente sensação de pavor, que ele não sabia explicar, só sabia que precisava sair dali, e rápido. Tentou levantar, mas a mulher parecia pesar uma tonelada. Ele ficou sem ar, os pulmões comprimidos, o diafragma pressionado. A Fada sussurrou em seu ouvido:- Ah, querido, que generoso você foi em me dar assim, tão gratuitamente, sua energia vital.
O magrelo, exausto, os olhos esbugalhados, a respiração cada vez mais opressa, não conseguia se mexer. Queria chorar, implorar para sair dali, mas tudo o que podia fazer era sentir suas forças se esvaírem em fumaças cinéreas e espiraladas, que saíam de sua boca direto para a da Fada.
Fada? Mas aquela não era a mulher com quem ele transara, percebeu ele, horrorizado. Ela agora parecia uma... parecia uma... a mulher aspirou violenta e luxuriosamente a última respiração dele e tudo se acabou.
Ela saiu de cima do corpo inerte e morto, morto, morto do homem que seduzira num bloco de carnaval. Aquele Amigo não veria o Dia Seguinte. O primeiro da noite e tão satisfatório. Olhava-o carinhosamente, quase.
Deliciava-se em pensar que não era egoísta, afinal, proporcionava bons momentos na hora derradeira daqueles miseráveis - pobretões, feiosos, afasta-mulher, heróis da punheta solitária. Ela se comprazia enquanto sua esverdeada língua abrasiva lambia o corpo do desditado.Quando terminou, a pele do sujeito tinha sumido, assim como seu sangue. Uma massa de músculos, tendões, ossos e órgãos jazia na cama barata do hotel vagabundo.
A Fada de Carnaval saiu para a noite. Vozes atrás das portas ululavam à sua passagem.
Ela estava alimentada, mas ainda faminta. E havia tantos homens necessitados e descartáveis. Carnaval. Sua época preferida.
---
Continua dia 22. Ou não.
----
O Livro dos Carregadores - parte 1 – A irmandade dos Carregadores era tão antiga quanto as primeiras palavras escritas. Seus métodos, também.
O Livro dos Carregadores - parte 2 - se um demônio injeta a Morte Azul em um corpo, não há saída. Ou melhor, há, uma.
O Livro dos Carregadores - parte 3 - os Carregadores eram, antes de tudo, afeitos ao estudo e à pesquisa. Mas não eram desprovidos de sagacidade ou coragem. E, mesmo prestes a encontrar a Dama dos Portais para sua viagem eterna, soube a quem invocar em seus últimos momentos.
O Livro dos Carregadores - parte 4 - São Miguel Arcanjo atendera ao apelo do Carregador moribundo. Disposto a vingar-lhe a morte e a recuperar o livro roubado, ele precisava, no entanto, de ajuda humana. E ele sabia bem a quem procurar. Um velho amigo.
O Livro dos Carregadores - parte 5 - enfrentar a morte era sempre uma possibilidade na profissão dele. Mas não era desejável. O problema, é que até os mais experientes cometem erros.
O Livro dos Carregadores - parte seis - Mesmo os mais experientes cometem erros. De ambos os lado do Caminho. Sannara Qaww era poderosa. Mas Lucrécio Lucas era um sobrevivente.
Os Caçadores - um dia da caça, outro do caçador.
I Maledetti- todos malditos: vítimas e algozes
O Gato - parte 1- nem durante as férias ele descansa
O Gato - parte 2- mas a vida e a morte são assim mesmo
Caçadas noite adentro - nem tudo é o que parece; aliás, nada é o que parece
Viúva Negra – quando nem sempre o mau se dá mal
A Amante- a origem do nome do Lucrécio Lucas
A hora dos mortos - parte 1- quando uma Alma pede ajuda
A hora dos mortos - parte 2- quando a Alma recebe a ajuda
Catadores de almas - parte 1 - você pode não acreditar em Catadores de Almas. Mas eles acreditam em você...
Catadores de almas - parte 2 - Se a sua alma for roubada por um Catador de Almas, reze para que as pessoas certas vão ao seu resgate
Catadores de almas - parte 3 - a Morte é companheira de todo Combatente. Mas é sempre melhor quando se sobrevive para celebrar a vitória.


.jpg)
.jpg)


Comentários
Como eu morro de medo dessa assassina psicopata que já matou um monte de gente (e outros personagens que talvez sejam melhor descritos como seres e entidades), registro aqui que dei perda total na cueca, ao ler a crônica desta sexta-feira, 13 de fevereiro do ano de 2026 da Glória do Senhor.