domingo, 31 de outubro de 2010

PÓS-PRODUÇÃO >> Eduardo Loureiro Jr.

Ainda bem que as eleições de 2010 terminam hoje. A campanha eleitoral foi longe demais: invadiu o terreno sagrado de meus sonhos.

Eu, que já tive o privilégio de sonhar namorando a Maitê Proença atrás das cortinas do belíssimo cinema São Luiz, recebi em minha cama, de ontem para hoje, os candidatos à presidência da república. Não conto o sonho inteiro para não aborrecer o leitor, invadindo também seu sacrossanto domingo. Permito-me apenas dizer que não dei mole para eles. Para o Serra, já desconsolado com a iminente derrota, ofereci uma frigideira gigante, dizendo: "Pula aqui que eu vou fritar você". Depois, caminhando na contramão da massa que vinha comemorar a vitória de Dilma, distribuí empurrões e palavrões para a multidão.

Mas esta crônica não é sobre política, e sim sobre o que acontece depois. "Depois de quê?", perguntará o leitor. Depois de tudo. Depois das eleições, depois desta crônica, depois de "foram felizes para sempre", depois do disco, depois do show.

Eu tinha já meus 26 anos quando descobri uma verdade incontornável da vida: existe um depois. Foi numa sala do anexo do também belíssimo Theatro José de Alencar. Eu participava de um curso de Produção de Eventos Culturais, ávido para aprender como viabilizar meus sonhos de música e literatura. Lá pelas tantas, a professora começa a falar de pós-produção. "Como assim pós-produção?", perguntei sem perguntar. Para mim, depois da produção ou do espetáculo, só restava sair com os amigos para tomar uma cajuína e papear. Elisa, a professora, fez como o mundo de Cartola: reduziu minhas ilusões a pó.

Não que a pós-produção em si fosse algo estranho ao meu mundo. Eu já sabia, à época, que deveria lavar os pratos que sujasse, e também tinha passado pelas primeiras dificuldades do casamento que deveria ser feliz para sempre. Mas eu pensei que certas áreas da vida — as artes e os sonhos — estavam protegidas do castigo do depois.  Não estavam. Não estão.

Depois do impacto inicial da descoberta catastrófica, fui me acostumando, afinal fazer o quê? Foi nessa época que comecei a produzir já pensando na pós-produção, em facilitar a pós-produção: cozinho o macarrão antecipando a lavagem da panela; planejo as coisas considerando não apenas o trabalho que dão agora, mas, principalmente, o trabalho que darão depois para limpar, desmontar, devolver, encaminhar, comprovar, desfazer-se, sumirem... O que era uma simples adaptação a algo de que não gostava, começou a se transformar num prazer quase compulsivo.

Agora, enquanto escrevo esta crônica, me ocorreu que talvez seja consequência dessa minha obsessão pela pós-produção o que chamo de desapaixonamento. Eu costumava me apaixonar — por pessoas, por coisas, por ideias — com uma velocidade inacreditável. Quebrei a cara muitas vezes, pois saltava do precipício da vida, voando com as asas do sonho, e só acordava quando batia no duro chão da realidade. Mas arrisco dizer que foi nesses curtos momentos de voo que cheguei mais perto da felicidade. Quando comecei a me preocupar com a pós-produção, a paixão se dissolveu como uma paisagem de sonho. Hoje, se me ocorre uma ideia genial, penso quinhentas vezes antes de colocá-la em prática, e geralmente não coloco — daria MUITO trabalho. Hoje, acho que seria incapaz de dedicar-me a alguma coisa, a um hobby, como fiz com os jogos de tabuleiro durante alguns anos da minha vida, afinal, qual seria o objetivo disso? Hoje, quando vejo uma mulher linda, linda, linda na rua, não levo mais que três segundos para imaginar todos os defeitos dela, todas as atitudes e manias que tornariam insuportável a convivência.

Sei que o ser humano, de uma maneira geral, e o escritor, em particular, acha que está sempre certo. Mas talvez, apenas talvez, isso tudo esteja errado: eu sonhar com Dilma e Serra em vez de sonhar com Maitê Proença; eu fazer portfólio em vez de beber cajuína; eu trocar uma refeição saborosa por uma refeição fácil;
eu dispensar uma ideia genial e me dedicar a uma ideia exequível; eu preterir as qualidades e me concentrar nos defeitos.

Sim, estou errado, embora me pareça certo admitir que estou errado — não há como escapar ao destino humano da certeza.

Ao final da noite, depois do resultado das eleições, vou dormir e sonhar um sonho trabalhoso, quase impossível de realizar; um daqueles sonhos que não são fáceis, mas que dão sentido à vida da gente.

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sábado, 30 de outubro de 2010

TECNOLOGIA NA COZINHA [Ana Gonzalez]

Comprei pela internet. O pacote chegou depois da espera convencional. Mas eu estava já contando as horas e os minutos. Comprei porque me prometia maravilhas: um liquidificador e um multiprocessador juntos. O primeiro era velho amigo e foi o grande motivo da minha ansiedade. Forte, novo, lindão. Mas o segundo eu não sabia como usar. Ficou no armário, com as peças todas acondicionadas, depois de verificadas, do jeito que vieram pelo correio. Embora o manual parecesse simples, por precaução deixei o uso da novidade para um momento em que eu pudesse dar conta da tarefa.

Desse mesmo jeito eu lido com as tecnologias todas. Delongando a hora do confronto. Isso nem sempre é bom, claro. Por exemplo, tenho dois endereços no facebook, por inabilidade de me arrumar com um só. Não funcionou o primeiro. Quis consertar o desacerto e arranjei outro endereço.

Assim também tem acontecido em outras situações na internet. Contabilizo um monte de outras tentativas frustradas para entrar em um sem número de redes, inclusive o Orkut. E também não sei mexer muito no meu blog. Utilizo menos do que poderia. Nem tento o twitter.

Sei, sei que é uma pena. Já sofri com isso. Hoje em dia, dou-me um tempo enorme para aprender aos poucos. Permito-me essas impropriedades. Alguns dizem que isso é sinal de maturidade. Amigo ou amiga, conclua como puder ou quiser. Saiba que aceito ajuda para aprender a lidar com essas coisas.

Enfim, chegou o dia do multiprocessador de coisas. Naquele dia, o menu tinha cenouras e bogô (um vegetal de que japonês gosta muito e que tem muita vitamina, segundo informações colhidas na feira). Experimentei uma vez. Frito com alho, cortado em rodelinhas, parece uma pipoca saborosa. Depois disso, faz parte do meu cardápio. Em vez de ralar os dedos com a cenoura e cansar os punhos com o bogô, que tal utilizar a tralha guardada no armário, me disse uma voz delicada ao ouvido?

Pois fui à luta. Com o espírito preparado, propus-me a descobrir como ralaria a cenoura em pedaços não muito grandes e como cortaria o gobô em rodelinhas finas. Chegara o necessário enfrentamento com a máquina. Cerca de doze peças estavam à minha frente. Arrumei todas elas e tentei montar para as funções escolhidas. Várias vezes, fui mudando as maiores e as menores de algumas maneiras conforme minha criatividade indicava. Não deu certo.

Sucumbi, então, ao manual. Estudei as páginas e tentei de novo. Claro que funcionou, mas o estresse aconteceu. E só se desfez quando, à mesa, devorei uma pratada de suflê de cenoura com pipoca de bogô e arroz integral. Pequenas alegrias de uma lua em touro, à frente de uma refeição saudável e deliciosa.

Outra experiência do campo do sensível veio depois. A sensação de encantamento com os efeitos da tecnologia. Quase uma gratidão! Nessas horas, sempre me lembro da minha linda avó, que sorriria perante a situação e concordaria que toda essa novidade ajuda pra caramba. E há um outro detalhe: depois de conseguir montar o aparelho, acertando as partes, verifiquei que ouvia um clic que significava o seu perfeito encaixe. Só depois desse clic o aparelho funcionava. Prudência da tecnologia. Isso não é demais?

Site: www.agonzalez.com.br

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

SETE PALMOS MELHOR >> Leonardo Marona

Eram Carlo, Rino e Toupeira no BG Bar, prostrados sobre seus copos, numa daquelas noites entre o céu e o inferno, uma noite comum mas uma cena distinta de todas as outras, porque por mais que fosse sempre a mesma cena, doía de forma diferente a cada vez. Não muito em Toupeira, bem verdade, mas era por isso mesmo que Carlo e Rino, preocupados com a velocidade com que o mundo vinha se tornando um buraco cada vez mais azedo ao mesmo tempo em que tinham que arranjar um jeito de custear os porres por minutos de esquecimento, viviam escorraçando o pobre feliz – é fato que tinha uma tremenda cara de almofada e uns dentes enormes pra fora que o obrigavam a um sorriso constante, mas isso não justifica –, pois era justamente o que invejavam nele: sua felicidade ausente do cotidiano maçante da vida, porque por mais que estivessem cheios das idéias dos outros, de suas leituras e contemplações analíticas, não tinham nada no que encostar a cabeça antes de dormir e nem ao menos umas mãos delicadas que esfregassem as suas costas. Pros dois era portanto o mundo mais miserável e sem sentido das idéias abstratas e profundamente rasas.

Carlo e Rino, para se ter uma noção mais exata, usavam ainda coletes de brim e Carlo, ainda por cima, sempre arranjava um jeito de mostrar o velho relógio de bolso que havia ganhado depois que o avô morreu engolido por um crocodilo nos pântanos da Austrália, e que carregava sempre no bolso das calças. Toupeira era quem apanhava as cervejas e normalmente quem pagava mais no final. O mais sensível, portanto. Os outros dois tinham mais o que fazer, como pensar no que não tinham como tocar, imaginar um futuro promissor, mas os demônios do passado, como julgavam, mesmo sendo o passado há dois ou três meses – mas que meses vazios! –, continuavam grudados nos seus corpos e copos, não tinham passado de fato por nada no passado, porque basicamente nada havia acontecido de fato, além da morte plácida do homem pela sua vontade de ser eterno, como talvez, romantismos à parte, tenha sempre sido: um canalete de idéias escravistas conforme vão se tornando modulares. E notícias reprisadas ano após ano na tv e nos jornais, do tipo “compras de fim de ano lotam shoppings” e “aumenta o número de suicídios no Japão”. Isso porque o modular é a base do humano. O que se torna engrenagem. E os dois percebiam com certa clareza nublada pelas próprias sombras na parede em noites de uma lâmpada só que a auto-destruição era o comportamento talvez mais encarnado no Homem moderno, cansado de construir a repetição sistemática do processo de morte, porque o Homem, para acreditar na própria existência, precisava desacreditar em todo o resto, objetivos triviais que são o que no fundo representam a própria existência trivial da nossa espécie numa galáxia irrelevante no meio de tantas outras maiores. E esse era basicamente o problema da coisa: ambos se sentiam amassados pelo que não tinha lhes acontecido, e se sentiam ultrajados porque o que tinham do mundo era uma sucessão de acontecimentos com os quais tinham agora que lidar diariamente, mas que nunca tiveram a oportunidade de impedir ou alterar. Estavam portanto presos longe do passado e do futuro, dava tudo na mesma aparentemente, porque tudo podia ou não, tanto se fazia, mas pouca gente sabia ainda o significado de uma escolha. E simplesmente não era possível sorrir. Não um sorriso sem dor. Não queriam ter que querer o que queriam.

Carlo tinha sido o primeiro a chegar no bar. Chegou agitado, dedilhando os cachos na nuca, olhos rápidos, um buço debaixo do nariz. Sentou e deu um aceno ao Índio, o balconista de pele oleosa e escura e de olhos que variavam entre o assassinato e o pedido de perdão. Carlo gostava dele, assim como toda a antiga clientela, porque ele não falava nunca. Servia os copos e contava o dinheiro e trocava as músicas na juke box e só. Tudo com um pano sujo no ombro que nunca usava, e os caras ficavam se perguntando por que diabos o pano estava sempre sujo. Quando muito, apartava uma briga entrando noutra bem pior. Com ele seria sempre uma briga pior. Carlo estava inquieto especialmente por dois motivos: o primeiro era que tinha se arrumado com uma guria de 16 anos, virgem, que não podia sair de casa à noite, mas era esperta e queria transar e ele queria muito comer uma virgem, é claro. O Segundo motivo era de ordem sentimental. De manhã tinha comparecido ao enterro do Velho Simão, que tinha morrido entalado com uma sardinha no fim da semana e com quem costumava jogar basquete, junto com mais outros velhos, no aterro do Flamengo. Ele achava uma enorme inversão da lógica um velho morrer no lugar de tantos novos que nem precisavam ter nascido. Um velho num caixão. A pele amarela, os olhos estalados, a cara de cigarro de um trago olhando pra lugar nenhum. Deus, preciso me encher com alguma coisa, Carlo resmungou sozinho antes de meter a cara no copo. Foi quando chegaram os outros dois, discutindo por alguma quantia irrisória. Traziam mais duas garrafas. Toupeira levava safanões na base do pescoço e carregava as duas.

Beberam algumas largas goladas sem falarem nada. Já ninguém mais ali perdia tempo falando o que não fossem pequenas besteiras. Até que ficaram todos meio embriagados, quando Carlo e Rino começaram a cantar músicas regionais e velho hinos operários, enquanto Toupeira contava as próprias unhas boquiaberto, encostado no balcão.

O bar estava começando a encher. Umas 15 pessoas do lado de dentro. Um traficante conhecido, com os cabelos grisalhos divididos no meio e chupados para trás e o rosto esburacado, fumava um cigarro de olhos apertados com duas mulheres de saias coloridas, cintos apertados e cabelos crespos num pompom na frente das testas. Alguns sujeitos bronzeados de camisa regata, boné para trás e 45 anos. Algumas mulheres de cabelos puxados pro lado, poucos da cor original, saias curtas e coxas bronzeadas, todas com caras exaustas, apesar de nenhuma ter cara de quem alguma vez trabalhou. Ficavam por ali confundindo sensualidade com frigidez e ruminando uma conversa de manicure, junto com mais outras figuras de cara murcha e língua azeda. Alguns desleixados barrigudos sem camisa, cheios de tatuagens e riscos na cara, estavam numa mesa afastada. Mais cedo ou mais tarde entrariam no pau, provavelmente por causa de uma mulher ou uma dívida ou um mal-entendido sobre as duas primeiras causas. Dessa vez o louco da casa era Sandro, um sujeito enorme, quadrado, bobalhão e muito carente que, por isso, bebia muito e tomava pílulas estimulantes diariamente antes de se embriagar. 2000 mg. Quando ficava agressivo era difícil controlar o monstro. Certa vez entrou no pau sozinho numa roda de dez, que na verdade devia ser de uns cinco, mas de qualquer maneira eram todos barrigudos, riscados e tatuados... O que importa é que botou todos para correr, estragando o rosto de um seriamente. Diz a lenda que ele apenas olhou o bando com os olhos emprestados do demônio e gritou: “Vocês podem vir todos, e é melhor me matarem, porque eu vou avisando: um eu garanto que mato!”. E na semana seguinte foi preso depois de ter sido confirmada a morte do que levou a garantia na cara. Acabaram levando também em cana outro parceiro do azarado que, na mesma semana, tinha jogado óleo quente no rosto de Sandro pelas costas, deixando sua cara mais parecida com uma uva-passa. Sandro tinha sido solto havia uma semana. Estava ensandecido como um diabo solto numa paróquia. Diziam que tinha começado um curso de direito numa faculdade. Tempos modernos? Dificilmente. Sandro conhecia Toupeira de vista. O tratava como um irmão. Era louco de pedra, em suma. Se aproximou dele o agarrando pela nuca com suas mãos enormes de berinjela:

- E então, Tops... Tu tem um baseado aí?

- Tô sem nada, Sandro...

- Vamo fumar um...

- Pô, cara – disse Toupeira olhando pro balcão – hoje não vai dar. Tô sem nada mesmo.

Sandro apertou com mais força a nuca do outro e cresceu por cima dele com os olhos fervendo d’uma mistura de ingenuidade e raiva, típica dos gigantes de pouco cérebro. Com um dedo apontava pro rosto do pobre diabo. Os óculos do garoto saltaram com o tranco. Eram óculos de lente, das bem grossas e com armações de ferro.

- Toupeira, eu quero saber se tu quer fumar um baseado.

- Querer eu quero... Sempre quero, Sandro... Tu sabe... – disse o garoto dobrando a cara e baixando a cabeça como se tivesse apanhado de pau. Os murros da vida o tinham deixado lento e abobado como qualquer sujeito que tem problemas com a mulher também é capaz de ficar.

Imediatamente Sandro largou Toupeira e se dirigiu ao primeiro almofadinha sentado numa mesa, que calhou de ser um almofadinha do bairro, portanto, foi humilhado da mesma forma, mas tentou manter um pouco de dignidade forjando uma certa intimidade nervosa com o bebê ogro, através de umas risadinhas com as mãos nos bolsos de trás das calças e uns movimentos de cintura para frente e para trás. Sandro arrancou-lhe um baseado da carteira sem dizer palavra e voltou com ele aceso pro balcão. Deu um forte trago e entregou na mão de Toupeira, que apenas ficou parado com a boca aberta. Índio já olhava furioso. Olhava normalmente. Ninguém nunca era capaz de dizer. Só que não tinha medo de ninguém o Índio. Talvez tivesse medo do espelho. Sandro piscou pra ele, mandou um beijinho, se virou para Toupeira, deu-lhe um forte murro nas costas e saiu rindo. Ou urrando.

Enquanto isso, Carlo contava a Rino da publicação de seu livro de contos e de como o mercado editorial era uma corja de preguiçosos, que o mundo tinha se transformado numa grande loja de departamentos e que deus agora era novamente como um parente rico: um empresário com os cabelos divididos em goma que fuma numa piteira e se alia a velhas contradições. Carlo falava muito rápido e com a cara grudada no copo. Estava descabelado e o cigarro não parava na sua mão enquanto soltava seus perdigotos na mesa. Alguns lhe escorriam pelo queixo. O rosto inchado e avermelhado. Os olhos em frangalhos. Escrevia no forro da mesa com uma caneta enquanto resmungava. “O lamento da vida é o que escorre da boca pro assoalho”. Rino pôde ler aquilo.

- Esse livro levou o meu dinheiro todo! – ganiu Carlo. - Ainda não sei por que diabos decidi rodar essa porcaria por conta própria... Agora mesmo que nenhuma editora vai se interessar... Vão achar que sou um cagão, é claro... Vão pensar: “Ih... Se esse sujeito publicou o próprio livro, deve ser uma bomba!”. Eu sei como são esses filhos da puta.

- Então por que você publicou? – perguntou Rino calmamente.

- Porque se eu fosse esperar essas lesmas ia acabar enlouquecendo... Eu preciso me livrar das coisas que escrevo. Chega um momento que me canso delas... De mexer nelas... Então tenho que mandar pro caralho! É assim que funciona comigo.

- Pois eu acho um método bem estranho... Aliás, eu acho que não vende mais muito bem esse teor pessimista...

- Que porra é essa, cara, de teor pessimista? – Carlo bateu com o copo na mesa. – Que merda de papo é esse?

- Você sabe... Essas tuas influências... Só falar de chafurdar na merda... Essas coisas.

- E você quer que eu fale do que, seu babaca, de como é bonito comprar uma estrela com o seu nome na Torre Eiffel? De como é lindo o orvalho da manhã, o quê? Uma dissertação sobre o canto dos passarinhos?

- O problema é que, pra você, escrever é uma coisa traumática.

- Você é tão burro que não consegue entender que não é a escrita que é traumática, mas o que dá vida à escrita. O processo é música! Sou um cara limitado, só isso. Se você consegue escrever bucolicamente como se estivéssemos enrolados em grossos cobertores jogando bridge e tomando vermute, bom pra você! Eu não vejo sentido nisso... Nada faz sentido na verdade... O que eu escrevo faz tanto sentido pra mim quanto três beatas ajoelhadas na grama num domingo de sol!

Riram. Ficaram sérios outra vez. Rino:

- Se você mesmo já não gosta mais do que escreve, como é que as outras pessoas vão gostar?

- Quero que se fodam as outras pessoas! Poe andava de pijama na rua babando com alucinações antes de morrer lelé da cuca e ninguém se importava com ele! Ninguém foi também no enterro do Rimbaud! Acho que nem a mãe dele foi! Até hoje ninguém entendeu o que Joyce quis dizer, mesmo que vivam falando de como ele é bom! Mario de Andrade publicou sozinho! E é compreensível que ele tenha ficado careca rápido... Lampedusa! Morreu e nem mesmo pôde ver a cor da capa do Leopardo!

- Por favor, sem esse papinho de nasci póstumo... Além do que esses caras não servem de comparação. Esses caras já morreram e hoje a gente fala deles. Só isso que podemos fazer. Falar deles e esquecer deles.

- Queria ver se algum deles tivesse nascido num papelote de pó dos anos 80 – disse Carlo num meio-sorriso.

Os dois baixaram os olhos, beberam e bufaram. Carlo olhou quando Índio saiu do balcão e trocou a música. Começou a tocar Down Under. Índio voltou para trás do balcão com os lábios apertados e os olhos fechados, fazendo uma guitarra no ar. Carlo e Rino falavam agora sobre mulheres. Carlo falava da sua. Que era muito legal, um tesouro, compreensiva, fazia massagem, não reclamava de nada, até mesmo o incentivava a sair com os amigos, dizia a ele que só queria vê-lo feliz.

- Claro! – disse Rino palitando o molar – Tu que é um baita fanfarrão só podia se aproveitar da garota. Coitada... 16 anos... o primeiro namorado... que sorte que ela deu.

- Cara, você tem que entender que a traição não tá necessariamente ligada a sexo. A menos que o sexo seja feito pensando em denegrir a imagem do outro. Traição é sacanear o outro. Colocar o pé na frente. E isso eu não faço. Posso até sair com outras mulheres. E quem não quer variar de vez em quando? Sou novo, por deus, preciso experimentar as coisas. Até porque sou um escritor. Preciso da experiência, do transe. Mas não me envolvo. Não olho pros lados. Não troco telefone.

- Qual o teu número? – disse Rino.

- Que porra é essa, cara?! – Carlo franziu a testa tossindo um trago mal dado.

- Pra eu votar em você. Tu fala que nem um político quando fala de amor.

“O amor é um negócio político”, Carlo escreveu no forro da mesa, virado de frente pro balcão, quando viu Toupeira receber o murro de Sandro nas costas, e então disse a Rino por debaixo de um sorrisinho sórdido:

- Pra te falar a verdade, eu já tenho até cogitado deus outra vez...

- Nesse caso você pode ficar tranqüilo... Sua fé está salva! – disse o outro rindo e tossindo, já meio vermelho do trago, levantando o copo no ar. – Porque não foi o Espinosa que falou que deus está em todas as coisas e que a única lei suprema da realidade única e universal é a necessidade? Então... Estando aqui, agora, a gente pode dizer que tá bebendo deus, não é verdade? A cerveja também é deus segundo Espinosa... Uma necessidade no caso, não concorda?

De repente Rino começou a soluçar. Carlo esmurrou suas costas. Continuavam rindo e olhando pras saias. Mas o riso de Carlo era um riso forçado, um riso comum de desespero por alguma coisa incomum na cabeça. Ele disse então, depois de outra golada, que se danasse o Espinosa também, que ele mesmo mal tinha conseguido pagar o próprio enterro, e que só os ditadores assassinos tinham uma morte digna com seus bustos esculpidos nas praças públicas. E era ele afinal que tinha acabado de esfolar o saco pra pagar a impressão de cinqüenta exemplares de um livro que ninguém no mundo além dele ia ler até o final. Pro inferno com a arte! Levantou-se com muita raiva e disse que ia ao banheiro. Mas quando olhou a própria cara enfezada no espelho que corria a parede do bar, começou a rir histericamente.

Entrou na cabine batendo as mãos e cantarolando: “I said, do you speak-a my language?…”. Nem mesmo fechou a porta e disparou sua dose temporária de alívio dourado. De repente uma cabeça se meteu dentro da cabine. Era um homem calvo, troncudo e parecia próximo do enfarte. Seus olhos tinham qualquer coisa de errada.

- The Police? – perguntou o homem.

- Men at Work – respondeu Carlo num sorriso desinteressado.

- Tu é?

- Eu sou o quê?

- Tu é polícia?! – falou mais alto o homem calvo, mexendo seus olhinhos tensos de um lado para o outro.

- Ah, bom! Eu achei que você tivesse falado da música... Claro que eu não sou polícia. Olha aqui, tô de chinelo – disse Carlo às gargalhadas, mostrando os pés. – Olha essas unhas!

Saiu da cabine para lavar as mãos.

O homem alto parecia maior agora que estavam os dois lado a lado diante do espelho da pia. Chegou mais perto e se abaixou um pouco, para poder falar mais baixo.

- É porque – disse mostrando a Carlo um distintivo de metal e couro – eu sou da polícia... Olha só.

- Legal, cara – sussurrou o garoto. - Eu não.

- Você se incomoda então se eu der um pega aqui?

- Quê?! Pega? Não tô te ouvindo direito, cara...

- Não posso falar muito alto – disse o calvo escorando as palavras com a palma da mão. – Eu tenho que ficar de olho, porque senão já viu... Mas eu te dou um pouco se tu quiser também.

- Fica pra próxima, capitão. Eu já tomei demais hoje. Mas fique à vontade. A casa é sua.

Deixou o homem calvo lá dentro e voltou pro bar. Toupeira estava na mesa junto com Rino e duas mulheres tinham acabado de se levantar na frente dos dois. Não se ouvia o que falavam, mas estavam aparentemente injuriadas. Provavelmente por isso, Toupeira levou um safanão de Rino no pé da orelha. Segundos depois Carlo sentou.

- Vocês não sabem da última – Carlo chegou contando. – Me confundiram com um polícia lá dentro do banheiro. Portanto, tomem cuidado comigo.

- Quem te confundiu, um bêbado?

- Um polícia muito educado que pediu licença pra meter a fuça.

Todos riram. Toupeira disse:

- Eu arrumei um baseado com o Sandro.

- E a gente vai fumar aonde? – perguntou Rino, olhando para Carlo.

- A gente dá uma meia hora aqui e depois vai lá na ladeira, ali atrás do convento.

A meia hora durou hora e meia. Tinham achado o caminho da cerveja, o atraso da vida e a razão da tristeza. Roberto Carlos cantava sua dor no cu enquanto uma mendiga dublava chorando do lado de fora do bar. Carlo cutucou Rino que sacudiu Toupeira. Saíram os três cantando Amore Scusami na versão de Caubi Peixoto, menos Toupeira, que não sabia a letra.

Subiram a ladeira. No caminho cruzaram com duas freiras que jogavam baralho em cima de caixotes e fumavam cigarros, pouco antes do convento, na frente de uma mureta. Eram noviças na verdade. Uma delas estava de camisola. A outra estava abotoada até o pescoço mas, de qualquer maneira, a de camisola que era gostosa. Os três passaram andando por elas, que se levantaram imediatamente recolhendo o baralho e espremendo os cigarros contra a mureta. Rino e Carlo se largaram um do ombro do outro e fizeram seus sinais da cruz. Toupeira se aproximou das duas e inclinou a cabeça com a bagana no bico.

- Benção, irmãs. As senhoras por acaso têm fogo?

A noviça abotoada rachou-lhe a testa com um safanão e depois fez imediatamente o sinal da cruz três vezes de olhos fechados. Disse que eram uns vagabundos e que iam pagar por isso um dia, que aos olhos de deus ninguém escapa, por não saberem tratar as filhas de deus. Carlo argumentou dizendo que era tão filho de deus quanto elas e que elas andavam de camisola na rua depois da hora e ainda por cima jogavam baralho e fumavam cigarros. Perguntou se aliás não queriam cigarros novos ou um canivete suíço por um preço honesto. Os outros dois riram. A abotoada se mantinha em guarda, atacava e recuava repentinamente com golpes rasteiros, como beliscões e chutes nas canelas. Os golpes eram tão rápidos quanto os três sinais da cruz que se seguiam, de olhos fechados ou olhando para o céu. Toupeira caiu catando asfalto depois do segundo tapa na cara. A noviça de camisola piscou para Carlo com um sorriso na boca. Abotoada a puxou para dentro bufando. Carlo e Rino ficaram rindo com as mãos no joelhos e depois foram ajudar Toupeira.

De repente ouviram um assobio. Levaram um susto tão grande que Toupeira quase deixou a bagana cair num bueiro. Olharam pros lados. Carlo olhou pra cima.

- É o idiota do Turco.

- Shhhhhhhhhhh... – fez Rino olhando pra cima com as mãos na cabeça.

Turco era um menino numa cadeira de rodas que um dia tinha sido muito amigo de todos os outros caras do bairro. Até o acidente na cachoeira do Horto. Tinha sido empurrado e a coluna tinha se entortado numa pedra. Havia muitos garotos juntos. Sumiram imediatamente. Ninguém jamais tocou no assunto. Depois de quatro anos sentado e deitado e sem muitas visitas nem muitos sorrisos, se embruteceu de tal forma que raramente acendia a luz do quarto. Mas estranhamente ainda tentava se comunicar pela janela com assobios na escuridão. Ainda conseguia fazer um sorriso. Um sorriso constante. O seu sorriso. Um meio-sorriso constante que dessa vez também estava ali na janela. Os garotos o chamavam de Sorriso do Demônio. Mas só o que se via no escuro era que ele segurava um binóculo. Era tudo o que se sabia dele. Era um menino magro com um sorriso constante de diabo que segurava um binóculo numa janela escura.

Então apitou a sirene doentia. Uma vez apenas. Uma vez era problema. Daí foi vermelho, escuro, vermelho, escuro, vermelho... Carlo tomou a bagana da mão de Toupeira, que ficou de boca aberta e piscou os olhos várias vezes, ia engolir inteira, mas Rino parou seu braço, trocaram um segundo de olhar, Carlo partiu a bagana em duas e cada um engoliu uma metade.

Os policiais se aproximaram no típico passo de ganso com indigestão. Bunda pra trás, braços pra trás, cara de cu assado. Veio um só na verdade, um homem alto com cara de enfarte. Sua parceira, uma negrona cheia de bunda e dentes para fora, ficou no carro com a mão no coldre. No que meteu a lanterna na cara dos garotos e deu um assobio desdenhoso, cegou os três completamente. Depois, tudo muito estranho, recuou engolindo a seco. Carlo sacou tudo.

- The Police? – perguntou ao policial, piscando o olho.

O policial rodou duas vezes em volta de si mesmo, apontou a lanterna pra janela do Turco, onde pôde ver o diabo sorrir, então se voltou novamente aos garotos. Carlo sorria maroto, Rino suava nas mãos. Toupeira com os braços pra cima.

- Tudo bem por aí, garotos? Vejo que sim... Só, por favor, não façam tanto barulho que as freiras já reclamaram.

Carlo fez um sinal de continência. O polícia entrou de volta na viatura e saiu arrancando borracha dos pneus.

Carlo explicou quem era o homem e Rino riu. Toupeira tinha se emburrado porque não tinha sentido nem o cheiro do baseado que ele mesmo tinha descolado. Os três sentaram no meio-fio e esperaram o mundo acabar de uma vez. Não seria tão fácil assim. Carlo sugeriu então que, já que Toupeira não tinha ficado com nada, ele e Rino pagariam a noitada. Mas que noitada?, perguntou Rino. Carlo meteu as mãos nos bolsos das calças. O relógio do avô mais trinta reais, dois terços em moedas e tíquetes refeição. Rino vasculhou os seus também: restos de pano retorcidos, três cigarros, um quebrado no meio, uma semente olho-de-boi, um canivete suíço, um ás de paus, mais alguns vales-transporte que tinha trazido do trabalho e umas notas de real amassadas. Saíram os três rumo à Copacabana. Carlo estava de carro.

O carro era um Gol 99 quatro portas. Mas das quatro só a do motorista abria. Entraram os três um depois do outro pela porta do motorista. Por último Carlo, que fechou a porta. Estacionaram na Praça do Lido. Toupeira era conhecido de um vagabundo que o chamava de Família e ganhava uma grana nos carros das próstatas vencidas que visitavam a “vida noturna” por ali. Por que ele chamava Toupeira de Família e por que muitas putas e travestis pareciam conhecer Toupeira era mais uma das coisas em Toupeira que não se sabiam. Rino chegou à conclusão de que não sabia quem era Toupeira. Não sabia nem o nome dele nem onde morava. Carlo não queria conclusões. Foi comprar cerveja.

Pararam numa esquina e Rino disse que precisava mijar. Se afastou cambaleante enquanto Toupeira conversava com um porteiro de gravata borboleta e pouca altura e Carlo falava em inglês com dois turistas de chapéu panamá que não fechavam a boca nunca. Do lado, duas putas. Uma morena com um enorme topete de cabelo crespo e muito batom vermelho, as sobrancelhas juntas mas umas belas pernas cobertas de saia. Baixa. A outra era bem negra, essa sim toda dura, parecia de borracha, e as luzes da noite a transformavam numa ninfa febril dos trópicos, deixando sua pele prateada como a água do mar. Alta.

- So what’s gonna be for the whores? – disse Carlo carregando no cockney a um dos gringos. Ao mais alto e, aparentemente, o mais estúpido.

O outro, mais baixo, puxou seu chapéu e começou a se abanar, com a outra mão pra cima, em volta das mulatas. Uns bêbados velhos começaram a rir e batucar numa lata de lixo enquanto o gringo se abanava com o chapéu, mandava o outro braço lá em cima e dançava junto das putas, as duas entediadas em cima de um carro, sugando seus cigarros, as bocas dobradas de lado. O maldito ainda é careca, pensou Carlo quando o viu sem o chapéu.

- Quanto vai ser? – então se virou pra puta morena de sobrancelha junta.

- Cem cada um.

- One grand each – virou pro alto de chapéu.

- Whadafuck! – gritou o alto tirando o chapéu. Também era careca. Deus, eram irmãos!

- Eles dizem que é muito – Carlo virou pra monocelha.

- Muito ele dá é o cu dele! – ela gritou e fez seu pompom na testa balançar.

- They say they can do for half each. No less – Carlo se virou abrindo as mãos pro gringo.

- What for? – se meteu o baixinho, a essa altura já de volta com o chapéu na cabeça.

- How do you mean what for? – disse Carlos numa voz débil.

- Let me explain – interrompeu o alto. – We are a couple (irmãos coisa nenhuma!) and we are fetishists too. So we want the two of them to rape us first, then to cut us off. Then we want some champagne on us. We pay for the champagne, of course. – Champanhe ele falou num sotaque escroto francês.

Carlo se virou pras duas putas entediadas.

- 50 cada um. Grana fácil. Vocês não precisam nem trepar. É só amarrar os dois na cama e enfiar alguma coisa na bunda deles. Depois vocês cortam o rabo de cada um e jogam álcool em cima. Disseram que são dois pervertidos americanos. Vai ter champanhe de graça também.

Rino já tinha voltado e estava ao lado de Toupeira, enquanto este filava um cigarro do porteiro de boate com gravata borboleta. Carlo veio de volta e as putas saíram na frente, com os dois gringos abraçados atrás delas cantando a Jardineira como se estivessem no carnaval. Mas cantavam com sotaque do Village.

Na porta, Toupeira apresentou seu amigo Move Montanha, o tal porteiro miniatura com quem conversava. Deram as mãos, mas Carlo só olhava para Tops.

- Qual é o teu nome afinal, cara? – Carlo perguntou pro amigo de óculos.

- Podemos entrar de graça – respondeu Toupeira num tom abaixo. – E ainda ganhamos uma vodca com suco de laranja cada um.

Carlo ficou olhando para Toupeira com cara de bunda quando Rino passou arrastando os dois pelos ombros. Numa marquise luminosa acima da entrada piscava em rosa e vermelho: “After Dark... After Dark...”. Era uma das boates que tinham a recém sido interditadas pela fiscalização sanitária. Ficou um mês fechada. Já piscava outra vez. Segunda interdição no ano. Tem certas coisas que simplesmente precisam continuar funcionando.

Assim que atravessaram a porta, deram de cara com um corredor muito escuro que parecia uma curva eterna. No final do corredor, outro sujeito de pouca altura e gravata borboleta – devia ser uma coleção deles, pensou Carlo – surgiu na frente dos três com dois copos de um líquido laranja-aguado na mão. Entregou os copos aos dois primeiros por cima de um sorriso que parecia preso na sua cara com cola vagabunda. Se virou para um balcão cheio de lâmpadas de 100 watts das mais comuns, todas presas em fileiras, e pegou mais um copo cheio. Rino vinha por último, com uma moreninha de cabelos alisados curtos e escovados metida numa cinta-liga cor de areia e grudada com a mão no seu saco. Se desvencilhou bastante assustado, principalmente porque seu pau estava flácido como o saco de um velho. Isso levou a moreninha, que também tinha uma pinta falsa na boca, falsa porque borrada, a fazer uma cara de nojo e sair de lado.

Rino nunca havia entrado num bordel. Foi o único dos três a admitir isso. Carlo provavelmente não tinha entrado num também, mas forjava uma certa intimidade enferrujada e não disse nada quanto a isso. Tinha a boca aberta o tempo todo, como Rino. Sobre Toupeira não havia dúvidas. Assim que entraram no grande salão, foi recebido aos beijos por uma senhora já bem gorda, de cabelos encaracolados loiros até a cintura e brancos em cima da cabeça, faixa branca na testa, um buço mais grosso que o de Carlo, com uma cinta-liga azul metálica sem sutiã e uma verruga bem no meio do pescoço. Tetas enormes. Abraçou Toupeira com muito carinho e levantou um pé para trás quando o beijou na boca. Usava dois saltos pintados com as cores do arco-íris. Todas as cores. Toupeira enfiou sua cara no meio dos peitos da velha e fez um barulho alto com a boca. Depois arrastou a mulher pela mão até os amigos, que coçavam os olhos um pouco atrás.

- Meus camaradas – disse com as duas mãos por debaixo dos peitos da velha, olhando para eles, segurando cada um com uma mão – esses daqui são meus camaradas também – então olhou para Carlo e Rino e riu, um riso doentio. – Carlo é escritor e Rino é um grande músico! São meus melhores amigos no mundo!


Então se voltou mais uma vez para a velha.

- Rapazes – disse olhando pra ela – essa é Janine Afrodite, minha namorada.

Carlo e Rino ficaram parados, se olhando. Toupeira largou Janine e se aproximou dos dois. Agarrou cada um com uma chave de braço no pescoço e os trouxe para perto dela. Estalaram os olhos quando viram as tetas de perto. Os mamilos eram enormes, chatos, as veias muito verdes em volta, em caminhos tortuosos, os peitos sugados pelas estrias nas beiradas. Depois olharam pra verruga no seu pescoço. Tinha dois fios de cabelo na ponta. Os cabelos eram brancos.

- Por favor, rapazes – disse Toupeira – quero que cumprimentem a Janine. Querida?

Janine segurou com firmeza as duas tetas por debaixo e esfregou uma na cara de Carlo e outra na de Rino, quando Toupeira os fez baixar as cabeças. Os dois fecharam os olhos e tentaram não respirar nem pensar em nada. Depois Janine trouxe de volta as tetas e começou a rir. Tinha um riso de homem cansado e feliz.

Deixaram Toupeira ali com sua paixão e se mandaram para ver o resto da casa. Havia um pequeno palco quadrado cheio de lantejoulas grudadas, algumas já tinham caído, como algumas putas ali também já tinham caído, duas por exemplo no corredor do banheiro, uma deitada sobre a outra no chão. Havia ali mais uns cinco ou seis punheteiros sentados nos sofás de couro sintético vermelho com as mãos dentro das calças e as cabeças atentas se mexendo para os lados com olhos bem abertos. Três usavam bonés de abas envergadas, esfolados na ponta da aba e encardidos. Pareciam muito com os tatuados barrigudos do BG Bar. Dos outros dois, um era muito gordo e tinha a camisa aberta com um medalhão dourado no meio do peito e a mesma putinha que tinha agarrado as bolas de Rino sentada no colo. Comia amendoins num cinzeiro e suava bastante. Largas costeletas pintadas de preto. Quatro dentes. Um de ouro. O outro estava dormindo jogado num canto, todo melado. Apenas um corpo murcho largado. A luzes eram coloridas e a noite estava no fim desde o começo.

No microfone ouviu-se uma vós comprida e nasalada, que estourava os bês e os pês quando falava.

- Atenção senhores, nosso show já vai começar! Se aproximem, se aproximem! Sentem nas suas poltronas porque hoje teremos a musa que vocês tanto esperam nas noites de quarta-feira... O medalhão de Ébano, a flor do deserto, com vocês, a minha, a sua, a nossa ADRIANA BBBOMBBBOM!!!

A casa toda tremeu quando se ouviu a letra b de bombom abafada pelo som da voz ao microfone. E então uma mulatinha de cabelos curtos e crespos, que estava bocejando de braços cruzados ao lado de Rino, entrou no palco com um ferrolho e um vibrador nas mãos. Imediatamente acionou o ferrolho no cu, no primeiro movimento de esticar as pernas no chão. Usava cinta-liga sem calcinhas. Tinha tudo no lugar. Mas os cabelos muito curtos e muito crespos, quando estava de costas, a faziam parecer um menino de rua. Talvez tivesse sido algum dia. Começou a se esfregar no vibrador e a subir e descer no chão, soltando altos grunhidos, altos demais para serem verdadeiros. Rino e Carlo se aproximaram. Carlo se mostrava maravilhado, ria e olhava pro amigo, apontando. Rino estava bem sério de braços cruzados, um pouco afastado do palco. Mas nem por isso menos fascinado. Um certo caguaço de ter que gostar daquilo.

Adriana Bombom de repente desapareceu com o pedaço de borracha no meio das pernas e voltou com um anãozinho metido numa gravata borboleta e sem camisa. Agora com vocês, O Grande Pancho!!!, a voz nasalada anunciou. O anãozinho usava uma sunga colorida de criança e sapatos pretos sem meia. Ficou deitado de costas no chão enquanto Bombom esfregava seu bombom na cara dele. Depois pôs o anão de pé – ele parecia de brinquedo – e arrancou sua sunga fora. Como era de se esperar o anão tinha uma GRANDE vantagem. Bombom subiu em cima dele com todo o seu metro e cinqüenta e o anão não suportou o peso, se largando de costas no chão. Ali começaram. Depois fizeram um 69 que na real era mais um 65, já que o anão não conseguia alcançar o bombom de Adriana no chão. E então Adriana ficou de quatro e o anão mandando ver por trás. Um anãozinho de brinquedo, parecia à pilha. Ficava ali se mexendo sem parar. Rino viu que Adriana fez uma bola de chiclete e piscou o olho pra ele. Carlo estava de pé, com a cara bem enfiada no palco e uns tíquetes refeição na mão, com os braços levantados, a outra mão assobiava. Rino chegou mais perto do palco, as mãos encabuladas dentro dos bolsos. Carlo se voltou para ele. Tinha acabado de enfiar um tíquete no biquíni da Bombom.

- E então, cara... Vamos arrumar umas cabines?

- Como? – fez Rino.

- Umas cabines, cara... Uma diversão...

- Não acho isso aqui muito divertido na verdade.

- Lá fora tão pouco... Já bebeu seu Hi-Fi?

- E mais três...

- Olha ali – Carlo cutucou Rino com o cotovelo. – O que acha daquela ali?

- Aquela de bigode?

- Não, imbecil... Aquela com uma penugem branca enrolada no pescoço.

- Então... Aquela de bigode.

Carlo fez uma careta, disse que Rino era um velho chato e brocha, e então escorregou até o lado do balcão, onde se apoiava a tal puta de bigode. Ficou uns minutos ali com os braços apoiados na parede, fazendo o machão. Depois puxou a mulher de lado, se virou para Rino, piscou um olho, dobrou a cara indicando que fosse ele também procurar uma pega e se enfiou numa cabine escura e minúscula, vedada por uma cortina fina vermelha. Rino ficou vendo a silhueta de Carlo sob a luz, através da cortina vermelha. Viu quando ele se abaixou e tirou as meias. Viu quando ele virou a puta de costas. Viu quando ele desceu para arrancar as calças da puta. Viu que tinha ficado um certo tempo nessa. Depois os dois apenas desapareceram na horizontal. Rino olhou pro seu copo de vodca com suco de laranja. O líquido estava praticamente transparente e havia resíduos sólidos, umas bolotinhas laranjas sambando no fundo do copo. Aquilo tudo era muito triste. Ele não tinha ninguém ali que o abraçasse e pudesse lavar suas costas com uma esponja. Um abraço custava caro demais. Custava a vida toda. Mas Carlo tinha quem lhe esfregasse as costas com uma esponja e ainda assim estava dentro de uma cabine sendo chupado por uma puta de bigode. Estava tudo perdido e os homens nem mesmo sabiam mais o quanto. Simplesmente pararam de tentar saber. Então que se foda a África! Que os homens morram rápido! Nascem demais pra muito pouco espaço! Rino se desequilibrou, afundado no apocalipse, quando sentiu um cabelo roçar seu ombro. Era uma menina bem magra com uma cinta-liga branca e folgada, uns dois números a mais que ela, e uma longa cigarrilha na boca. Ele reparou que muitas mulheres ali maquiavam uma pinta no canto superior da boca. Cílios falsos e enormes. Cheirava a tequila e enjôo. Sentou do lado de Rino e meteu a mão na sua perna por debaixo da mesa.

- Tá sozinho, garoto?

- Estamos todos – disse Rino. E bebeu.

- Você parece desanimado.

- Você é muito perceptiva.

- Não viu nada... Podia te fazer em dois, garoto.

- É uma pena que eu já esteja em dois. Não tenho um puto no bolso. Só um ás de paus.

- Algum outro pau na jogada? – piscou a puta magra de cinta-liga folgada.

- Olha, Solange... Realmente... Talvez seja um mau dia.

- Não sou Solange.

- Tem cara de Solange. Eu tenho cara de que, Solange?

- De cu.

- Ótimo! E é um cu liso ou um cabeludo?

- Você não gosta de mulher, garoto?

- Talvez eu goste mais do que devia, Solange. Você gosta?

- Gosto de você... Você é sensual...

- Não sou, não, Solange. Olhe bem... Olha essa barriga. Você acha ela sensual?

- Parece ser um cara sensível... Que olha a mulher nos olhos. Decidido.

- Bobagem... Estamos conversando. Queria que eu olhasse pra onde?

- Qual o teu problema, cara?

- Você quer dizer hoje ou quer uma lista completa?

- Gostei de você...

- Não tenho dinheiro.

- Nada?

- Um ás de paus.

- Deixa eu ver...

A mulher que tinha cara de Solange então escorreu pelo sofá com a mão por debaixo da mesa até o lado interno da coxa de Rino, que ficou batendo queixo.

- Você bebe, Solange? – disse Rino se afastando um pouco no sofá.

- Quero beber você, bonitinho – disse a cara de Solange com os olhos apertados e um bico horroroso.

- Que tal um pouco mais de romantismo, hein, Solange?

- Você é um puta pé no saco, cara! – ela disse se afastando com violência

- Acho que ainda vai precisar de um pouco mais de romantismo, Solange.

- Dez reais o boquete. Só porque eu gostei de você.

- Já que gostou, te vendo por dez reais.

- O quê?

- O boquete.

- Bicha! – gritou a puta rindo e apontando para Rino.

Rino continuou com um meio sorriso, na frente do seu copo. Então ela foi embora.

De repente Carlo saiu da cabine sozinho e se aproximou rapidamente de Rino. Estava muito ofegante e suado, com os olhos vidrados. Segurou Rino pelo pescoço e o puxou com força da direção da saída.

- Que foi, cara? – disse Rino diminuindo o passo.

- Te explico lá fora.

Assim que passaram pela porta levaram o primeiro murro do dia claro nos olhos. O sol ainda longe, depois do fim da Terra. Uma enorme menstruação de galinha caipira num pires laranja carregado de ódio. Carlo seguiu andando até a praia e então se atirou de barriga pra cima na areia. Rino foi correndo até ele e se atirou do lado.

- E então cara? – disse Rino.

Carlo ficou um minuto numa respiração pesada.

- Matei... a puta... – disse Carlo.

- Como assim, matou a puta, cara?!

- Enforquei ela... Foi sem querer... Apertei demais... Muita raiva...

Ninguém falou nada durante um minuto. Os olhos de Carlo sem piscar refletiam o ódio laranja do sol nascente, que parecia morto há milênios.

- É isso então... Você foi lá, trepou, se limpou e então enforcou a puta... – disse Rino olhando pro chão e coçando a cabeça. – Claro... E por que motivo eu devia achar isso estranho?

Carlo se virou com os olhos cheios d’água.

- Você sabe o que... hic up!... ela me disse?

- Não sei se faz alguma diferença saber agora...

- Que eu trepava que nem uma mulher...

- E aí você vai e mata ela... Claro, claro, razoável...

Ouviram sirenes do outro lado da rua e uma gritaria de mulheres fora de controle. Uma ambulância chegou queimando os pneus. Carlo e Rino saíram correndo como estavam e pularam no mar de olhos fechados. Ficaram com meia cabeça para fora, as roupas chupadas dificultavam o nado. Olharam para a calçada tremendo. Nadavam fora do mundo e o mundo era uma piscina suja como o mar sujo de Copacabana. Um filme para daqui a mil anos. E quando se abre uma porta nunca se acha nada além do outro lado. Mas sempre é cedo o suficiente para morrer. Espinosa sabia disso e estava num lugar melhor certamente. Pelo menos sete palmos melhor. Toupeira tinha acabado de se tornar noivo de Janine Afrodite e procurava seus dois padrinhos para dar a notícia, quando foi abordado pela polícia.


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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

SORVETE NO ESTÔMAGO >> Fernanda Pinho



Hoje me aconteceu uma coisa terrível! Meu celular tocou e eu adivinhei que era você. Foi a primeira vez que eu adivinhei que era você. Tive um clique, sei lá. Coisa de mulher. E olha que eu nem sou o tipo de mulher que tem “coisa de mulher”. Revirei a bolsa. Chave. Escova. Agenda. Livro de autoajuda. Revista do mês passado. Carteira. Portamoeda. Batom. Creme para as mãos. Outro creme que eu não lembro mais pra que que serve, mas tenho usado no rosto. Absorvente. Um recorte de jornal que eu recortei sei lá por quê. Perfume. Pacotinho de sal (vai que a pressão cai). Fone de ouvido. Enfim. Celular. Era você. E quando li o seu nome, piscando, meu estômago gelou. Foi a primeira vez que meu estômago gelou por você.

Droga! O que foi isso? Não sei, só sei que foi desconcertante a ponto de eu deixar meu celular ser tragado novamente para o buraco negro que é a minha bolsa. Ou melhor. Sei sim. Claro que sei. Já tive isso antes. Mas não quero aceitar. Estava indo tudo tão bem. Eu tinha tudo sob controle. Eu vinha me divertindo tanto. Agora vem meu estômago gelar por conta de um telefonema besta no meio da tarde. Não há de ser nada. Pode ter sido o sorvete que eu tomei agora há pouco. Desde que mundo é mundo as pessoas sentem o estômago gelar quando tomam sorvete. Ou ao menos deveriam sentir. Faz todo sentido.

Não! Não! Não! Mil vezes não! Não é o que eu estou pensando. Acabou a minha serenidade para olhar as menininhas te chamando de “gatinhu” no Orkut e achar graça. Já estou me vendo amanhã conferindo o Orkut de todas elas. Uma por uma. Acabou minha autonomia para recusar um convite seu porque estou cansada. Já estou me vendo cruzando a cidade, às nove da noite, depois de um exaustivo dia de trabalho. Acabou minha paz de espírito. Já estou me vendo grudada no telefone o dia todo, e atualizando a caixa de e-mails a cada vinte segundos, esperando por um sinal seu.

Música romântica, nem pensar. Estou terminantemente proibida de ouvir qualquer coisa que tenha menção ao amor. Amor? Eu disse amor? Disse! Por que tantas músicas têm que falar de amor? Falta de originalidade. Com tanto assunto no mundo. Ninguém quer saber de cantar os hipopótamos albinos do Zimbábue. Aliás, imagine se 80% das músicas que existem no mundo falassem sobre os hipopótamos albinos do Zimbábue. Ninguém iria suportar. Ninguém iria querer saber de música. Agora, o amor pode ser tema insistentemente repetido. Por quê? Por que o amor é mais importante que os hipopótamos albinos do Zimbábue? (Existem hipopótamos albinos no Zimbábue?).

Vai dar tudo certo. É só eu não ouvir nenhuma música romântica e, assim, não alimentarei o meu cérebro com imagens de nós dois, lindos, dançando, no fim da festa do nosso casamento, após todos os convidados terem ido embora. Eu, com um vestido branco gelo, daqueles que dão até dor na vista. Mas com batom vermelho, para contrastar. Você, com um terno italiano grafite, com riscas de giz. Ai, fodeu. Pensei! Droga. Droga. Droga. Droga. Mil vezes droga! Não aguento mais esse meu cérebro fértil, esse meu estômago gelado e esse meu coração parecendo uma bomba, prestes a explodir.

A culpa é sua. É, não vou suportar esse fardo sozinha. Quem mandou ser tão lindo, inteligente, engraçado, cheiroso, TU-DO-DE-BOM? Simplesmente terrível.

Meu celular tocou e eu adivinhei que era você. Foi a primeira vez que eu adivinhei que era você. E quando li o seu nome, piscando, meu estômago gelou. Foi a primeira vez que meu estômago gelou por você. Foi tão desconcertante que eu nem atendi.

Foto: http://www.sxc.hu/
http://www.blogdaferdi.blogspot.com/

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

BALAS, BEIJOS E BILHETES >> Carla Dias >>

Durante a nossa jornada de vida, a vida em si acontece de uma forma inteira. Somos apenas uma mecha dos seus cabelos arrebanhados pelo vento. Um fragmento fundamental para que ela aconteça num todo.

Quem se permite alcançar pelo que acontece a sua volta, que observa o que vai além do universo que criou para si mesmo, está sujeito à inspiração na sua essência.

A nossa existência remete ao aprendizado. Temos de aprender a ser não apenas a pessoa que a geografia, a família e a sociedade nos permitem ser. Temos de ir adiante... Inspirar-nos.

Sim, eu me permito inspirar por balas. As cores dos seus papeis, os formatos, inspiram-me, assim como a curvatura do corpo do menino que pega a bala que caiu no chão, ou o olhar desamparado do dono do bar que vendeu a bala ao menino. O resmungo da mulher que espera para ser atendida.

Inspiram-me também as fotografias que contam histórias. Minha mãe tem algumas delas, tão antigas quanto eu, com pessoas das quais não sei o nome, apesar do parentesco. Ah, que sou deveras distraída com nomenclaturas, mas não esqueço o sorriso. Inspira-me o sorriso das fotografias amareladas. E os beijos, que são inéditos, sempre. Um nunca é igual ao outro. E os bilhetes, grudados na geladeira, deixados sobre a mesa da cozinha, trocados na sala de aula.

Permitir-se inspirar é como escancarar as janelas, sair para um passeio, debaixo de chuva. É atrever o olhar, ousar o sentimento. Abrir o coração para o que vem e tentar escolher o que nos faz bem.

Inspiram-me, também, as canções. Escrevi um livro de poesia inteiro ouvindo os mesmos discos, do mesmo artista. E capítulos de romances, trechos de contos, escutando o que diziam tantos outros, os sons que emolduravam os seus pensamentos. Muitas vezes, somente os sons.

Há frases que escutei durante a minha vida, nem sempre dirigidas a mim, mas que ainda ecoam no meu dentro. Às vezes, elas invadem a minha lembrança, e parecem ter sido sussurradas nos meus ouvidos. A voz é a mesma, assim como a entoação. Vêm junto com a lembrança cores, cenários, cheiros. É como se elas vivessem por perto, em total silêncio, e vez ou outra viessem me visitar.

Inspirar-se com o que a vida faz acontecer conosco e à nossa volta, leva-nos ao ambiente amplo da poesia. A dor não precisa inspirar somente dolências, mas também bálsamos. As desventuras podem ser apenas obstáculos, e mesmo que elas evitem chegarmos onde queríamos, é certo que o destino nos reservará gratas surpresas.

Inspire. Respire. Inspire-se. Viva.

carladias.com



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terça-feira, 26 de outubro de 2010

CHEGA DE TANTA BESTEIRA
>> Clara Braga

Recentemente meus pais estiveram na Argentina, e quando voltaram comentaram a mesma coisa que eu já tinha ouvido outras pessoas comentarem quando estiveram lá: como eles ficaram impressionados com o quão politizados são os argentinos. Quando meus pais falavam que eram brasileiros, logo a pessoa dava uma aula sobre o que estava acontecendo com a política no Brasil, sabiam tudo mesmo.

Meus pais também conhecem uma pessoa que passou pela mesma situação, ou talvez até pior, porque quando o taxista argentino começou a falar sobre o que ele sabia... eram coisas que nem a própria pessoa sabia que estava acontecendo aqui no Brasil. E eu me atrevo a dizer que isso vai acontecer cada vez mais, já que o brasileiro está perdendo toda a sua esperança em relação à política.

Já disse uma vez aqui que não gosto de falar de política por não entender muito bem, o que é a mais pura verdade, mas esses fatos têm me impressionado tanto que não tem como não escrever sobre. Final de semana passado, eu fui ao cinema assistir Tropa de Elite 2. Gostei tanto do filme que já fui assistir novamente, recomendo mesmo, mas o que mais me chamou a atenção não foi nenhuma cena específica do filme, e sim a reação das pessoas quando o Capitão Nascimento espanca um certo político (desculpa quem não viu o filme, mas juro que não contei nada demais). As pessoas, no cinema, assobiavam e aplaudiam, e isso acontece porque essa é a vontade que todos estão tendo nesse momento, é o que todo mundo gostaria de fazer, mas não faz.

Nós não temos aqui no Brasil essa cultura forte de luta, de ir às ruas brigar, de fazer uma mobilização realmente significativa. Já tivemos os movimentos estudantis, mas cadê? Posso estar falando besteira, mas é isso que eu vejo, cada vez mais pessoas sem muito argumento. Outro dia no supermercado, ouvi uma moça revoltada brigar com o cara da fila porque ele iria votar na Dilma e ela começou a gritar dizendo que a Dilma era uma assassina, e que ela ia provar isso ao cara mandando para ele o e-mail que ela recebeu afirmando isso sobre a Dilma. Por favor, desde quando e-mail comprova alguma coisa? Bom, eu não entro nessas brigas exatamente por não ter argumento algum, mas já estou com tanta vergonha de ouvir essas besteiras que estou procurando me informar melhor das coisas, e fica aqui meu apelo para que todos façam o mesmo, antes que vire moda mandar e-mail para comprovar algo.

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

CARTA PARA QUANDO EU FOR VELHA
>> Kika Coutinho

Um dia, e não deve demorar muito, vou notar fios brancos no meu cabelo. Pior: um dia, vou procurar se restaram alguns fios preto no meu cabelo. Vou sentir algumas dores nas pernas, ou nas costas, ou a carga da vida será pesada para mim.

E, se eu pudesse deixar um recado para essa mulher que eu serei então, eu pediria, talvez, para que ela fosse doce. Quando eu for velha, desejo manter alguma alegria. Ainda que a amargura me seja tentadora, que eu possa ver alguma beleza na vida.

Que eu possa ver beleza em mim mesma, mesmo que meu rosto esteja amassado, os olhos um pouco apagados, que eu me lembre do quanto achava ridículo as mulheres lotadas de botox e não caia na armadilha de esticar-me toda para tentar ser aquilo que não preciso mais ser. Que eu me lembre desse tempo de hoje, e aceite essa outra forma de beleza, senão sem dores, com muita dignidade.

Que eu tenha mãos firmes para passar base e, quiçá, delineador. Que eu saiba o valor e o momento de um bom perfume, de um bom penteado, de uma roupa bem cortada. Que eu não caia na tentação de vestir-me como uma velha ou – pior – que eu não caia no ridículo de usar roupas parecidas com as das minhas netas.

Que eu não implique com a vida, com o tempo, com o meu companheiro. Aliás, se ele se tornar irritante, diabético, surdo ou o que quer que seja, desejo me lembrar das promessas antigas, do companheirismo de uma vida, das inúmeras vezes em que eu, jovem, fui irritante e surda, e ele esteve ao meu lado. Que eu possa relevar as frases repetidas, que eu tenha paciência para as pequenezas dele, e procure evitar as minhas. Que eu saiba rir da vida, de mim mesma, de nós dois. Mesmo que as piadas sejam péssimas; as gargalhadas não deveriam se tornar tão raras quanto as caminhadas ou as corridas. Que eu possa, ainda, fazer meu companheiro rir, mesmo que me dê uma preguiça danada.

Que eu não cobre dos meus filhos, netos, amigos, mais do que eles me ofereçam. E que, em sendo oferecido pouco deles a mim, que isso não me amargure; mesmo que seja infinitamente injusto e cruel – e deve ser –, que eu tenha aceitação e alegria. Que eu tenha assunto e conhecimento, que eu tenha prazeres e encantamentos, sabedoria e discernimento.

Que eu me mantenha lendo bastante, para que eu possa achar assunto nos jornais, nas revistas, nos novos e nos velhos livros. Se não me restar amigos, ou amores, que o conhecimento me salve de uma rotina infinitamente chata e comprida.

Que eu aprenda a apreciar flores, comida, música, ou qualquer uma dessas coisas oferecidas em abundância pela vida, porque, assim, mesmo que me falte o resto, ainda terei o gosto ou o som do que me faz feliz.

E, enfim, se eu pudesse deixar um último recado a essa velhinha que eu serei, eu pediria que ela lembrasse da menina que foi um dia e que fosse gentil com essa moça, com seus próprios erros, acertos, escorregadas e tentativas vãs. Que ela não fosse muito rígida com a vida, e nem com essa jovem abusada e tola que, um dia, sentou-se num jardim ensolarado para deixar-lhe uma pequena carta, cheia de palavras e idéias que, talvez, um dia, não façam, absolutamente, o menor sentido.

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sábado, 23 de outubro de 2010

O JOGO DEMOCRÁTICO
E SUAS FALSAS ESCOLHAS
[Sandra Paes]

Parece que o mundo ocidental está todo debaixo da pressão de escolher alguém para lhe ditar os caminhos. Falo das eleições no Brasil e nos USA.

Por toda parte, propagandas de “vote em mim” e uma série de discussões temporárias sobre o melhor partido. Pela internet, recebo diariamente incontáveis emails na tentativa de ganhar meu voto ou, pelo menos, uma adesão simpática.

Me pergunto: a quem serve tudo isso?

Desde que os gregos inventaram a democracia o mundo vem brincando de escolher representantes. Entre percepção e consciência, escolha sob a égide de tantas dúvidas, fica apenas uma possibilidade: você tem que escolher. Há que apontar alguém. O discurso histórico de que possíveis candidatos a cargos políticos têm que prevalecer para sustentar o Estado e seus poderes de decisões e normas na sociedade vigente nunca foi avaliado.

A crença básica é: o homem precisa de quem lhe aponte o caminho, quem lhe imponha regras e tarifas para justificar seu trabalho, sua produtividade e, por que não, dar um sentido à sua existência.

Dizem que o trabalho enobrece. Dizem que é importante guardar dinheiro e fazer economia. Dizem que é importante dar continuidade à educação da prole. Dizem que é fundamental investir na paz. E prometem segurança de todas as formas, da saúde ao território coberto de proteção.

Tudo mentira! E a gente, que lá no fundo pertence apenas ao partido humano da esperança, fecha os olhos, cruza os dedos e torce pra dar certo.

E o que seria “dar certo”? Uma justificativa numérica de que a economia vai bem, de que as crianças estão frequentando a escola, de que os hospitais lhe atendem quando você precisa e você tem serviço médico a seu dispor?

Mentira, tudo mentira!

Existe a tentativa de usar o dinheiro arrecadado de impostos para financiar algumas coisas. Todos os pedidos anotados? Todas as reivindicações devidamente encaminhadas para serem cumpridas com o prazo exíguo de quatro anos? Claro que não!

Sobra apenas uma dualidade cruel. Se você acredita que o Presidente vai melhorar o nivel da pobreza e distribuir melhor a riqueza entre os miseráveis, vote no PT. Se você acredita que o Estado é abusivo em gastos e poderes e pensa que é melhor deixar o homem administrar suas próprias empresas e serviços e acha que a privatização é o caminho, vote no PSDB.

Se você acredita que apenas com a guerra se constrói a paz, vote nos republicanos. Também se você pensa que o liberalismo de decisões e controle de gastos deve ficar mais na mão das empresas do que nas mãos do governo, o caminho é o mesmo: eleger um republicano. O próprio nome diz: o que conduz a coisa pública.

E o que seria mesmo a solução? Existe uma?

Os que precisam de pai — e isso parece ser a maioria —, o pai protetor, tipo que passa a mão na cabeça, lhe perdoa sempre os erros e até esquece deles, então você já sabe exatamente em quem votar.

Mas se você já acha que atingiu a maturidade, e sua relação com a Pátria é de respeito e cooperação, tanto quanto com sua familia, sua mulher ou esposo, seu vizinho, etc., você está sem partido e representação por que isso ainda não foi conquistado.

Política ainda reflete o estado de consciência de um povo e suas possíveis carências e necessidades. Conseqüentemente, a forma de resolver tudo isso.

O mundo todo ainda é infantil. Ainda brigamos para ter um Deus verdadeiro, ainda criamos confusão de todas as ordens em nome de manter nossas crenças, mesmo que seja no melhor time de futebol.

Parece que estamos todos aprendendo a escolher — se é que isso é assim mesmo —, porque onde há fome não tem cardápio ou menu pra se escolher um prato. Está cheio de casos como esses no planeta.

E no Brasil? Qual é a cara e a máscara desse país? Até porque quem vê cara, não vê coração, e todos nós sofremos com a falta de uma percepção mais clara e uma consciência mais realista. Ainda dormimos em berço esplêndido ao som do mar azul e à luz do céu profundo, e eleger significa acordar ou mudar de sonho? Não sei...

Caçaram meu direito de voto. Sumiram com meu título de eleitor. E isso é dever cívico. Como cumprir um dever cívico sem o documento oficial para fazê-lo?

A vida me colocou em outro espaço de escolha: a falta de escolha. E isso não está nas urnas. Ou é goiabada com queijo ou é pudim e ponto. Recusar sobremesa agora não pode.

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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

FORTALEZA É UM PÂNCREAS
>> Leonardo Marona

Fortaleza é uma noitada no prostíbulo Blue Angel na zona portuária com uma menina chamada Vitângela. Mas por que Vitângela, querida? Meu pai é Vítor, minha mãe é Ângela. Foi a depressão que me levou até lá. Foi para não estar lá que fui parar lá. Foi para não estar em parte alguma que estive ali. É isso: Fortaleza é não estar em parte alguma.

Não é preciso amar Fortaleza para se estar junto a ela, ou mesmo ela dentro de você. Ela é o morto de Sam Peckinpah, que carregamos pelos desertos até o monte de Sísifo, que são as dunas que aumentam de altura conforme cravamos nelas os pés descalços. Ah, Fortaleza, difícil te separar das ruas horríveis cheirando às entranhas dos bois magros, muito difícil tirar da minha visão aquela prostitutazinha pedindo um boquete toda coberta de feridas abertas, difícil ignorar a corrida pela perimetral com as calças em mijo, ou as pessoas sem alma escoradas nos parapeitos, jogadas nos meios-fios como índios anacrônicos. Eles olham como índio, não é maldade, é um senso de ancestralidade, você me disse e achei tão bonito que a desconfiança seja uma arma branca que nos mantenha à disposição das ruas dos sebos onde li Moreira Campos e chorei com os latidos dos cachorros intermináveis e onde, soube ali, morreu atropelado José Alcides Pinto, pobre diabo, padre e ninfomaníaco, mas no fim foi a solidão que me trouxe até ali, e solidão é no fim muito pouco, um estado comum: parar, se lavar e cometer pecados, mas ali não existe vergonha, dançava sozinho já com a cabeça inchada de lisérgico, à beira-mar ao lado de pescadores depravados e negros de Cabo Verde. As redes feitas de útero materno e a coluna como uma canoa – e do que se fugia afinal? A juventude fugia de mim e, Fortaleza, você foi o fim da minha juventude, com os parques abandonados para jovens com seus rollerblades, os vinhos de lata misturados com cerveja quente, os bares em dialeto abissínio, o silêncio exorbitante em minúsculas falas.

Muitas vezes, com calos nos pés, pensava à tarde se deveria ainda sentir amor. Se no fim das contas não deveria rir com o amor em vez de me fazer suficiente dele, ou por ele, ou para ele. Mas as pessoas de Fortaleza têm certamente uma relação diferente com o amor. Eles não vêem o amor. Eles têm o amor, como um pâncreas. Temos o pâncreas, mas não vemos o pâncreas. Portanto, Fortaleza é ter o pâncreas e não sentir o pâncreas, enquanto duvido se ao menos temos o pâncreas, fora de Fortaleza.

E achei que valia a pena. Não haver ruas, e haver pessoas. Que não são indígenas e não são brasileiros e não são estrangeiros, ao contrário, são tão íntimos, e mal se falam. Lindeza travestida em abraços de Iracemas vesgas, do meu amor por Iracema, do meu poema para Iracema, do meu poema para ti:

estou seco, meu amor, e já não te ouço.
estou triste, raso, alheio e dos pés calosos.
sei que não há tempo para perdão e flores,
mas um cacto, amor, não custa os olhos.

e haverá afinal algo que ainda pulse pálido
sem ar além do ar salino sob a terra frígida
abafada de vícios em retinas-cornucópias.
haverá sol no fundo de algo que ainda sinta
cotovelos secos que se esbarram em ruas novas,
onde há morte e fome, amor e mito, correria,
algo à procura da sombra de um coqueiro-memória,
existe sim qualquer coisa de gris por trás da esquina,
mais por dentro da pele, algo que talvez eu alcançasse,
se mergulhasse fundo e não sangrasse tanto
do mesmo sangue da vergonha do sangue ante-sofrido.

talvez do mergulho desavisado viesse o ovo
primordial de que tanto falam nossos queridos
caios carlos clarices césares concretos corvos
que por ti, por nós, o alimento escasso digerido
nas bocas cortadas de preâmbulos e escorbuto,
além de tudo o que das mãos me escorre frágil
e de mim não se fez, mas me segue pelas ruas
em passadas largas de “prestes ao interrogatório”.

se fundo eu apenas mergulhasse – como descendo
pela espessa avenida e cruzando entroncamentos,
ultrapassando dunas que tanto mais eu subo descem
– nas feridas abertas como em córregos coléricos,
tracejando crises brandas em copos mal-lavados,
surpreso passo a passo, a cada segundo um outro,
pelo segundo surpreso de cada passo eu cavo
incríveis e silenciosas atrocidades do coração.

e que ainda há flores no deserto – eu lhes direi.
e colheremos nem que seja a terra íntima das unhas.
e carregaremos nossos corpos quem sabe até o mar,
onde as ondas não vacilam e a solidão abandona o corpo
comido da bicheira, talvez nesses momentos, talvez agora,
poderíamos dar-nos todos as mãos, enfim silenciosos,
e abandonar de vez os poemas que são pingos ralos
de nós quando já tarda o senso e se atrasam os sinos
– quando não há mais diferença entre o corpo e o chão.

Porque o carinho é fonte de toda violência.


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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

MEMÓRIAS DO DIVÃ >> Fernanda Pinho


Eu estava achando o mundo estranho, as pessoas confusas e os questionamentos insolúveis e, então, por minha conta, decidi que era hora de fazer terapia. Sem referência alguma, procurei um psicólogo na Internet e marquei uma consulta. A experiência foi desastrosa, pois o homem era esquisítissimo, me deixava pouco à vontade, com a sensação de que, a qualquer momento, ele iria tirar uma arma de trás de sua poltrona e me balear. E pior. Ele insistia em me chamar de Flávia. Sorte a minha é que eu nunca tive problemas de identidade, ou teria pirado de vez.

Mesmo assim, cheguei a frequentar umas quatro seções e só desisti quando eu tive a certeza de que não tinha jeito: eu nunca confiaria nele, ele nunca aprenderia meu nome. E foi então que aconteceu o fato mais bizarro dessa experiência pois, estranhando meu sumiço, o homem resolveu me telefonar.
- Oi, Flávia, tudo bem? Eu notei que você não veio mais ao consultório. Aconteceu alguma coisa?
- Flávia? Quem é Flávia? Você ligou errado, aqui não tem nenhuma Flávia!

Isso foi o que eu pensei. Na verdade, eu disse:
- Ah, eu não vou poder continuar com a terapia porque não estou tendo tempo. Desculpa não ter avisado antes.
- Tem certeza de que é só isso, Flávia?
- Não, não é só isso. Acontece que se tem alguém que precisa de terapia aqui esse alguém é você. E meu nome não é Flávia, é Fer-nan-da. F-E-R-N-A-N-D-A, entendeu?

Isso foi o que eu pensei. Na verdade, eu disse:
- Sim, é só questão de tempo mesmo. Estou trabalhando demais, sabe como é...
- Humm...então não é problema financeiro não, né? Porque se for, eu te atendo de graça. Eu gostaria de continuar, porque você é um caso muito interessante para minha linha de estudo...
- Um caso muito interessante? Você tá me chamando de louca?

Isso foi o que eu pensei. E disse.

Obviamente, depois do acontecido, fiquei ainda mais desesperada em busca de um bom terapeuta, afinal eu tinha um novo – e grave – questionamento a ser resolvido: por que cargas d’água eu era um caso muito interessante? Foi então que minha cabeleireira me indicou sua amiga, que é psicóloga. Seguindo a linha de raciocínio “ela cuida bem da minha cabeça do lado de fora, então sua amiga saberá como cuidar da minha cabeça por dentro”, apostei minhas fichas e fui.

Olha, desde então, me tornei uma diletante da terapia. Naquele consultório descobri coisas que mudaram minha vida. Criei um vínculo raro com a nova psicóloga que, além de ser uma excelente profissional, sempre teve uma empatia gratuita por mim (e eu por ela). Foi ela quem me fez entender, por exemplo, que não temos o poder de mudar ninguém. Mas temos o poder de nos afastar de quem quisermos. Um aprendizado e tanto para uma mimada e birrenta como eu.

Pena que, de fato, fiquei sem tempo e tive que parar com a terapia. Talvez se eu tivesse continuado, eu poderia ter resolvido algumas coisas que ainda me atrasam muito. Cheguei a essa conclusão um dia desses quando, por um acaso, me reencontrei com a psicóloga. Me bateu uma angústia quando ela me perguntou sobre certos padrões que ainda continuam a se repetir. Tentei disfarçar, mas acho que ela notou minha cara de quem tomou bomba na escola.

Porque de nada adianta ter a melhor terapeuta do mundo se você tem um talento inato para sempre, invariavelmente, fazer as escolhas erradas. Ainda bem que eu não sou assim, né, gente? A Flávia é que é.




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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

VILLANI-CÔRTES >> Carla Dias >>

Eu gosto de biografias, tanto quanto aprecio a história de criação das obras de feitores de arte que perpetuam amores e dores, de criadores de indústrias, de engenheiros dedicados a enfrentar os percalços da jornada que é desafiar as leis da física. De cientistas em busca da vida sendo baforada para fora dos tubos de ensaio.
Sou telespectadora do canal Bio, que, infelizmente, é coisa de TV paga... Ao menos por enquanto. Há muito veiculado ali que deveria caber também nas salas de aula.

Se a nós é tão agradável saber da vida alheia, folheando revistas em busca da gafe de celebridades, ou mesmo os jornais, para saber quem está mais bem colocado pelo Ibope, por que não dedicarmos esta curiosidade também aos que constroem a identidade do nosso país?

Em agosto passado, a Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos recebeu um evento muito especial, uma homenagem aos 80 anos de Edmundo Villani-Côrtes, pianista, regente, arranjador e compositor. O evento incluiu uma agenda de apresentações, contando com Vitor Garbelotto, Esdras Maddalon Evaristo, Marcus Toscano, Thiago Oliveira, Bruno Madeira, Ericssom Castro, Andrea Paz, Daniel Motta, a Camerata de Violões NAMMUSIC, com regência de Rafael Altro, e os internacionais Elodie Bouny (Venezuela/França) e Gonçalo Cordeiro (Portugal). Além de, obviamente, o próprio homenageado, que apresentou um concerto no qual recebeu convidados. A exposição fotográfica “80 anos de Villa-Côrtes”, com coordenação de Mônica Côrtes e Rafael Altro, permaneceu em cartaz na Livraria Cultura. Lamento apenas a exposição não ter encontrado um espaço fixo em algum centro cultural, porque mereceria permanecer à vista dos interessados.

Colocar aqui, com uma nova roupagem, o currículo deste artista, não seria contar sua história como ela merece ser abordada. Durante minha visita à exposição fotográfica, percebi que há muitas formas de se contar uma história de vida. Nós sabemos disso, mas é diferente quando presenciamos essa ciência. As imagens mostravam o homem que aprendeu a viver a música, e que, em algum momento de sua jornada, misturou-se de tal forma a ela, que ficou difícil pensá-los em separado. Sua biografia também se mistura a do nosso Brasil. Enfim, as biografias das pessoas, de suas crias e criações, dos lugares, são uma miscelânea que cria a identidade da nossa cultura.

Sugiro que vocês embarquem na pesquisa, que se dediquem a conhecer a música de Edmundo Villani-Côrtes. Valerá à pena, posso garantir, pois o artista é sem dúvida um grande talento... Um dos grandes talentos que vêm ajudando a escrever a biografia do Brasil da diversidade, da qualidade cultural.


Imagens: Mônica Côrtes

carladias.com



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terça-feira, 19 de outubro de 2010

VER OU NÃO VER, EIS A QUESTÃO
>> Clara Braga

Recentemente assisti ao filme Janela da Alma pela quarta vez. É, eu sou assim mesmo, quando gosto de um filme assisto até não aguentar mais. E quem já assistiu Janela da Alma sabe que esse é o típico filme que você não só pode como deve assistir várias vezes, pois cada vez que você assiste descobre algo novo e muito interessante. O que chega até a ser meio estranho, já que se trata de uma espécie de documentário. Nada contra, mas documentários normalmente não fazem parte da minha lista de filmes para assistir várias vezes.

Durante o filme várias pessoas, famosas ou não, vão falando como é a vida deles com o chamado "problema" de visão. E os problemas variam do mais grave, no caso a cegueira total, até ao simples fato de ter que usar óculos para ver melhor. Os depoimentos são lindos, muito interessantes mesmo e acho que me identifiquei com vários deles pelo simples fato de também usar óculos, mesmo meu caso não sendo nem de perto um dos mais graves.

Logo que eu comecei a usar óculos não gostei, uma simples questão estética, me olhava no espelho e não gostava. Mas aos poucos, e por causa de vários dos depoimentos desse filme, eu fui me conformando com a idéia e hoje em dia eu já vejo essa situação com outros olhos, se é que vocês me entendem. Afinal, sempre que eu coloco os óculos e vejo tudo nos mínimos detalhes é uma nova surpresa, é como se eu pudesse ver pela primeira vez todo dia. Deixei de achar que eu tenho "problema" de visão, afinal, como eu posso chamar de problema algo que muitas vezes para mim é uma solução? Pessoas com 100% da visão não têm a opção de ver apenas 80%, eu tenho!

Sempre que toco com minha banda toco sem óculos, gosto de ver que tem pessoas lá, gosto de ouvir as pessoas cantando, gosto de ver que estão dançando e curtindo, mas me incomodaria muito ver que alguém está me observando, e isso eu não vejo, não consigo definir nenhuma expressão, dependendo da distância não consigo saber nem se a pessoa está realmente olhando para mim, e isso me tranquiliza! Não só tranquiliza, mas me permite ouvir mais as pessoas cantando, pois é a forma que eu tenho de saber se eles estão gostando, e isso é único, afinal, em um mundo onde estamos sendo bombardeados por imagens a todo minuto é raro lembrarmos que para realmente ver não podemos usar apenas a visão.

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

POBRES LEITORES >> Albir José Inácio da Silva

Em princípio não há por que se ter pena de leitores. Melhor é agradecer-lhes a generosidade de nos ler os textos e parabenizá-los pelo hábito tão saudável. Ninguém discorda que a leitura é uma das atividades humanas mais interessantes. Talvez mais do que heranças inesperadas e prêmios de loterias, que só mudam o exterior, a palavra escrita tem conseguido dar novos rumos a vidas de que não se esperava grande coisa.

Mas o que a leitura tem de prazerosa pode ter de torturante quando obrigatória. Nem falo de alunos que precisam ler muitas páginas para responder a muitas perguntas. São ossos do ofício de estudar, do qual nos desincumbimos da melhor forma possível e vamos adiante.

Também não falo das dezenas de páginas de relatório que somos obrigados a digerir no escritório, porque para tanto temos explicações: é o nosso trabalho, temos de pagar as contas e pior seria estarmos desempregados.

Falo de uns coitados que têm amigos que escrevem coisas na internet ou em outro lugar qualquer, que se sentem na obrigação não apenas de ler essas coisas como também de comentá-las, com pertinentes e inteligentes comentários que contribuam e incentivem a escrita (neste ponto, inclusive, consulto aos colegas cronistas se isso acontece também com os livros publicados).

Claro que tem muita gente que lê, gosta ou não gosta, comenta ou não, mas está em paz. Tenho pena é daqueles que ficam na incômoda posição de ter que ler e incentivar uma coisa que os vai continuar torturando, porque na próxima semana terão de dizer que ainda não tiveram tempo de ler aquele texto mas deve estar tão bom quanto os anteriores.

Nesse aspecto a literatura complica a vida de alguns “consumidores”. É tão mais fácil olhar uma pintura e dizer apenas: “lindo, muito bom!”. Ninguém se sente obrigado a discorrer sobre a técnica, o estilo, as influências e as cores. É rápido. Basta uma olhada e um sorriso e já nos sentimos quites com o pintor. O mesmo se diga de um concerto. É só aplaudir e ficar feliz por ter assistido. Não há pecado nenhum em não entender de música.

Um amigo ficou me evitando durante semanas depois de me dizer que tinha gostado muito de um texto meu, que estava lendo com mais calma e fazendo, inclusive, algumas anotações. Depois me falaria. Renovou mais duas vezes essas preocupações e depois sumiu. Não tive nem oportunidade de dizer-lhe que não se preocupasse em ler meus textos e muito menos em comentá-los; que o que eu gostava nele era sua amizade e não sua crítica literária. Esse foi um caso extremo, mas sinto que a existência de textos a serem lidos e comentados acabam se transformando numa insolúvel saia justa para algumas pessoas.

Pudesse eu dar algum conselho, diria: não leiam nada que não queiram. E, caso leiam por curiosidade, não comentem por obrigação. Ninguém precisa produzir outro texto só porque leu.

Acreditem: ler já é uma grande homenagem.

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domingo, 17 de outubro de 2010

MINHAS CRIANÇAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Minhas crianças não eram minhas originalmente. São filhas de seus pais. Mas quem pode dizer que as crianças são mesmo nossas, originalmente? Não seriam elas um empréstimo, uma delicada encomenda a ser cuidada e entregue no período de uma vida?

Carol nasceu antes, mas a que me chegou primeiro foi Julia, sem acento — sugestão minha. Eu a conheci já no hospital, e não tinha ideia de que a filha da irmã da minha então mulher teria um impacto tão grande na minha existência. A primeira vez que chorei pela dor de alguém foi pela dor da Julia. E a alegria do dia em que Julia me chamou para ler uma história e, de surpresa, leu-a para mim em vez de eu ler para ela, foi uma das maiores alegrias da minha vida. Julia é um dos três melhores seres humanos que conheci até agora. Certa vez, numa praia próxima a Fortaleza, quando íamos quase desistindo de atravessar uma série de dunas para chegar a uma lagoa, Julia, com cinco anos, saiu-se com essa: “Vamos desistir sem nem ao menos tentar?”. E é a voz dessa pequena menina, que passei a chamar de Linda Julia, que me orienta hoje em dia quando penso em desistir facilmente de alguma coisa — como de escrever esta crônica.

Conheci Carol dez anos depois, e também não tinha ideia de que a filha da minha esposa seria tão importante para mim. Carol é incrivelmente fácil de conviver. Embora já tenha treze anos, para mim é como se tivesse dois — o tempo de nossa convivência. Não vi Carol mamar, engatinhar, aprender a andar e falar. Vejo-a estudar, paquerar e aprender a se relacionar. E a dor de Carol já me fez bater à porta de seu quarto para conversar. Com Carol, as histórias ainda estão se fazendo, se tecendo nas miudezas dos dias. Tive que ler histórias para Julia por muitos anos até que ela própria pudesse ler uma pra mim. Carol, com certeza, me surpreenderá um dia, realizando um desses seus sonhos que ela vai semeando em meus pensamentos com uma abundância que parece brincadeira.

Crianças nos revelam nossa própria criança. Crianças nos lembram que, agora, somos adultos. E isso pode ser irritante, porque dentro de nós há uma criança birrenta, teimosa, querendo tudo pra si e pra já. Mas agora é tarde demais para querer tudo do nosso jeito. A criança agora é outra.

Crianças também nos lembram que devemos voltar a ser crianças se quisermos entrar no reino do céu — a felicidade. E está também dentro de nós esta criança criativa e radiante, cheia de confiança e esperança.

É esse sutil equilíbrio entre abandonar a teimosia e assumir a criatividade que tenho aprendido — com algumas recaídas — no contato com Julia e Carol: cuidar da própria criança cuidando de minhas crianças.

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

MANHÃ NA RUA OSWALDO CRUZ
>> Leonardo Marona

Arrastava pelo braço um outro senhor um pouco mais senhor e menos digno por isso, ao que me pareceu. Ele era puxado pelo braço de encontro ao vento forte que amassava sua camisa de bolso na altura do peito contra sua ausência de vida em pele. O senhor que puxava era careca. O senhor mais senhor e menos digno, ao que me pareceu, não era careca. Filho da puta, pensei. Filho da puta sortudo de uma figa... Olhei meu reflexo na vidraça da portaria de um prédio um pouco antes do meu. Por que fui raspar a cabeça? Essa cabeça chata de idéias velhas e dramatizações falsas. Pensei em dar minha mão para o senhor mais senhor e menos digno, ao que me pareceu, e ir-me embora com ele até o lugar onde todo mundo tem cabelo e é feliz. Mas o outro senhor, que o arrastava contra o vento, me olhou como se fosse me matar e a toda minha geração. As pessoas precisam se defender delas mesmas o tempo todo. Isso tudo durou um segundo ou dois. Coisa de péssimo escritor. Virei para trás quando passei pelos senhores. O senhor mais senhor e menos digno, ao que me pareceu, estava com uma cueca listrada para fora das calças, a camisa para dentro da cueca. Estava contente com o vento na cara, se sentindo mais jovem, os dentes soltos saltitavam e a goela ia e vinha, tal qual uma bolha de sabão. Saltitava o velhote. O outro o arrastava blasfemando. Eia, velho! Eia! Estou atrasado para a morte, não vê? O velho com a camisa para dentro da cueca, a cueca para fora das calças. Feliz por andar ao sabor do vento, mesmo que arrastado como uma mula.

Entrei no prédio. O porteiro vive rindo. Oi, nenê! Gut, gut, gut, nenê… Ele falava com um bebê de chapéu. A babá era uma daquelas cearenses de pé lascado. Uma boa. Ele ficava lá, contente, gut-gut no bebê e gut-gut nas tetas suculentas do agreste. Eu entrei e só ouvi. O resto eu tive certeza. A porta do elevador estava se fechando e eu tive que correr e enfiar a mão entre a porta e a parede. Porque outra mão puxava a porta para que não me desse tempo de entrar. Meti a mão e entrei. Uma velhota parecida com a Yoko Ono depois de Hiroshima. Uma Dercy Gonçalves oriental, enfim. Usava uns óculos enormes cor de violeta, muito batom encarnado. Não pode ter sido ela quem escolheu aquilo. Deve ser como com o velhote de cueca por fora da camisa.

Bom dia, bom dia. Que calor! Mas e o vento? Nossa! Um, dois, três, quatro, cinco, eu sempre começo a contar números quando não sei mais o que falar. Dez, onze, doze, ela recomeça. Ai, ai, eu não entendo esses porteiros. Estão sempre rindo. Eu digo: É? E ela: É. Quanto menos se tem mais se ri. E eu: Vai ver existe alguma explicação pra isso. Vai ver existe. Daí a velha: Ai, a gente, sabe, a gente é tão cheio de coisa... Ufff... Dezenove, vinte, vinte e um, vinte e dois, chegamos ao oitavo... Abro a porta pra velhota. Tchau. Até logo. Ela vira pra mim já do lado de fora, tira os óculos cor de violeta e diz: Olha, que bom que uma coisa sempre compensa a outra. É. Até logo. Bum! Porta velha do elevador, porta velha e de grade.

Entro em casa e sento aqui para escrever isso. A água no chuveiro está ligada, o exaustor do fogão a mil. Cheiro de alho. Puta, os nuggets! Merda, Vídeo Show! A água quente a comida quente o dia quente a testa quente a vida fria. Ainda bem que uma coisa compensa a outra.


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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

GENTILEZA >> Fernanda Pinho


“Eu aprendi que ser gentil é mais importante do que estar certo” – Shakespeare

Fico pensando em como deve estar desgostoso o senhor José Datrino, lá do céu. Ele, que ficou famoso como Profeta Gentileza e foi o propagador da filosofia "gentileza gera gentileza" ,deve estar tendo dificuldade em encontrar os frutos das sementes que plantou. Porque, gente, reconheçamos, ser gentil está mais démodé do que usar pochette.

E eu, graças a Deus, estou por fora, pois acho gentileza o máximo. Não abro mão de desejar feliz aniversário a ninguém - e levo tão a sério que sei de cor as datas de aniversário de todas as pessoas das minhas relações; faço o impossível para comparecer sempre que me convidam (e se não posso ir, nunca deixo de me justificar); não deixo ninguém esperando; não saio discordando só para causar polêmica; respeito os horários dos outros; não deixo ninguém mudar de planos por minha causa; sempre falo "bom dia", "boa tarde", "boa noite" e "muito obrigada" (faço questão do "muito"); só me recuso a fazer um favor para alguém se realmente não estiver ao meu alcance (e nesse caso eu tento indicar quem possa fazer); sempre retorno as ligações; sempre respondo aos e-mails; e jamais me dirijo a alguém adotando um tom autoritário. E aí você pode estar pensando: "vantagem nenhuma, você não faz mais que sua obrigação". Exatamente, eu também acho. Isso é o básico, o arroz com feijão que sustenta esse detalhe que faz toda a diferença para que tenhamos uma vida melhor: a gentileza. E o que me desespera é perceber que nem do arroz com feijão as pessoas estão dando conta. As pessoas querem estar certas, querem mostrar o quanto são poderosas, o quanto são inteligentes. As pessoas querem cumprir metas, mostrar o quanto são competentes, o quanto são esforçadas. As pessoas querem ficar ricas, mostrar o quanto são espertas, o quanto são melhores que os outros. E quanto a ser gentil? As pessoas não se preocupam com isso ou, sendo otimista, se esqueceram desse detalhe - nem foi por mal - devido à falta de tempo.

E quando falo "as pessoas", me incluo também já que, embora eu faça meu arroz com feijão, vivo mordendo a isca dos sem-educação e grosseiros de todos os tipos. Não raramente me vejo gastando energia num embate com alguém que tenha me tratado sem o mínimo de gentileza. O que ganho com isso? Nada. Apenas a frustração por não ter conseguido ser gentil, mesmo com aquela pessoa que não merecia. Porque o que eu entendo é que a gentileza que gera gentileza é aquela indiscriminada. É ser gentil sem olhar a quem. Do resto, a vida se encarrega.

Como aconteceu com meu pai, há cerca de dois anos. Numa madrugada de chuva torrencial, indo de carro de Belo Horizonte a Juiz de Fora, ele parou na estrada ao ver uma ambulância estacionada no acostamento. Perguntou ao motorista o que estava acontecendo e este lhe explicou que o veículo tinha estragado, ele precisava seguir viagem e não sabia o que fazer. Meu pai, então, desceu do carro. Deu uma olhada no motor da ambulância e, como viu que não poderia fazer nada, levou o motorista até a cidade onde ele deveria chegar e o ajudou a encontrar um mecânico que pudesse voltar com eles até a ambulância. Três meses depois, passando pela mesma estrada, meu pai sofreu um acidente gravíssimo. Foi levado para a Santa Casa de uma cidade próxima e, devido ao estado em que se encontrava, só poderia ser transferido para um hospital em Belo Horizonte de ambulância. Porém, de acordo com as normas esdrúxulas da Santa Casa em questão, uma ambulância deveria se deslocar de BH até a tal cidade para buscá-lo. Possibilidade inviável, logicamente. A viagem demora cerca de duas horas e meia, o que significa que levaria, no mínimo, cinco horas para que meu pai fosse atendido num hospital daqui. E assim teria sido se um motorista da Santa Casa não tivesse entrado no ambulatório e visto meu pai na maca. Tratava-se exatamente do mesmo motorista que meu pai havia socorrido meses antes. Ele peitou seu próprio chefe e todo o hospital. "Esse cara me ajudou um dia e eu vou levá-lo agora, e de qualquer jeito", ele disse. E trouxe.

Meu pai ficou um mês internado mas sobreviveu porque foi atendido a tempo pelo melhor hospital que temos em Belo Horizonte. O que poderia não ter acontecido se, naquela madrugada chuvosa, ele não tivesse marcado a resposta certa no teste que a vida lhe aplicou. Desde então, fiquei mais vigilante às respostas que eu dou aos testes que a vida me aplica e sei que só existe uma resposta certa: gentileza.

www.blogdaferdi.blogspot.com


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