quarta-feira, 14 de setembro de 2016

OS AMANTES >> Carla Dias >>


Dialogar com a intimidade dos desejos, alcançando o sentimento com frenesi e descomedimento. É que desejo entrelaçado ao amor não manda recado quando o espírito terminou o ensaio e aguarda a performance do corpo.

Direto ao palco, por gentileza.

Revolucionar o sentimento ao esmiuçá-lo, saber dele os cantos e as incertezas, embrenhar-se na sua opulência em busca da sua finalidade. Que sentimento é bruta flor, necessita do fino trato do reconhecimento para manter água na boca de um pelo outro.

Democratizar os espaços: movimentos corteses aliciados por abraços ambiciosos, catalisadores da energia domesticada com o fim de mantê-la quieta, no canto que lhe cabe, incapaz de induzir os comportados a cometerem o deslumbre dos enlouquecidos por abraços.

Exigir que a língua oficial transite pela terra do silêncio, ocupada que anda em reconhecimento de território. Que o território corresponda a contento.

Patrocinar longas trocas de olhares. Dizem por aí que há magia nesse feito, é um tal de deleites e vontades rodopiando ao som da respiração. E que a profundidade dessa troca pode até conceder o direito à leitura ampla da alma do outro. Também dizem que aí mora o perigo, mas o que seria de nós se não corrêssemos risco, certo?

Familiarizar-se com a tez que se acomoda na sua, até que pareça impossível se imaginar em outro lugar que não no ali. Até que a sua também se acomode nela, originando a conexão que antevê a próxima, ainda mais profunda.

Tolerar a ausência sem se esquivar do que interessa: pausas são fundamentais. O que seria da poesia se dispensássemos a saudade? O que seria de nós mesmos ao nos tornarmos incapazes de reconhecer na distância a possibilidade de refrescarmos o olhar em relação ao outro?

Entregar-se à melancolia, quando ela exigir atenção. E que, ainda que ela faça sua oferenda por meio de tristezas, haja espaço para a memória afetiva. Que as lembranças mantenham o espírito ciente de que nem tudo é dolência e solidão.

Amar sem restrições, mas com todo o respeito que pede o amor. Permitir-se endoidecimentos que promovam a felicidade e a mantenha por perto para dias menos inspiradores.

Imagem: Les Amants au ciel rouge © Marc Chagall



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