A ÚLTIMA VEZ FOI QUANDO? >> Carla Dias


Do outro lado da sala, ele a observa. Sentada no sofá de braços puídos, o olhar apagado. Moraram uma vida naquela casa. Os filhos cresceram nela, partiram dela, e, às vezes, aparecem para uma visita. Nas suas paredes descascadas moram marcas que escolheram não apagar com demãos de tinta, entre elas, o urso desenhado pelo caçula, ao lado do fogão.

Ela nunca foi de sonhar felicidade, mas ele sofria disso. Para tudo havia um discurso sobre realizações, conquistas, “encarar o improvável e mudar o impossível”. Ela se fiava nos carreteis de linhas e tecidos. As costuras mantinham a comida na mesa, as contas pagas, os filhos na escola. 

Apesar de, às vezes, sair do roteiro de pai responsável, ao meditar sobre um futuro que a esposa não via por onde começar a construir, ele fazia sua parte. Era hábil, e os vizinhos o contratavam para serviços em suas casas e negócios. Era um competente solucionador de problemas.

Passaram a vida ali, à base de amor e desespero, porque o universo lhes ofereceu uma safra invejável deles. Ela costurou as cortinas, remendou as colchas, plantou astromélias no jardim. Ele construiu o balanço, consertou o telhado, fez a bicicleta voltar à vida.

Às vezes, ela sorri para ele, mas tem sido comum o sorriso morrer antes de se abrir completamente. Ela gostava de tomar sol no quintal. Passavam horas sentados na varanda, conversando. Hoje ela disse “oi” e ele sorriu completamente, como se fosse um convite para uma alegria há muito tempo enterrada.  

Não é fácil vê-la circular pelos cômodos, olhar vazio. Mesmo com a casa cheia, os filhos trazendo tantas novidades, revisitando lembranças. 

Toca a face dela, que se agita, mas logo se acalma quando ele se afasta. O carinho fica para mais tarde, quando o silêncio voltar à casa e ela sentar-se no sofá para assistir ao telejornal. E, por alguns minutos, conversar com ele a conversa de anos sobre a necessidade de uma casa maior para abrigar decentemente os filhos.

“A última vez foi quando?”, o caçula pergunta, seu recém-nascido nos braços. O pai bebe um longo gole de cerveja; o filho analisa suas rugas, preocupa-se com ele.

A última vez foi há mais de ano. Ela acordou e todas as suas lembranças estavam lá. Ele não imaginava que a saudade fosse tanta. Conversaram o dia todo sobre assuntos resolvidos para os quais ela ainda buscava soluções. Mas não importava, ela estava presente; uma versão repleta de energia, comandando desejos, não o contrário. 

Olha para ela, desacordada de presente. Imaginar o que se passa em sua mente é algo que não sabe deixar de fazer. Vez em quando, ela se aproxima da vitrola e coloca o disco do Sinatra preferido. Dança pela sala, abraçando o ar, movimentando-se com dificuldade, mas entregue à música. Ela gosta de observá-la de longe e, na música “mais preferida de todas” dela, levanta-se, enrosca as mãos nas dela e, durante dois minutos e vinte e sete segundos ele a tem de volta. 

carladias.com.br  

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