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ENTRE CAIXAS >> Leonardo Marona

Há uma sensação de alívio quando se trepa e não se goza. Algo semelhante a uma mudança repentina que no fundo não sucede. Na verdade eu havia me mudado apenas para poder não ter casa alguma, não pertencer a nenhum lugar, apenas para não esperarem mais por mim, ou talvez já nem esperassem mais e essa era a verdadeira questão: eu precisava me livrar dessa dúvida, ter um lugar só meu para poder abdicar dele.

E nos vemos subitamente em meio a caixas úmidas de papelão. Algo como se tivéssemos finalmente nossos pavores organizados segundo os padrões que inventamos e na verdade não cumprimos nunca porque não nos interessa o que sabemos. O tédio está no que se sabe, naquilo que dizemos aos outros com ares disfarçados de louvor. No fundo aprende-se com o melhor do mal original e se faz bom-proveito, na bacia infinita de lágrimas compartilhadas.

O quadrado onde, de forma exata, couberam minhas tralhas dava de frente para um vão central, comum aos piores cômodos dos piores apartamentos do edifício, os que não tinham nenhuma vista, a não ser a do vão comum, de onde se ouviam marteladas e escarnecimentos constantes.

Era na verdade muito parecido com aquele sistema carcerário imaginado por aquele careca, o Foucault. Havia é claro solteironas voluptuosas com os sutiãs à mostra e longos sorrisos de olhos ambíguos. Havia um garoto e sua mãe envelhecida, no entanto com pouco mais de trinta anos, ambos com brilhantina nos cabelos e a pele rachada de água sanitária, os modos simples, o cheiro do sabonete barato de glicerina, como personagens de John Fante indo à missa. Isso dava ao lugar um certo ar hospitaleiro que é possível encontrar nos melhores manicômios.

Eu ainda não tinha cortinas, nem vergonha de ficar nu. Havia superado esse paradoxo e me masturbava livremente, quando sentia vontade.

“Bom dia, meu nome é Márcia, muito prazer. Você deve ser o novo morador do 408. Eu também estou chegando de mudança, no 704. Se precisar de alguma coisa é só lembrar: Márcia”.

Talvez algum dia eu pedisse açúcar a Márcia. Não agora, enquanto minha vida encaixotada e por fim sem privilégios me deixava com o peito sulfuroso dentro de um metro quadrado padrão, e as malditas pombas sobrevoavam com seu barulho como o dos gatos e alguns seres humanos prontos para o amor como se isso fosse possível ou mesmo natural.

Em lugares escuros do edifício sem paisagem, “caros condôminos, queiram ensacar seu lixo devidamente antes de evacuá-lo na lixeira comum”, o longínquo som da terra exausta diminuía meu parâmetro e, ao mesmo tempo, cabia nas palavras milagrosamente. Sozinho entre caixas, perfeitamente abandonado como nos romances ruins de cavalaria, sem cuidados entre recém-nascidos, o novo eu-mesmo ainda sangrava e me era estranho, eu o ex-eu-mesmo que antes pairava, e não chegava a ser muito bem-vindo. E do estranho a criatividade brotava, meus dedos derretiam de tanto bater à maquina, uma antiga Hermes portátil e laranja, à falta da musa dos cabelos parnasianos e costas alexandrinas.

As antigas calças voltavam a se ajustar ao corpo, as malas feitas outra vez sobre a cama velha. De dentro da névoa gris feita da fuligem e do pó de cal que vem da obra interminável desemboca o horizonte ainda trêmulo, a promessa ainda abstrata, o coração pela metade, a boca magra sem paixão. Os dedos doem de bater mais forte nas teclas do meu único alimento. Os livros couberam na estante e estão calmos, com jeito de pedra, feito caramujo que é sua própria casa. Na porta do armário colei um cartaz com a representação do autêntico gaúcho às margens do Rio Prata. Eu agora tinha direito a ser patético, porque não era mais eu-mesmo e sim eu-outro. Baboseira pura.

Um garoto soprava uma flauta que ecoava como a solidão coletiva entre os pedaços de concreto no vão central do edifício acinzentado como um doente terminal. As frases precisavam ser mais curtas, a vontade honesta, os amores – ah esses então! – menos elisabetanos. A medida da vida ainda era a propagação do acaso. Pegar o açúcar com Dona Márcia, do 704. Abrir a velha máquina de escrever e, com a vida entre as mãos pela primeira vez, escorrendo, sentar os dedos, largar de lado o Inferno de Strindberg e soprar com peso as notas trágicas de um compasso fugidio, para sugar faminto os ares dessa liberdade enfim maculada, entre caixas que são castelos do coração de marfim.

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