sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Essas coisas inomináveis >> Leonardo Marona

O objeto central da crônica de hoje é muito comum. Muitos cronistas superiores foram especialistas no tema, mas, mesmo assim, há que se falar, e o diabo de se escrever é esse: qualquer idiota pode fazê-lo, bem ou mal.

Falarei de um tema amplo, interminável, pois que permanece um mistério insondável por milênios. O tema sobre o qual discorrerei é ralo como areia nas mãos de imperadores e proxenetas. Pessoas sem espírito são capazes de fazer o sinal da cruz ao se depararem com certos exemplos do tema abordado hoje. Podemos explicar chacinas, parricídios abissais, mas o objeto sobre o qual escreverei permanece intacto diante dos nossos olhos, como de resto são o Triângulo das Bermudas, a Caixa de Pandora e o Senado da República.

Gostaria de tecer palavras carinhosas sobre o incrível e anatômico objeto a que me refiro, mas a verdade é que tenho medo dele, porque vim dele, ou seja, porque ele sempre será anterior a mim ou a qualquer homem; e antes dele apenas o vazio hipotético.

Este objeto tanto assusta por sua inabalável capacidade carmesim, que os maiores gênios da humanidade, homens carrancudos e sem vida própria, com medo dele o afastaram das idéias, o taxando como ser inútil de medidas desproporcionais. Tentaram derrubá-lo com motivos falsos de uma eficiência insípida, isso porque este objeto emite uma luz ofuscante, dado que é anti-eficiente e apenas reluz ao sabor das marés lunares. E eu respeito os gênios, mas não sou um deles. Minha moral é mais delicada, posto que não sou um deles. Então posso continuar tranqüilo até o fim.

Tal objeto tem a inacreditável capacidade de tirar vida de coisas sobre as quais os homens passam por cima. O contorcionismo é também outra grande habilidade. Pela atenção que desperta em si próprio e nos outros, este inenarrável objeto percebe o mínimo, e dele faz pequenos adornos e bibelôs para almas ciganas. Tendo alma cigana, mas sendo covarde e extremamente moralista, me faço de sincero e vou à luta. Pois não se engane: não há paz diante do objeto tratado. A paz diante do objeto tratado é o mesmo que a indiferença.

Sua luminosidade e sua mordaça secular fazem com que o feixe rasgue a pele. E então ali estamos, contando moedas, respeitando os vizinhos, comprando flores à meia-noite, dizendo amém. A incrível saga do objeto tratado faz de Dante Alighieri um rapaz que brinca de boneca.

O objeto, aliás, detestaria ser tratado assim. Tratemo-lo, pois, de “as coisas”. Elas sempre vão, os abraços são apenas disfarces. Nós, os limitados, tentamos agarrá-las à força, enjaulá-las em pátios de insanidade, não propriamente porque as amamos, mas porque, ao chegarmos perto delas, sentimos o sabor da primeira seiva, elas que estão mais próximas da primeira criação e, portanto, distantes de nós, os construtores sem élan.

Olha-se para um homem e vê-se quase tudo. Elas são o quase, a chance perdida. Apenas um idiota se aproximaria delas, essas inigualáveis coisas, em busca de equilíbrio mental e estabilidade financeira. E vejam quantos idiotas! Idiotas que ofuscam a vida, nuvens de fumaça sobre a floresta mágica. Afinal, só existem dois tipos de homem: os que não sabem e os que se enganam.

Digo mágica porque não há vocabulário adequado a esse fenômeno. Quero distância delas como quero distância de tudo aquilo que não sei e me atrai. Como quero distância do abismo e do amor materno. Como quero distância da pequena felicidade dos momentos silenciosos. Como quero distância da Sinfonia do Novo Mundo e dos sinistros meandros que me aproximam do inexprimível. E nós tentamos calar essas coisas como pudemos. Nós as açoitamos e exigimos que peçam perdão pelos nossos pecados. Porque nós temos pouco espírito e nenhuma humildade. E temos medo do não-limitado. Agora vemos nossas caras desmanchadas, a foice tranqüila refletindo ao sol, as violetas tomando a praça como pulgas.

Não tínhamos no fundo a ambição de manter a farsa por muito tempo. Não sabíamos que seria por séculos. Essas coisas agora nos imitam melhor, porque no fundo imitávamos delas a sensação do toque frágil, do sorriso de faca. Porque nossas faces estão sem pele e sentimos frio. Elas nos salvaram, essas coisas, enquanto as massacrávamos com a exigência do amor por nós criado, da mesma forma que um psicopata cria uma causa para suas mortes.

Agora as asas se dobraram sobre nós e os vidros foram estilhaçados. Não espero seu perdão – coisas anteriores ao tempo – nem mesmo quero ser notado. Estou no canto, tremendo a cada passagem violenta desse cheiro sem idade que elas trazem de onde paraíso e purgatório se bifurcam. E se porventura eu estiver no caminho delas, dessas coisas inomináveis, imploro sem expectativas que me peguem no colo e me deixem entrar, porque sou todo vocês e não sei quem sou.


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eita, o homem pegou a veia da crônica! Maravilha de texto-mistério. :) Excelente exercício de adivinhação.

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, que toque de suspense convidativo. Senti uma vontade de mais quando chegou ao ponto final!