segunda-feira, 12 de setembro de 2016

FELLINI, AGORA EU TE ENTENDO >> André Ferrer

O lugar mais democrático de qualquer cidade costumava ser o cinema. Lembro-me de que o Cine Terracota se transformava num caldeirão. Antes e depois das sessões, fatos curiosos aconteciam por causa do choque entre as diferenças. Na entrada ou na saída, presenciava-se ou, na pior das hipóteses, protagonizava-se algum esbarrão.

Na verdade, o organismo citadino era bastante medíocre. Os espíritos que o animavam tinham dois polos bem definidos. Um risco no chão era feito e, a partir daí, qualquer antagonismo só dependia do lado escolhido. Em Terracota, esse jogo foi e sempre será pautado por duas cores: o preto e o branco. Já no cinema, quando a projeção começava, ninguém era diferente. Riso, tensão e medo nos igualavam durante o filme. O incômodo era suspenso até o acender das luzes.

Amarcord (1973)
A cidade onde eu nasci é um lugar esquecido pelo bom senso. Terracota pode crescer e até virar uma metrópole. Suas ruas podem se atirar ferozmente sobre as plantações vizinhas e as reduzir a lembranças imprecisas na cabeça dos velhos. O edifício mais alto pode até se transformar numa piada à sombra de novos arranha-céus. Ainda que se opere a mais inacreditável das mudanças naquela cidade, eu sempre encontrarei respaldo para as afirmações que acabei de fazer. Terracota foi erguida sobre duas colunas: a dos moldadores de tijolos e a dos fabricantes de açúcar. O maniqueísmo implicado em fundações dessa natureza não permite a instalação de uma terceira coluna. É muito tarde para qualquer adaptação.

O Cine Terracota, em resumo, era um ambiente apaziguador. Nele se misturavam católicos, protestantes e descrentes logo após a missa na Matriz, que, a propósito, contribuía em mais da metade do público das exibições dominicais. Fervilhante, o capataz do canavieiro sentava-se ao lado de um dos maiores bajuladores do oleiro. Uma prostituta com o rosto colado na tela branca voltava-se para trás, um minuto antes de as luzes se apagarem, e descobria que o perfume não vinha de uma das suas colegas de ofício, mas de uma irmã franciscana muito asseada. No escuro, com o facho luminoso matraqueando logo acima da sua cabeça, o cidadão terracotense esquecia, por uma ou duas horas, aquele abismo aparentemente intransponível na época, mas que, hoje em dia, não é mais assustador do que um obstáculo pueril.


Amarcord (1973)
Na minha infância, que aconteceu nos anos de 1980, eu achava o mundo terrível no momento em que aquelas sessões acabavam. Não era. Hoje é pior. Aquela guerra de província era travada num tempo em que, entre outras vantagens, as crianças e os jovens respeitavam os adultos, fossem oleiros ou canavieiros. Não havia favelas além do Ribeirão dos Ouriços. A Panificadora Brilhante não precisava de um segurança na porta oito horas por dia. O padre, na missa das crianças, não se via obrigado a empregar termos como maconha, êxtase ou crack na sua homilia. Durante a confissão, a pena era quase sempre contra pequenos palavrões, orações negligenciadas e, no caso dos meninos, a volúpia dos dez, treze, quinze anos. Tudo era mais fácil. Nossos problemas combinavam com as nossas diferenças. Nada como hoje, quando insistimos em resolver a complexidade sufocante dos nossos dramas com aquela mesma forma de pensar em termos de preto no branco.

Nunca fui crédulo. Quando já completava o serviço religioso obrigatório, contei para o meu pai sobre a cronometragem que eu costumava fazer, antes de fugir, nos dias de confissão. Era curioso como um dos padres da Paróquia de São Francisco se demorava mais com os meninos do que com as meninas. Teria, ele, a mesma obsessão daquele religioso de Amarcord? Logo depois da Crisma, graças a Deus, o meu pai me liberou de contar intimidades a um estranho.

Ornella Muti em Flash Gordon (1980) de Mike Hodges 
Terracota e os seus onanistas! Muitos ainda estão lá e, invariavelmente, escondem as mãos enquanto falam das tribunas. Um deles, aliás, padecia de uma ansiedade tão intensa, que não conseguia esperar o momento apropriado. Lembro-me bem de uma noite vexaminosa. Foi no cinema, logo depois da exibição de Flash Gordon, que o sujeito se meteu atrás de um centurião romano, pintura em tecido feita por Meguinha, o lendário cartazista da casa, pintor de letreiros e alcoólatra incurável. Naquela noite de 1981, enquanto as últimas pessoas deixavam a sala de projeção, o soldado de César, que vigiava o saguão de um canto, seu posto, entre a cortina escura e o balcão de guloseimas, tremelicava como um doente de Parkinson. Culpa da Ornella Muti, ou melhor, da Princesa Aura.

Nunca assisti a um filme de Federico Fellini no cinema da minha infância. Acho que só tive esse prazer em VHS já nos tempos do colegial. Meu preferido, Amarcord, lançado exatamente no ano do meu nascimento, 1973, assisti, ainda mais tarde, quando já existia DVD.

O filme tem uma atmosfera mágica e antinatural que, para mim, é a chave da imaginação criadora de Fellini. O lugar retratado, uma pequena cidade litorânea, é uma representação de Rimini, cidade natal do diretor italiano. Foi assim, portanto, que eu descobri a utilidade das lembranças no momento de inventar e contar histórias, ainda que alguns elementos ridículos, vergonhosos e trágicos contaminem o processo. Através do humor e, é claro, com um toque de sarcasmo diante do absurdo, pode-se fazer arte com a memória. 

Federico Fellini (1920-1993) no set de Amarcord



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Um comentário:

Marco Moretti disse...

Emocionante, André. Belíssima homenagem a Fellini e à sua Amarcord que só existiu na imaginação daquele gênio