enchentes >> whisner fraga
inicio de tarde ainda e mamãe liga, viu na televisão sobre as chuvas, as enchentes, os desabrigados, as mortes e se preocupa,
estamos bem, moramos no alto, explico,
ela desconfia, estão mesmo bem?, todos?, sim, estamos, claro,
então falamos sobre trivialidades: saúde, compromissos, saudades,
desligo, retomo o trabalho, o texto avança bem,
meia hora depois, mamãe novamente: se estou bem, se as enchentes não atingiram aqui o apartamento, viu na televisão sobre as chuvas, os desabrigados, os mortos e ficou preocupada,
estamos bem, o prédio fica na parte alta do bairro, mas também sinto pelos atingidos,
então falamos sobre trivialidades: comida, saúde, compromissos, saudades,
recomeço o trabalho, o romance vai fluindo, estou contente,
quinze minutos depois da segunda ligação, mamãe novamente: está preocupada, viu no jornal sobre as enchentes, as chuvas que não param, os desabrigados, os mortos, a calamidade,
estamos bem,
ela suspeita,
acrescento que ana e helena estão em casa, o prédio fica numa parte alta, a enchente não nos afeta muito, mas estou triste por quem sofre com a situação, é uma pena,
então falamos sobre trivialidades: passeios, trabalho, gatos, saudades,
resolvo espairecer, essas interrupções acabam fazendo bem, estava precisando caminhar, esticar um pouco os músculos,
aí, pela quarta vez, o telefone toca: é mamãe,
envelhecer é assim.



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