sábado, 30 de julho de 2011

É COM VOCÊ, LOMBARDI! [Carla Cintia Conteiro]

Se você já estava vivo e morando no Brasil entre o final dos anos 1970 e início dos 1980, há de lembrar de um quadro do Agildo Ribeiro no humorístico Planeta dos Homens em que ele representava um professor de mitologia que tinha a seu lado um mordomo que tocava uma campainha toda vez que ele falava bobagem ou ficava mais ousado. A Múmia Paralítica, como o personagem era chamado pelo seu patrão, ficava especialmente ativo com seu equipamento quando o acadêmico começava a falar de sua musa, a Bruna Lombardi.

Dizem que este quadro está presente também naquela “atração” chamada Zorra Total. Infelizmente, não posso confirmar, já que considero estar em casa na noite de que “todo mundo espera alguma coisa” tortura suficiente. Assim, me mantenho afastada da TV aberta nesse dia e horário.

Lembro daquele quadro desde que a mesma Rede Globo do antigo programa começou a apresentar o remake de O Astro. Na nova versão, além da previsível repaginada na história, uma edição ágil para tentar manter os telespectadores acordados nos últimos minutos que antecedem a madrugada. E, evidentemente, como só hoje em dia, muito sexo e muita nudez. Neste último quesito, o corpo masculino nu talvez jamais tenha sido tão exposto. Apenas este fato já tornaria o folhetim inviável para exibição em sua época original, também ao fim da década de 1970, em plena ditadura militar, com todo seu poder de censura. A clássica cena franciscana do filho se despindo do poder econômico do pai saltou da colocação esperta de objetos cenográficos em pontos estratégicos para longos takes do corpinho sarado de Thiago Fragoso. Só não teve frontal. Será que liberdade de expressão e igualdade de direitos é isso?

A idade deve estar fazendo de mim uma pessoa mais chata, imagino. Ou não ficaria me perguntando se certas coisas são mesmo necessárias. E dei a imaginar a Múmia Paralítica soando loucamente sua sineta não pela simples menção à Bruna Lombardi, mas diante da bunda do Lombardi, do Rodrigo Lombardi.

Somos não apenas um país calipígio. A simples menção ou visão relâmpago de um derrière entre nós faz disso assunto para dias, tanto nas rodinhas de amigos, quanto no lugar mais nobre da pós-modernidade, os trending topics do Twitter. Estão aí a Sandy e o Louco Abreu que não me deixam mentir. Este é mesmo um tema sobre o qual se versar? E eu que pensava que ele havia se esgotado com a submersão do É O Tchan e congêneres ou ficado restrito ao Carnaval... Será que tamanho interesse é uma fixação na fase anal e um sintoma da nossa falta de amadurecimento como nação, principalmente no que diz respeito à obtenção da atenção alheia?

Espelho, espelho meu, estou me transformando numa Múmia Paralítica? “Coisa horrorosa!”

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sexta-feira, 29 de julho de 2011

A CURTA LINHA DA VIDA >> Leonardo Marona

O negócio estava começando a murchar, como de costume. Estava no quarto contando os minutos e jogando as sobras fora, pensando se conseguiria algum dia ser um sujeito prestável, quando ouvi umas pedrinhas batendo no vidro da janela.

Não importava muito que quiséssemos ser pessoas prestáveis. Não importava o que eu quisesse ser, um rapaz solidário, um atirador de elite, um entregador de gás. Outras coisas me puxavam pelo braço de um lado para o outro sem que ao menos eu conseguisse identificar que coisas eram essas. Era como se tivessem me soltado com uma bóia no meio de um aquário de piranhas e depois tivessem gritado: Vá! Nade! Salve sua vida! Era simplesmente inútil tentar mudar isso. Não importava um milímetro que eu quisesse um futuro de vez em quando. Que eu desejasse usar o meu tempo e sentir alguma progressão. Nem que algum bigodudo super concentrado em si mesmo falasse da transvaloração de todos os valores enquanto eu tomasse o meu café mal coado. Seria melhor esquecer os valores ou dar novos valores às coisas ou sei lá o que tiraria uma corda de um pescoço falido. E, afinal, pra que tudo isso se quando olhamos uma criança sem os braços e as pernas pedindo qualquer sobra de vida na calçada nos sentimos uns pilantras sortudos de merda de qualquer forma? Ser um fodido pode ser melhor que ter as coisas na frente do nariz sempre que se precisa delas. Além de não esperarem nada de você, o que te dá um certo tempo até ser percebido e julgado como o resto, você ainda consegue fazer com que outras pessoas bem resolvidas pisquem pros lados e duvidem da sua própria capacidade, ou se estão vivendo de fato. Não sei se é a melhor coisa do mundo, mas quem nasce na lama aprende mais rápido a nadar. Isso é um fato. E eu precisava sumir por uns tempos da minha frente, antes que enlouquecesse ou arrancasse a cabeça de alguém.

As pedrinhas na janela, portanto. A comunicação interna do prédio estava cortada. Um porteiro pediu demissão e o outro morreu assassinado pelo morador do 401, que continuava em casa botando fogo nos seus papéis e conversando com um sujeito invisível chamado Nazaré, eu acho. O síndico vivia enterrando gente por aí, sempre com flores debaixo do braço e charutos mofados tamborilando por entre os beiços; e jamais dava um alô para o funcionamento do prédio. Ele tinha uma mulher que odiava e que o odiava. Acho que a situação do rapaz do 506 é parecida. Um dia topei com ele no elevador. Seus planos eram se mudar de vez para o elevador. Ele carregava uma pequena valise e tinha dois sacos de pipoca doce, daquelas com saco rosa. O morador do 1204 também tinha problemas com a mulher, algo a ver com um pau que não subia por nada no mundo. Tentaram até animais exóticos e nada. Pelo menos tinha uma piscininha e o terraço só pra ele. Já eu, praticamente dormia em cima do teto de um ônibus pestilento. Apartamento 101, sem cortinas, a janela do meu banheiro dava dentro da cozinha do boteco em frente. Podia pedir uma carne assada de dois mil anos atrás, com um garfo enferrujado fincado nela, enquanto enxugasse o saco ou passasse polvilho na virilha. E podia ouvir o papo aberto dos caras de dentro do bar; algo parecido com a vida não presta, não agüento mais, acho que vou matar alguém, aquela puta, e desce mais uma.

Eu jamais atendia às pedrinhas na janela imediatamente. Esperava até cinco rajadas de pedrinhas. Se passasse da quinta rajada, era um cobrador e eu não teria nada a dizer pra ele, portanto, me enfiava debaixo do lençol e continuava com meus minutos jogados no lixo, quando muito com uma cerveja de trigo. Parando na quinta rajada, era o carteiro com alguma surpresa. Ele me odiava porque eu sempre mandava um beijinho antes de ele chispar fora. Eu tinha então que levantar correndo tropeçando nas calças e correr até a janela para gritar que ele não fosse embora com as minhas surpresas. Um cotidiano eletrizante.

Peguei o sujeito no grito. A janela emperrada quase põe tudo e perder.

- Oi! Aqui! O que tem pra mim? Algum presente?

Como eu disse, ele me odiava. Mas não era ele dessa vez. Era um sujeito todo de preto, com dois jatos verdes florescentes grudados nas costas, como as asas de um anjo de plástico, e uma caixa enorme presa por tiras nos ombros. Ele parecia um embrulho de presente para as bodas do demônio. Virou na minha direção, eu de pé na janela, como se alguma coisa o tivesse espetado na bunda.

- Achei que não tivesse ninguém em casa – ele resmungou, conformado.

- Bom, mas como vê, estou bem aqui... Ei, mas você não é o carteiro, porra! De onde você é? E essa roupa bacana? É pra colher mel de abelha sem ser espetado, ou você é radioativo mesmo?

- Olha aqui, chapa... Vamos cortar as piadinhas, tudo bem?

- Hum... Tá certo. Então vamos abrir o jogo... Você veio cobrar alguma coisa?

- Você não tem cara de quem pagaria.

- Na mosca. Mas que diabos você veio fazer aqui debaixo dessas nuvens horrorosas, então? Ainda não olhou pra cima hoje?

- Brindar a vida... O que acha? Vim aqui brindar pela incrível vida que deus nos deu! Olha aqui... Tenho um embrulho pra você.

- Ei, amigo, é pra isso que te pagam? Pra destratar os destinatários?

- Pelo que me pagam eu deveria estar arrancando as tripas dos destinatários com os dentes.

- Tá certo, então. Eu desço e apanho. Pode deixar na porta. Na porta do bar eu quero dizer... Quer água? Porque só tem água.

- Ei! Você não teria nenhuma fruta? Uma pêra... Estou tentando me regrar. Um cálculo renal de merda veio e me fodeu direitinho. O médico disse que preciso de frutas.

- Faça o seguinte, companheiro: deixe o embrulho na porta, sim? E depois procure um novo emprego ou quem sabe um novo médico, oquei? Só o que faltava. Uma pêra...

Ele engoliu seu ódio e soltou o pardo na porta do bar. Fui até lá e aproveitei pra dar uma checada na caixa de correspondência. A única coisa que tinha caído de algum lugar era um santinho escrito assim: Saudações! Financeiro, amoroso. Se você tem um problema e precisa de ajuda, Mãe Preta resolve. Faça uma consulta geral da sua vida e ganhe o patuá de proteção e sorte. Acesse: dábliu-dábliu-dábliu-ponto-maepreta-ponto-com. Muito Axé! Mãe Preta Iyalorixá (contato-arroba-maepreta-ponto-com).

Puta merda, macumba pelo correio era o que faltava. O desespero toma a forma de serpente e agradece a colaboração. Acesse... Muito axé... Isso é uma foda! Voltei pra dentro do mofo com o meu pardo e rasguei de ponta a ponta o saco. Dentro tinha um convite. Um lançamento de livro. Poesia. Essas coisas. Porco Dio!, diria meu querido Svevo dos Abruzos. Ainda escrevem isso? Até aqui vieram me encontrar! E ainda mandaram um cara de embrulho florescente fazer o trabalho sujo. O coitado nem sabe o quanto ainda vão chupar sua alma, ele nem imagina como vai parecer um bagaço de laranja quando estiver pra pedir a aposentadoria. E que não vai adiantar mais nada estar de saco pro alto, porque o seu saco vai estar tão pestilento e tumoroso que ele vai voltar a ser católico, porque nada mais haverá de concreto que o estimule a continuar por aí respirando. Será que o governo está pagando por isso? Esses poetinhas ficam por aí pulando que nem coelhos no cio. E coelhos estão sempre no cio, não é mesmo? Portanto, Sr. Marona, o senhor está convidado para o lançamento do livro “Estou com o mastro na mão”, a prosa poética do último beatnik dos trópicos, Zenir Constanti, programado para o próximo dia 20, às 22 horas, na Livraria Pretexto. Sinta-se importante, ele lembrou de você! Após autógrafos e fotos, um coquetel com muita música marginal e uma sessão de improviso recitado. E isso e aquilo e tudo o mais para acabar de vez com um dia sossegado elevado à infinita potência. Meu deus, quem escreveu esse negócio? Último beatnik dos trópicos... Achei que ele tinha morrido esperando a lua descolar do céu. Imaginei bem como seria o negócio todo. O sujeito juntaria oitocentos nomes de autores, escultores, manifestos de época, pensadores de aluguel etecétera, e os colocaria numa ordem inusitada, duas ou três palavras por linha, para que as pessoas que lessem pensassem, nossa, ele conhece esse cara! Nossa, Leminski é sua principal influência! E o Leminski viraria as tripas debaixo do matagal, sem ter escolha alguma. Prosa poética marginal... Sei.

Mas tinha também o coquetel on the house. Poderia ser uma boa. Eu tinha o pavoroso hábito de me forçar a situações constrangedoras. O passatempo de um maníaco do bem. Acreditava que isso acelerasse as coisas dentro da cachola. Ou então era tudo o que a faculdade de jornalismo tinha me oferecido durante esse tempo todo. Reportar misérias. Mas tinha o coquetel logo mais, já era o dia 20 e eu tinha sido o último a receber o convite, e afinal eu não tinha mais nada. Puta, mas no outro livro ele escreveu Ginsberg com ge-u-i e agá no final! Bom, a birita vence outra vez. E em casa era aquele negócio: o canal de sexo pay-per-view era um grampo de cabelo metido numa minúscula caixa de plástico com números digitalizados em vermelho que ficavam brilhando e falhando pavorosamente. E eu não passava de um cara viciado em imaginar coisas terríveis que substituíssem outras coisas terríveis e assim por diante. Todos têm doenças ignominiosas sobre as quais não falam nunca. Eu também. Eu as escrevo no papel e o que isso importa, não é mesmo? Nada. O que importa são os lançamentos de poetinhas cheios de intensidade e olhos vesgos em livrarias sombrias e medievais. O que importa são pessoas de cachecol sugando xícaras e taças, te olhando com as sobrancelhas oblíquas lá no alto. O que importa é que você chegue lá e o poetinha te dê um abraço totalmente opaco, sem te dar uma checada sequer com os olhos, cumprimentando outras três pessoas ao mesmo tempo. Os flashes, as poses, os recitais e mãos ao alto! O que importa, afinal? E não, eu não me lembro de quem era o grampo do sexo pay-per-view. Se me lembrasse, pelo menos isso me ajudaria a esquecer de outras coisas piores e traria de volta momentos em que fui realizado e uma linda judia sardenta de cabelos presos os soltou exclusivamente para mim, para o meu contentamento, e que certamente inventamos um amor por algumas horas pelo menos, em algum dia encoberto pela neblina da minha rotina sem rota. Eu passava, portanto, os dias sacando a anatomia feminina e lendo grandes bobagens universais. Bom, anatomia é uma matéria importante. Pena que, no meu caso, venha junto com urros grosseiramente intensificados, com dentes trincados e traços faciais de puta velha. De qualquer forma, era melhor que o jornal da noite. “Morrem 240 pessoas trituradas num culto religioso na Síria. Duas delas tinham bombas caseiras presas na cintura, vestiam camisas com imagens de Maomé usando batom decalcadas na altura do peito e não faziam a barba desde que o Mar Vermelho se dividiu ao meio... E não percam, a seguir... Filipe Dylon, no nosso Papo Reto, fala abertamente da sua carreira, suas relações amorosas com as fãs e admite: Como mesmo!”. Enfim, eu estava me sentindo completamente miserável e seguro de mim mesmo. Dinamite com fogo, é isso que era. Os tempos eram frutíferos, uma fase daquelas, e era como se não houvesse mais nada para amar ou pelo menos trepar em cima. Eu precisava de um banho. Um banho pra sempre.

Cheguei na livraria umas onze e meia da noite e estavam todos lá, nenhum deles a minha espera, é claro. Fui falar com o Zenir, dar os parabéns, cumprir a cartilha do bom servo. Foi aquilo, o de sempre. “Que bom que você veio, cara! Olha, tem champanhe ali, uns quitutes logo atrás daquele balcão. Quer um charuto?... Opa! Com licença... Oi, tudo bem, bom ter vocês aqui... Então, Marona, eu adoraria que você me dissesse o que acha do livro. Só um minutinho... Seu filho da puta, você também está aqui! Oi, então, Marona... Bom, é só um livrinho, como você sabe, nada muito pretensioso”. Ele se mexia pra frente e pra trás com os olhos estalados e passava as mãos pelos cabelos constantemente, olhando sempre pra frente e depois pros lados. Estava em transe. Esses caras nascem assim. “Zenir, qualquer tipo de poesia sempre é pretensiosa”, eu disse a ele. “Vinda de um moleque de 21 anos como você, então, é quase como lamber o próprio saco”. Sr. Constrangimento, muito prazer, pensei em seguida. Ele rolou os olhos pro lado novamente, com cara de coma induzida. “Ooooooi! Vocês também vieram! Que bom que vieram! Olhem bem, comprem este livro aqui que eu preciso pagar meus porres... E OS DE VOCÊS TAMBÉM, NÃO É MESMO?! O que me resta, afinal?... Ehehehe... Champanhe à esquerda. Um garçom está servindo os canapés. Meu deus, eu amo vocês, seus miseráveis de uma figa!”. A festa estava completa e você nunca entenderia o que queriam dizer aqueles poetas. Você não entenderia se eles realmente levavam o que escreviam a sério. Você não entenderia nada do que eles escreveriam e venderiam a vida toda por aí para custear os porres. Levavam alguma coisa a sério? A vida era o que para eles? Uma descoberta fantástica atrás da outra? Quanto isso custava, pelo amor de deus, quanto?! Não dava pra entender nem se eles estavam contentes com a tua presença ali ou se queriam apenas te espremer o quanto pudessem com perguntas cretinas e sutis olhares de desaprovação. Queriam apenas te embebedar ou será que não viam a hora de jogar flores sobre o teu túmulo? Fiquei na dúvida mais uma vez. Talvez fosse pra sempre. Simplesmente meti o bico numa taça de champanhe assim que consegui dar a partida no motor.

O segredo é: movimentos curtos e um meio-sorriso constante. Dessa maneira você leva umas resvaladas aqui e ali, mas sai quase inteiro e pronto pra máquina. “Marona, vem cá!”, o Zenir berrou. “Uma foto pra eu mostrar pros meus pais o filho da puta que você é!”. Me aproximei e fiz a pose. Cara de olho de cu. Fotos. Tinha algum problema entre elas e eu. Eu não conseguia ficar normal, olhar pra máquina, sorrir e deu, vamos almoçar. Eu tinha que me mexer um pouco ou então começava a suar e me desesperar. E o porra do fotógrafo nunca bate na hora em que você posa. Então você posa, dá alguma merda na máquina, todos começam a gritar, a espremer um o estômago do outro, forçam o teu pescoço pra baixo, daí você esquece a pose e abre a boca, coça o nariz, mete a mão na cara de alguém, então o porra bate a foto e estraga tudo. Como um guarda-chuva na mão de uma velhinha dentro de um vendaval. Ele sempre vai esgarçar. As fotos esgarçavam a minha cara e, afinal, não havia nada a perder por ali. Então era botar a língua pra fora, arregalar os olhos, enviesá-los, ou tentar comer a cabeça de alguém. Os flashes não paravam. Parecia que a qualquer momento alguém anunciaria um novo manifesto cultural ou me pediria uma grana emprestada. Sabe, aquela sensação? Portanto deixei minha marca para a posteridade e voltei ao balcão. Enchi dois copos. Ganhei do balconista duas vezes seguidas na velha. Disse a ele que um copo era pra mim e o outro para minha acompanhante. Não estava mentindo. Ela apareceria uma hora.

Comecei a assobiar e passear pelas estantes cheias de verdades para um bom fim da humanidade. Como cuidar dos seus filhos? Como enriquecer sem fazer a barba? Como cultivar macacos em conserva? Aprenda a dizer eu te amo sem gastar nada! Me desloquei então para a estante da literatura estrangeira. How does the world end and where? How to make a princess out of a stupid cow? What happened to Billy Idol and Cyndi Lauper? AH! ONDE ESTÁ A SEÇÃO DOS MORTOS?! PELO AMOR DE DEUS, OS MORTOS!

Sem mortos. De repente foi a vida quem chegou. Ela usava saia, uma linda touca de tricô suavemente colorida em rosa, mechas negras saindo pelos lados das orelhas, e tinha pernas longas e lisas. Estava cumprindo também o seu papel dando uma checada na estante da literatura brasileira. Abria os livros, lia um pouco da orelha, um dedo no queixo, depois trocava. Acho que as pessoas sabem quando estão sendo observadas. Ela já tinha pegado um Chico Buarque, uma escritora de blogs que também é chamada de nova geração da literatura beat. Uma encheção atrás da outra. Um mingau velho lambuzado. Mas ela, apesar de tudo isso, usava uns óculos modernos, armações grossas e pretas, tinha uma pinta na bochecha que não deixava que você tirasse os olhos dela e é claro que eu não consegui me segurar longe dali por muito tempo.

Ficamos, portanto, naquela típica cena up-town-park-jazz. Nos olhando através das prateleiras, taças de champanhe em punho, cenhos esticados, concentrados. Ela continuava revezando orelhas de livros com dedos na boca... Virginia, Clarice, Cristina César, McCullers, Plath, o time todo. Só faltou chorar e enrolar a corda no pescoço. Eu era a raposa do deserto, esperando a carne apodrecer para atacar em seguida. Logicamente não sabia o que dizer e logicamente não iria dizer nada, quando... “Marona! Você está aqui”, veio o Zenir me agarrando de novo pelo ombro. “Escuta, sua peste, quero te apresentar minha querida amiga e admiradora, senhorita Ana Carmines. Ana, este cara não presta. Nunca se esqueça disso”. Ana Carmines... Tinha cara de cigana. Dei a mão ainda mudo... Ela me deu a mão puxando de volta assim que toquei nos seus dedos. Um segundo e meio, nada mais que isso. Então olhou pro Zenir e falou: “Querido, sou sua amiga no máximo, não sua admiradora. Afinal, você já tem seus pais e esse entulho de parasitas ali fora esperando pelo champanhe, não é mesmo? Olha, faça assim, meu amor: pegue um champanhe pra você, traga mais dois pra nós e me deixe aqui com o sujeito que não presta. A festa é sua, afinal. Muita gente te esperando lá no bar. E acho que nós dois nos daremos bem aqui”.

O Zenir era o poeta e eu é que queria chorar e arrebentar os pulsos. Onde enfiar a cabeça numa hora dessas? Ele foi atrás das taças ajeitando os cabelos. Parecia ter cheirado napalm. Eu estava levemente ensolarado por dentro, rezando que durasse.

- Ana... Então você é amiga do Zenir...

- Não sei, cara. Comparando com o quê?

- Bom, tem essa também. Ele tem um monte de amigos.

- Um monte ou nenhum. Escuta... Bom, escuta, Cara Que Não Presta, por que você tava me seguindo? Achou a touca esquisita ou está apaixonado, hein? Me diga.

Zenir chegou de volta com as taças e os cabelos esculhambados. Ding Ding! O gongo soou. Eu estava longe dali. Era bom desse jeito.

- Bem, você deve ter com o que apostar, não é mesmo? – eu disse a ela, sem desviar o olhar da maravilhosa touca de tricô. – E eu sou só uma raposa. Uma raposa à espreita. Você tem carne pra me dar?

- Sou vegetariana... Hit me again.

- Além de vegetariana e louca pelo Zenir, mais alguma coisa?

- Gosto de mãos. Sou uma cigana, exatamente como você estava pensando.

- Exatamente como eu estava pensando... Mas o que faz uma cigana num lançamento de livro, bebendo champanhe e falando com um idiota? Achei que os ciganos dançassem, batessem castanholas e assassinassem as pessoas à noite.

- Você tá por fora, cara. Eu bebo champanhe e salvo a vida dos idiotas que querem me levar pra casa. E você quer me levar, não quer?

- Bom, acho que você não precisa mais de mim por aqui. Já tem as perguntas e as respostas todas. Podemos pular alguma fase?

- Vai depender do teu objetivo final.

- Que você vai me dizer qual é também, aposto...

- Me dá a tua mão de novo. – Eu dei. – Hum... Interessante... Mãos pequenas, delicadas. Aposto que a sua pia da cozinha tá entupida.

- Eu comprei ela assim. Que mais?

- Bom, você quer saber mesmo?

- Você lê mãos também?

- Como assim, também? Que mais você me viu fazendo pra dizer também?

- Além de salvar idiotas de dias terríveis, não sem antes fazê-los tremer um pouco, além de roubar respostas e beber champanhe?

Minha mão ainda estava na dela. Os flashes também continuavam lá fora, puf, puf, puf, e o champanhe estava no fim. Uma certa gritaria era o som ambiente: um passo acerca do inferno. Mas minha mão na dela é o que há. Ela só olhava pra mão. Eu tinha ótimas mãos para serem olhadas. Só podia ser isso. Ou então mais uma louca na minha frente. E eu ali, outro louco, torcendo que ela se apaixonasse de uma vez pelas minhas magníficas mãos pequenas e delicadas.

- Cara, posso ser sincera contigo? – subitamente ela cortou pra cima de mim.

- Por favor, não... Basta segurar a mão que tá tudo bem.

- Sério, cara. Tem alguma coisa muito errada aqui.

E franziu o cenho. Os olhos ainda fincados nas minhas mãos pequenas e delicadas.

- Ah, então você reparou nisso também... É... Tem um monte de coisa errada por aqui. Por exemplo: nós ainda estarmos aqui nessa lengalenga em vez de nos beijando e sendo felizes pra sempre, ou pelo menos por uma noite.

- Essa foi média. Mas sério, a tua mão...

- Que tem ela? Linda?

- Sua linha da vida...

- O quê? Está torta? Pois é, o carteiro veio hoje... As coisas vão melhorar.

- Não, cara... Não sei como te dizer.

- Pois então não diga nada. Vamos ficar calados, olhando um pro outro bem longe daqui, a noite toda, que tal?

- É muito curta!

- Eu sei que é. Mas são só onze e meia.

- Não, cara. A tua linha da vida... É a menor que eu já vi!

- Bom, não podemos ter tudo, não é mesmo?

- Preciso te consultar a sério.

- Eu vou morrer hoje? Por favor, se for, não me diga.

- Em breve... Uma mulher vai te desgraçar.

- Hit me again – I said. Pisquei o olho e fomos.

Sei que eu passei a mão numa garrafa – o Zenir pediu que eu levasse uma garrafa para sua mesa, foi o que disse ao cara do balcão – e então fui me consultar no quarto da cigana, um bangalô do tipo oriental, cheio de sânscritos pelas paredes e velas acessas, um fedor de incenso, um livro de poesias do Tim Burton. Eu estava de boca no champanhe para me proteger daquilo. Não era exatamente o que se pode chamar de um sujeito espirituoso, mas numa sala daquelas conheço muitos que começariam a gaguejar e a derrubar objetos. Ela pegou a minha mão de novo. Algo fácil de se acostumar.

- É o seguinte, cara: você tem que se concentrar. Cruze as pernas e se concentre. Isso é sério. Aqui, na minha frente, por favor.

- Oquei, então. Podemos começar? Ommmmmm...

- Olha, o negócio é sério... É a sua vida e a minha que estão em jogo aqui.

- Me parece razoável.

Ela fechou os olhos por uns segundos. Respirou fundo duas ou três vezes, depois começou. Olhava atentamente para cada traço da mão. Primeiro um traço, depois fechava os olhos de novo, abria logo em seguida um caderninho e anotava, segundo ela, anotações fundamentais pro desenvolvimento da coisa. Eu estive várias vezes prestes a tomar a iniciativa: pular em cima dela ou desatar a rir. Não entendia nada daquilo. Linhas de mãos. E que têm de mais as linhas de uma mão? E se eu caísse de quatro numa fogueira em brasa e perdesse todas as linhas das mãos para sempre? O que significaria isso? Um fim de semana com tudo pago na Ilha de Capri? Uma consulta odontológica gratuita? Pro inferno com as linhas das mãos! Mas ela parecia realmente abismada. As pessoas se prendem a cada coisa...

- Você tem que se afastar das mulheres – ela me disse muito seriamente, depois de um breve silêncio. – Uma delas virá e te arruinará. Diz aqui... Uma mulher misteriosa... A próxima delas... Meu deus! Não pode ser... – E seu rosto ficou transparente. Suas veias agora falavam para eu não entender nada. Estava completamente perturbada. Talvez isso também fizesse parte do negócio.

Na posição em que estávamos, pernas cruzadas, um de frente pro outro, eu podia ver suas pernas escapando para fora das saias. Isso me prendia totalmente naquela posição desconfortável. Todo o papo esotérico estava triturando a minha coluna. Eu estava encurvado pra frente, os calcanhares completamente dormentes, a nuca me matando a punhaladas em cada respiração. E ela continuava com os olhos fixos nas minhas mãos. Acho que eu ficaria vesgo se fizesse o mesmo por mais de trinta segundos. Mas se ela se divertia com isso, quem era eu, afinal?

- Docinho, que tal mudarmos de assunto, hein? – perguntei. – Se importa se eu tirar o casaco?

- Fique quieto! Eu tenho um destino a cumprir. É inevitável...

- Esse é o nosso problema exatamente agora: o destino inevitável está batendo na porta, baby.

E então avancei o sinal. Fui vindo pra cima, com as mãos firmes em suas pernas lisas cheias de vida. Ela estremeceu e fingiu que tentou impedir o negócio de engrenar. Lembrei da mão no mastro do poetinha bem na hora em que ela também se lembrou. Mão no mastro, portanto. Mas ela parecia previamente arrependida de alguma coisa. Se mexia como se estivesse apenas cumprindo um expediente. Eu só pensei nisso durante dois segundos. Depois estava lambendo o sovaco dela. Os pêlos recém raspados faziam creq-creq na minha língua. Uma coisa do outro mundo para um diabo como eu. Daí baixei sua saia e senti a vida se encher de repente. Ana estava morta e se entregando pro diabo. Eu era o diabo. A próxima mulher, a próxima mulher, ela murmurava vez por outra, completamente pálida, robótica. Continuei por cima, depois pelo lado. Eu estava num daqueles... Usei todos os buracos que consegui encontrar. Bom, ela parecia uma boneca sem pescoço. Nunca fui deslumbrante, mas aquilo era a morte. De repente acabei e ela se jogou pro lado sobre a cama, com um dos braços por cima do rosto virado de lado. Se isso era o que ela queria dizer com “uma mulher vai desgraçar a sua vida”, então ela era boa mesmo com as mãos e suas linhas. Porque eu senti que o meu saco ia estourar. Me botei com os cotovelos nos joelhos e tentei descontrair.

- Agora eu posso morrer. Se for agora, estarei bem – disse a ela, me encaixando em seguida na sua bunda maravilhosa de cigana. A boneca sem pescoço não dava um pio. “Eu tenho um destino a cumprir”, “uma mulher desgraçará a sua vida”, “a próxima, a próxima”, fiquei martelando comigo mesmo enquanto deslizava os dedos por suas mechas. Depois levantei, vi que ela estava de olhos fechados, fui até a cozinha, um copo d’água, fiquei um tempo assobiando com uns periquitos irritantes que estavam num poleiro bicando um a nuca do outro, daí voltei pra cama, olhei pela janela, nada de mais quanto à escuridão total lá fora, apaguei a luz e dormi.

No dia seguinte abri os olhos e não havia ninguém do meu lado na cama. Por um momento achei que estivesse em casa, mas o cheiro do incenso já apagado no pires não me deu mais que cinco segundos até a realidade voltar com seus passa-pernas. Ana! Já tinha levantado. Devia estar aprontando o café ou preparando a papelada para assinarmos nossa eterna comunhão espiritual. Que maravilha o negócio com as mãos! Até que funcionou bem. Primeiro uma linha, depois outra linha, e agora estou aqui, esperando meu café quente e está tudo bem, não é mesmo? Ana! Nada na cozinha além dos periquitos insuportáveis cheios de alegria e vibração. Nada na área de serviço além do sol, já sem vontade de trabalhar pela vida na Terra, entrando timidamente pelo basculante. Foi dentro da banheira que fui encontrar Ana Carmines. Eram frascos e mais frascos derrubados pelo chão. Ampolas e tesourinhas de unha espalhadas. Era sangue aquilo, era muito sangue. Saía do nariz, dos pulsos, de baixo da saia também. Não era sangue, era uma pasta de sangue aquilo. Nenhum mísero recado, nenhuma explicação. A próxima, a próxima, lembrei de suas palavras e da sua cara de como se aquilo fosse um destino para dois. O dela estava ali, traçado em sangue pelo chão da banheira, os olhos me olhando sem verem nada. O meu... Bom, o meu estava no mesmo lugar. Em algum lugar longe dali. Ou quem sabe muito perto, na próxima esquina, espatifado num pára-choque de carro. Quem saberia senão Ana-A-Cigana-Carmines? O negócio começava a murchar novamente, como de costume. Eu ali, limpando o sangue e ligando pra polícia. Eu ali, chorando por Ana e por mim mesmo, por todos os miseráveis e todas as crenças sem sentido, implorando para que algum raio me tirasse dali para sempre. Eu ali, enxugando os braços, dobrando as mangas, dando um último assobio para os periquitos, descendo as escadas e coçando as mãos. Malditas mãos! Vocês, suas malditas! Até vocês! Eu poderia arrancar uma de suas linhas com os dentes!

Mas ela ainda estava ali. Minha maldita curta linha da vida ainda estava ali quando eu saí do bangalô e chorei para o sol. E as pessoas saíam das suas casas com cara de café passado e Doriana bem na hora em que eu também saí. Todas com linhas da vida provavelmente bem maiores que a minha. Mas, com um milhão de demônios, qual era a vantagem nisso afinal?





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quinta-feira, 28 de julho de 2011

CANSEI DE SER COMBATENTE >> Fernanda Pinho



Normalmente, eu jogo a culpa no DNA. Não chega a ser indigno com meus entes nem desculpa esfarrapada. De fato, são assim. Os Pinho são pólvora. Os Barbosa são fogo. Sou fruto de uma combinação explosiva. E explodo. Quando me sinto injustiçada. Quando acho que alguém que gosto muito foi injustiçado. Quando não consigo ser compreendida. Diante da má vontade. Diante da arrogância - como se explodir também não tivesse algo de arrogante. A expressão "dou um boi para entrar numa briga e uma boiada para não sair" foi feita pra mim. Tenho certeza. Adoro falar "tenho certeza". E, pra falar a verdade, nunca sai mesmo de uma briga. Eu faço os outros saírem. Perdem por WO. Sou incansável na discussão. Tenho argumento pra tudo. Faço perguntas retóricas. Encosto na parede. Faço o outro cair em contradição, mesmo se estiver falando a verdade. Não abaixo a guarda. Não levo desaforo pra casa. Não tolero. Não volto atrás. Desenvolvi técnicas de linguagem corporal. Sustento o olhar do oponente e cresço. Eu que já tenho quase um metro e oitenta, numa discussão, fico com dois. Tenho a língua afiada, ferina. E isso vem de criança. Tenho provas. Gravações em VHS nas quais eu respondo às provocações do meu pai sem pensar. Sempre uma tirada a tiracolo. Um talento inato para desferir a palavra precisa para nocautear o outro. Não qualquer pessoa, naturalmente. Também não sou um monstro que sai por aí distribuindo agressões verbais. Mas qualquer faísca já é o suficiente. Sou a pessoa mais doce do mundo. Mas qualquer tiro de chumbinho, já é motivo pra rajada de canhão. E, olha, vou contar para vocês. Sempre ostentei meu canhão com orgulho. Falar o que penso, na minha cabeça, sempre foi minha maior qualidade. É legal ser sincera. É legal fazer justiça com as próprias palavras. É legal defender suas convicções e suas pessoas. É legal ser admirada por quem não tem coragem de ser assim. É legal botar tudo pra fora e não guardar mágoas nem motivos para um câncer futuro. Com esses argumentos venho sustentando minha fama de má. Mas carregar essa fama - com canhão e tudo - pesa. Ter fama de má é mais pesado do que ser mau de verdade. Quem é mau não se importa. E eu me importo muito. Na minha consciência, as palavras que lanço voltam como bumerangues estilhaçando minha paz. A língua afiada é como uma droga. O alívio imediato não compensa a angústia que vem depois. Me sinto a dona do mundo quando sou capaz de enfrentar alguém que tenha me desagradado. Mas é o tempo de voltar pra casa, tirar a armadura de ferro e chorar debaixo do chuveiro, que é um jeito de chorar escondida até de mim. Não se sabe o que é gota, o que é lágrima. Tudo é quente e molhado. Gosto de dizer que sou uma casca grossa com a sensibilidade à flor da casca. Mas a casca está rachada, a fama de má está fake demais, o canhão anda pesando nas minhas costas, antevejo consequências desastrosas. E antes que elas aconteçam, estou colocando minhas armas no chão e erguendo os braços. Eu me rendo. Sério mesmo. 

Imagem: www.sxc.hu


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quarta-feira, 27 de julho de 2011

CARO VOCÊ... >> Carla Dias >>

A sua existência não decide guerras, mas certamente torna a batalha mais justa, juntando-se a você aqueles que crêem na felicidade como conquista diária, oriunda da labuta na construção de si e da ciência da importância do outro na arquitetura dela... Da vida.

Meu caro você, não há dinheiro que compre a sua essência, pelo simples fato de que certas coisas não são colocadas à venda, tampouco são vendadas, apenas para adiar sofrimento. E o que mais me impressiona em você é a sutileza, apesar da crueza, das tempestades, dos tombos. Apesar do peso das dolências e também de como, vez ou outra, somos desacreditados por aqueles que estão sempre a debochar da benfeitoria.

Como se estivesse fora de moda ser verdadeiro. Démodé.

A vida não se agarra a sua existência, mas certamente se perfuma com ela, e sai por aí em busca de outras que sejam tão preciosas ao equilíbrio da sua jornada. Existência que é sua, mas não é perfeita. Porque, meu caro você, não se trata de perfeição projetada ao gosto de uns e outros. Trata-se apenas de levar a vida da melhor maneira possível, sem usar o outro como escudo, ou dedicar aos inocentes as próprias culpas. É a vida sendo vivida.

A vida não gira em torno da sua existência, mas certamente se enfeita com ela, deslumbrando transeuntes, deixando-os embevecidos com a sua presença. E os poetas que tentaram, ainda não conseguiram dizê-lo com rebuscadas palavras, em versos que o alcançassem.

carladias.com



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terça-feira, 26 de julho de 2011

UM GOSTINHO A MAIS >> Clara Braga

Falar sobre morte é muito ruim, mas em algum ponto todo mundo passa por isso. E me desculpem aqueles que dizem saber lidar bem com a situação, eu não acredito que a morte seja algo com que se possa saber lidar.

Digo isso por acreditar que a morte seja um dos grandes mistérios da vida, por mais irônico que isso possa ser. A gente tenta definir de algum jeito, usa adjetivos, frases de efeito, mas não adianta, a morte é esse assunto inesgotável sobre o qual sempre vão ter perguntas sem respostas.

A morte é triste, fato! Causa dor, deixa um vazio, nos faz chorar, algumas vezes nos deixa com aquela sensação de não ter chão. É um dos poucos casos em que podemos usar a palavra "nunca" e ela realmente significar "nunca". Enfim, como muitos dizem, a morte é aquela única coisa para a qual não se tem solução, se é que ela é realmente um problema a ser solucionado.

Em alguns casos, a morte deixa um gostinho a mais. Não sabe do que eu estou falando? Pois vai entender agora. Ouvir um CD da Amy Winehouse não é mais a mesma coisa. Há pouco tempo, ouvir um CD dela significava ter pena dessa artista que estava tão perdida. Agora, ouvir ao CD dela é simplesmente apreciar o trabalho de uma artista brilhante que teve a infelicidade de morrer tão jovem, mas que nos deixou, quase que como presente, dois CDs maravilhosos, e não se assustem se daqui a pouco lançarem um inédito dela. Preciso citar Michael Jackson?

Bom, outra palavra que encontramos constantemente colocada logo após a palavra morte é "inesperada". Não importa se uma pessoa querida se vai repentinamente ou se fica doente por um bom tempo, toda morte parece inesperada para quem fica. Quer dizer, toda não porque toda regra tem sua exceção, e é por isso que eu peço pelo amor de Deus que não digam mais que a morte de Amy Winehouse foi inesperada, essa foi a morte mais anunciada de todos os tempos. Aliás, com todo respeito que eu possa ter nesse momento, e sem querer ofender ninguém, afinal eu mesma sou grande admiradora do seu trabalho, a única coisa em relação à Amy que, infelizmente, era inesperada nesses últimos tempos era ela conseguir terminar um bom show.

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domingo, 24 de julho de 2011

INVEJA >> Eduardo Loureiro Jr.

A verdade é que tenho inveja de muita gente...

Não apenas dos meninos felizes, que brincam despreocupados nos parques. Das crianças que não temem o tempo. Dos surfistas deslizando no mar. Dos meninos do Rio, calor provocando arrepios. Dos namorados apaixonados. Dos que são eternos enquanto duram. Dos jovens talentosos imediatamente reconhecidos. Dos que, quando havia festa na capela do lugar, eram os primeiros a ser chamados para ir cantar. Dos casais de comercial de margarina. Dos que são mais você e eu. Dos pais brincando com seus rebentos. Dos que têm um filho a quem só queiram bem, e a quem só digam que sim.

Tenho inveja também dos meninos traquinas que aprontam estripulias diante do olhar complacente de seus pais. Dos que nasceram assim, cresceram assim, são mesmo assim, vão ser sempre assim. Dos adolescentes que vão experimentando tudo que há no mundo sem pensar em consequências. Dos que são rebeldes porque o mundo quis assim. Dos sedutores que apaixonam uma aqui, outra ali, somente para abandoná-las depois. Dos que fazem o outro valer nada, página virada, descartada de seu folhetim. Dos que produzem o que não presta e são idolatrados. Dos que pera aí que tem mais um pouquinho de "u". Dos homens que espancam suas esposas. Dos caras que têm consumido a elas e a tudo que elas quiseram com seus olhinhos infantis, como os olhos de um bandido. Dos estupradores. Dos que fazem festa lá no seu apê, com gente até fazendo orgia. Dos pedófilos. Dos que estão cantando pra suas meninas para ver se elas entram na deles. Dos assassinos. Dos que adoram pelo avesso. Dos que enganam. Dos que trazem mil rosas roubadas pra desculpar suas mentiras. Dos que manipulam. Dos que primeiro azucrinam, entortam a cabeça, botam na boca um gosto amargo de fel, depois vêm chorando desculpas, assim meio pedindo, querendo ganhar um bocado de mel. Dos que passam por cima. Dos que 'tão nem aí, 'tão nem aí.

E, acima de tudo — disto ou daquilo —, tenho inveja do tempo, de três semanas silenciosas que vivi em um pequeno quarto separado do mar apenas por uma estreita faixa de areia. Do café da manhã feito quase sem higiene por uma calada mulher de pescador. De, desempregado, cumprir meu expediente diário de caminhar descalço, em silêncio, na areia plana da praia. De descansar à sombra de um coqueiro, desenhando com um pequeno galho, sem barulho, sobre a areia ainda úmida. De entrar num mar calmo, tão calmo que era possível sentir, ao mesmo tempo, a corrente morna e ondulada da superfície e a fria corrente submarina. De subir a falésia enquanto o sol, taciturno, descia a tarde. De retornar com a luz discreta da lua, das estrelas e de uma pequena lanterna. De tirar o sal e a areia com um banho pausado. De deitar na cama e dormir acalentado pela música sussurrante, e sem canção, do mar.

É esta a verdade: tenho uma inveja marulhada de mim mesmo.

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sábado, 23 de julho de 2011

SE FOSSE UM FILME... [Debora Bottcher]

Se fosse um filme no ar, o destino da cantora Amy Winehouse seria retratado com um final feliz de superação e glória. Ela ganharia sua já longa batalha pessoal contra o álcool, as drogas e a desnutrição, e seria um ícone vencedor de sua geração.

Dona de voz marcante - Diva para alguns - e visual arrojado, aos dezesseis anos já cantava profissionalmente. Consagrada e aclamada pela crítica aos vinte anos, com o lançamento de seu primeiro álbum musical, ela foi se transformando numa caricatura, enterrando rapidamente a excelência de seus dons como cantora prodígio, intérprete e musicista talentosa.

Mas, se fosse um filme, isso não teria acontecido e ela passaria ao largo do que chamam o terrível 'Clube dos 27', composto por personagens do rock/pop como Kurt Cobain, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Brian Jones (dos Rolling Stones) - todos mortos aos vinte e sete anos, com emblemáticos históricos de abuso de drogas e álcool.

Numa película de cinema, um personagem como Amy seria salvo por um amor arrebatador, de olhos claros e hábitos simples, que a fizesse buscar ardentemente por sua recuperação, e ela deixaria de ser alvo constante dos tabloides por sua rotina de exageros e escândalos pessoais, passando a estampar revistas femininas - de moda, comportamento e música, que era seu atributo principal.

Na vida real, ninguém, de fato, pode se surpreender com o desfecho de sua história. Talvez se não a tivessem deixado jamais sozinha, lhe restaria uma (remota) chance; da maneira como se conduzia, autônoma e destrutiva, uma recuperação concreta seria impossível.

E agora Amy Winehouse fica para a posteridade pelo resgate da soul music dos anos 60 e, mesmo não sendo sua fã ardorosa, desejo que seja lembrada mais por sua voz e música que pela sua trajetória pessoal - embora não possamos esquecer do que a levou rumo a essa morte precoce.

Num filme no ar, esse pequeno texto não existiria. Como não estamos numa tela, vamos acompanhando as notícias tristes da tragédia anunciada sobre a moça jovem e excêntrica que teve a vida roubada por escolhas e decisões erradas.

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sexta-feira, 22 de julho de 2011

HISTÓRIA DE PESCADOR >> Zoraya Cesar

O barco sempre tem algum problema que torna a vida mais arriscada e difícil, como se isso ainda fosse possível. As mãos são grossas, a pele crestada e sempre um pouco inflamada, não há óculos escuros contra os raios UV, nem se sabe o que é isso. Os lábios sempre rachados e as rugas ao redor dos olhos já cansados marcam o rosto como tatuagens de um deus antigo; as dores de cabeça e nas costas são tão constantes que parecem estar ali desde o início dos tempos, e a comida é sempre pouca para tanta fome e filhos. O descaso dos órgãos públicos e a concorrência maligna da pesca de arrastão e da poluição do meio ambiente dificultam assustadoramente o seu ganha-pão.

Não há auxílio que não o dos companheiros e de Deus. Às vezes, também de Yemanjá ou de Nossa Senhora dos Navegantes. Só. E quando tudo isso falha, o barco enfrenta uma tempestade que o tira do rumo, deixando-o à deriva, e, aos seus seis ocupantes, náufragos.

Você, por favor, feche os olhos um instante, largue o jornal, desligue a televisão e siga comigo: você está sem agasalho, num frio doloroso e úmido, perseguido por um vento salgado que gela a água que respinga em seu corpo. Do frio, que enrijece seus membros até a dor, não há como escapar. Dormir, você não consegue: o medo de uma onda soçobrar o barco não deixa e o desconforto é enorme. Comer, só o suficiente para não morrer. Ainda está comigo? Preste atenção: não tem geladeira, não tem televisão, não tem comida. Não tem casaco. Não tem como deitar. O rádio para comunicações quebrou. Você está com sede, cansado e com medo. Você é pobre e desconhecido. Sabe que a Terra se move devagar e, assim como ela, as autoridades e o mundo. Você está perdido.

Continue de olhos fechados só mais um pouco e me diga: o que aconteceu durante o tempo em que você e seus companheiros estiveram sumidos? Que contas foram acertadas, quais verdades reveladas, que segredos descortinados? Que ressentimento, há muito guardado, explodiu em violência e amargor? Que recordações já enrugadas levantaram do fundo aquoso da memória? Se, sob condições extremas, o ser humano mostra o melhor ou o pior de si mesmo, que parte sua você teria revelado? A do herói? A do covarde? A sua? Você manteria o controle ou se jogaria ao mar no final do terceiro dia, na loucura de acabar logo com aquele horror? Teria chorado de medo e saudade, rezado com fé, lembrado dos mortos que encontraria e dos vivos a quem deixaria? Ter-se-ia arrependido de seus erros? Sim, você, como reagiria? Roubaria o quinhão de comida do companheiro mais fraco? Empurraria o mais doente mar adentro, para sobrar mais água? Pediria a Deus para morrer logo? Mataria para sobreviver mais um pouco? Sentir-se-ia um desgraçado ou mostraria toda a sua fibra? Hein?

A sede é tanta que você bebe a própria urina. Você só está vivo porque seus companheiros não te deixam morrer. Por isso, aguentou até ser resgatado. Por isso, ainda foi levado com vida para o hospital. Tudo bem? Pode relaxar agora. Essa é a história de uma outra pessoa.

A do pescador que, após 21 dias à deriva, com outros cinco companheiros, foi resgatado somente para morrer, quinze dias depois, entre as paredes de um hospital. Tanta luta e desespero para morrer trancado, cercado de gente estranha, sem contato com o vento, o mar ou o céu.

Homens da natureza deveriam morrer em liberdade. Em honra ao pescador que morreu longe de sua casa, faremos uma procissão de barcos e pediremos à Grande Mãe do Manto Azul que o receba em seu reino, sem olhar se ele foi herói ou covarde. E pedir também por nós, pois, na verdade, quem sabe como nos revelaríamos nas mesmas circunstâncias?

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quinta-feira, 21 de julho de 2011

ESSE NEGÓCIO DE LIVRO >> Fernanda Pinho






O livro que eu procurava era “Borralheiro”, do Fabrício Carpinejar. Já estava há mais de dez minutos escarafunchando as prateleiras da livraria tendo sido, inclusive, abordada por uma funcionária da loja, oferecendo ajuda. Neguei. Eu sempre nego. Se tem uma coisa da qual eu faço questão é de encontrar sozinha os livros que quero. E não se trata apenas de fazer questão. É um pequeno prazer. Tenho particular apreço pelas livrarias mais desorganizadas, o que torna minha tarefa ainda mais gostosa. Adoro procurar um livro e, até encontrá-lo, me deparar com tantos outros. Às vezes, gosto de imaginar que estou na biblioteca da minha casa e que todos aqueles livros são meus. Também gosto de observar as pessoas que parecem se interessar por livros tanto quanto eu. Foi numa dessas, quando eu procurava meu “Borralheiro”, que notei a presença da Rafaela. Devia ter doze anos. Treze, no máximo. Carregava três livros de capa colorida, dos quais não pude identificar os títulos. Ela não os segurava simplesmente. Ela os abraçava. Uma cena afetuosa que foi desarmonizada pela chegada da mãe.

- Vou querer esses três, mãe!
- Três livros? Você doida, Rafaela? Eu disse que era só um.
- Mas, mãe! Por favor. Eu quero muito ler esses livros.
- Ah não, Rafaela, não inventa moda. Escolhe um e vê se para de me encher com esse negócio de livro.

Não sei qual coração doeu mais. O da Rafaela, que teve que deixar dois livros pra trás, ou o meu, que vi uma crueldade daquela e não pude fazer nada. O que me consolou, mais tarde, enquanto eu me remoia de arrependimento por não ter me oferecido pra dar os livros de presente pra menina, foi pensar que, apesar da insensibilidade literária da mãe, Rafaela já está irremediavelmente fisgada pela literatura. Uma adolescente que abraça três livros com aquele carinho, foi picada pela mosquinha. A mesma que me picou. Mesmo eu tendo nascido numa casa sem o menor hábito de leitura e tendo sido alfabetizada um pouco mais tarde que o habitual, por não conseguir me concentrar nas aulas. Mas quando, aos oito anos, eu consegui ler um livro sozinha, decidi que aquilo era a coisa mais legal que podia existir. O livro chamava-se “A Bombaboa”. E, motivada pela emoção do final épico – a bomba explodia e soltava milhões de corações pelo ar – fui atrás de outros livros. Queria sentir aquela emoção de novo. E então li “Pretinho, Meu Bonequinho Querido”, “Memórias de Uma Bola de Futebol”, “A Vida Acidentada de Um Vampirinho” e não parei mais.

Até ter minha primeira crise com a literatura, o que aconteceu quando eu estava no Ensino Médio. Pensem na situação: eu tinha 16 anos e tinha que ler em cinco dias “O Crime do Padre Amaro”, do Eça de Queiroz. Minha mãe havia pegado o livro numa biblioteca pública e o exemplar mais parecia um original da época. A cada página que eu passava, três espirros. Ah, e os cinco dias em questão era o carnaval e eu iria pra praia.

Revoltada e sem opção, levei o livro na mala. O que eu não esperava era terminar a leitura ainda no domingo de carnaval. Aos prantos. Chorava de pena da protagonista. Chorava de ódio do padre. Chorava por ter que devolver o livro que não era meu. Fui arrebatada e voltei pra Belo Horizonte doida atrás de outros livros do Eça. Eu já havia sido picada pela mosquinha, afinal! Graças a Deus!

Mais de dez anos depois, os livros continuam sendo minha companhia mais constante. Sempre levo um na bolsa, mesmo que eu não vá ter tempo de ler. Mas é quase como se fosse um amuleto. Se não tenho um livro comigo, sinto como se estivesse pelada.

Hoje, me considero uma grande consumidora de livros (haja espaço pra guardar e tempo pra ler tudo o que quero). Uma média multiplicadora de livros (o hábito de leitura já foi devidamente instalado aqui em casa). E uma pequena fazedora de livros (já colaborou com a produção do livro do Crônica do Dia, garantindo seu exemplar? Faltam apenas quatro dias!).

E, definitivamente, não entendo nem nunca vou entender quem não gosta desse negócio de livro. 

Imagem: www.sxc.hu


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quarta-feira, 20 de julho de 2011

UM HOMEM SÓ É SÓ O MESMO >> Carla Dias >>

Feito um esquete de telenovela que poupa no diálogo, ele zanza pela madrugada do quarto, da sala, da cozinha. Nem cogita sentir autopiedade, porque sabe que, por aí, tantos outros zanzam pela madrugada, solitários que são a rodopiarem em quartos, salas, cozinhas.

Foi educado para jamais temer casa vazia, tampouco bolso vazio. O pai esbravejava, a cada infortúnio familiar: “a gente vai sair dessa porque sim!”. Apesar de admirá-lo pela ousadia da certeza, filho que era, desejava um pouco de maciez naquela realidade ouriçada. O “porque sim!” de seu pai se tornou, ao longo de uma vida, da dele, a repetição de um desejo inalcançável. Foram tantas as negativas, que a força que havia na certeza de seu pai envelheceu com ele. Enfraqueceu-se feito os ossos de seu corpo miúdo.

Esses passeios notívagos são como uma dança secreta para acalmar o espírito. De um olho já não enxerga tão bem, apesar de ainda estar na idade dos homens com energia para descobrir uma nova versão de si mesmo e fôlego para vivê-la. Então, esmera-se em manter o coração de olhos bem abertos.

Na lista dos procurados, ele certamente poderia ocupar o cargo de bom partido para mulheres prontas para casa, cama e família. “Não é de se jogar fora”, ouviu a moça dizer, arqueando suas espessas sobrancelhas, deixando claro que lhe fizera um favor ao considerá-lo apto a se embrenhar em sua carne, partilhar do título de marido dela.

Os cabelos branqueiam mais rápido do que anteontem, lembrando a ele a magia dos calendários, sendo um dos truques desse oráculo temporal - que trança dias da semana com datas - a celebração de outro ano de sua vida. Hoje, congratulações ao homem que vagueia pelos cômodos da casa. São mais de quatro décadas de biografia diversa despejada na poça da sua existência.

Aqui, quase no agora, ele desembrulhou o presente vigente, e por isso tantas interrogações o desassossegam.

O que não sabe a moça do favor, é que ele não precisa de aprovação para se enveredar pelo universo de outras moças que não ela. Já engravidou muitas de paixão suburbana, de poesia deslavada, de companhia confundida com eterna. A algumas nomeou parceiras, ainda que compartilhasse com as ditas apenas o tempo do gosto delas em sua boca. Não lhe faltam companhia a tiracolo, chamegos, considerações. Não lhe faltam o cuidado da amante, o zelo da esposa, a devoção da deslumbrada. O que não sabem essas divas da desilusão certeira é do motivo de ele caminhar pelos cômodos da casa, arrastando a si, enquanto relembra a facilidade de acreditar que é possível se recuperar de qualquer coisa.

O que seu pai não soube lhe ensinar, e no que ele não foi autodidata, é que a vida tem seu próprio temperamento, independente do dele. E às vezes faz um movimento diferente, lançando a qualquer um de nós à direção contrária. A vida é intransigente, em alguns momentos, feito moleque birrento querendo o doce, ou como toda pessoa que não se dispõe a aceitar a diversidade da certeza.

O “porque sim!” de seu pai era apenas um lema obscuro digerido por um menino que só queria gastar tempo brincando com seu carrinho, e que às vezes engolia a dúvida já que a resposta era sempre a mesma e definitiva. A mãe até tentara educá-lo de jeito mais amansado, cochichando em seu ouvido, quando o pai estava no outro cômodo, tentando esticar o dinheiro para cobrir as contas, os salmos, os lampejos religiosos, a necessidade dela de conhecer um deus que a tirasse desse destino apedrejado pela falta.

Nele quase não pensaram os pobres, mas ele até quase compreende. Estavam ocupados demais com os próprios demônios.

Somente adolescente, o olhar mais solto, o coração pronto para tamborilar experiências, ele saboreou o desprendimento, e foi junto com uma garrafa de vinho barato. Abandonou a sua história de certezas e se jogou em uma elástica, na qual cabiam todas as versões de si, onde ele não precisava definir-se, decidir-se. Encontrou no descumprimento da certeza, no seu avesso escancarado, um lugar para não acreditar em interjeição que fosse. E tudo se acalmou, aprofundou-se, ensimesmou o homem.

As décadas compartilhadas com a vida lhe deram de prêmio uma silente dolência. Lembra-se do pai com certa tristeza, da mãe, idem. Vivera sob as asas de opostos, e escolheu para si o que tem agora.

De um cômodo a outro, quarto, sala, cozinha, e as canções rodopiando pelo recinto, rescendendo à trilha sonora daquela telenovela quase sem diálogos. Pés descalços, sentindo o chão, fumaça de cigarro que pretende, dia desses, abandonar. Tragos e tréguas.

Não há como dizer ao seu pai ou a sua mãe, ambos já falecidos de suas vidas tépidas, que sente falta do conforto de seus abraços. Nem mesmo que, aos poucos, mas com indubitável dedicação, redecorou a própria vida com a distância e os devaneios. É homem amado, porque há nele o talento para arrebanhar afeto. É homem feito para ser admirado, já que constrói, a cada dia, uma carreira de criações admiráveis. Inspira a tantos, convive com tantos, mas não alcança o entendimento entre seu mundo interior e o lá fora.

Soubesse a moça, no seu arquear espessas sobrancelhas, alardeando a certeza que criara baseada em percepção equivocada, que este é um homem feito para ser amado, de delicadeza capaz de pacificar ventanias. Soubesse ela, certamente deitaria a cabeça no colo dele, sucumbindo aos seus afagos, suplicando por sua benquerença. Não haveria dia em que não desejaria colher um beijo, que nele não baseasse a sua biografia, que não ficasse à mercê do tempo dele. Amaria este homem sem questionar sentimento ou condição, alimentando-se da profundidade das palavras por ele ditas, dos toques por ele oferecidos, como se tocasse um instrumento quente, macio, parindo melodia inédita.

Soubesse a moça, não brincaria com fogo. Este homem, perdido pelos cômodos da casa, sabe fazer-se amar com uma facilidade indigesta aos olhos de seus desafetos. É mestre em cultivar amor pelo simples gosto de ser amado, e colhe paixões como quem arquiteta um buquê de solidões alheias. Este homem, meus caros, é mestre em amar ser amado...

Porque sim, e pronto.



carladias.com



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terça-feira, 19 de julho de 2011

EU QUASE NÃO VOU >> Clara Braga

Eu, assim como boa parte da população, tenho um costume que considero péssimo, mas todas as pessoas que partilham desse mesmo costume comigo sabem que é muito, muito difícil se livrar dele. Falo isso sem orgulho algum, mas infelizmente tenho costume de deixar tudo para a última hora.

Às vezes, deixar algumas coisas para a última hora não é assim tão ruim, mas, na grande maioria das vezes, a gente sabe que perde algumas oportunidades importantes.

Logo que anunciaram que o próximo Rock in Rio seria de fato no Rio de Janeiro, eu e alguns amigos combinamos de ir. Nós começamos a combinar antes mesmo de serem anunciadas as atrações. E então começamos a olhar preço de ingresso, procurar local para ficar, preço de passagem... Os que trabalham já marcaram férias para a data, os que não trabalham, como infelizmente é o meu caso, começaram a fazer o pé-de-meia, e assim por diante.

A situação parecia estar se desenrolando com uma organização fora do padrão para mim, o que era ótimo. A única coisa sobre a qual não conseguíamos chegar a um acordo era quantos e quais dias nós iríamos. Eu queria aquele dia, mas não gostava de nada do outro dia, já o outro gostava de todas as bandas do outro dia e de nenhuma daquele. E assim foi... discutimos tanto os dias que iríamos e os que não iríamos que a venda dos ingressos começou, esgotou e nós ainda estávamos decidindo.

Mesmo com um recado enorme na página principal do site do Rock in Rio dizendo: Obrigado a todos, ingressos esgotados em 4 dias, eu não acreditava, dizia a todo mundo que tinha acabado o primeiro lote, mas que ainda dava tempo de ir. Primeiro lote nada, acabou tudo e eu não vou, essa é a verdade.

Depois que me recuperei do choque da notícia, comecei a ver que haveria outros festivais também. Não iria ao Rock in Rio, mas poderia ir ao SWU, por exemplo, era só me organizar com mais antecedência.

E só depois de eu ter gastado todo o dinheiro do meu pé-de-meia, abre um dia extra para o Rock in Rio. Um amigo me liga de manhã com a notícia e, como se não bastasse ter Stevie Wonder como atração principal do palco Mundo, a atração principal do palco Sunset é ninguém mais ninguém menos do que a minha cantora predileta, Joss Stone.

Não teve erro, todos compramos os ingressos e em setembro estaremos no Rio de Janeiro. A única pergunta que fica é: sem pé-de-meia, como se faz para pagar?

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segunda-feira, 18 de julho de 2011

O TRAJETO >> Kika Coutinho

Dia desses, fui levar minha filha em uma aula de férias, uma espécie de recreação que ela está fazendo, aqui perto. Os vizinhos compartilham o mesmo horário e, por pura praticidade, combinei com uma amiga, mãe das crianças que moram ao lado, que ela iria levar e eu buscar.

Num instante, minha memória sacou de seu baú bagunçado uma lembrança antiga, tão despretensiosa e tola, que não sei como grudou suas raízes em minha mente com tamanha força.

Íamos para a escola levados pela minha mãe, que dirigia ao som da Jovem Pan: “Vambora, vambora, vambora, que tá na hora, na hora, na hora”. Além da música e do cheiro forte do estofado de carro antigo, minha memória adocicada guardou a imagem do banco de trás cheio de outras crianças, filhos dos vizinhos que dividiam a mesma escola que eu. As idades eram diferentes, não éramos grandes amigos, mas estávamos ali, unidos por um mesmo trajeto, e ficávamos calados ouvindo “o homem do tempo”.

Não preciso fechar os olhos para lembrar o rosto de cada um deles. O momento se fixou em mim, justamente por não ter nada de especial. Talvez por serem tão banais e recorrentes, as manhãs despretensiosas tenham alçado espaço na minha seleta rede de lembranças, em que cabem tão poucas figuras e sensações...

Agora a minha memória, essa danada, derrama momentos como esse tal qual uma chuva doce, pequenos frutos adocicados que caem sobre mim quando, enfim, passei para o banco da frente, a dirigir minha vida. Literalmente.

Quando combinamos que minha vizinha levaria minha filha e eu buscaria os filhos dela, uma espécie de tensão me invadiu. Quis precisar o horário, não me atrasar, e garantir que o rádio do carro estivesse funcionando de acordo. Obviamente, me atrasei, e, quando olhei o relógio, precisava ter saído e ainda estava em casa. Enquanto corria em direção à escola, as lembranças me invadiram de forma tão intensa que cheguei a olhar pelo retrovisor para procurar a minha infância doce, calada no banco de trás. Não encontrei.

Cheguei ao lugar, peguei as crianças e, apenas aí, notei que estava sem cadeirinha. Nenhuma cadeirinha para três crianças em idade de cadeirinha obrigatória. Meu Deus, que mãe desnaturada, pensei acomodando os pequenos (e as babás) como dava, no carro apertado.

Voltei com todo cuidado, mirando cada lombada, cada buraco, e monitorando que a música estivesse boa. Queria imprimir neles, naqueles pequenos seres que estavam calados durante o trajeto até suas casas, algum tipo de lembrança boa. O que será que guardariam? Daqui a muitos anos, talvez esse momento tolo, cotidiano e recorrente, adocicasse a memória de uma daquelas crianças.

Quando os deixei na porta do prédio, olhei pelo retrovisor e senti um misto de ansiedade e alegria pelos trajetos que a vida (essa sim, uma danada) nos propicia. Ali, naquelas pequenas criaturas, podia ver a mim, meus passos, minhas escolhas e todo o trajeto que, entre tortuosas estradas e belas paisagens, havia me trazido até aqui...

www.embuchada.blogspot.com


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domingo, 17 de julho de 2011

ABANDONA NÃO, EDUARDO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tenho uma longa história de abandonos. E fique tranquilo o leitor, porque não bancarei a vítima nesta crônica já que muitas das vezes eu fui não o abandonado, mas o abandonador.

Uma das coisas boas de envelhecer é que as coisas começam a se repetir na vida da gente, como se a vida fosse um video game ou um "feitiço do tempo". Essa repetição nos dá a oportunidade de trocar o lamentoso "a vida não é justa comigo" pelo investigativo "será que sou eu mesmo que estou criando isso vez após vez?".

Esses dias, tenho sentido minha velha vontade de abandono se aproximar de mim, nova e perigosamente. E tenho me lembrado de dois outros abandonos: o do Circus e o do Labirinto.

"Circus" era o nome de uma pequena exposição de poesia e artes plásticas que eu e Fabiano, auxiliados por outr'Os internos do pátiO, fizemos como trabalho final da disciplina Arte na História, ofertada por nossa então mestra e hoje também amiga Luiza de Teodoro — e isso já faz vinte anos. Com as paredes do pátio cobertas de traços e versos, tudo pronto para a inauguração, eu inventei de abandonar o Circus feito um palhaço triste demais para uma comemoração.

o Labirinto foi uma megaexposição realizada há sete anos no Museu de Arte da UFC como etapa final de um doutorado coletivo, do qual participaram também Fabiano, Andréa e Paulo. No último dia da exposição, que durou um mês, banquei mais uma vez o abandonador e não apareci para dançar a derradeira ciranda.

Agora estou na reta final de um novo projeto coletivo e, percebendo a ânsia de abandono se repetir, escrevo esta crônica como quem desembainha a espada para enfrentar um dragão de várias cabeças.

No aço polido da espada, que funciona como um espelho, posso ver o motivo — ou pelo menos a desculpa — de minha ânsia de abandono: a sensação de achar que dei demais, trabalhei demais, me esforcei demais, enquanto as outras pessoas envolvidas não fizeram o mesmo. Então arrumo tudo, deixo tudo funcionando, mas abandono no final, não fico para o brinde ou para a ciranda.

O novo dragão que tenho pela frente é o final da fase de financiamento colaborativo do primeiro livro do Crônica do Dia, o "Acaba Não, Mundo", cujo período de captação de recursos termina no próximo dia 25 de julho. Título sugestivo, aliás, porque pode ser facilmente adaptado para "Abandona Não, Eduardo".

Claro que, pelas muitas voltas que essa história de abandono já deu, sei que o projeto em si não corre riscos, pois, antes do abandono, eu realizo. E também já não tenho mais a cara-de-pau de fazer um novo abandono físico, do tipo "não aparecer" em um dos lançamentos. Essas cabeças de dragão, eu já decepei.

E, para não ficar anos e mais anos nesse degolar de cabeças, uma a uma, estou resolvido a extirpar logo a cabeça principal, para que as outras despenquem por si mesmas. A cabeça maior, aquela que está no centro, a que tem os olhos acesos e cospe fogo, é a cabeça do abandono não dos projetos, não dos outros, mas do abandono de mim mesmo.

O leitor que me perdoe a sessão escrita de terapia, mas agora está vindo à minha mente uma cena de infância: a final de um grande evento num domingo à noite, em um ginásio lotado. Perdi-me de meus pais. "Eles me abandonaram", deve ter pensado a criança que fui. "Ou então eu larguei da mão deles", pondera o escritor que sou, sempre em busca de uma solução mais engenhosa.

Talvez tenha sido eu que, curioso, tentado por um brinquedo ou por uma guloseima, e, ajudado pelo suor, escorreguei minha mão da mão firme de meus pais e me aventurei na multidão de estranhos para só depois, já saciado de risco e novidade, dar-me por satisfeito e então chorar pelos meus pais.

Sim, fui eu que me abandonei. Não no sentido choroso de desamparo, mas no sentido da entrega. Dei-me ao Circus, dei-me ao Labirinto, assim como agora estou me dando novamente. "Acaba Não, Mundo!" não é um apelo ao pai-Mundo para que ele não me abandone. É uma ordem para que eu não acabe com meu próprio mundo. É um lembrete de que o Mundo está em minhas mãos, e que eu posso escorregá-las e aventurar-me sem me perder. Posso ser palhaço, feliz da vida. Posso ser Dédalo, conhecedor dos desvios. Posso ser gente, estranha multidão. E, em vez do choro, chamar a atenção de todos com um grito: "Ei, venham! Vejam só o que eu descobri!".

Seja o leitor, então, bem-vindo ao meu mundo que nunca acaba.

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sábado, 16 de julho de 2011

RAZÕES PARA INTERDIÇÕES OBSOLETAS [Carla Cintia Conteiro]

Algumas interdições que ainda sobrevivem na segunda década do terceiro milênio se parecem com um cóccix, lembrando da cauda que não está mais lá.

Em algum momento, a ideia de casamento como instituição surgiu na história do homem porque era preciso garantir que aquele frágil filhote humano, fruto do encontro carnal entre o macho e a fêmea da espécie, fosse abrigado e alimentado. Por outro lado, o macho provedor necessitava assegurar-se de que aquele era mesmo seu descendente. Daí também a força com que sempre se exigiu e se cobrou a fidelidade feminina.

Já do homem algumas puladas para a caverna ao lado sempre foram mais toleradas, desde que não deixasse faltar nada em casa, garantindo à legítima parceira, de pedra cuneiforme passada e lavrada em cartório e diante do sacerdote da tribo, e à sua prole, a segurança física e material.

Com o teste de DNA, essa coceira na testa masculina – nada mais que a síndrome de godero – enfim se dissipa. Ou não. O certo é a pergunta das sogras maldosas – “Filhos de minhas filhas meus netos são, filhos de meus filhos meus netos serão?” – finalmente tem uma resposta. Não é preciso o vínculo marital para garantir que o pai contribua para o sustento dos filhos. A criança está legalmente protegida. A alimentação não depende da caça e da força masculina. A comida pode ser adquirida em qualquer mercado. E o dinheiro para comprá-la, a mulher já o ganha com o suor de seu próprio rosto, não depende de um provedor. A outra mulher não é mais aquela que pode roubar não apenas seu homem, mas também seu pão. A sociedade mantém (ou deveria manter) todo um aparato para garantir segurança a todos, livrando o cônjuge masculino da tarefa de segurança e guarda-costas.

Como as razões de sobrevivência para casamento e fidelidade evaporam, deveria ficar junto quem quer, enquanto quer e a exclusividade deveria fluir de acordo com o combinado casal a casal. Para conquistar e manter um relacionamento saudável agora basta que ele seja companheiro, inteligente, carinhoso, engraçado, fofo, sensível (mas não muito), cheirosinho, sarado e adorável, participe das tarefas domésticas, não cochile nos encontros de família, tenha um contracheque ou um contrato social e não ronque. Enquanto isso, a mulher só precisa ser linda, gostosa, magra, culta, saber se vestir, se maquiar, se alimentar e se comportar, ter uma carreira brilhante, ser boa mãe, boa filha, boa esposa, boa irmã, boa cunhada, boa nora, boa amiga, boa vizinha, boa funcionária, falar ao motorista somente o indispensável, cozinhar pratos originais, gostosos e saudáveis (isso ele também deve saber fazer) e manter a casa impecável. E fazer força o tempo todo para não apertar o botão de ejetar. Pensando bem, ninguém disse que era fácil.

Retomando, quando os índices de mortalidade infantil eram altos e a expectativa de vida baixa e havia um mundo inteiro a ser povoado, o dever de cada um era ter o máximo possível de filhos. Isso se dava também não apenas para aumentar as chances de passar seus genes adiante, mas para garantir mão de obra para trabalhar nas terras da família ou da comunidade.

Portanto as pressões que ainda sofre uma mulher que decide não ter filhos ou por uma outra razão não os têm são reflexos de valores obsoletos. Tanto quanto esse tipo de pressão recair principalmente sobre o lado feminino da equação. Um homem sem filhos, na maioria das vezes, não é visto como um traidor da espécie, já que, supostamente, ele está o tempo todo procurando uma forma de espalhar sua semente por aí.

A questão de ele não estar buscando mulheres e sim outro(s) homem(ns) e ela também se sentir melhor em braços semelhantes aos seus e o ódio que isso ainda suscita, deve ser observado sob a ótica que a análise transcendental chama de adulta. Isso quer dizer não analisar um assunto com as respostas prontas que recebemos. Devemos estudar a realidade à nossa volta e tirar nossas próprias conclusões, de acordo com o cenário atual, a despeito do que nos é incutido por quem luta pela preservação de um mundo extinto. As argumentações que ouço não condizem com um mundo superpopuloso, em que o ímpeto guerreiro e caçador não mais se justifica. A continuidade da vida humana sobre a Terra não repousa na orientação sexual de ninguém. Mas o ódio continua a exterminar alguns espécimes humanos diariamente.

Desta forma, quando ouço certos discursos, o que entendo é que aquela pessoa não fez seu dever de casa em termos de análise crítica, não está ainda consciente de que negar a mudança não vai fazer com que ela desapareça e que falta um pedaço de chão a percorrer para ela estar apta a agir, pensar e viver neste novo mundo, neste novo tempo.

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

PESSIMOTIMISMO ou POEMAS DE ESCÁRNIO >> Leonardo Marona

"um a menos"

por ora os abutres sobrevoam
a lagoa fetal e, muito em breve já munidos
com as devidas garras de enxofre,
eles darão o rasante metálico
e tudo isso será apenas uma história,
um mito, um terá-alguma-vez-isso-acontecido,
mas os amantes estarão esfarelados
em suas carnes antigas, abraçados numa confusão pagã,
a carne nova estará no balcão vermelho dos negócios de feira,
as breves frases delicadas ter-se-ão tornado
bustos pesados de paz em vírus.

a galope o pequeno órgão ratifica
a vaga culpa, estamos nus sob um sol úmido,
não há realmente porque falar sobre isso com ninguém,
as salas minúsculas e os alquimistas calvos
afunilaram o ambiente com paciência e muito ânimo.
serás processado, triturado e lançado ao acaso
em tua própria tendência succínea, e não será possível
abrir mão deste silêncio como osso tranca-traquéia,
ainda nem uma cabeça, um todo
verminal que no entanto pulsa.

a morte da Grécia está nas ruas
e já não poderei vê-la porque a partir de agora
os olhos forçam para dentro as mágoas,
as covas rasas se alinham ao ventre,
não há realmente porque falar sobre isso com ninguém,
entende-se que a morte do pai reaproxima o par,
pois que assim seja, saberemos renunciar
a qualquer passado por uma nova vida, daremos
as mãos em nosso pior inverno, riremos como clowns
e poderemos até assaltar um banco, costuraremos
as máscaras dos sorrisos heróicos e caminharemos
com menos um pedaço, adiante.

***

"Brasília"

o problema sério de Brasília
são os prédios de pastílhas,
tristes seres que se afagam
nas mil quadras de mil blocos.
Brasília é homem que jamais
pode morrer, mas traz a faca
que sem lâmina nos mata,
nos faz maiores para falar:
Brasília ao longe teu avatar
já não comove nem um grego.
país ao longe, tão brasileiro,
vapor ao vale na imensidão.
sangue escorre, e tenho pena,
Brasília corre com pés no chão.
mas qual o chão, se aqui se morre
pensando em atas de distinção?
o que nos mancha, se temos sorte,
serão as salvas da alforria.
Brasília monstra, por que Brasília,
se onde há homens não há poesia?
não ser Berlim, nem bem Paris,
com a magia dos sem-coturno.
não nos amamos, e sei contudo:
te devo a vida, e o chamariz.
amigo Heine, eu bem entendo
com a frieza dos bigodudos:
além de tudo, há lá mil vias,
línguagens cínicas do violão.
Brasília, a morte nunca foi tua
mas somos todos o teu caixão.

***

"não é felicidade"

você me entrega a felicidade
mas quando ponho as mãos
por trás da nuca feito louco
não sei se é felicidade o que
preciso, ou daquela dureza
de não se saber se pode ser
felicidade um amor tão cheio
de invisíveis parâmetros,
signos sem interpretação,
apenas para ficarmos pasmos,
pensando: é, não é felicidade.

***

"depois de Fassbinder"

o Comitê Invisível tem razão, não haverá mais um New Deal,
as passeatas tornaram-se blocos de carnaval em que se embriagar,
o sentimento social se evaporou em pequenos contratos sociais,
os revoltosos serão festivos e desesperados por sentimento puro,
o sentimento puro será o que se pode sentir sozinho, observado,
a nova insurreição virá da falta de uma linguagem comum,
estamos à beira de um ataque de nervos, fechados em salas
brancas como a morte ou com cheiro de anteontem, sala negras
nos pesadelos que alimentam o suor da nossa perdição sabida,
não haverá a ligação telefônica dos antigos partidários da causa,
com uma semana de enclausuramento cessarão as tremedeiras,
seremos capazes de compreender tudo, com monossilábicos,
fechados pelas sirenes, conseguiremos no máximo imaginar
o desenvolvimento de nossas cáries em rasos canais de amor.

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quinta-feira, 14 de julho de 2011

DOCE DELEITE >> Fernanda Pinho



Eu sou o leite e você me pôs no fogo. Me aqueceu sem que eu pedisse. Me tirou do conforto da minha Tetra Pak. Me deixou em fogo baixo. Parecia não ter pressa. E não tinha mesmo. Seu prazer estava em ficar ali, vigilante, a me observar. Mas mesmo quando aquecido em fogo baixo, uma hora o leite atinge a fervura. É a lei natural da química. Ou seria da física? Não entendo nada disso. E também não entendo nada de você. Como compreender que depois de tanta vigilância você iria se dispersar justo quando fervi? E agora? Quem vai pagar o preço pelo leite derramado?


Sua única chance seria aceitar dividir essa conta comigo. Eu estou te dando essa chance. Uma chance e uma dica: cuidado para não perder o ponto. A linha entre o doce de leite e o leite azedo é tênue. E se eu azedar, alguém vai ter uma indigestão das brabas.

Foto: www.sxc.hu
www.twitter.com/ferdipinho

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

DA ARTE DE ACOMPANHAR CONSELHOS >> Carla Dias >>

De acordo com as revistas, ando por fora do que seja o caminho certo para a felicidade. E não desejar me tornar celebridade é pecado dos mais pecaminosos, porque todos nós desejamos um lugar ao sol. Também não importa se não há um diferencial para se chegar a essa celebridade toda. A revista jura que se eu seguir os dez conselhos da sua listinha da página vinte e três, eu chegarei lá, e nem preciso de talento, contanto que eu não falte à entrevista com um personal stylist que dê jeito no meu jeito brejeiro de ser.

Claro que me deu uma vontade daquelas de visitar o meu lugar ao sol. Por isso fechei a revista e fui dar uma volta no quarteirão. Manhãs de sol de inverno são dignas de serem celebradas.

Seriam celebridades?

O jornal, em nome do horóscopo do dia, prometeu-me um acontecimento inusitado, mas para isso eu teria de abrir os olhos e enxergar aqueles que não me querem bem, mas que ficam por perto apenas para usurpar a minha capacidade de enxergar a vida. E eu limpo os óculos na manga da blusa, lembrando a mim mesma que está na hora de visitar o oftalmologista, de remoçar a receita para a fotofobia. E fecho os olhos para descansar na escuridão, vasculhando o detrás das minhas memórias. Fecho o jornal.

O panfleto é claro quando quase grita que se eu não fizer no mínimo dez sessões de terapia, jamais saberei o significado da plenitude. Promete, sem qualquer pudor, mostrar-me o caminho para a autoaceitação, e que depois de chegar a tal destino, nada mais será o mesmo... Eu mesma não serei a mesma. Talvez, penso, os móveis continuem os mesmos. Eu gosto dos móveis... Apreciarei se eles continuarem os mesmos. E o panfleto ainda declama – acompanhada a frase de um ponto de exclamação gigantesco para dar ênfase à necessidade - que eu não posso perder a oportunidade de descobrir quem eu sou.

Quem eu sou suspira fundo que só, chega até a doer um tantinho o coração. Dobra o panfleto e coloca na bolsa, que não tem lixeira por perto. E se achega esse senhor de olhos marejados, coisa de doença da vista, ele diz, não é tristeza, moça... Achega-se para perguntar se eu sei onde fica a igreja de Santa Maria, na qual sua sobrinha se casará daqui a pouco. E tiro da bolsa a caneta, reviro e acho o panfleto, e faço um mapinha até a igreja, no verso. O senhor dos olhos marejados não precisará de dez sessões de terapia para encontrar a felicidade. Serão apenas dois quarteirões e ele até poderá abraçá-la.

No ponto de ônibus, sentada, uma senhora miúda, curvada. Sento-me ao lado dela e dividimos a espera pela condução. Ela resmunga algo e eu não entendo, pois não?, e então ela me encara, a feição dura. E diante dessa imagem tão severa, confesso a ela que não me interessa ser celebridade, que a armação e lentes dos meus óculos têm mais de dez anos, que eu prefiro inventar histórias a contar a verdade ao terapeuta, então não faço terapia. E então ela sorri e diz: cada coisa que a gente escuta em ponto de ônibus...

De acordo com o painel do ponto de ônibus, não há nada mais difícil do que não ter casa própria. E se eu pagar uma boa entrada, e me propor a parcelar o restante, em menos de 120 meses serei proprietária, não inquilina. E a senhora dá de falar até, sobre isso e aquilo, sobre assuntos que não são meus. Distraio-me com suas confissões de ponto de ônibus.

Sentadas ali, a nossa casa-painel de cenário, parecemos até duas amigas trocando confidências na varanda, enquanto esperamos o sol se pôr. Ela já despida da dureza, da severidade, gargalha miúdo quando me diz que foi celebridade ainda no domingo passado, quando almoçou na casa da filha e foi assediada por seus três netos. Eles queriam respostas para perguntas nada tradicionais, assim como disputavam a sua atenção, enquanto tiravam fotos e mais fotos dela. Fotos que serão publicadas no álbum de fotografias da infância deles.

O ônibus chega, estaciona e abre as portas. A senhora sorri, contradizendo a primeira impressão. Não confio em primeira impressão. Ela entra e o ônibus parte, levando uma celebridade.

Do outro lado da rua, um outdoor alega que o planeta vai desaparecer do mapa no daqui a pouco. Quando é daqui a pouco? E me sento na varanda-painel, fim de tarde já presente, sol partindo. O outdoor insiste: ele vai sumir, minha senhora! E eu o corrijo: senhorita.

Como o planeta desaparece nos outdoors? Escorre, silente, apático, esparramando-se no rodapé onde moram as letras miúdas? Como ele se livra do mapa, das fronteiras, dos contornos? O outdoor não desiste de mim. Sou sua presa, sua urgência em se fazer compreender. Então ele me agarra pelo olhar, escraviza a minha atenção, alimenta-me de pânico... E solidão.

Mas é apenas por alguns segundos...

Ele me avista e acena. Ela me avista, ele cochicha com ela, então ela acena. Eu aceno de volta, comprometida com a existência deles em um planeta que não vai acabar ao comando de um outdoor.

A vida insiste em sussurrar em meus ouvidos, enquanto a cena se desenrola diante de mim. E ela o faz com a profundidade indubitável das alegrias genuínas, de quem gargalha até a alma se encher de felicidade. É a vida que me convence, enquanto o Sr. Olhos Marejados caminha pela rua, ao lado da sua sobrinha vestida de noiva, sem limusine, seus pés acarinhando o concreto. Ao lado dela, amparado por sua presença, um noivo de bochechas rosadas, lançando um olhar fascinado a sua esposa. A festa, o Sr. Olhos Marejados diz, será em uma cantina logo ali. Vamos? E eu agradeço, e com agradecimento legítimo, mas tenho de voltar pra casa.

Eles somem na quase noite, meu ônibus chega.

Durante a viagem, um livro me diz que preciso ser mais corajosa com as oportunidades. Diz assim: agarre-se e desfrute! E eu o fecho para olhar pela janela que me oferece paisagem em movimento.

Agarro-me. Desfruto.


Imagem: Pandora © John Waterhouse

carladias.com

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terça-feira, 12 de julho de 2011

A PROPOSTA >> Clara Braga

Outro dia, um amigo veio conversar dizendo ter recebido uma tal proposta e estar na dúvida quanto ao que deveria fazer.

Essa proposta, de emprego, era uma dessas que envolvem uma grana muito boa e que com certeza fez a namorada dele pensar mais ainda naquele outro tipo de proposta que algumas mulheres ainda esperam ansiosamente.

Mas como eu sou adepta da filosofia que diz quando a esmola é demais, o santo desconfia, já fiquei esperando qual seria o “mas” da proposta que ele recebeu. Não demorou muito e ele logo disse: “Mas eu teria que ir embora de Brasília.”

Eu, em um pensamento que só depois fui perceber ser um pouco egoísta e talvez até pessimista, já questionei logo: Mas e nós, seus amigos? E a nossa banda? E a sua família? E a sua namorada? Você vai deixar tudo para trás? E se der errado?

E mesmo eu sendo a única que estava ligando para essas coisas, afinal o pai dele disse que não sabia por que ele ainda não tinha feito as malas, a minha ficha do egoísmo demorou a cair. Só caiu mesmo, acreditem ou não, depois de assistir a um filme, desses bem mamão com açúcar, chamado "Cartas para Julieta".

No filme, resumindo de forma bem rápida, Sophie vai com seu noivo passar uma temporada em Verona e visita a casa de Julieta (de Romeu e Julieta). Lá ela descobre que as mulheres escrevem cartas para Julieta e colocam na parede da casa. Ao final do dia, um grupo de voluntárias recolhe todas as cartas e responde uma por uma.

Sophie se encanta com aquilo e passa a ajudar essas voluntárias. Um dia, recolhendo as cartas da parede, ela descobre uma que foi deixada lá tão escondida que durante meio século ninguém encontrou. Ela responde essa carta de uma mulher, agora já uma senhora, que se apaixonou por um Italiano, mas deixou seu amor escapar.

Depois disso, muita coisa (que eu não considero muito relevante para o ponto onde eu quero chegar) acontece, e só ao final do filme a carta é lida. Peço licença a quem não viu o filme para contar o que dizia a carta, afinal, por mais bobo que o filme seja, essa carta consegue fazer a gente pensar.

Ela diz mais ou menos assim, as palavras “e” e “se”, quando colocadas separadamente, não representam nenhuma ameaça, mas quando colocadas juntas lado a lado, elas tem o poder de nos assombrar a vida toda. E se?

Foi aí que eu percebi que essa proposta não poderia ter vindo em hora melhor para ele, afinal ele está apenas começando, e é exatamente quando estamos começando e ainda não temos ninguém dependendo de nós que estamos na fase de ter experiências que dão errado, pois é muito mais fácil recomeçar. E por outro lado, tudo sempre tem 50% de chance de dar certo. Se ele não aceitar, vai passar o resto da carreira se perguntando “e se eu tivesse ido?”.

Quantas vezes deixamos de fazer coisas por medo, medo de dar errado, medo de levar um não. E então passamos um bom tempo nos perguntando “e se eu tivesse feito?”. Se fazer essa pergunta é muito pior do que ser rejeitado ou ter uma experiência que deu errada, até porque quando algo dá errado, nós crescemos quando passamos por cima disso. Quando deixamos de fazer algo e nos perguntamos “e se?”, é porque deixamos para trás a oportunidade de crescer, tanto com um experiência que pode dar certo quanto com uma que pode dar errado.

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segunda-feira, 11 de julho de 2011

PEDIGREE >> Albir José Inácio da Silva

Já entraram aqui antes para roubar comida, mas havia menos injúria. Interrompiam meu sono, eu tinha de persegui-los, surrá-los, mas nem os odiava por isso. Cumpria meu papel e às vezes até me divertia. Mas agora não. Não roubaram, não fugiram, não adivinharam minha presença, ou melhor, não se importaram com ela. Insolência? Não. Desrespeito. De um tipo que não se pode tolerar.

Não me incomoda o fato de serem criaturas vis. Finjo não ver seus trejeitos e requebros como se isso não fosse uma afronta. O que não podem é querer deixar de ser o que são: vira-latas. Rastejem, esgueirem-se pelos cantos, imundos e repulsivos, e não me incomodarão. Exaltem-se lá com os seus. Festejem, chafurdem e recebam homenagens de seus pares. Mas respeitem quem não é da sua laia, quem tem certificado e licença.

Chego a desacreditar na justiça superior que dá petulância e embota a inteligência que deveria ser suficiente para reconhecer o próprio lugar. Já não há fronteiras. Eles não passarão correndo como convém. Invadirão lentamente, de cabeça erguida, olhando pros lados como a ocupar o que é seu. Absurdo dos absurdos.

Começaram não saindo da frente. Depois olharam nos nossos olhos. Saíram a qualquer hora do dia ou da noite. Fizeram passeatas, cartazes, programas de rádio e TV. Votaram, frequentaram, entraram por cotas. Comeram pelas bordas, se empertigaram , se espalharam. Deram-lhes a mão e agora eles querem leis. Leis que igualem, que desconsiderem o sagrado, a genealogia. Infâmia.

Mas não é deles a culpa não. Estão ocupando os espaços que lhes dão os direitos humanos, as abolições, as anistias. Subvertem incentivados por idiotas românticos, de moral frouxa e permissiva. Idiotas que foram lá conversar fiado e pedir paz, esquecendo-se que a paz romana nunca precisou pedir nada a ninguém.

Que fazer diante da ignomínia? Tivessem pedigree e eu os desafiaria para um duelo. Mas não me bato com plebeus. O desagravo deveria vir pelas mãos do verdugo: o chicote, os ferros, a forca, a fogueira. Em praça pública, com todo o aparato do auto de fé. Aí estaria dada a devida satisfação. Mas isso não é mais possível. Matá-los, simplesmente, só lhes aumentaria o prestígio.

Não há solução e para mim é insuportável. Deixo a vida para retornar à superioridade da raça.

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DE LICENÇA >> Kika Coutinho

A todas as mães que trabalham fora de suas casas.

A todas as mães que deixam seus filhos com jovens desconhecidas para aventurarem-se entre planilhas, papéis e reuniões intermináveis.

A todas as mães que já deixaram um bebê aos prantos para ir trabalhar e ganhar o tal do próprio dinheiro.

A todas as mães que já saíram de suas casas aos prantos porque precisavam trabalhar e ganhar o tal do próprio dinheiro.

A todas as mães que, talvez, nem precisem, mas querem trabalhar e ganhar o tal do próprio dinheiro. Ser uma escolha não torna a ausência em casa menos dolorosa. Em nada.

A todas as mães que já largaram uma planilha por fazer, uma reunião por participar, um email por mandar, porque, pelo menos hoje, juro, vou pôr meu filho para dormir.

A todas as mães que não conseguiram pôr o filho para dormir porque não puderam largar uma planilha por fazer, uma reunião por participar ou um email por mandar.

A todas as mães que já sentiram o coração apertado enquanto assistiam às horas correrem no trânsito parado.

A todas as mães que já ligaram para a babá, a escola ou a própria mãe, mentindo que estavam quase chegando.

A todas as mães que já correram de salto alto, na garagem de suas casas, para ver logo o rostinho do seu filho, um minuto que seja, antes que o rebento durma.

A todas as mães que já choraram porque não deu tempo.

A todas as mães que sentem o coração partido de culpa quando o elevador desce e escutam o som infinito do choro do seu filho, pedindo para que ela ficasse mais um pouco.

A todas as mães que já se esconderam na casinha do banheiro público de seus escritórios para chorar a falta que faz em casa.

A todas as mães que têm de explicar para os seus filhos o inexplicável fato de não poderem estar com eles, simplesmente quando querem estar.

A todas as mães que já se viram surpreendidas com o próprio filho num sábado, porque a criança cresceu demais durante a semana.

A todas as mães que não estavam lá, nas inúmeras horas em que achavam que deveriam estar.

A todas as mães que já sentiram uma angústia fina no fim de um feriado longo.

A todas as mães que já invejaram as suas babás.

A todas as mães que já pensaram em abrir um buffet, uma escola ou um site e, assim, ser dona dos próprios horários, e dos próprios filhos.

A todas que não conseguiram fazer isso.

A todas, à imensa multidão de mães que tentam resolver a equação insolúvel de equilibrar filhos com trabalho.

A todas elas, hoje, apenas hoje, eu posso oferecer-lhes o meu abraço.

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