ALMANAQUE 77 >> ANDRÉ FERRER
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| IMAGEM: Gemini |
A rua da Pedra e a rua do Braga se encontravam bem no meio da favela e eram as únicas do lugar. As duas vias formavam uma cruz imperfeita. Entre os barracos, havia os caminhos de terra batida, que todos usavam. As duas ruas principais também eram de terra.
Tanto numa via como na outra corriam veios de esgoto. A sujeira saía das casas e flutuava naquelas valas antes de alcançar um dos canais da Lagoa. Para onde quer que se fosse, era difícil manter os pés livres da lama e da sujeira.
A rua da Pedra tinha esse nome porque terminava num paredão de rocha, o que era bastante óbvio se comparado à escolha do nome da outra rua. Braga não fazia sentido para ninguém. Sequer os mais velhos, como a dona Bina, tinham conhecido alguém chamado Braga.
Nem Ezequiel, neto de um dos pioneiros do morro, sabia de quem se tratava. Suas vivências nunca o fizeram conhecer o Braga e tampouco as leituras de Ezequiel falavam do homem que emprestava o nome para uma das duas únicas ruas do lugar. Nem o Almanaque Sadol nem a Reader’s Digest algum dia tinham abordado o personagem. O tal Braga nunca aparecera na Manchete nem fora capa da Placar. Ele não figurava nos anais consultados pelo porteiro.
Nos dias de folga, Ezequiel se perguntava sobre o Braga. Ele costumava ficar na varanda e refletia entre uma leitura e outra. Perguntava-se, na verdade, sobre as coisas que o perturbavam e sobre as coisas que na pilha de revistas que ele guardava sob a folhinha de 1977. E como havia coisas perturbadoras na cabeça do porteiro... E papéis na sua casa! Ele ficava com algumas revistas que as madames do prédio jogavam fora, mas guardava todos os exemplares doados pelo farmacêutico Jota. O Cruzeiro, Veja, Revista Detetive. Para o regalo do porteiro.
Além das revistas, Ezequiel também gostava de colocar ordem na favela. Não bebia, mas nunca perdia uma briga. O passatempo da leitura só perdia para as atividades relacionadas à vigilância. O homem se desdobrava e se impunha na comunidade, o que era uma tarefa relativamente fácil porque Ezequiel tinha estatura e músculos. Fiscalizava a fila da torneira, admoestava os moleques arteiros, fazia uma ronda noturna. Ele acreditava na lei e na ordem e solicitava o Veraneio da polícia quando sabia que um bandido se escondia na favela. Tinha uma foto do presidente ao lado da folhinha. Batia continência para os tanques no dia 7 de setembro.
Em suma, Ezequiel era o homem da disciplina. Chamavam-no para arbitrar qualquer tipo de discórdia. Marido valente, cobrança de dívidas, mulheres que se agarravam pelos cabelos. Nos dias tranquilos, dividia o seu tempo entre o trabalho como porteiro e a leitura, que praticava, de frente para a rua da Pedra, na sua varanda. Ezequiel também gostava dos jornais coletados na barbearia e nos bancos da Central.
Quando era sábado, ia para a varanda mais cedo ainda e cumprimentava os vizinhos entre uma página e outra. Lia os jornais de anteontem e sentia orgulho do “país que vai pra frente”, o qual acreditava servir através da sua vigilância no bairro. Gostava do Médice e, devagar, aprendia a tolerar a tal distensão do Geisel.
Ezequiel cumprimentava todo mundo pelo nome quando as primeiras pessoas desciam a rua com a luz ainda por nascer enquanto as costureiras, os contínuos e o sapateiro desciam às sete horas. Dona Bina sempre passava às oito e meia. O Sol alongava a sombra das coisas. A sapaiada chiava no calor. O fartum subia das valas. O porteiro esticava a cabeça acima da balaustrada feita de caixotes, cumprimentava a vendedora e anunciava que iria à torneira, logo mais, a fim de evitar brigas. Ela concordava e soltava uma boa gargalhada.
Naquela manhã, o porteiro se levantou da cadeira depois que a velha passou. Ele viu quando Bina parou e ofereceu uma das suas vassouras para Ana, que morava com a sogra porque o marido estava preso.
Depois de se espreguiçar, Ezequiel lamentou a prisão do marido de Ana, mas admitiu que fora necessário. Um subversivo a menos nas ruas. Ele mesmo participara da “operação”. Identificara a atividade do homem, que escondia produtos de roubo no assoalho do barraco, e avisara o seu contato na polícia militar. “Um país que vai pra frente”, afilnal, precisava de gente ordeira e honesta.
O que mais enchia Ezequiel de orgulho era se sentir incluído na construção de uma grande nação. Avisar a polícia, encerrar pequenas confusões ele mesmo, colocar as pessoas em fila diante da torneira. O cidadão Ezequiel lia os jornais e se via atrás de um espelho, suas ações eram reflexos da a eficiência instalada em Brasília Cópia de um milagre que as manchetes estampavam.
Uma vez, a polícia chegou ao bairro porque Ezequiel solicitara. Um grupo logo cercou a viatura e o marido de Ana chingou o porteiro. Disse que ele era um pobre que adulava ricos. Um traidor. Um alcaguete a serviço de torturadores. Em poucos meses, o marido de Ana seria preso porque um rádio e um Seiko automático estavam embaixo do seu assoalho.
— Tinha que ser assim — disse o porteiro da sua varanda.
Depois, ele entrou, colocou o jornal sobre a pilha e olhou o presidente nos olhos. Na folhinha, marcou o dia 12 de abril de 1977. Então, escutou a voz de dona Bina, já afastada. O vê trocado pelo bê na palavra vassoura.
Toda manhã, a velha descia a rua da Pedra carregada com os produtos que vendia, sabão e vassoura de mato. Ela gritava, roncava, tornava a gritar. Oferecia suas coisas até chegar ao asfalto, que era na outra extremidade da rua da Pedra.
Bina oferecia sabão e vassoura durante o trajeto, mas o sabão saía mais no ponto do asfalto. Por lá, a vassoura de mato encalhava. Os fregueses da cidade estavam mais interessados no sabão.
Por isso, Bina tratava de apregoar a vassoura durante a descida. Não que deixasse o sabão de lado, mas dava maior atenção à vassoura. Ela sabia que a venda de algumas barras, pelo menos, estavam garantidas no asfalto.
— Oh, a “bassora”! — disse a mulher na frente da casa de Ana, que era vizinha de Ezequiel. — Vejo que está precisando.
Bina tinha razão e usava de esperteza porque Ana segurava uma vassoura rota e sofria de mania de limpeza.
Ana levantou a cabeça e tentou falar, mas o papagaio começou a gritar dentro da casa e uma voz, lá dentro, dizia para que a ave ficasse quieta. Era a sogra de Ana.
— Vai comprar ou não? — insistiu a velha.
— Fica para a próxima.
Curiosa, dona Bina arrumou a carga e perguntou:
— Já foi buscar água?
— Não — disse Ana e voltou à varreção.
Bina olhou ladeira abaixo e começou a andar. Tinha muitos passos, ainda, até o asfalto.
A duas casas dali, morava a lingua solta do bairro, por isso Bina procurava ser cuidadosa. Oferecia os produtos e só parava de andar caso Isabela quisesse algo. Do contrário, a velha passava direto e jamais dava chance da outra começar uma história.
— “Bassora”...
— Não.
— Sabão...
— Tenho ainda.
— Obrigada.
— Obrigada a senhora — disse Isabela. — Vou buscar água e a gente bate um papo lá embaixo.
— Não. Essa não...
— O que foi que a senhora disse?
— A gente conversa então.
Bina continuou a sua descida e estava aliviada. Os outros moradores eram normais. No máximo, rejeitavam o que a velha oferecia ou queriam, eles mesmos, vender algo. Tapetes de retalhos, croquetes, jogo do bicho. Nada tão incomum como Isabela e Ana.
As duas mulheres tinham uma grande fama. Quando não tiravam a paciência de algum vizinho, brigavam entre si na fila da torneira. Uma delas sempre chegava primeiro ao asfalto e atrasava a coleta de água. Uma fila enorme se formava.
Quando Isabela chegava primeiro, ficava conversando e fazia questão de contar todas as histórias sobre um determinado assunto antes de encher o seu balde. Ana ficava furiosa, o povo incitava, a briga começava. Do contrário, também havia confusão. Ana chegava primeiro e limpava a torneira até que o latão brilhasse.
Invariavelmente, o porteiro Ezequiel se colocava entre as mulheres e evitava coisa pior. Os vizinhos gritavam como se estivessem numa rinha de galos. Todos irritados com o atraso. Alguns apagando o incêndio. Outros assoprando a brasa.
Naquele sábado, a fila já tinha se formado. Bina terminou de vender duas pedras de sabão e avistou os últimos metros da ladeira. O murmúrio das vozes já estavam audível. Uma batucada de baldes e latas.
Quando chegava, a velha se instalava debaixo de um limoeiro, sentava-se no banco feito por Ezequiel, descansava um pouco. À partir de então, ela recomeçava a gritar as qualidades do sabão e da vassoura. Chamava a atenção de quem passasse com o seu jeito peculiar de pronunciar as palavras. Quando se cansava, levantava e caminhava até a torneira para se refrescar. O jorro de água lavava os braços e a cabeça da dona Bina, que voltava melhor ao trabalho. Ficava à sombra do limoeiro até que o pessoal das onze e meia corresse para não perder o 247. Subir o morro era bem mais fácil quando ela vendia bastante.
Naquele dia, Bina vendeu duas barras de sabão e lamentava ter sido tão pouco até às nove horas. Como era sábado, ela se resignou. Pediu licença a fim de lavar os braços e a cabeça na torneira. Tudo bem, pensou. As barras de sabão de costume já foram vendidas.
De repente, ela avistou um homem encorpado, mas ainda não era o Ezequiel, que nunca se demorava tanto para descer. Ele era pontual, assíduo e, apesar da paz na fila da torneira, fazia falta naquela manhã.
Isabela e Ana também demoravam para descer. Coisa tão inédita quanto no caso de Ezequiel porque as duas nunca se atrasavam juntas. A conversa e a limpeza jamais tinham segurado ambas na mesma manhã. Andavam separadas. Se uma chegava tarde, a outra já estava lá.
Depois de alguns minutos, a fila minguava. Quase todas as mulheres do bairro subiam com as suas latas equilibradas na cabeça. Nada de incidentes envolvendo Isabela e Ana naquela manhã. Então, outro homem encorpado surgiu ao longe e, devagar, aproximou-se. Era Ezequiel.
— Que aconteceu? — Bina perguntou.
— Vou contar.
— Fala “home”... Fala.
— Foi a sogra da Ana.
— Oh!
— A velha espantou o papagaio da nora com uma toalha. Então, o bicho voou e foi cair na vala.
— Senhor misericordioso.
— Vendo aquilo, a Ana foi acudir o bicho bem na hora que a Isabela passava e a coisa toda começou...
— O quê? — atalhou Bina. — O quê aconteceu?
— O quê aconteceu?
— É “home”... Conte logo.
— Não aconteceu. Ainda estão lá. Uma falando e a outra limpando o bicho. Então, elas não conseguem sair daquilo. Ana já esfregou o papagaio e enxaguou umas dez vezes e Isabela já contou várias histórias sobre bichos para o Tião peixeiro, a dona Deda parteira e o Joca da Maria. Por isso, elas ainda não chegaram aqui.
Bina riu, soltou um ronco e gargalhou alto.
— Então, a torneira não vai precisar de você hoje.
— Não. Vou até a farmácia buscar umas revistas.



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