sábado, 16 de agosto de 2008

O LIMITE E A PELE [Sandra Paes]


O desejo de comer bolinhos de chuva numa tarde de nuvens espessas me levou à cozinha. Preparo a massa, me deslumbro com o misturar de gemas ao leite e me recordo com gosto dos tempos de gemada quente, com o conselho de que faz bem pra saúde.

A arte de cozinhar passa por memórias, ativa e abre o portal dos mistérios, aguça o feminino em mim e me leva sempre a cantar qualquer coisa ou vez por outra me surpreender com canções que mais parecem composições do momento. Claro, a criatividade nao tem limite. Rola numa dança solta, ritimada, feliz como bailarina que ensaia os próprios passos, sem se ocupar de platéia ou aplauso.

Momentos mágicos. Todos esses que vivem antes e depois do aha. A gente não os segura, apenas vivencia e vez por outra compartilha, e quando acontece, o júbilo e o riso estão sempre juntos.

Massa pronta, hora de preparar o óleo quente e começar a sonhar com histórias de Narizinho e Tia Anastácia.

Pego os primeiros bolinhos e os coloco com cautela na panela. Olho atentamente seu processo de fitura, o chegar da cor dourada e me pergunto por que se chamam bolinhos de chuva, pois parecem tão solar...

Tempo de virá-los pra fritar do outro lado. Chego perto e, de repente, o óleo espoca como que raivoso e jorra enormes quantidades pra fora da panela. Queimou-se meu ante-braço. Olho o vermelhidão que se forma imediatamente. Não permito que a dor corte o prazer da producão - na arte é assim, o espetáculo não pode parar... E dá pra sentir e entender o mistério do palco, da descoberta no laboratório mesmo quando explodem os tubos de ensaio. O momento do eureka é mais que mágico, simplesmente não dá pra descrever.

A dor não me paralisa. A mudança da tonalidade da pele, sua reação espontânea, me chamam a atenção.

E os bolinhos? Termino o que estava fazendo. Coloco o braço sob água fria num gesto carinhoso e íntimo de dizer à própria pele: estou aqui, e você sou eu também. Voltar-me pra própria pele me faz ver e perceber o conceito mais simples e puro de limite.

Penso no acidente, tão sem propósito, como todo acidente, e ao mesmo tempo sigo cada passo, mentalmente, pra ver o que possa ter feito pra ocasionar isso. Sempre fui muito orgulhosa de minha coordenação motora, de meus reflexos de gata. Não consegui descobrir a causa. Fato é que o braço arde. É preciso cuidar do ferimento, pra variar. Não me lembro quando eu mesma possa ter me ferido. Na minha coleção de cicatrizes - já não as tenho mais, por que não as cultivo - havia sempre o registro de ser ferida por outrem, não por mim mesma. E suas marcas vazaram a pele e invadiram meu limite mais profundo, tocaram minha alma.

Curioso tudo. Porque assim quero que seja apenas. No vídeo dentro do DVD restava um filme pra ver. Título: À flor da pele. Um lindo filme com Chico Buarque falando sobre mulheres, gravado em Paris. E ao fundo a música com o mesmo título fala do mistério do desejo.

Com isso tudo, o desejo dos bolinhos de chuva ficou adormecido. O sabor dos mesmos se adiam. Adiar o desejo pode acontecer sempre quando a voz da pele impõe seu limite, constato.

Dia seguinte. Braço melhor, o dia promete. Vontade de caminhar na praia... Levantar e ir. De repente a pele de novo grita seu limite e com isso, constato: nada de sol. Voce tem um braço vulverável e ele a revelar como trato minha vulnerabilidade - o limite mais terno e tenro, revelado pela delicadeza de uma pele, em sua flor - carne viva!

Sim, ando assim... Sempre fui à flor da pele... Quem sabe disso? E por que preciso ser lembrada disso agora? Qual a medida de meus sonhos e desejos? E que força é essa que me desacata sempre a impor um limite pra tudo?

Quero vazar a pele, atravessar oceanos de possibilidades, navegar na imaginação e nos campos não tangíveis de todas as formas, e tenho sempre que ser lembrada que estou na dimensão do físico, porquem cobram tanto, de todas as formas.

O encanto pela forma ainda não é mais forte do que o encanto pelo que o sustenta. Esse o segredo maior ou menor que me desafia hoje e sempre. Ainda jaz aqui o desejo de transceder o mistério da pele e romper todos os limites. E paro, com respeito, diante do braço queimado, respeitando o grito dessas células querendo se refrescar.

E a chuva não veio...


Imagens: Bolinho de Chuva, Panelinha; Woman Holding Flower, Goodshoot; Ocean and Sky with Cloud, David Vintiner
Nakedness
Sandra Paes vive nos EUA.

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4 comentários:

Debora Bottcher disse...

Pois é.. Conhecer e respeitar os próprios limites é um aprendizado constante... Bela imagem do "exercício"...
Sempre bom te ler.
Beijo enorme.

Carol Barcellos disse...

Sandra, eu tb sempre achei os bolinhos bem solares, e nada lunares, hahaha... Amei como vc conduziu o texto, que parecia enfatizar os bolinhos, até sua verdadeira intenção, que era falar dos limites da liberdade. Muito inteligente, Sandra, amei!!!

Beijinhos doces cristalizados!!! :o*

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bonito, Sandra. A pele é o limite.

Haydee disse...

Sandra, tenho tido o prazer de ler suas cronicas.
Muito boas mesmo.
Sei que vce sabe de estar a flor da pele e de limites impostos.
continue escrevendo lindos textos.
um beijo carinhoso.
Haydee