quarta-feira, 21 de setembro de 2016

PROTAGONISTA >> Carla Dias >>


Só que tem o espírito rebelde, de rebeldia melindrosa e bem relacionada, daquela leva de espíritos que não levam desaforo pra casa. Seu espírito precisa gritar alto pelos seus desejos e murmurar quando necessário entregar suas fraquezas.

Tal espírito, vergado ao destempero da rebeldia, tem experimentado da polirritmia que cabe aos corações partidos aprenderem a suportar, assim como da desolação de quem passa fome e não é de comida. Porém, também as delícias fazem parte desse ser rebelde reverberante, como a de mergulhar fundo em qualquer emoção inspirada pelo afeto.

Todos os dias, seu espírito se coloca, declara suas ambições e arrebatamentos, evoca a compreensão de quem ainda não entendeu que, espírito rebelde feito o dele, às vezes, parece que vai sair do corpo e ganhar o universo. Transformar-se em luz cortando o céu noturno.

Nem tudo é passional e catártico. Também é exaustivo ter espírito feito o dele, porque é preciso saber controlá-lo quando seus impulsos o traem. Aquietar espírito rebelde não é fácil, mas frequentemente necessário. Quando se pulsa em intensidade, eventualmente se perde a noção do quanto é fundamental a tranquilidade.

Seu espírito rebelde vive aventuras que ousam no perigo. Voos rasantes, quedas livres, escolhas improváveis. Orgulha-se de não se render às amarras, de não ser enganado por verdades forjadas, as que propiciam requintadas – e cruéis – prisões.

Reconhece em seu espírito rebelde a originalidade que falta ao ser humano que não se arrepende de ser o que sente.

É arrancado de sua reflexão pela voz histriônica do chefe, que argumenta que relatório aquele valeu de nada para concluir aquilo que ele precisava. “Você precisa se organizar, meu caro! Como podemos mantê-lo como funcionário se nem mesmo relatório você faz direito?”

Só que seu corpo não respeita os desejos de seu espírito rebelde, e sua consciência o teme. Soubessem das aventuras e realizações que seu rebelde espírito comete, aqueles que banalizam sua existência continuariam a lhe imputar falta de importância para o mundo?

Junta seus papeis, enquanto os colegas de trabalho já saem da sala. Prefere ser o último a sair, assim não precisa desfiar comentários clichês pós-reunião sem sentido. Respira fundo, analisa o trabalho feito e sabe que seus relatórios são sempre impecáveis.

O problema não é o profissional, mas o homem que, detentor de um espírito rebelde, vive a incapacidade ferrenha de trazê-lo à vida, de permitir que ele seja o protagonista de sua história.

Enquanto caminha de volta para casa, após oito horas de trabalho árduo - que o chefe irá declarar ele mesmo ter feito -, dá vazão ao que o espírito deseja. Pudessem olhar para seu espírito como olham para ele durante as reuniões, certamente não debochariam do disso ou do daquilo que a eles parece medíocre e grotesco. Permaneceriam quietos, olhares voltados à exuberância de sua existência. Ele diria e eles escutariam, e nunca mais tirariam dele a autoria de suas conquistas.


Imagem: Yellow-Red-Blue © Wassily Kandinsky

carladias.com



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