sábado, 24 de setembro de 2016

COLEÇÃO >> Sergio Geia

 

Eu terminava de comer um pedaço de bolo quando apareceram; arrumaram tudo muito rapidamente, e, vencido o alvoroço da chegada, lá estavam eles prontos para gravar. Era uma matéria jornalística para um canal de televisão; o assunto, um tema fundamental para o progresso da humanidade: moedas. Queriam entrevistar a mocinha da padaria, experiente profissional no manejo de moedas. A jornalista, que reconheci dos jornais da hora do almoço, dizia que as moedas tinham sumido do mercado; onde estariam as nossas moedas?, ela perguntava.
Pois respondo à senhora jornalista que não sei, não tenho essa informação. Talvez estejam em porquinhas escondidas em cristaleiras, como naquele filme do Suassuna; guardam-se moedas por longo tempo, e, quando resolvem fazer uso da fortuna, elas valem menos que um vintém; ou estejam em sacolas de supermercado que, depois de cheias, serão trocadas no comércio; ou talvez andem fabricando moedas de menos; não sei. O que sei é que infelizmente não tenho moedas aqui; mas, se as tivesse, talvez andasse a procurar moedas raras, aquelas que valem mais do que afirmam, e vendesse a um colecionador.
Disseram-me na rua outro dia que pagam fortunas por moedas “raras”. Sem acreditar em tamanho desvario, caçoei de meu interlocutor: “Ora bolas, mas quem, quem seria o espertalhão que pagaria cinco mil por uma moeda de um? Ou quem se atreveria a colocar a mão no bolso e pagar três mil por uma moedinha de trinta centavos?” “Colecionador, caro Geia; isso é coisa de colecionador”.
De fato, o amigo tinha razão; andam pagando por aí mais do que valem essas frias moedinhas. No entanto, nada que se compare a certas notas; descobri que por uma de cinquenta reais, por exemplo, assinada pelo senhor Pérsio Arida, andam pagando alguns doidos a bagatela de três mil reais; notas de cinco ou dez reais, as chamadas notas de reposição, chegam a valer dois mil reais; mas nada que se compare aos quatro mil reais que se pagam por uma simples notinha de cinquenta que tenha se esquecido de Deus; isso porque, segundo dizem, em 1994, um lote de notas saiu sem a famosa expressão “Deus seja louvado”. O fato é que são consideradas raras, e se o senhor tiver aí um exemplar, poderá se dar bem.
Esses colecionadores são bem doidos; fazem coleções das coisas mais esdrúxulas que se pode conceber em troca de um sentimento que nessa vida ainda não conheci; que sentimento é esse capaz de fazer um homem em seu mais perfeito juízo mental trocar a infame quantia de quatro mil reais por uma ordinária notinha de cinquenta?
Meu sistema límbico ainda não me proporcionou conhecer tamanho sentimento, que deve ser uma maravilha; uma pena. Não seria uma passageira alegria, uma afeição desenvolvida por coisas estranhas, ou um encantamento proporcionado por papéis, uma sinergia inexplicável, ou ainda uma dolorosa angústia metafísica ou uma volúpia estética. Acredito que deva ser algo muito maior que tudo isso, exponencial, que transcende qualquer comezinho sentimento que nessa pobre vida experimentamos.
Já vi coleções de selos, de quadrinhos, de revistas, de vinis e até de santinhos de missa de sétimo dia. Dizem que no mundo há colecionadores de fiapos de umbigo, sereias (adoraria conhecer; não a coleção inteira, mas apenas uma já estaria bom), vestidos, molhos picantes, barras de sabonete, saquinhos de condimentos e até bonecas infláveis.
Não tenho aqui nenhum desses objetos ou coisa parecida. Tenho sim corujas que muito me alegram; e uma tartaruga. Se sou colecionador? Não, amigo; não sou, na acepção usual do termo, muito embora viva colecionando por aí algumas emoções, muitas saudades, e um pouco de alegria. 

Ilustração: www.flickr.com.br


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