quinta-feira, 29 de novembro de 2012

FIM DE ANO COM OBSTÁCULOS... E PASSAS >> Mariana Scherma

Duas aventuras nada bem-vindas na minha vida: supermercado e shopping no fim do ano. São os dois lugares em que só vou porque preciso, mais ou menos a mesma coisa que a ida periódica ao médico. Talvez eu até prefira o médico, se tiver certeza de que ele não vai me deixar esperando duas horas na mesma sala que uma porção de revistas Caras mostrando as “notícias” de um ano que já passou faz tempo.

Moro numa cidade quente e (suspiros de tristeza...) sem praia. Ou seja: adivinha onde todo mundo vai passar o fim de semana! Lógico que no shopping, ainda não sei se pra comprar os benditos presentes ou se pra curtir o ar condicionado. Mas eles estão lá: sábado na hora do almoço, sábado à tarde e domingo a partir da hora que acordam, fazendo uma caminhada normal virar A Interminável Caminhada Com Obstáculos. Ãham. Andar num shopping lotado, com as pessoas paralisadas pelas vitrines (acho até uma cena meio de zumbis) é bem pior que uma corrida com obstáculos. O obstáculo tá lá parado. As pessoas, não: elas andam e de repente param na sua frente, não veem o seu pé e lá vai um pisão. Sério, tenta olhar uma vitrine com atenção: você vai precisar desviar de uma meia dúzia de gente (ou bem mais) zanzando sem destino.

Minha birra com o Natal é que as pessoas ficam enlouquecidas e querem mostrar aos amigos e parentes todo o carinho que economizaram nos outros meses comprando uma lembrancinha (o 13º salário tem ônus, olha só!). Aí não dá outra: o shopping vira o cenário perfeito pra um filme de terror. Ou guerra. Ou luta porque é inevitável você acabar apanhando da fulana que anda com 32 sacolas nas duas mãos mais um sorvete de casquinha e acha que ocupa o espaço de uma pessoa só. Já sugeri em casa de comemorarmos o Natal em janeiro, quando os shoppings se tornam menos impossíveis e ainda dão descontos. Minha mãe riu da minha cara. Ela me acha a maior pão-dura do universo.

Supermercado pra mim tem efeito parecido, talvez até pior. Inesquecível (no péssimo sentido) foi quando eu estava esperando minha vez na sessão de frios e tinha um sujeito escolhendo bacon. Toda vez que ele pedia à atendente pra mostrar um novo pedaço do coitado do porco, eu me esforçava pra não demonstrar reação. Só tinha um vidro separando ele do bacon, por que a pobre da moça tinha que mostrar o bacon na mão? “É bacon, meu senhor, qualquer um desses pedaços vai entupir suas artérias do mesmo jeito”, uma frase que consegui engolir e que prova que se trabalhasse no lugar da atendente não duraria um dia no emprego. É só ver um supermercado lotado que minha mãe e eu nos revezamos: tática de guerra mesmo, "você pega as frutas, eu fico nos frios, passo nas carnes e quem terminar antes corre pra fila no caixa". Combinado. Valendo!

Já esqueci a ideia de inferno pegando fogo, pra mim inferno é o supermercado na véspera de Natal e Ano-Novo. A impressão que dá é que as pessoas deixam pra comer só nessa época e aí a coisa fica meio Saramago em Ensaio Sobre A Cegueira. Sou a favor de ceias magrinhas, sem essa loucura da carne de porco, das castanhas, das sobremesas de chantilly e do arroz amarelo com passas (que, se fosse gostoso de verdade, substituiria o arroz branquinho o ano todo, né?). É uma refeição num país tropical, caramba.

Nessa semana, um novo shopping será inaugurado aqui na cidade onde moro. Não tô soltando fogos de artifício por conta disso, mas me deu um minialívio. Enquanto todo mundo vai correndo checar as novidades, eu vou ao velho shopping mesmo. Com muito foco, sou capaz de comprar os presentes em uma hora (é, eu não sou o tipo que distribui lembrancinhas pra toda lista de contato, só para os mais queridos mesmo). A minha sorte é que quem cuida da ceia é minha mãe – e nenhum supermercado abarrotado é capaz de tirar dela a paixão por fazer compras (taí uma característica nada genética). Como ela sabe da minha falta de paciência, minha tarefa é só dizer o que eu quero comer. Vou pedir o pavê de sempre. E esperar do fundo do coração pra que ela desencane das passas no arroz. Um milagre de Natal, quem sabe?





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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

UMA PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS
>> Carla Dias >>

I'm on your side
When times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Da canção “Bridge Over Troubled Water”, de Paul Simon

Ela caminha pelas ruas da cidade com suas ruas entupidas por carros, um concerto de buzinas, semáforos avariados, faixas de pedestre esmaecidas. Gosta quando está garoando, nem leva guarda-chuva na ocasião. Acha graça sobre como as gotinhas de chuva deixam seus cabelos esbranquiçados, como se ela fosse, ainda que jovem, uma senhorinha de cabelo ruim, mas bonito.

Caminha e sempre atenta às vitrines, mas não porque deseja comprar produtos, e sim porque se interessa pelo o que deslumbra as outras pessoas. Sente-se atraída pelo desejo alheio, pelo o que nutre esse desejo, muito mais do que pelos regalos materiais.

Atravessa a passarela, alcança a avenida. Segue rumo ao shopping center que, até outro dia, era apenas um projeto que tinha cara de que acabaria como um monte bem grande de entulho enfeitando a paisagem urbana. Agora é esse lugar desprovido de relógio, onde funcionam algumas das lojas para as quais a empresa na qual ela trabalha presta serviços. Uma vez por semana, ela faz esse mesmo caminho, tem essa mesma função: buscar as ordens de serviço para providenciar a montagem dos móveis dos clientes.

O mais interessante dessa caminhada é o caminho. Nem mesmo a espera, que sempre tem de haver quando ela chega às lojas, quando ela dá de se distrair com as camas e as estantes, e principalmente com as poltronas, é tão interessante quanto o caminho.

Assim que sai do escritório, ela inicia uma viagem que seus pés não acompanham. São vinte minutos de caminhada até chegar lá, e ainda tem a volta. É tempo suficiente para ela imaginar mil cenários, ruminar oportunidades, criar desfechos, como o que precisa para sua história de amor platônico pelo amigo de sua amiga que se tornou seu amigo, aquele de quem rouba sorrisos, de vez quando, e parece que eles podem sustentá-la para o resto da vida. Não entende por que, mas ele lhe deu uma fotografia 3x4. E enquanto caminha em direção ao shopping, carrega essa foto na mão, como se andasse de mãos dadas com a pessoa que imagina, dia desses, irá corresponder a esse amor margeado por silêncios.

O mistério que mora em tais caminhadas é que elas podem durar mais do que o tempo que realmente duram. Mesmo mudando de emprego, perdendo a fotografia – e o contato - do amor que não amava de volta, tornando-se um tanto avessa aos shoppings, enfeitando cabelos com a garoa. Mesmo tendo passado por tais folhas de calendário, pelos dias e seus horários comerciais, as saídas com os amigos, as fugas debaixo do cobertor, ainda assim ela, vez ou outra, olha para o antes como se ele fosse agora. Dura pouco, mas a experiência é pungente. Vê-se presa naquele momento em que as questões mais importantes de sua vida ainda eram simples, porque ainda podiam ser imaginadas. Diferente de hoje, quando muito de sua biografia já está decidido, e seus cabelos são de senhorinha e brancos, ainda que em dia de sol.

Lembra-se do que lhe escrevera o amor platônico de foto 3x4 perdida. Não sabe se é de sua autoria ou de quem seria, mas faz sentido agora: “o amor é uma ponte sobre águas turvas, e você sabe disso...” Águas nas quais ela mergulhou. Ponte na qual se sentou para apreciar fim de dia e, às vezes, pensar naquela que, em dia de semana, caminhava pela cidade sendo engolida pelas possibilidades de um futuro que estava ali, logo adiante.

O amor é uma ponte sobre águas turvas. Hoje ela sabe disso.



carladias.com




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terça-feira, 27 de novembro de 2012

AH, MEUS 15 ANOS >> Clara Braga

Ela é uma menina pequenininha, miudinha, magrinha, de família bem humilde, mas de um coração que se aproxima ao tamanho do tão famoso coração de mãe! Chegou ao grupo há um ano, e facilmente se tornou muito especial para todos. Aliás, especial é uma palavra muito boa para se referir a essa pequena menina, não só por ela ser importante para todos, mas também por precisar de alguns cuidados especiais em alguns momentos, apesar de pouco parecer que precisa.

Nesse mês de novembro, graças a uma dessas pessoas de coração gigante que a gente acha que não existem mais, mas que de vez em quando aparecem para mostrar que o mundo ainda tem salvação, essa mocinha teve a chance de realizar um grande sonho. Ela teve seu tão esperado baile de debutante, com direito a padrinho esperando na beira da escada, vestidos longos com luvas e muita valsa!

Eu confesso que há nove anos, quando eu estava fazendo meus 15 anos, eu fazia parte da turma rebelde da escola, pessoas que ouviam grunge, se vestiam de preto e achavam que festa de quinze anos era coisa de patricinha. Não me arrependo nem um pouco da forma como comemorei meu aniversário, troquei o dinheiro que seria gasto em uma festa para comprar o passaporte para os três dias de festival de música que ia ter na cidade, isso sim valia a pena para mim na época, e ainda hoje prefiro shows de música à festas chiques de aniversário.

A grande questão é que quando somos adolescentes, achamos que precisamos afirmar certas coisas só para nos sentirmos parte de um grupo, então eu fingia que não achava bonita essas festas cheias de garçons e fotógrafos, então acabei indo a poucas, talvez uma ou duas no máximo, e sempre bancando a durona que achava um saco estar ali, mesmo que quando eu me olhasse no espelho eu me achasse mais bonita toda arrumada do que com aquelas camisetas de bandas enormes, que cabiam umas duas de mim! Mas não posso reclamar, foi uma ótima fase da minha vida!

Agora, já com vinte e quatro anos, já não tenho que fingir não gostar de algo para fazer parte de um grupo, entendo que amigos são aqueles que vão estar com a gente independente dos nossos gostos, inclusive aqueles gostos bem estranhos. E então, graças a esse amadurecimento, pude curtir um baile de debutante com direito a me emocionar e tudo mais! E o mais legal disso tudo é que tive o gostinho de aprender com essa mocinha de apenas quinze anos que com certeza temos que ouvir e respeitar os mais velhos, mas não devemos nunca pensar que não aprendemos nada estando no meio de pessoas mais jovens que nós, pois as vezes só eles podem nos fazer viver momentos pelos quais nós não passamos quando eramos mais novos, seja lá por qual motivo.

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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

OS LIMITES DO ESTILO >> André Ferrer


No feriadão da República, revi um clássico dos anos de 1990, a Trilogia das Cores do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski: Bleu (no Brasil: A liberdade é azul, 1993), Blanc (A igualdade é branca, 1994) e Rouge (A fraternidade é vermelha, 1994).

Senti-me satisfeito por dois motivos quando a maratona de quase quatro horas chegou ao fim. Primeiro: a Trilogia das Cores não desbotou. Em plena crise que a União Europeia atravessa, os argumentos da série ganham a força analítica e a ironia que só a passagem dos anos pode dar ou tirar de uma obra de arte. Além disso, eu constatei como o meu olhar andava contaminado naquele tempo, vinte anos atrás. A mudança, no entanto, deixou-me feliz.

Em 1994, o que eu esperava de uma trilogia literária ou cinematográfica? Reiteração, continuidade e revelação. Eu simplesmente engrossava o rebanho de consumidores da indústria hollywoodiana. Qualquer expectativa em relação a um filme europeu era exatamente igual àquela que eu tivera diante de cada um dos inúmeros enlatados norte-americanos da minha infância e adolescência. Portanto, não foi à toa que os filmes de Kieślowski causaram-me desconforto.

A especialidade dele foram as trilogias. Na Polônia, antes de trabalhar na França, ele produziu trilogias para a televisão. Ou seja, até chegar à primazia de Bleu, Blanc e Rouge, Kieślowski aprimorou a sua arte que, a meu ver (felizmente, apesar dos anos que agora me separam dos 1990), explora os limites do estilo.

A Trilogia das Cores foi a última obra do cineasta, que faleceu em 1996. Nela, ocorre uma redução extrema dos pontos de contato entre um episódio e outro. Acontece uma espécie de negação da unidade ou luta desta para se manter ereta pelo menos na forma de sonho ou ideal. Uma vontade boa que, persistente, continua a coser as histórias da trilogia bem como as diferenças históricas dos povos europeus. Uma vontade, em síntese, historicamente frustrada.

O que se espera de uma trilogia literária ou cinematográfica normalmente pode ser resumido em três palavras: reiteração, continuidade e revelação. Poucos artistas, escritores ou cineastas, ousam construir uma série que subverta essa expectativa — a expectativa do receptor enraizado no senso comum. A não ser, é claro, que a série seja desmembrada ainda no roteiro (ou esboço) e cada parte produzida e lançada como obra completa e independente. Neste caso, qualquer entrelaçamento é analisado de maneira diferente daquela da trilogia. Pontos de contato, assim, são interpretados como traços de estilo.

No caso específico da Trilogia das Cores, há tenuidade extrema no entrelaçamento. O segundo filme, Blanc, dá um encontrão no primeiro, Bleu, logo no início (cena do tribunal). Rouge, o último, esbarra no primeiro e no segundo já bem no final (reportagem na televisão sobre o acidente de ferry no Canal da Mancha). E é só.

Temos, por assim dizer, filmes independentes e que carregam o estilo de Kieślowski. O esforço para enxergar a unidade poderia ser então adiado. A ideia de trilogia, provisoriamente suspensa. Desta forma, o expectador entenderia melhor como e o quanto a unidade e a negação da unidade atuam na construção do significado dessa grande obra cinematográfica.


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sábado, 24 de novembro de 2012

O QUE PERCEBEMOS [Heloisa Reis]

As imagens que captamos com nossos olhos vêm imediatamente associadas a significados dos quais muitas das vezes nem nos damos conta. Ao vermos um monte lixo jogado e amontoado pelo vento, depositado ao longo de uma calçada por onde passamos podemos sentir a dimensão da ameaça crescente de sermos soterrados por nosso próprio descarte. 

Imperceptível para a consciência, essa sensação se passa em nossa dimensão do sentir porque o valor daquilo que se observa vai muito além da percepção das formas vistas em primeiro plano.

 O fundo de uma imagem, a composição de seus elementos, a localização dos objetos circundantes na verdade dependem totalmente da nossa posição espacial e principalmente de nossa bagagem de hábitos e cultura.

Que significados apreendemos dessa mensagem dada pelo acúmulo de lixo numa calçada por onde passamos? A interpretação do que se apresenta em nosso campo visual é grandemente determinada por nosso estado de ânimo e nosso envolvimento com o momento presente. Mas, há uma dimensão afetiva não rigidamente determinada,  que faz parte de nossa natureza e é capaz de criar um campo estendido de nosso pensamento - pura energia.

Essa energia se propaga independentemente de transmissões convencionais de informação. É a tal ressonância mórfica que Sheldrake apresenta como “um processo básico difuso e não intencional que articula coletividades de qualquer tipo.” De acordo com sua observação, algumas moléculas criadas em laboratório por acaso ou por circunstâncias especiais seguem um padrão determinado de cristalização e criam uma ressonância mórfica, um novo campo que passa a existir no mesmo padrão em qualquer outro laboratório do mundo.

Seria o mesmo princípio da formação das egrégoras? Vinda da palavra grega egrêgorein que significa velar, vigiar, egrégora é essa entidade que se cria a partir de um coletivo, de um campo de energia em torno de um ideal comum através de seus padrões mentais e emocionais. Assim todos os agrupamentos - quer saibam ou não - possuem essa capacidade de realizar no mundo real as aspirações geradas pela coletividade apenas pela forma padrão em que se concentra a energia . Afinal, todo pensamento é energia e circula livremente pelo cosmo, como as ondas eletromagnéticas em rede.

Então... voltando ao lixo, e ao que este representa da ação do homem no mundo. Será que quanto mais lixo for jogado, mais ainda o será? E o mesmo acontecerá se passarmos a recolhê-lo? Segundo a visão antiga do mundo, ainda dominante, a resposta estaria restrita à ação física do ser que jogou o lixo e do vento que o espalhou como responsáveis por levá-lo ao canto da calçada. Mas na vibração em faixa de freqüência acima da física entramos em campo de energia mais sutil onde os pensamentos, idéias e ações podem gerar um padrão diferente, influenciando o inconsciente coletivo e ajudando talvez o mundo a ficar mais limpo.

Trabalhar para que esse campo sutil aumente é a nossa meta: armazenar nessa freqüência de energia que mal p e r c e b e m o s uma reprogramação que possibilite a recriação da vida e da realidade para que, a reação em cascata aumente, e se faça sensível também no campo da Física.

Trabalho do Eu-Superior que se convida à reflexão: há muitos mistérios dignos de mais Filosofia por menos vã e heterodoxa que seja, já que a realidade vem se revelando muito mais exuberante que a própria Natureza.

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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

NOITE DE 6ª-FEIRA ESCURA >> Zoraya Cesar

Saíram do curso tarde, ela e sua timidez, pois o resto do pessoal correu para aproveitar a noite de 6ª-feira, tão curta para alguns, tão longa para outros.

Era um tormento voltar para casa sozinha, com medo de assaltos, da viagem longa, da noite escura, do lugar ermo em que era obrigada a saltar. Entrou no ônibus, cumprimentou o motorista e o trocador – um nem lhe respondeu, o outro deu-lhe um bocejo. Nely sentou-se, discreta, num dos vários bancos vazios, mantendo distância do casal esquecido em si mesmo; do garoto com fones de ouvido perdido no batidão; e do homem gordo, forte, de rosto bexiguento e olhos de porco que sorriu-lhe, mostrando dentes amarelados e tortos, causando-lhe arrepios.

Casal, garoto, Nely, homem, todos saltaram no ponto final, numa rua de postes quebrados e lâmpadas baças. O grupo seguiu junto, uma pequena manada silenciosa, em direção ao cruzamento. Nely estava se sentindo uma boba, seus temores infundados, o tal homem nem chegara perto dela. Esperando o sinal, algo chamou sua atenção: no chão, iluminado pelos faróis dos carros, um lindo, lindo mesmo, cravo vermelho, repolhudo, luzidio, brilhava ao lado de uma garrafa, um copo e um maço de cigarros. Que perigo, ela pensou, alguém pode pisar nesse vidro e se machucar. Mas o arranjo estava tão bonito, que ela resolveu não mexer em nada, apenas apreciou um pouco mais, distraída. Ao levantar os olhos, percebeu, assustada, que o pequeno grupo se dissolvera e ela ficara sozinha. Atravessou correndo para o outro lado, um caminho escuro de casas apagadas cercadas por quintais mal cuidados, alguns terrenos baldios, muros quebrados, postes de luz mortiça, é uma desgraça ser pobre, choramingou Nely, ao machucar o pé num dos inúmeros desníveis da calçada desbeiçada.

Amedrontada, como sempre, pela penumbra desértica, ela tentou acelerar seu passo manquitolante, mas o pé começou a latejar como agulhas na alma. Parou ao lado de uma jurema preta enorme, e deu uma olhada para trás, para ver se estava tudo bem.

Não estava.

A alguns metros dela, sorria o gordo homem do ônibus, a luz sombria amarelando ainda mais seus dentes grandes, o suor de seu rosto cintilando de maneira sinistra.

Não adiantava gritar, ninguém ia ouvir. E sua garganta, tão fechada que a sufocava, não emitia nem um som de alerta, medo, nada. Não conseguia correr. Não havia como resistir, ele era muito forte. Talvez pudesse implorar por sua vida, já que sua integridade... Começou a chorar, alguém me ajude, pelo amor de Deus, tremendo tanto que mal se agüentava em pé.

O homem agora caminhava em sua direção, rindo, falando obscenidades, desafivelando o cinto. Nely sentiu o bafo de cigarro velho com cachaça e desesperou-se. Seu coração batia tão violentamente descompassado que ela não conseguia mais respirar ou enxergar direito, o sangue explodindo em suas têmporas fazendo-a ver tudo embaçado e turvo. Melhor morrer que sentir esse monstro sebento e imundo no meu corpo, quero morrer, quero morrer, quero morrer...

De repente, o sujeito parou, indeciso. No espaço entre sua presa e ele aparecera uma figura morena, magra, elegantemente trajada com um impecável terno branco, um chapéu panamá, desses que voltaram à moda, e uma vistosa gravata vermelha, quase indecente de tão brilhosa. Essa roupa é coisa de fresco, grunhiu o cérebro atrás dos olhos de porco, só dar uns gritos e sopapos que o coisinha sai correndo. Deu mais um passo, e parou, novamente indeciso. A esguia criatura nem se mexera, limitando-se a tragar suavemente o cigarro que trazia à boca; a cinza incandesceu, iluminando a cena. 

A mente entorpecida pelo terror, Nely nada entendia. Quem era ele? O que estava fazendo ali? Por que não fugia? Ia acabar morrendo também.

A estranha figura bamboleou, manemolente, e, com dois ou três movimentos de perna tão rápidos quanto as asas de um beija-flor, derrubou os olhos de porco no chão, desmaiado, o nariz quebrado, o maxilar fraturado. Inerte.

Voltou-se ele, então, para Nely, os dentes brancos luzindo nas sombras, a chama do cigarro rubra e alaranjada. Ajoelhou-se aos seus pés, deu mais uma tragada suave, e soprou uma fumaça dançante e cheirosa em cima do tornozelo machucado, que parou imediatamente de doer. Feito isso, levantou, afastou-se alguns passos para trás, curvou-se para ela numa mesura antiga, com o chapéu na mão, à altura do coração, e seguiu caminho.

Chocada, Nely percebeu que, à medida em que ele andava, gingando, os postes da rua – onde antes só havia penumbra e medo - iam-se acendendo.

Nely tentou segui-lo, para fugir dali e agradecer ao estranho que salvara sua vida. Ao primeiro passo, seu pé tropeçou em algo macio. Um enorme e lindo, luzidio, petaloso cravo vermelho.
 

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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

CADA ESQUINA, UMA HISTÓRIA >> Fernanda Pinho

Sempre que vamos ao supermercado passamos por uma rua chamada Armando Jaramillo. Eu já tinha observado o fato algumas vezes porque tenho particular apreço por ler nomes, embora não utilize essa informação para nada útil (se você me perguntar onde fica tal rua eu saberei que conheço esse nome mas dificilmente poderei localizá-la). Meu interesse é por nomes, não por endereços. Gosto de ler as plaquinhas dos logradouros e imaginar quem será que foi aquela pessoa digna de tamanha honraria.

Mas, pegando um retorno e voltando à rua Armando Jaramillo, aconteceu que um dia veio um amigo que eu não conhecia para o jantar. Seu nome? Armando Jaramillo. Fiquei empolgadíssima, seria ele o “dono da rua”? Não exatamente. Seu pai e seu avô também eram Armando Jaramillo e este último foi quem recebeu a homenagem de dar nome a uma charmosa rua de Santiago. Animado pelo meu interesse, o convidado – que, por sinal, vive na tal rua – tratou de me contar todos os feitos do seu avô na política chilena.

Foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de ouvir de uma fonte oficial a história de um desses homens e mulheres que dão nomes às ruas. Normalmente, fico só na curiosidade e imaginação. Pelo nome, gosto de imaginar quem teria sido aquela pessoa. Sua profissão, sua personalidade e seu feito para receber tal deferência (naturalmente não estou falando dos casos nos quais eu já sei de quem se trata as pessoas. Ruas Getúlio Vargas, Tom Jobim, Santos Dumont e outros ilustres não despertam meu interesse).

Minha antiga rua em Belo Horizonte chama-se Carmelita Índia do Brasil. Não tenho a menor ideia de quem tenha sido essa senhora, mas gosto de pensar em alguém com nome autoexplicativo. Uma freira, obviamente, pertencente à Congregação das Irmãs Carmelitas, que dedicou sua vida a cuidar do povo indígena em algum lugar do Brasil. Já velhinha, recolheu-se nesse bairro onde hoje tem sua rua e encerrou sua missão praticando obras sociais na comunidade. Não consigo visualizar como ela seria, mas suponho que tenha uma mão superbranquinha, como se lavasse com água sanitária todos os dias. Toda freira que conheci tem as mãos assim.

Hoje vivo na Ricardo Lyon. Um rei, é claro. Tudo bem, aqui no Chile não teve reis. Mas talvez isso tenha a ver com a estreita relação de amizade entre Chile e Inglaterra. Existe uma estreita relação de amizade entre Chile e Inglaterra? Não sei informar, mas eu gosto de pensar assim. “Ricardo” e “Lyon” não tiram a Inglaterra da minha cabeça. Alguns Ricardos foram reis na Inglaterra, Inglaterra de Shakespeare, Shakespeare de Hamlet, Hamlet que inspirou qual produção da Disney? O Rei Leão. The King Lion. E de Lion para Lyon, foi só um erro do escrivão. Ricardo Lyon foi rei e não se fala mais nisso.

Talvez ele tenha conhecido Isidora Goyenechea, que dá nome a outra rua do meu bairro. Nem o fato supracitado de que por aqui não teve império tira da minha cabeça que ela tenha sido uma imperatriz rechonchuda, de bochechas rosadas, que todos os dias desfilava uma peruca de cor diferente e enlouquecia seus servos para atendê-la em hábitos alimentares excêntricos. Ela tinha uma filha, com quem nunca dividiu nenhum tipo de afeto, apenas a alcunha: Isidorita, que dá nome a outra rua da região.

História, apenas histórias que tornam meus caminhos mais interessantes e, claro, me impedem de desenvolver um apurado senso de direção. Não registro nomes de ruas, registro personagens. Ainda que de histórias que só existem na minha cabeça. E se você sabe quem foi Carmelita Índia do Brasil, Ricardo Lyon ou Isidora Goyenechea, por favor, tenha a gentileza de não me contar.

viveremportunhol.blogspot.com

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

DE FOTONOVELA NA CABEÇA >> Carla Dias >>



De fato, é muito difícil manter a paciência em determinados dias. Sabe aqueles em que nos levantamos e só de colocarmos os pés no chão um desafio é gerado? Dias assim...

Ao mesmo tempo, são dias como esses que nos fazem repensar nosso papel como seres humanos e suas profissões, seus comprometimentos, suas escolhas, enfim, tudo o que trazemos como bagagem por sermos as pessoas que somos.

Em dias como esses, repensamos até onde iríamos por determinadas pessoas, se realmente é necessário sustentar certas opções ou se há, sem grandes melindres ou injustiças, uma maneira de mudarmos de opinião, porque errar faz parte do repertório da vida, e às vezes há sim como melhorarmos nossas escolhas.

Nesses dias, nós direcionamos nossa atenção aos assuntos menos debulhados, como o questionamento sobre os tão bem delineados planos para o futuro. Em fato, pensar que planejamos o que seja, enquanto o dia tende a lhe impor tantas provações, nos leva a percebemos a fragilidade do definido.

Tudo parece distante e indiferente ao nosso incômodo, entre um escorregão na rua, uma exigência surreal no trabalho, a dor de cabeça que não passa nem mesmo com analgésico, a voz irritante de alguém que não conhece vírgulas e adora monólogos. Quando o café fresco não provoca a sensação de conforto de sempre ou o telefone não para de berrar por atenção.

Em dias assim, aqueles cinco minutos trancados no banheiro, só para aproveitar um tantinho de silêncio, parecem uma oportunidade de ouro. E a gentileza que outra pessoa despende conosco é imensamente bem-vinda. E observamos a nós mesmos sem as urgências corriqueiras, sem as bobagens acumuladas durante a rotina. Abordamos nossos sentimentos sem as eiras e as beiras impostas pelo exagero que consumimos em dias menos exigentes.

Tendemos a ensimesmar delírios, porque nos pegamos libertos dos limites e entregues aos rompantes da imaginação. Há quem crie, em pensamento, um tipo de fotonovela, emendando as cenas como se fossem de filme. Intercalando diálogos como se fossem autores. Misturando humor e drama e sem condições de chegar a um desfecho. Tudo fica em suspenso, como que à espera do próximo exemplar da revista.

Há dias em que precisamos da paciência como companhia com um apego desvairado. Dias em que a nossa percepção observa a nossa existência sem o deboche dos rótulos, a severidade de certas escolhas, a intermitência dedicada ao recuperar o fôlego. E tudo se mistura, levando-nos a um lugar desconhecido dentro de nós mesmos.




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terça-feira, 20 de novembro de 2012

MALDITO HORÁRIO DE VERÃO >> Clara Braga

Outro dia eu li, não me lembro onde, mas foi em uma dessas revistas tipo Super Interessante, que uma das piores invenções do mundo foi o horário de verão. Confesso que não me lembro exatamente o porque dessa afirmação, parece que de fato o horário de verão não economiza tanta energia assim, mas garanto que muita gente concorda que esse maldito horário não foi uma das melhores ideias do mundo.

E a verdade é essa, economizando energia ou não, basta aquela voz super animada da globo anunciar que o horário de verão vai começar que as redes sociais bombam de reclamações, eu mesma faço parte da turma que não gosta muito! E com razão né, de fato é um saco acordar para ir estudar ou trabalhar e ainda estar escuro, parecendo madrugada! Fico lembrando da minha época de escola, às 7 horas da manhã já começava a aula, então eu tinha que acordar pelo menos às 6 horas para chegar na hora certa, o que significava que eu acordava na verdade às 5 horas da manhã! Isso não deve fazer bem a ninguém, não é possível!

Bom, mas o que ninguém repara, é que depois que se passam as primeiras semanas de horário de verão, ninguém reclama mais tanto assim! E sabem qual é a minha teoria a respeito disso? É que não só é bom chegar em casa e ver que o céu ainda está claro, ter a impressão de que o dia rendeu mais, mas também o horário de verão é puro costume, ele em si não é ruim, o ruim é ter que se adaptar a ele!

Fui parar para pensar no que me incomodava em relação ao horário de verão, e só conseguia pensar em uma coisa: ter que acordar cedo demais! Mas depois que meu corpo se acostuma, eu realmente gosto do horário de verão! E olha que admitir isso não foi fácil!

Então, a minha proposta é a seguinte, já que algumas pessoas dizem que o horário de verão economiza energia e tudo mais, porque não deixar logo esse horário como único e oficial e parar com toda essa coisa chata de ter que, de tempo em tempo, se acostumar com um horário diferente? O que acham?

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domingo, 18 de novembro de 2012

GENTILEZA GERA GENTILEZA. E UM POUCO DE CHOCOLATE.
>>Sílvia Tibo


"All you need is love. But a little chocolat now and then doesn't hurt." (Lucy Van Pelt)


Andei pensando sobre como são interessantes e úteis algumas das ferramentas existentes no mundo da informática. E imaginando também como as pessoas se viravam antes da existência delas.

Refiro-me àqueles atalhos do tipo “control+t”, “control+c” e “control+v”, que facilitam muito a vida da gente.

Vez por outra me pego conjecturando como seria o mundo se pudéssemos aplicar alguns desses comandos na vida real: em casa, no trabalho ou na fila do banco (para aqueles que, como eu, ainda vão ao banco).

Imagine, por exemplo, poder dar um “control+alt+del” naquele atendente de telemarketing que insiste em ligar oferecendo mais um cartão de crédito, além dos três que você já tem? Ou aplicar um “control+z” para desfazer aquela briga feia com o namorado? Ou, ainda, valer-se do “control+y” para refazer aquele jantar delicioso que acabou passando do ponto?

E que tal seria poder dar um “control+t” no Brad Pitt, seguido de um “control+c” e, ato contínuo, em casa, finalizar com um belo de um “control+v” no seu marido? Sem falar no alívio que seria aplicar essas mesmas três teclas, repetidas vezes, sobre o numerário existente em nossa conta bancária...

Certamente, esses atalhos resolveriam boa parte dos nossos problemas, em fração de segundos, poupando-nos do dissabor de ter que explicar para aquele atendente, pela milésima vez, nosso desinteresse pelo produto oferecido. Da vergonha de ter que admitir que o namorado estava certo e que tudo não passou de um piti. Do trabalho de preparar outro jantar, do desgaste de ter que insistir pra que o maridão se cuide um pouco mais e, claro, daquela luta pra fazer com que todas as contas caibam no salário ao final do mês.

Como leitor sagaz, você deve estar se perguntando qual a relevância de se escrever sobre um assunto desses. Afinal, todo mundo sabe que não dá pra sair por aí multiplicando dinheiro com um teclado de computador.

Sei bem disso, fique tranquilo. Ainda não enlouqueci (ao menos não completamente). E também não tenho a menor pretensão de ter um Brad Pitt em casa. Mas há certas atitudes que eu realmente gostaria de ver copiadas e coladas por aí. Como a do senhor-grisalho-de-bigode, com quem tive o prazer de me deparar recentemente.

Era segunda-feira, depois de um feriado prolongado. Desses que caem na quinta, mas acabam invadindo a sexta e só terminam mesmo no último segundo do domingo, para a tristeza geral. 

Após alguns dias de ócio, naquela segunda, foi um tanto custoso acordar cedo e retomar as atividades, sobretudo porque chovia muito e fazia um friozinho delicioso. O horário de verão havia acabado de começar, o que tornava ainda mais penoso o ato de sair da cama, mormente pra mim, que sou fã dela.

Depois de ouvir o toque do despertador pela quinta ou sexta vez, finalmente consegui vencer o sono. Ou, ao menos, a preguiça. O fato é que pulei da cama, me aprontei e, em vinte minutos, estava dentro do carro, pronta para enfrentar o dia. Meus planos para aquela manhã eram de ir ao dentista, previamente agendado, e em seguida retornar ao trabalho.

O trânsito estava caótico e, por isso, o trajeto geralmente feito em vinte minutos acabou sendo concluído em quase uma hora.

Ao adentrar o quarteirão onde ficava o consultório (a essa altura já bastante atrasada, mas ainda na esperança de que o dentista me atendesse), dei início à dolorosa busca por um espaço público em que eu pudesse estacionar o carro, já me dispondo a dar algumas dezenas de voltas pelas redondezas a fim de atingir esse objetivo, como de costume.

Para minha surpresa, nesse dia, as voltas foram desnecessárias e a busca pela vaga não foi nada desgastante. Assim que cheguei às proximidades do consultório, olhei à esquerda e vi alguém gesticulando e sorrindo, na porta de uma suntuosa loja de adornos para casa, em meio ao temporal que caía.

Grisalho, o homem devia ter lá seus cinquenta anos e trajava calça preta e camisa branca de mangas compridas. Usava óculos e portava um bigode longo e caprichosamente aparado. Parecia ser uma espécie de manobrista ou porteiro da loja, a quem cabia recepcionar os clientes que ali chegassem, encaminhando-os ao estacionamento e auxiliando-os com o que fosse necessário até a entrada do local.

Naquele momento, o que mais me chamava a atenção era o fato de que bem ali, ao lado do senhor-grisalho-de-bigode e pertinho do consultório, estava a bela e ampla vaga de estacionamento de que eu precisava, capaz de salvar o meu horário com o dentista e, de quebra, impedir que eu tomasse um banho de chuva.

Percebi que o homem olhava na minha direção enquanto apontava, insistentemente, para a tão desejada vaga. E sorria, com ar de quem estava esperando que eu me dirigisse a ela.

“Ih!!!”, pensei comigo mesma. “O moço deve estar achando que vou entrar na loja. Mal sabe ele que meu interesse aqui por essas bandas é outro.”

Sem entender o motivo pelo qual eu não colocava o danado do carro da bendita vaga, o homem veio até mim, no meio do temporal, e então, tratei de descer logo os vidros do carro e avisá-lo que eu não era cliente da loja. Como quem diz “não, eu não vou comprar nada e, portanto, evidentemente, não tenho direito de parar no seu estacionamento.”

- Tudo bem, sem problema! - Disse o senhor-grisalho-de-bigode.

- Pode estacionar à vontade! - Continuou ele. - Nesse horário, as vagas aqui na região são bem concorridas. Fica aqui mesmo porque a senhora não vai encontrar outro lugar onde parar. E depois, aposto que a senhora não vai demorar muito mesmo, não é?

Respondi que, de fato, minha permanência ali seria curta. Era só o tempo de apertar os ferrinhos que eu carregava na boca, o que aconteceria em pouco mais de meia hora.

Saí, então, alegre e saltitante (como quem havia acabado de garantir um lugar no Paraíso), mas também (e sobretudo) espantada com a atitude daquele senhor de meia idade.

Confesso que, a princípio, me senti mal por ter duvidado da boa vontade dele. Por ter vinculado a sua gentileza à minha potencial condição de cliente.

Mas também devo dizer que me perdoei rapidamente por aquele lapso. Afinal, em doze anos de vida na cidade grande, não recordava, naquele momento, a última ocasião em que havia presenciado um ato de cortesia gratuita como o que acabara de ver.

Ao retornar do dentista, resolvi que presentearia aquele senhor com uma barra de chocolate. Não propriamente para retribuir a delicadeza que me foi dispensada, pois me convenci plenamente de que ela foi praticada de forma gratuita, sem o desejo de receber nada em troca. O chocolate foi apenas a forma que encontrei de incentivar meu novo amigo a continuar copiando e colando gentilezas por aí.

Afinal, nas palavras do Profeta, “gentileza gera gentileza”. E gera sorrisos. E gera afeto. E gera apertos de mãos. E gera qualidade de vida. E gera um mundo melhor. E também um pouco de chocolate. Por que não?

A propósito, parafraseando Lucy Van Pelt, tudo o que precisamos nessa vida é de amor, uma dose de gentileza e um pouco de chocolate.

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sábado, 17 de novembro de 2012

CARTA À AMIGA [Ana González]


Saí do cinema após ter assistido Tropicália com uma forte sensação, as mãos tremendo, as faces queimando. Um documentário bem feito com informações tanto culturais como do contexto político do final dos anos sessenta.

Mas, havia muito mais no assunto tratado. Havia parte de mim. E eu fiquei desperta com uma necessidade imensa de falar sobre o que eu tinha assistido. Era a história de um momento de nosso país que se fazia na tela, mas era também parte de minha vida e da vida da amiga que me acompanhava.

A primeira das sensações foi de alegria perturbadora, que me puxava um sorriso nos lábios e um encantamento nos olhos. Tinha sido tudo verdade: tudo o que havíamos vivido. Você sabe, amiga, foi incrível e estava tudo lá, com riqueza de detalhes, que a memória já não guarda e vão esmaecendo no tempo.   

Foi bom rever as pessoas que apareciam nos festivais da Record, as músicas que eram aprendidas da noite para o dia, o que ocupava a nossa mente e ainda não sabíamos se ia permanecer. Não foi moda passageira. Ficou para a história coletiva.

Era também o tempo da ditadura. E nos cantos e banheiros da faculdade, havia notícias das bombas nas ruas. Havia a movimentação dos estudantes pelas vagas nas faculdades e as palavras de ordem na luta pela modificação do mundo. Sim, mudar o mundo. Lembra-se?

Durante o documentário me espalhei em meio aos cachos da cabeleira do Caetano e sua magreza. Ele mudou muito, menos sua baianice pachorrenta. Também nós mudamos. E como nós éramos, amiga? Éramos jovens de uma boniteza como só a natureza pode fazer.

Outras sensações me vieram á lembrança. Tínhamos ideais e esperança, acreditávamos. E também tínhamos angústias, dúvidas. Vivíamos em paradoxos e em crises. Era a fase da ingenuidade e a bondade estava mais próxima de nós. Íamos por onde nos levavam nossos sonhos que desenhavam um cenário sem limites.

À boca pequena nos corredores e nas assembleias, no inflamado da hora falava-se em luta armada. Era um discurso que me amedrontava. Você participava de tudo com mais entrosamento na política. Eu me sentia boba e deslocada. Tudo deveria ser por outros caminhos. Mas quais? Minha perplexidade era tamanha que me paralisava. Talvez hoje eu continue estranha, tão estranha como eu me sentia naquela época, quando um grito surdo ecoava dentro de mim num labirinto de muitos desesperos. Não, não por aí! Mas por onde então?  Hoje as respostas estão mais próximas de mim. O repertório de vida ampliado me oferece argumentos. Certo tipo de organização apazigua meus pensamentos, mesmo que o mundo externo ainda esteja em contínuas guerras, lutas e desejos, tudo em movimento. 

Hoje, amiga, continuamos em posições diferentes diante da política. E guardamos ainda com prudência nossa distância ideológica, essa que afasta as pessoas, que cria vales profundos de discordância, de críticas e julgamentos inócuos. Isso não nos separou.

Ao contrário, nossos diálogos se enchem de família que cresce nos filhos e netos e se enchem ainda em afinidades na busca infinda pelo conhecimento, nos ideais de educação, nos valores que poderiam construir aquele mundo que um dia sonhamos e ainda guardamos (guardamos?) escondido (protegido?) do burburinho à nossa volta.

Uma frase por aí diz que os amigos detêm a nossa história. É verdade. Você, amiga, seria a única pessoa com quem eu teria que estar naquele momento. No cinema revivi tudo com lentes hiperbólicas. E confirmei minha amizade por você em falas de afeto e de coração, de respeito. Sensação boa de reconhecimento e de intimidade. Por essa incrível parceria que se faz longa, agradeço. Você detém parte importante da história de minha vida.

www.agonzalez.com.br             

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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

ACIDENTES >> Kika Coutinho

Acidentes acontecem. Na marginal Pinheiros, então, todos os dias, muitos. Alguns com vítimas, outros saem ilesos.

Acidentes também acontecem no banho, no piso molhado, um escorregão ali e pronto, está caracterizado o acidente.

Porém, se tirarmos esses típicos, as motos e os retrovisores estilhaçados, há acidentes positivos, cujas marcas não são arranhões ou capôs amassados. Aconteceu comigo.

Estávamos perto do nossa aniversário de casamento e, numa noite qualquer, naquele silêncio escuro e calmo que só os velhos casais compactuam, ele me perguntou: “O que você vai querer de presente?”. Eu não tive dúvida. Sabia a única coisa que me faltava nessa vida. Para além das calças jeans, dos sapatos de salto e dos relógios, ainda depois das duas filhas, das flores e dos brigadeiros, apenas uma coisa me faltava nessa vida e eu anunciei, num sussurro: “Quero outro filho.” Ele, meu doce marido, ali tornou-se amargo: “Você está louca? A gente não dorme, não vive, não para um minuto com essas duas crianças! Fora os gastos, a escola, a babá, as gripes, os médicos. Você está louca,” ele concluiu, dando espaço ao novo silêncio de uma noite fria. Eu não respondi. Aninhei-me nele e, muito cansada de toda a verdade que ele dissera, dormi.

Passaram-se meses, e ele permanecia irredutível. Eu não tocava tanto no assunto porque o tema não era urgente. Quando falava, dizia do futuro, daqui a dois, quem sabe três anos. Eu queria um temporão. Ele desconversava, pedia para passar o sal e comentava da chuva que ia chegar. Assim se seguiram os dias no verdadeiro caos de uma casa com duas crianças. Vez ou outra – apenas quando tudo estava bem –  um soltava alguma coisa, como que sonhando alto, dava algumas borrifadas nos quadros que eu pintara na minha cabeça, desde muito jovem: “Pense nos natais, com a casa com muitas crianças.” Ele se mantinha impassível: “Natal é uma vez por ano.” Eu aquietava. Passavam-se alguns dias e, como um velho borrifador incontrolável, eu voltava: “Pense nos jantares, a mesa sempre cheia”. Ele já não me respondia tanto, parece que desistira de enfrentar meu borrifador de sonhos e ficava calado, mas eu sabia que aquilo era só uma forma de encerrar o assunto. Estranhamente, eu não me importava. Guardava calada, dentro de mim, a sensação forte, firme e latente de que a minha família, essa que eu construía com ele todos os dias, minuto a minuto, a cada noite em claro, a cada beijinho no machucado, a cada maria-chiquinha feita, a cada colherada de feijão, a cada livrinho lido, a cada banho dado, essa família que eu tanto amava, ainda não estava completa, e eu sabia disso, como só mesmo as mães podem saber.

Eis então que, como uma moto que passa no corredor de carros com a certeza de que vai sair ilesa, resolvemos tirar uma fina daquele retrovisor. Foi um erro de dias, um cálculo meio atrapalhado, "Acho que não tem perigo", "Certeza?", "Não, certeza não, mas não sei, deixa pra lá então", ou, "Acho que passa, dá seta aí, vamos?" E os carros afunilando a via de passagem...

A vida é mesmo uma ventania, não é? A gente pensa que controla tudo, os livros na estante divididos por cores, a família toda vacinada contra a gripe, o guarda-chuva sempre a postos, carnes no congelador e pizzinhas para uma emergência, Novalgina e Tylenol sempre disponíveis e eis que uma ventania muda tudo de lugar. Tira a ordem, o prumo, tira a chatice também e nos mostra que a brisa pode ser bem agradável.

Foi numa manhã de calor que eu vi o meu terceiro teste de farmácia dar positivo.

Entre lágrimas e sorrisos, eu tentava segurar firme a minha mão que tremia, para ter certeza de que aquilo era um sinal de mais. E era.

Foi com susto, com pavor e amor que ele recebeu a notícia. Mas ver a barriga crescer, assistir o milagre que se forma dentro de mim vai dissolvendo o medo, e dando lugar para a alegria.

Comemoremos, gritemos, cantemos incessantemente. Vamos ter outro bebê. E nunca fomos tão felizes.


OBS. Agradecimento especial ao Eduardo que, gentilmente, me cedeu espaço para que eu fosse justa com o terceiro filho, já que as outras duas tiveram texto de anúncio da chegada aqui. A preocupação em não fazer diferença com o caçula, aliada ao meu TOC, fizeram com que eu pedisse ao Eduardo uma participação isolada no Crônica do Dia, para esse importante anúncio.

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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SEMPRE EM CRISE (DE RISO) >> Mariana Scherma

Eu estava de bobeira num desses domingos preguiçosos quando meu celular tocou. Era uma amiga muito querida, daquelas que fazem você perceber que a distância não significa grande coisa, do tipo que você elege como sua irmã e tem certeza de que vai levá-la no coração num pra sempre que não acaba, não. Toda vez que ela me liga ela já vai pedindo desculpas por me atrapalhar, mas “é que eu preciso desabafar e sei que você entende”. Eu já cansei de dizer que ela nunca atrapalha e nossas conversas são sempre divertidas, com uma pitada de melancolia, outras vezes de esperança, com comentários ácidos... Na verdade, acho nossas conversas inspiradoras.

Mas nesse domingo ela estava indignada com a nossa falta de sorte... para o amor. “Por que onde já se viu aquele fulano se dar tão bem, Mari? Ele escreve derrepente! Ele se descreve como um cara auto-astral!”. Não, nós duas não temos nada contra aqueles que escrevem errado por falta de oportunidade de estudar. A gente só fica indignada mesmo com aqueles que gastam parte da fortuna dos pais em ótimos colégios, mas parecem não querer (precisar?) absorver nenhuma lição dos professores porque a autoestima deles os fazem crer que eles não têm mais nada a aprender. E também acham que o dinheiro dos pais vai durar eternamente. Vai nessa, meu amigo.

O bate-papo entre minha amiga e eu, pra uma pessoa de fora, vai soar como uma alegria louca, porque nossa indignação anda de mãos dadas com a crise de riso. A risada da ironia do mundo, a risada de nós mesmas quase sempre, a risada de quem sabe que a coisa não tá boa, mas há de melhorar. Afinal, como nos faz acreditar São Murphy, sempre pode ser pior: nós poderíamos ser da espécie que escreve agente em vez de a gente, ué. Ou do tipo que gasta rios na balada só pra se mostrar cool.

Uma de nossas conclusões mais certeiras em todo fim de conversa telefônica é como uma pessoa pode ser tão cheia de autoestima e, ao mesmo tempo, tão insuportável de conversar. “Sabe, Mari, ele é capaz de conversar mais de três horas só falando da própria vida!”, diz minha amiga. E aí eu fico assustada, porque sou capaz de resumir minha vida em um parágrafo curtinho, assim como essa minha amiga. Nós duas contamos A Incrível E Mágica História De Nossas Vidas antes de o primeiro chopp acabar. Assim, foi inevitável que nós duas chegássemos à conclusão de que talvez autoestima seja inversamente proporcional ao poder de síntese de cada um. E rimos muito dessa conclusão. E só pra deixar claro: não acho terrível ter boa autoestima. Eu queria ter mais. Minha amiga, idem. O que é o fim é o fulano (ou a fulana) não achar que precisa melhorar só porque ele(a) se garante e acha que sabe uma coisa ou outra. Todos nós precisamos evoluir. Todo dia.

No fundo, no fundo, talvez seja bom nossa autoestima não transbordar do copo. E essa é outra conclusão à qual minha amiga e eu sempre chegamos: gente 100% segura não sabe rir de si mesma. E qual é a graça da vida se você só ri do tropeção alheio? Faz teeempo, Ben Stiller disse em uma entrevista que um comediante nunca pode ser excessivamente seguro de si, que isso o impossibilita de fazer piada sobre ele próprio. Concordo demais. Não me acho uma comediante, a vida é que faz piada, a gente só aprendeu a se divertir com nós mesmas.

E pra essa minha amiga querida, eu tenho algumas coisas a dizer, nada que seja muito novidade pra ela. 1. Deixa esse seu amigo bombado na autoestima pra lá, pelo menos ele namora, o que resulta em uma solteira a menos no mercado e um cara chato a menos pra nos xavecar. 2. Pode me ligar sempre que precisar porque eu também vou ligar pra você, sempre. Telefone é nosso jeito de tentar ignorar os quilômetros que nos separam (e eu sou a maior fã das nossas risadas indignadas). 3. Vamos nos lembrar de que temos nossos motivos pra ter autoestima, mas vamos nos lembrar mais ainda que não podemos perder o dom de rir de nós mesmas – e isso, minha amiga, é um baita dom. Por último, não esqueça que você me deve uma visita!


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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

JARDIM E IMPROVISO >> Carla Dias >>



Ele que não sabe da missa a metade, do verso o avesso, do destrambelho a consequência. Está fadado ao desnudar impropérios, ao desvendar ilusões sem a menor intenção de fazê-lo. Mas é assim que as coisas funcionam.  A catarse vem sem que estejamos esperando por ela, por isso chega carregada de importância.

Rabisque aí: “caminha por um jardim desconhecido, passos lentos, cadenciados”, e depois de apontado o cenário, digno de um livro de banca de jornal criado para liberar suspiros de mulheres que engolem suspiros em público, complemente: “pisando em flores, sem perceber a beleza delas.”

Mas não pensem que ele pisa em flores por mero desinteresse por elas ou por pura indiferença. Ele simplesmente não as enxerga, porque seu olhar se agarra ao adiante, ao que lhe desperta uma agonia incessante. Aponte aí: “suspira fundo, suspiro de homem que nunca suspira em público, suas sobrancelhas arqueiam em sinal de preocupação.”

Ontem à noite ele se preocupava com não chegar atrasado à reunião importante, com a necessidade de consertar a porta da garagem e comprar o presente de aniversário da irmã. Inquietava-lhe o programa da tevê, o personagem do livro, o vizinho que costuma chorar alto, de madrugada. Sabe que ele perdeu a esposa há pouco tempo e que não consegue se acostumar à solidão a essa altura da vida. Lamenta por ele, enquanto tenta dormir.

Inclua aí: “para, de repente, começa a gritar desesperadamente, caindo de joelhos, baixando a cabeça, depois levantando, olhos grudados no céu, como se fizesse uma prece. É para ser um momento clichê capaz de emocionar, então, ele chora.”

“Homem não chora e nem dá o braço a torcer”, foi o que lhe ensinou o pai distante, que não perdia a oportunidade de catequizá-lo sobre como devia se comportar um homem. Seguisse os conselhos do pai, certamente teria uma vida bem diferente da que leva. Seria um homem casado, com mulher para judiar e filhos para ignorar, e uma coleção impecável de vinhos para matar de inveja os amigos por conveniência. Pode não ser o que seu pai sonhou para ele, mas certamente é quem lhe cabe ser, com todas as imperfeições e qualidades.

Coloca aí: “agarra as flores e as amassa com as mãos, misturando seus gêneros e cores, caprichar na intensidade, no tom desesperador.” Seu dentro abriga tempestades. Desde uns dias, ele vem remoendo o desejo pungente de abandonar sua história. Não apenas de desatar o nó da gravata, jogar tudo ao alto, mudar de planeta. Ele quer começar do início possível, do rascunho de si, da cultivação de novos rumos, da autopermissão para sentir-se feliz.

Acrescente aí: “levanta-se e sai correndo, desatando o nó da gravada e lançando-a ao longe, tirando a camisa e soltando-a ao vento, a ideia é de ele estar se despindo de si mesmo, enquanto pisa nas flores.”.

Havia um belo jardim em sua casa, quando era menino. Sua mãe, uma mulher com o olhar mais triste que ele já conheceu, cuidava dele sozinha. Não queria que ninguém tocasse nas flores que cultivava ali. Ele estava sempre por perto, sentado, fazendo a lição da escola ou brincando com seus carrinhos. Lembra-se da figura da mãe, magérrima, curvada sobre as flores, cuidando-as com um carinho imenso. Era somente ali que ele percebia nela um naco de alegria.

Escreve aí: “para de repente e fica imóvel. Bate um vento forte e faz com que as pétalas das flores esvoacem e o cerquem. Ele se deslumbra com as flores, ele enxerga o jardim.” Em um dia de lição de pai empenhado em construir filho a sua imagem e semelhança, ele foi colocado no meio das flores do jardim da casa. A ordem era para que ele não saísse de lá até que o pai permitisse. Ele não podia se sentar ou se alimentar, nem beber água.

Em determinado momento, já sem forças para tentar agradar ao pai, que se esbaldava em seus vinhos na biblioteca da casa, o menino começou a chorar. A mãe, que não tirou o olhar triste do menino nem por um momento, choramingava, enquanto era confortada pelo abraço da empregada. Depois de horas, a fome e a sede lhe cutucando, o menino fez aquilo que qualquer criança faria em tal posição, gritou pela mãe, um grito miúdo, de tão fraco que ele estava. A mãe, ao dar o primeiro em direção ao filho, é impedida pelo pai, que desfere a ela e ao filho, aos berros, as piores ofensas.

Anote aí: “ergue os braços, como se fosse colher as flores do ar, sorri, lágrimas ainda escorrendo pelas faces. Passar a sensação de que finalmente se libertou de seus fantasmas.” Ao escutar as ofensas, de ver o pai, mais uma vez, agredir sua mãe, o menino grita com mais força e começa a destruir o jardim, olhos fechados, mãos agarrando o que desse, chutando o que fosse. A raiva do menino é tão intensa que até mesmo seu pai para observá-lo, estarrecido com a rapidez com que ele destrói o jardim.

Daquele dia em diante, o menino não mais se submeteu aos desmandos do pai, passou a não desejar o afeto que fosse vindo dele. Aprendeu a ignorar a existência de um ser humano e conviver com a ausência de outro, porque sua mãe simplesmente sucumbiu, passou meses de cama, até partir de vez, o jardim em ruínas.

Não é apenas a hora marcada, o calendário vigente, a correria de empresário que o incomodam. Lembra-se, desde sempre, que seu desejo era o de existir com a leveza que lhe foi negada na infância. É fato que não quis um tostão da herança do pai, deixando sua parte para as irmãs da nova família dele. Não quer ser regido por nada do que aquele homem lhe ofereceu. Por isso é preciso ser honesto consigo mesmo, a ponto de encarar as mudanças necessárias para alcançar a si.

Despede-se desse momento mudando o rumo, o roteiro da sua vida. Porque ele pode saber muito pouco sobre quase nada, mas é claro que ainda há o que ser feito, antes de se permitir a liberdade de ser. Antes de se permitir sair daquele jardim onde foi cravada a sua infância.

Conclua aí: “sorri o sorriso de moço que nunca soube sorrir levezas. É perceptível que ele acaba de compreender que nada é mais importante do que a possibilidade de improvisar com a vida. Olha para o chão, os pés cobertos por flores. Quando olhar para o horizonte, é o menino, não o homem, que o contempla.”

Imagem: sxc.hu

carladias.com

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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

ISADORA FABER CONTRA A POLITIZAÇÃO EDULCORADA >> André Ferrer

Assusta-me saber que uma estudante de 13 anos teve, há poucos dias, a casa apedrejada porque opinou - e reivindicou melhorias - a respeito das condições estruturais do seu segundo lar: a escola.

Horroriza-me o viés que o Fantástico adotou na matéria exibida ontem, dia 11, quando mostrou professores e gestores da tal escola reunidos ao redor de uma mesa, como se a “ameaça” não fosse Isadora Faber e a sua página no Facebook, mas um serial killer. Uma professora ouvida na matéria beirava a histeria. O telespectador que ligasse o televisor naquele instante pensaria logo em ameaça de morte por bandido ou traficante.

A minha geração – que, pela aparência na tela do televisor, é a geração da tal professora – cresceu ouvindo que era alienada e, de certa forma, desenvolveu mecanismos compensatórios, ou melhor, uma carapaça frágil e superficial. Na verdade – vamos lá -, um engajamento hipócrita.

Eu procurei acompanhar Isadora Faber durante dois meses. Ela faz a política que qualquer cidadão deveria fazer. A política saudável que se opõe à política partidária: essa grande oportunidade de mudar de vida apresentada aos alpinistas, pretensamente “engajados”, a cada quatro anos.

Apregoam-se os direitos da criança e do adolescente sobre os palanques e, como acontece sempre na política, o ângulo é o mais venal possível: saúde, educação, integridade física. Nunca se abordam temas do “Estatuto” que não estejam no centro das manchetes policiais, isto é, nunca se fala daquilo que não cause comoção em atrações como o Fantástico, o Programa do Ratinho ou o jornal do Datena. É o caso da integridade psicológica – que envolve agressões quase sempre mascaradas no âmbito social – e que apenas é abordada quando está vinculada a uma expressão da moda como “bulliyng”.

A violência sofrida por Isadora é contra o direito de expressão. Ela estaria no centro daquela roda de professores e teria todo o apoio dos gestores caso morasse em outro país. Estaria, sim, se a geração pós-abertura tivesse, de fato, desenvolvido a capacidade de viver na democracia.

“Antigamente, a escola formava cidadãos. Quem era jovem em 1968 integrou a última geração politizada no Brasil. Na minha época, os estudantes eram mais cultos e responsáveis.”

As afirmações acima, na boca de pais e professores, edulcoraram o processo de educação depois da abertura política. O tom era marxista, mas lá no fundo identificava-se a banda militar, a marcha cadenciada da “Família com Deus pela Liberdade” e o jingle do Milagre Econômico “Este é um paísque vai pra frente, oh, oh, oh, oh, oh”!


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domingo, 11 de novembro de 2012

VIAGENS MUSICAIS >> Whisner Fraga

A caminhonete F-1000 era para isso mesmo e, em dois anos, já havia rodado cem mil quilômetros. Eu costumava ir com meu pai para as fazendas de Mato Grosso e, principalmente, Goiás, que ele gerenciava havia meia década. Íamos em três, se contarmos o patrão. Eram viagens longas, de seis horas, para Goiatuba e de dezessete ou mais para Barra do Garças. Eu não me importava, pois nada era mais empolgante do que a companhia dos velhos.

É claro que não me lembro do que falavam durante o trajeto, mas sei que não contavam com  assunto para tanto minuto, de maneira que tinham de dar um jeito de espantar o sono. Nada mais hipnotizante do que o ruído de um motor diesel ao longo daqueles quilômetros. Assim, eles escolhiam suas fitas cassetes e seguiam cantarolando asfalto afora. Se eu afirmar que me recordo das músicas que tocavam, estarei sendo leviano, mas, no caso de meu pai, penso que poderia ser muito bem um Nat King Cole ou alguma banda cubana. Havia também a música sertaneja, evidentemente.

A conversa girava ao redor de trabalho, piadas e amenidades. Nunca me esqueci do patrão justificando os nomes das cidades: Capinópolis, a cidade do capim, Jardinópolis, a cidade dos jardins, Rondonópolis, a cidade dos Rondons e assim por diante. Eu ria, mas o pensamento continuava no córrego e na vara de pescar, com a qual eu tentaria obstinadamente fisgar algum lambari. No meio do caminho, parávamos em algum posto, bebíamos uma coca-cola, tirávamos a água do joelho, esticávamos as pernas e assim seguíamos. A última parada era na venda de uma vila a cinquenta quilômetros da fazenda: o patrão queria comprar balas para os filhos dos caseiros.

Aprendi a gostar de dirigir, sobretudo em rodovias. Há um ritual que precede a viagem: a escolha das canções que me acompanharão. Quando o trajeto é longo, começo sempre com MPB: Francis Hime, Adriana Calcanhoto, Chico Buarque, Marisa Monte, Gilberto Gil e por aí vamos. Já perto do destino, para espantar o sono, para enganar o desgaste do corpo, prefiro algo mais pesado, um rock clássico: Led Zeppelin, Black Sabbath, AC/DC, Scorpions e bandas do gênero. Hoje é praticamente este o momento que dedico à música.

Em casa, eu tinha o hábito de colocar algo mais erudito: árias, sinfonias, óperas, mas ultimamente venho evitando Acho que tenho trabalhado demais e a música atrapalha. Um Beethoven é tão imponente que eu não consigo fazer nada quando começo a escutá-lo. O mesmo ocorre com Mozart e outros compositores do mesmo calibre. A cabine de um veículo passou a ser o meu refúgio, é ali que eu insiro um pen drive no cd player e navego no tempo, volto a Minas Gerais, onde uma criança se deliciava com as aventuras na estrada, ansiando pelo seu momento de motorista.

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sábado, 10 de novembro de 2012

“ALÉM DO HORIZONTE... [Maria Rita Lemos]

,,, deve ter um lugar bonito pra viver em paz” - diz a canção do Roberto Carlos, tão bela quanto antiga. Não só gosto muito da música, como concordo inteiramente com o autor. A vida moderna, agitada e tensa, faz com que sejamos diariamente bombardeados, além de nossos próprios conflitos inevitáveis, com notícias de crimes e violências que nos levam ao temor e à ansiedade pelo futuro.

Os consultórios médicos estão lotados de gente que gasta fortunas com calmantes, antidepressivos, analgésicos e outros fármacos. A maioria das pessoas, no mundo atual, vive estressada, sem notar que, bem pertinho delas, há certamente um lugar de paz e tranqüilidade.

Algumas vezes, experimentamos esse gosto maravilhoso de Paz quando paramos por alguns instantes, na correria diária, para integrar-nos à natureza. Isso pode acontecer no contato com o verde de um bosque, numa estrada florida, numa caminhada à beira mar, ou mesmo em nosso trajeto habitual para o trabalho. Basta apenas que estejamos atentos e prontos para parar um pouquinho com o zumbido de atividades a serem feitas e prestarmos atenção ao céu, às flores, aos animais e pássaros que cruzam nosso caminho todos os dias, mas que não vemos nem ouvimos. São momentos em que simplesmente desfrutamos a vida, como quem vagarosamente saboreia uma laranja, sem tentar analisá-la ou explicar o prazer que ela causa.

Esse mergulho para dentro de nós mesmos, no contato com a Mãe Natureza, no silêncio interior, talvez valha mais que os programas que nos são diariamente oferecidos pela mídia, como forma de redução do estresse. Um único pensamento negativo é suficiente para nos tirar a tranqüilidade mental. Assim, mesmo que estejamos num paraíso ecológico, se não estivermos perfeitamente integrados e relaxados, continuaremos preocupados e tensos. Da mesma forma, com algum treino, é possível levar a imaginação até a paz de uma praia deserta, mesmo no meio da correria e agitação.

Felizmente, um número cada vez maior de pessoas, atualmente, está acordando para essa realidade e voltando-se para um estilo de vida mais saudável, onde não há tanto espaço para o consumo desenfreado nem para a devastação dos recursos naturais. Gente que faz exercícios físicos sem ansiedade nem esforço, sem “ter que ficar malhado”, obedecendo apenas ao próprio ritmo; pessoas que brincam na água e secam o corpo ao sol... gente que caminha por prazer e com prazer, sem controlar tempo, distância, ou número de passos, competindo consigo mesmo, além de toda a competição que a vida diária nos obriga a ter.

Há pessoas aprendendo a aquietar suas mentes, mergulhando naquele cantinho que todos temos, dentro de nós - basta procurar. Quando for impossível estar numa praia ou num bosque, e a pressa e agitação estiverem insuportáveis, transporte-se mentalmente para o seu local de refúgio. Pode ser simplesmente uma rede na varanda, na casa que você morou quando criança; pode ser a sombra de uma mangueira, no sítio da vovó... enfim, você é quem vai escolher o seu lugar de repouso. Ele está esperando por você, em sua imaginação, sempre que a pressão do dia a dia estiver insuportável. Nesses momentos de transporte para “nosso lugar de paz”, há que lembrar que a vida é um dom, um presente, um doce a ser saboreado prazerosamente. Ou um fel amargo, insípido e inodoro, que nos compete mascar até o fim, sem prazer algum, a escolha é nossa.

 De minha parte, meu lugar de paz talvez nem exista mais, desde que a Fazenda foi arrendada a uma empresa de citricultura, há muitos anos. No entanto, continua sendo o refúgio para onde vou quando minha vida se mostra dura e amarga: é lá, na represa da Fazenda Água Bonita, e no caminho de terra que a ligava à casa sede, onde minhas filhas, meu filho e eu adorávamos estar aos finais de semana, e onde minha irmã estava sempre à nossa espera, com uma refeição gostosa, muitos risos e palavras de carinho.

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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

PLANOS MACABROS >> Zoraya Cesar

Quando o novo vizinho chegou, todos ficaram curiosíssimos com a novidade. Há muitos anos não acontecia nada de relevante, a não ser a doença de D. Adalgisa, que piorava a olhos vistos, mas que não morria nunca.

O vizinho, um cinquentão bem apessoado, no entanto, era avesso a intimidades. Sem ter como saber quem ele era ou o que fazia, os moradores perderam o interesse, decepcionados. No entanto, sendo a opinião pública mais móbile que piuma al vento, muta d’accento e di pensiero, do desapontamento surgiu uma espécie de temor respeitoso por sua seriedade, seu hábito de falar baixo, olhando nos olhos do interlocutor. Nas reuniões de condomínio, sua palavra era sempre acatada, encerrando qualquer discussão.

A vida seguiu, ele foi absorvido pelo cotidiano do prédio e ninguém mais pensava nele em especial.

Ninguém, eu disse? Não exatamente. Havia alguém que pensava incessantemente nele. Alguém tão despercebido, que se fosse invisível talvez chamasse maior atenção. Quase, mesmo, uma ninguém, conforme sua mãe, a intratável, intragável, insuportável D. Adalgisa. A velha viúva nunca poupou esforços para amassar a filha sob sua personalidade forte e mesquinha. Jocélia era seu nome, e passara a vida ouvindo que não prestava para nada e outras assertivas igualmente construtivas. Nunca teve namorado ou amigas e trabalhava como contadora numa loja de roupas. A doença da mãe consumia praticamente todo o dinheiro e Jocélia não tinha para onde ir, nem forças para ir a algum lugar.

Ela estava desesperada para mudar de vida e só via uma saída. Mas D. Adalgisa nunca morria, por mais que os médicos afirmassem categoricamente que ela ainda respirar era um milagre. Jocélia não entendia, a velha podia estar morrendo, mas tinha ânimo suficiente para infernizá-la, com aquela voz aguda e gasguita, reclamando da comida, do emprego medíocre da filha, de tudo, de qualquer coisa, dia e noite, dia e noite, noite e dia, sem parar, sem parar, sem parar.

Uma noite, ao ouvir o vizinho abrindo a porta – moravam lado a lado -, Jocélia tomou coragem e foi até ele, implorando-lhe que a acompanhasse, pois sua mãe estava agindo estranhamente, causando-lhe medo. Ele, prestativo, foi. E, realmente, D. Adalgisa zanzava pela casa, batendo nas paredes, mastigando a dentadura, balbuciando coisas incompreensíveis. Tentou jogar um copo neles, mas, de repente, acalmou-se, deitou no sofá e dormiu.

Jocélia agradeceu, e aproveitando o raro contato humano, desabafou todo seu drama, e o temor de que D.Adalgisa se descontrolasse, machucando-a seriamente, ou a si mesma, pois não tinha dinheiro para contratar uma enfermeira ou interná-la Sem condições de comprar um ar refrigerado, elas tinham de dormir com as janelas abertas, por isso Jocélia acordava diversas vezes durante a noite, para ver se a mãe dormia. O homem tudo escutou, compadecido, comentando que, realmente, as olheiras de Jocélia estavam bem pronunciadas. E, pondo-se à disposição para qualquer problema, despediu-se.

No quarto e sala conjugado das duas mulheres, Jocélia, pela primeira vez em muito, muito tempo mesmo, sorriu. Suspender o remédio da mãe estava dando certo, todos comentavam que D. Adalgisa estava ficando matusquela e o quanto a coitada da filha era tão boa, dedicada, amorosa. Já repararam em suas olheiras e na pele amarelada? A pobrezinha nem sai de casa, para tomar conta da mãe. Boa moça, diziam, embora só lembrassem de seu nome por causa dos berros constantes que D. Adalgisa atirava contra a filha.

E agora, o homem mais confiável do prédio testemunhara in loco, ao vivo e em cores, o comportamento errático e agressivo de D. Adalgisa. Dali a mais alguns dias, desmaiarei na portaria, todos verão o quanto estou exausta, se eu dormir a noite inteira, com a janela aberta, nesse calor infernal, e minha mãe, durante um ataque, se jogar, todos entenderão. Durante a madrugada, ninguém a veria dando uma ajudinha para D. Adalgisa descer ao térreo via expressa, sem paradas. E o vizinho seria sua mais forte testemunha.

E ela estaria livre, desacorrentada, solta na vida, vadia, como sempre sonhara. Talvez até o vizinho se apaixonasse por ela, seria maravilhoso. E Jocélia só não dormiu porque precisava que suas olheiras fossem reais.

Em seu apartamento, Felipe Espada ensimesmava, a cerveja esquecida na lata, o livro aberto nos joelhos. Tem algo estranho naquela casa, naquela gente, na velha, na filha. Vinte anos na força de polícia como investigador e dez como delegado haviam-no ensinado a confiar nos seus instintos. Samuel Espada não era homem de se deixar enganar por aparências. E agora ele não descansaria até descobrir o que havia de errado no apartamento ao lado.

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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

TÊTE-À-TÊTE >> Fernanda Pinho

Outro dia me deparei na internet com o vídeo de Jeremiah. Um cara criativo que, aos doze anos, gravou uma VHS para que ele mesmo pudesse assistir no futuro. Nessa filmagem, ele propunha um diálogo entre o Jeremiah de doze anos com o Jeremiah versão 2012, com 32. Confesso. Senti uma pontada de inveja por não ter tido a mesma ideia, e quase gravei uma vídeo para minha versão anciã. Mas, sem querer me gabar, a inveja passou rápido. Quem precisa de VHS quando se tem uma memória excelente? Posso imaginar exatamente como seria minha conversa com minha versão 12 anos...

- Oi, então você sou eu no futuro?
- Sim, sou você.
- E agora eu uso óculos???
- Há muitos anos. Pode se preparar. Daqui a pouco você vai começar a ter dificuldade em enxergar o que os professores escrevem no quadro e a partir de então nunca nos separaremos de um par de óculos.
- Credo. Já chegou dando notícia ruim. O que você me conta de bom?
- Depende do que você chame de bom, Nanda.
- Nanda? Ainda me chamam de Nanda?
- Chamam. E agora chamam de Ferdi também. Apelido que você ganhou na faculdade.
- Faculdade? Então eu fiz Direito? Sou juíza? Ai, não acredito. Isso é o que eu chamo de bom...
- É... na verdade, não foi bem assim. Mudamos de ideia.
- “Mudamos” inclui quem, fofa? Estou muito segura de que quero ser juíza.
- Você quer ser juíza porque acha chique usar toga e bater o martelo para as pessoas fazerem silêncio. Mas eu preciso te dizer uma coisa: isso não é critério para escolher profissão. Daqui a pouco você irá identificar suas aptidões.
- Quais aptidões?
- Para escrever, por exemplo.
- Ai, meu Deus, já estou até vendo onde isso vai parar. Pode falar a verdade. Estou preparada. O que a gente faz da vida?
- Jornalismo.
- Era o que eu temia. Então você desistiu do Direito para fazer Jornalismo. Nossa, você é muito esperta, hein?
- E você é muito irônica para uma menina de apenas 12 anos. Mas saiba que estamos felizes, temos um trabalho legal, escrevemos sobre coisas interessantes.
- Aposto que a Lili fez Direito.
- Não, ela também desistiu. Fizemos jornalismo juntas.
- Nós ainda somos amigas?
- Claro! Aliás, eu continuo tendo esses mesmos amigos que você conquistou. E mais um punhado de outros. Tenho maior orgulho disso, sabe? Sabemos fazer e manter bons amigos.
- Parabéns, gordinha!
- Gordinha? Quer apanhar, menina?
- É, vamos combinar que você está, digamos, mais encorpada.
- E vamos combinar que a culpa foi sua, que sempre foi indignada com sua magreleza e passou anos tentando “adquirir formas”, como você dizia. Parabéns, você venceu.
- Mas não era para ter levando tão a sério...
- Podemos mudar de assunto?
- Tá. Me conta da família. Papai, mamãe, Paula...
- Estão todos bem, dentro do possível.
- Ainda brigo muito com a Paula? Ela ainda fica enchendo o saco querendo brincar?
- Claro que não. Ela é uma adulta. Tem quase 24 anos. Fisioterapeuta...
- Minha irmãzinha é fisioterapeuta. Ai, sou uma idosa, sinto minhas articulações doerem...
- Por falar nisso.. continuamos hipocondríacas, medrosas, inseguras, paranoicas e usando toda nossa imaginação para cometer atos de autossabotagem.
- Ai, controle-se. Eu sou apenas uma menina. Não me jogue isso na cara. Fale mais das pessoas. E a vó?
- Se foi.
- Se foi pra onde?
- Para o céu. Ai, não chora. Olha, também aconteceram coisas boas. Nossa família está muito maior. Você não tem ideia do tanto de criança que nasceu.
- Sério? Mais primos?
- Primos e filhos dos nossos primos. A última que nasceu foi a Fiorella.
- Filha de quem?
- Do Renzo?
- O Renzo casou?
- Sim, há anos.
- Com quem?
- Com a Dafne. Aliás, a Dafne é prima do Osvaldo.
- Quem é Osvaldo?
- Seu marido.
- Marido???? Então eu não me casei com o Márcio da quinta série?
- Claro que não.
- Mas eu jurava que ia casar com esse menino!
- Você ficariam espantadíssima se eu listasse com quantos meninos você achou que se casaria depois disso.
- Espero que você tenha tido, pelo menos, a decência de casar na data que eu sonhei. Um sábado de setembro, às vésperas do meu aniversário de 21 anos.
- É. Foi num sábado de setembro. Mas às vésperas do nosso aniversário de 29 anos.
- Vinte e nove???? Você é devagar, hein, moça?
- Você que era precipitada de demais...
- E aí? Já temos filho? Sabemos cozinhar? Conseguimos ser práticas e racionais para resolver problemas?
- Calma, que nós crescemos, mas nem tanto. Mas mudar para o Chile foi importante nessa evolução.
- Chile??? Nossa, estou ficando confusa. Acho que não quero saber mais nada.
- Mas gostou de como estamos?
- Reconheço que, no geral, gostei sim. Tenho um marido lindo (se não for lindo eu te mato), trabalho fazendo o que eu gosto, não tenho mais prova de matemática nem trabalho de biologia. Posso dizer que minha vida está perfeita!
- Perfeita? Eu não usaria esse termo. Mas estamos felizes.
- É possível ser feliz sem ter uma vida perfeita?
- É possível e é necessário. Essa é a lição que vem depois das lições de matemática e biologia. Aguarde....



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