sexta-feira, 9 de setembro de 2016

PARÊNTESES >> Zoraya Cesar

A vida é cheia de parênteses. Em toda história tem sempre um ‘senão’, um ‘mas’, um ‘porém’. Dizem que o diabo mora nos detalhes. Eu acho que ele mora nos parênteses. 

Quando o conheci, caí de amores na hora. E por que não cairia? Arturo era italiano, charmoso, inteligente, divertido, bom amante.  Por que eu – ou qualquer outra – não ficaria encantada? (Porque, dentre todas, eu deveria ser mais esperta).

Não levo homens para dormir em minha casa antes de levantar algumas informações – gosto de saber com quem estou saindo. Mas, às vezes, como diz meu chefe, o Diabo pega a gente distraída. Apaixonada por Arturo, em pouco tempo ele dormia comigo, sem que eu fizesse minhas averiguações. (Dormir é força de expressão. Passávamos a noite quase toda acordados, em nossos jogos eróticos).

Nada tenho em casa que possa revelar o que realmente sou. E, mesmo perdida de amor, por força do hábito menti que era analista de contratos na seguradora de meu pai. E Arturo? De onde saía o dinheiro para pagar nossos jantares caros, vestir Armani, usar um Patek Philippe? Para viver em hotéis? Da única vez em que fiz perguntas demais, ele se irritou, disse que era investidor no mercado de artes, não tinha apartamento porque viajava muito e que estava comigo para se divertir, não para ser interrogado. E acrescentou que não tinha perfil em redes socais por falta de tempo e paciência. O engodo era tão óbvio que me doeu. E doeu tanto que resolvi deixar pra lá. Afinal, eu também mentia em relação ao meu verdadeiro métier e em relação aos motivos de não ter perfil em redes sociais. (Somos todos atores no teatro dessa vida. Sábio é quem escolhe seu papel).

Meu Deus, logo eu, tão racional, estava apaixonada como uma adolescente cheia de espinhas e hormônios. Ignorei as suspeitas que o comportamento esquivo e misterioso dele sugeriam, com medo de enfrentar uma realidade desagradável. (Hoje, sei que deveria ter tomado as rédeas da situação. Mas o destino fez isso por mim).

Uma noite, após mais uma rodada de sexo arrebatador, ele perguntou se poderia deixar uma caixa lá em casa, por pouco tempo, disse, é que ia trocar de hotel e tinha medo de perdê-la. Ou algo assim. Inebriada pelo calor de seus braços, assenti, sim, amor, pode. (Amor e paixão são ótimos conselheiros para idiotas. Um dia vou entender como uma mulher experiente como eu caiu naquela esparrela).

No dia seguinte, viajamos a serviço, cada um por seu lado. Quando retornei e dei com a caixa, fui tomada por uma urgência tão grande em abri-la que quase me afoguei. Não podia mais ignorar meus instintos. (Sabia que iria me arrepender, mas, que diabos, a vida não é mesmo cheia de som e fúria, de arrependimentos e dor?)

Quase desmaiei, incrédula. Dentro, uma das melhores pistolas  brasileiras, a Imbel MD1N, Cristo Amado, para que Arturo teria uma arma daquelas? Havia, ainda, inúmeros títulos de crédito ao portador, Jesus, quem usava títulos ao portador hoje em dia? E numa caixa lacrada apenas com fita adesiva? Aquilo era praticamente dinheiro vivo! Também encontrei, cuidadosamente embrulhada em plástico bolha, uma Nossa Senhora do Bom Enterro, estilo barroco. Não entendo de obras de arte, mas entendo de roubos. Eu sabia que aquela imagem fora roubada da Igreja Santo Senhor da Piedade havia alguns dias. (Dizem que a curiosidade matou o gato. Se o gato morreu, não sei, mas eu, eu morri um pouco ali, naquele momento).

Fumei e bebi para me acalmar.
Meu amado tinha uma arma.
Não se brinca com um homem que tem uma arma
Limpei minhas digitais, lacrei a caixa conforme a encontrara. De repente, tudo fez sentido. Meu amado era um bandido, provavelmente receptador de objetos roubados, os quais trocava por títulos ao portador. Por isso a arma, os gastos excessivos, a ausência de cartões bancários e de perfil nas redes sociais. Um profissional. Fumei dois cigarros e tomei um uísque para me acalmar. Não se brinca com homens que guardam uma pistola. (Treinamento e cabeça fria, diz meu chefe, são a base da sobrevivência. E meu chefe sempre tem razão)

Arturo chegou, cheio de romance e charme. Nunca ele fora tão carinhoso, nunca o amor fora tão intenso e, ai, meu Deus, nunca o amei tanto. Enquanto ele tomava banho, escondi a caixa no carro e dei um telefonema. Subi e sugeri que fôssemos jantar fora. Não sei como consegui disfarçar o nervosismo e o medo de algo dar errado. (É na provação que se mostra a têmpera, diz meu chefe).

Chegando ao restaurante, saltei do carro, afastando-me rapidamente. Aquilo tudo já era doloroso demais para mim. Os agentes o abordaram, pegaram a caixa e prenderam Arturo em flagrante, muito discretamente. Ele ficou atônito por alguns instantes, mas, logo, recuperando-se, sorriu para mim e falou pausadamente, para que eu pudesse ler seus lábios: “molto bene, bambina”. Seguiu sem reclamar. Um verdadeiro player. (Melhor que eu, que chorava convulsivamente).

Só Deus sabe o que eu sentia, uma mistura de humilhação, vergonha e tristeza. Deixei-me levar pela paixão como uma neófita qualquer. Minha casa serviu como depósito de objetos roubados e de uma arma que, provavelmente, fora usada em crimes. Por fim, entreguei o homem que amava à polícia, à prisão (e eu bem sei o que acontece nas prisões) e, possivelmente, à extradição. Era uma otária. Era uma traidora. Ou não?

Deveria mesmo tê-lo denunciado? Ou deveria tê-lo ajudado a fugir? Estava me consumindo em dúvidas e dores,  quando vi meu chefe, esperando, quieto. Naquele instante, todas as dúvidas se desvaneceram. Fiz o que tinha de fazer. (Na verdade, fui coerente com a escolha de vida que fiz há tantos anos). 

Sou policial. Sou discípula de meu chefe, Felipe Espada. Quer saber? Não me arrependo de nada. Não mesmo. 


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8 comentários:

Unknown disse...

Adorei a Felipa Espadeta. É filósofa além de tudo. Rs História que prende e instiga a curiosidade. Parabéns Zozo. Ficou GG rs

Pat Rochinha disse...

Os desfechos são sempre surpreendentes!
Gosto muito disso.
Adorei, Zozô.
Bjocas

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

Bom mesmo!
Nem esperava a surpresa!
Já fico esperando quem será o morto da vez...não precisou matar ninguém, hehe!
Bjs Sônia

Anônimo disse...


Para começar, e variar, cadê os detalhes do sexo arrebatador e dos jogos eróticos!

E que mané é esse que se envolve com uma policial, hehehe....

E o pior é que ainda se deixou prender, que dureza!

Pistola "Imbel", isso é coisa de "pobre"! Veja o link abaixo para se atualizar para a próxima crônica policial (crítica construtiva)!

http://tudosobrearmas.com.br/2016/02/03/voce-conhece-as-melhores-pistolas-do-mundo-confira-aqui/

Clarisse Amador disse...

Acho que eu, no lugar dela, ia ser a Bonnie desse Clyde, rsrsrs

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Em primeiro lugar, Zoraya, Imbel não é coisa de pobre (comentário hilário e desconfio de quem seja). Um rifle da Imbel aparece num dos meus contos publicados em livro. É sobre "sniper" brasileiro. Usei uma arma da Indústria de Material Bélico do Brasil. A sua história é das boas: curta e precisa.

Marcio disse...

Zoraya, acho que o diabo não está nos parênteses, mas em todo o seu texto, exceto nos parênteses, onde Deus parece comentar os feitos do diabo.