quarta-feira, 13 de agosto de 2008

ELE >> Carla Dias >>

Despe-se da identidade, da indelicadeza do sobrenome; e se acredita nas saídas, também delas desdenha, já que permanece estático, o corpo aninhado no sem-tempo. Quem se atreve a decifrá-lo, acaba mancomunado com a poesia que se revela no seu semblante esmiuçado por êxtases, mágoas, ilusões, alegrias.

Sob a pele sequiosa por deleites há estradas miúdas que se cruzam no rubor das faces. Nelas a assimetria do reconhecimento embeleza uma das versões da verdade: viver também é sofrer a sós.

E catalogar imprevistos, porque entregar-se a eles com certo zelo o faz imergir a própria alma numa dança desengonçada, que mesmo muitos pensem ser um insulto à graciosidade, torna-se impecável aos olhares mais curiosos.

Torna-se cena de filme preferido.

A sós – mas à vista de quem possa desejá-lo -, transgride o fascínio ao enevoar virtudes. Zera a lista de qualidades, como mercadoria que já não está em liquidação, então adoece de depósitos, mostruários, vitrines; embebeda-se dos olhares dos miseráveis que só podem lamber os beiços e jamais tocá-la, quiçá levá-la para casa.

Ele abre os braços, setas opostas, opções indigestas, deflagrando a cantoria do coração. E a boca, há tempos enclausurada no silêncio, oferece guarida à língua transeunte que traficou palavra para presenteá-lo: lisura.

Engolida a palavra – que desceu mansa -, ele enfraquece subterfúgios. As mãos espalmadas amparam sonhos, e ele até se sente capaz de entoar árias, como fosse Lancelot desejando Guinevere, apesar do profundo respeito que tem por Artur. Como fosse cavaleiro montado em trem a mil por hora, contracenando com o vento que lhe desarruma os cabelos e lambe os pensamentos. O relinchar do metal de soundtrack.

Quem o observar de perto, com curiosidade bondosa, poderá alcançar os tantos anjos que o habitam; as asas enroscadas nos adereços da benquerença. Os dedos apontando benéficas transformações e sabedoria. Mas também avistará os demônios que, silentes, porém sorridentes, caminham no dentro do homem, esbarrando em perguntas jamais proferidas. E neste secreto questionamento moram tormentas.

Pudesse desmontar a própria biografia e reconstruí-la mais branda, certamente o faria. Mas este não passa de um delírio pueril, já que cada ser humano arrasta consigo o feito, tal e qual obra de arte de sua autoria; ela que, nem sempre, agrada ao criador... O que dizer sobre os transeuntes que lhe torcem o nariz?

E este é um homem que crê: os bastardos da perfeição são também os menestréis das peculiaridades. São sábios que sabem dizer desconsertos como fossem orações poderosas; que conseguem enxergar ao avesso, de través, pois não se detêm à enganação que há no imediato. São magos com canções de amor e tolerância pipocando de suas varinhas.

Desabonado de severidade e rico em contemplação, ainda espera quem lhe segure pela mão e o acompanhe pelos arrabaldes da felicidade. Lá onde carteira de identidade e sobrenome não definem o que o homem traz em sua alma, tampouco julga o que ele decidiu não pertencer a ela.

Imagens: Esculturas de Auguste Rodin >>> Danaid, The Kiss e The Hand of God.


"Some devil some angel/Has got me to the bones..."
Some Devil - Dave Matthews



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Um comentário:

Rubia disse...

Rodin e Dave... tá tudo muito bom!!! bjoca