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A Crônica >> Leonardo Marona

Aqui não há mais espaço para arroubos poéticos e prendas filosóficas. Isso cansa em pouco tempo e, além do mais, serve apenas como paliativo: é inútil. A interrogação após a frase "por que viver". Aqui só há espaço para esta interrogação.

Enfie o dedo bem fundo dentro do nariz e ali estará a mesma interrogação, na ponta do dedo. Estou ciente de estar correndo o risco de ser julgado moralmente como um fanático ardiloso. Mas é meu dever para com a minha honestidade e, afinal, o que é correto nunca foi recompensado. Os corretos no mundo, se arrastando enrolados nos trapos da sua moral intacta, são a prova mais concreta de que isso tudo só pode mesmo ser uma grande diversão para algum tipo de entidade endiabrada, a que chamamos deus e pedimos coisas totalmente vagas e no fundo desumanas, porque no fundo nem sabemos o que precisamos, apenas repetimos espelhos pelo gosto da coisa, pela coceira no céu da boca e a necessidade de dizer amém.

Mas isso é uma crônica. Uma crônica sobre os nossos dias contados. Uma crônica sobre quantos somos sem sermos nenhum. Isso era para ser uma crônica que alterasse as rotas da civilização e nos levasse até Marte. Uma crônica para dizer que no fundo tenho medo, me dá um abraço. Uma crônica sobre a frase "me dá um abraço" sufocada em cada semblante carrancudo que passa sem olhar.

Na verdade gostaria de tentar descrever junto aos leitores a um tanto híbrida sensação de estar em meio a caixas, pela primeira vez neste novo lugar estranho. Um texto simples, sobre a sensação da mudança e do abandono, sobre a alma se esgarçando, se aproximando novamente da longa passagem.

Mas se paro, apoio a mão no queixo – no rádio toca Schubert e é tão triste! – vejo que é melhor tentar apenas respirar o mundo. Respirar pelos poros, olhos, respirar pelos cabelos, mãos, unhas, atingir a loucura do esquecimento da compreensão difundida. E não dizer mais nada. Andar, cansar, deitar. Perder-se nas entranhas do mar revolto, inclinar-se na terra feito sinfonia de cetim. Mas não quero fazer a contagem. O coração no entanto murcha, pede socorro ou algum "basta".

Sinto o bicho distante, se aproximando. O peito arregaçado e os pés presos à movediça.

Fecho os olhos e espero aquela coisa na barriga. São dias de teto, marcados na parede. A carne tem o cheiro forte, rançoso. O bicho distante na mata, na espreita. Nossa história se ambienta entre sacos plásticos nas maçanetas das portas à falta de lixeira e o ronronar dos gatos que, não obstante, defecam em demasia. Mas ela vem, a fera, envolve a presa ancestral mal-cheirosa, sem salivar uma gota, e vai embora. Desculpem Braga, Lessa, Carvalho. Mas a mata é muito densa, os olhos vêem pouco, o coração é falta do que dizer. A crônica é essa.

Comentários

Marisa Nascimento disse…
"...quantos somos sem sermos nenhum". Leonardo, essa frase tão breve, diz muito...

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