APFEL, SABOR E MEMÓRIA >> Sergio Geia
Há um restaurante vegetariano no centro de São Paulo, Viaduto Nove de Julho, uma portinhola na entrada do Edifício Barão de Jaguara, bem na frente da Lanchonete Estadão. Ele se chama Apfel.
Final de semana em São Paulo, pelo menos um dia eu almoço lá. O espaço é aconchegante e fresco; o cardápio é variado e me desperta suaves memórias.
Em Taubaté, havia um vegetariano na Sacramento. No tempo em que morava no seminário, Padre Leite sempre estava lá. Curiosamente, só fui conhecê-lo de verdade quando estávamos ambos mais velhos, ele mais velho do que eu. Na época do acolitato, corria entre nós, coroinhas, a fama de que ele era bravo, quase áspero; dizíamos que não gostava de crianças — ou, quem sabe, não gostasse de crianças travessas como nós.
Quando trabalhei em Caçapava, almoçava no Nenê, restaurante vegetariano na Comendador João Lopes. Não todos os dias, porque sou carnívoro, mas dois ou três dias da semana saboreava aquelas receitas criativas e leves, era tão bom.
O Apfel está no centro de São Paulo desde 1980. Segundo seu idealizador, Carlos Beutel, os princípios do restaurante são o vegetarianismo, e o respeito às coisas, aos animais, e ao planeta. E — percebi; percebe-se fácil — respeito aos seus próprios colaboradores. É comum, num certo horário, eles se reunirem em volta de uma grande mesa para almoçarem juntos a mesma comida que prepararam.
Outro dia, comi uma couve-flor empanada dos deuses, uma quiche de espinafre que só de lembrar me dá água na boca. Recomendo também a terrine de berinjela — há fotos no perfil deles no Instagram, e a bruschetta de brócolis. O que não recuso de forma alguma é a suculenta feijoada vegetariana. Para arrematar, sempre há na mesa das sobremesas o tradicional sagu de frutas vermelhas, e doce de banana. E como não se lembrar de nossas avós?
Vi que uma moça chegou pedalando devagar, quase como quem desliza. Subiu a escadaria com a bicicleta na mão, encostou-a junto à janela do restaurante, com a delicadeza de quem apoia algo vivo, e desapareceu entre as mesas para servir o próprio prato.
Na última vez que estive lá — um sábado de sol generoso —, ao terminar meu almoço e pagar a conta, Carlos Beutel me lançou ao mundo com um gesto simples. “Siga por ali”, disse, apontando com a confiança de quem conhece a cidade, como se fosse um velho amigo. “Você vai encontrar o Edifício Copan. Há cafés maravilhosos.”
Por um instante, senti que a cidade inteira me sorria, oferecendo seus caminhos.
Ilustração: Pixabay



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