sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Jantar, foder e dormir >> Leonardo Marona

O governo estava sendo pressionado pelo partido, que estava sendo pressionado pelos dissidentes do partido, que estavam sendo pressionados pelos dissidentes radicais do partido, que estavam sendo pressionados por suas mulheres, filhos e amantes, que também estavam sendo pressionados por um babaca qualquer de jaleco, com cabelos saindo pelas orelhas. Era mais ou menos esse o panorama sócio-político durante os últimos duzentos anos.

Lins vinha de carro ouvindo rádio, insatisfeito com o trabalho, pensando na sensação que teria ao despejar óleo fervendo no ouvido do patrão, farto da fumaça seca e cinza dos carros, das caras murchas por trás dos volantes, tirando meleca e cutucando a orelha com o dedo mínimo. Figuras apáticas e resignadas. Como Lins. Como vacas. Todas dependuradas ao volante, procurando um pouco de paz na observação do nada. A cada volta do trabalho, Lins sentia-se como se estivesse com um rato faminto lhe subindo pelas bainhas das calças, até roer-lhe a virilha, arrancar-lhe os mamilos fora e furar-lhe o umbigo com as patas, para depois lamber-lhe as orelhas. Esse era o efeito do calor insuportável misturado com a irritação de uma vida sem sentido. Provavelmente uma das importantes causas da crescente violência no Rio de Janeiro.

Ainda por cima, estava se mijando desesperadamente. Por isso mudava as rádios sem parar. De uma rádio AM com ruídos para outra rádio AM com interferência de sinal. Tinha que pensar em alguma outra coisa ou então molharia as calças dentro do carro. Mas Lins tinha dado o azar de pegar a maré vermelha dos sinais na perimetral. "Meu deus, vamo lá, vamo lá!", ele urrava mordendo os lábios e trepidando no banco do carro, esmurrando o volante. Era daqueles trânsitos em que ninguém buzina. Porque já não faz mais diferença buzinar ou não. É ali que se conhece a tristeza nos ossos da rotina.

De repente Lins sentiu que não ia dar mais. Sentiu uma gota lhe passando pelo corpo cavernoso até chegar ao pau. Sentiu a gota saindo dele. Parecia quente. Abriu as pernas e acendeu a luz interna do carro. "Puta que pariu!", sussurrou quando apalpou as calças e olhou para baixo. Estavam molhadas. Não era muito, mas a calça era cinza-claro. Então era como se fosse um sol escuro no centro de Cubatão.

O prefeito estava se explicando sobre a segurança da cidade. Dizendo que isso era função do governo estadual – a segurança da capital. Provavelmente na semana seguinte o governador estará na mesma rádio alegando que não recebeu do Governo Federal a verba necessária para investir na segurança. E na outra semana o presidente porá a culpa toda na falta de investimentos dos países desenvolvidos, que não darão a mínima, assim como nunca deram.

Lins desligou o rádio. Levava no banco do carona um saco de papel pardo no qual trazia alguns legumes, pães e temperos para o jantar, além de uma garrafa de licor de uísque. Só faltou a boina, o charuto mofado e o exemplar do The Paris Review para ele se sentir a um milímetro do lugar onde gostaria de estar. Se fechasse os olhos e respirasse fundo.

Dobrou a esquina da rua onde morava. Largou o carro de qualquer maneira na frente de casa, cabeceou a quina da porta ao tentar se levantar rapidamente, escarneceu os céus, sentou-se novamente, abraçou o saco de compras, saiu outra vez. Então seguiu até a porta de casa, tocou a campainha e em seguida um saco plástico com cebolas caiu do seu saco pardo e algumas cebolas rolaram pelo chão imundo, isso pouco antes de Mara abrir a porta e olhar para baixo. Deu de cara com o resplandecente sol de mijo no meio das calças de Lins, que chutou o saco com as cebolas e partiu feito um jato para dentro de casa. Mara ficou colhendo as cebolas do chão. Ela tinha uma armação metálica cheia de dispositivos enfiada na cabeça e bolinhas de algodão entre os dedos do pé, cujas unhas haviam acabado de ser pintadas na cor vermelho-paixão. Colheu algumas cebolas do chão e voltou andando pelos calcanhares para dentro de casa, como se fosse um marreco.

Lins mijou, depois foi até a cozinha deixar as compras em cima da mesa. Ligou a televisão e foi até a geladeira. Deixou a garrafa de Drambuie no congelador, abriu a porta da geladeira e pegou uma lata de cerveja. Depois subiu para trocar as calças. Vestiu um calção um pouco curto demais e ainda por cima florido. Viu que estava se tornado um sujeito a cada dia mais ridículo, como se isso fosse um processo natural. Talvez fosse o processo natural do envelhecimento. Desceu as escadas e, antes de chegar de volta à cozinha, parou na frente do mezanino – que estava com a porta fechada –, de onde ouviu alguns ruídos. Pessoas conversando.

***

- Meu amor, sim, estou morrendo. Mas não sou eu quem se mata, é a minha consciência com a adaga. Ela explode em pensamentos negros e encarnados de vingança, ciúmes e luxúria, com os quais... Hum..Hum... Perdão...

- Porra, Lola! É só você continuar, cacete: “vingança, ciúmes e luxúria, com os quais meu ignóbil e vil semblante não suporta mais compactuar.”

- Ah, Hugo! Eu não entendo nada dessa merda...

***

Lins não entendeu muita coisa também. Foi até a cozinha. Mara estava lá, assistindo à novela de boca aberta, cutucando as unhas da mão.

- Mara, quem está no mezanino?

- Tina.

- Mas eu ouvi o barulho de um monte de gente conversando.

- Ela tá com o Hugo e com a Lola estudando.

- Porra, e por que falam tão alto?! Três pessoas estudando e precisam falar alto desse jeito?!

- Shhhhhhh!

- Como assim, shhhhhhh?

- Tina pediu que a gente falasse baixo pra não interferir no microfone.

- Mas que microfone?! Eles precisam de um microfone pra estudar em três dentro de um quartinho?!

- SHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

- Meu caralho! Mara, assim você tá se babando toda, olha aí. Vamos parar com isso, sim?

(Cochichando):

- É uma filmagem, homem. Eles estão fazendo um filme lá dentro.

- Um filme? Mas hoje é só segunda-feira. Por que não fizeram isso ontem, que não tinha ninguém em casa?

- Sei lá por que não fizeram. Mas não fizeram. E estão fazendo agora. Portanto, fique quieto.

Mara não olhou nenhuma vez para Lins enquanto falava. A novela. Lins já ia subindo as escadas olhando para o teto, como que não acreditando naquilo tudo, quando Mara:

- Outra coisa. Você não pode puxar a descarga também, oquei?

- Tá querendo me dizer que eu não vou poder cagar se eu precisar cagar? Que eu vou ter que cagar num BALDE?!

- SHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

Lins balançou a cabeça olhando para cima e subiu. Fazia tempo que não se sentia mal assim. Era o inferno no trabalho, no caminho do trabalho até a casa e na casa também. Não havia mais saída. Uma amante seria só mais uma complicação. E ele não conseguia se acostumar a ser todo dia recebido por um marreco de outro planeta quando chegava em casa. Uma dona que não era mais aquela com quem tinha se casado. E provavelmente nem ele era mais aquele. Mas ele pelo menos não andava por aí com um arame platinado na cabeça, cheio de penduricalhos inúteis e assuntos sem importância. Era ela quem fazia isso quando abria a porta para ele. Era ela a inútil pseudo-maníaca-depressiva que não sabia mais com o que gastar e por isso vivia entediada, e muito provavelmente o traía durante as tardes. E eram os penduricalhos dela que custavam o saco dele esfolado num escritório no qual nada parecia acontecer, além do dinheiro fácil e dos e-mails pornográficos.

E Tina? Era sua filha. Então por que nunca mais falou com ele espontaneamente desde que completou quinze anos? Estava agora com vinte e um e ele não a conhecia mais. Só tinham conversas instantâneas um com o outro. (- Oi, pai, preciso de 50 reais. - 50 reais!? Pra quê? - Faculdade, pai. Estou atrasada). Lins jamais havia erguido a mão para bater nela. Dava a ela o que comer. Pagava suas eternas noitadas e seus cursos de mês em mês. Comprava suas calcinhas. Era, portanto, o principal culpado por tê-la atirado num mundo de despreocupação, tranqüilidade e ócio, que fatalmente a tinha transformado numa depressiva latente – no mesmo caminho da mãe – que volta e meia era internada numa clínica para birutas ocasionais.

E também havia a questão do ódio de si próprio. Ou seja, de quem pensava barbaridades da própria filha e da mulher porque estava doente da cabeça. Porque estava perdendo a razão e deixando o ódio se acomodar. A começar pelo ódio de si próprio. Por pensar barbaridades dos outros. E por achar que tinha razão ao fazer isso.

Então tomou um bom banho. Isso às vezes adiantava. Ficou alguns minutos com um jato de água quente na nuca. Até que ajudou a esvaziar o cérebro. Conseguiu relaxar um pouco. Vestiu o mesmo calção colorido e ridículo e tentou descer as escadas, de volta até a cozinha, sem fazer nenhum ruído. Tentou ser invisível, imperceptível, mas a escada estava infestada de cupins por dentro e rangeu bastante. Quando já ia passando pelo mezanino, ouviu a voz de Tina. "PAI! PAI, É VOCÊ?" Lins não sabia de onde Tina havia tirado aquela voz de gralha. Ela abriu a porta e eles estavam de repente um de frente para o outro, como dois estranhos.

- Pai...

- Oi, filha.

E então, Lins se inclinou para cumprimentar os demais. Lola jogada num monte de almofadas com uma saia minúscula, facilmente uma boa foda. Hugo de pé, com cara de como se fosse convidar Lins para tomar cerveja, para em seguida lhe enfiar uma faca no estômago.

– Alô! E aí? Tudo certo, rapaziada?

A reação dos garotos foi segurar o riso e responder, aparentando tédio:

- Boa noite, tio.

- Pai – Tina o puxou pela camisa.

- Então – Lins se virou para ela. – Vocês estão fazendo um filme aqui, é isso?

- É, pai. Um filme. E, pelo amor de deus, não faz nenhum barulho lá embaixo, porque já tá foda de pegar o som aqui dentro. Nada de puxar descarga, nada de rir alto, discutir com a mamãe, raspar o prato, subir a escada correndo, nada, valeu?

- Não sei se valeu, não, Tina.

- Porra, pai! Se eu não trabalho você reclama. Mas quando eu trabalho você reclama também. O que você quer afinal?

- Jantar, foder e dormir. Te parece razoável?

- Sem gracinha, tudo bem? Por favor!

Lins desceu e Tina fechou a porta e entrou de volta. Lola estava esparramada sobre algumas almofadas enormes e brancas, enrolando os cabelos loiros e mal-cuidados atrás da nuca e mascando chiclete. Pela maneira como mascava e enrolava, parecia uma puta chata e cara. Hugo estava em pé de frente para Lola, com as mãos na cintura. Talvez estivesse esperando por uma cadeira, uma água de coco, um escravo abanando, uma vagabunda, ou que o chamassem gênio. Porque estava com toda a pinta de diretor de cinema em ascensão de carreira.

- Tina, essa tem que ser a última interrupção, oquei? Senão eu desisto. A gente tem que acabar a carta e ainda tem mais duas cenas de sexo pra rodar. Não dá pra fazer qualquer tipo de exercício criativo aqui dentro. Não com esse barulho e com essas interrupções.

- Tudo bem, amor. Já falei com o meu pai e ele não vai mais encher o saco.
- Tomara. Então vamos continuar. Onde é que a gente parou mesmo, hein?

- Eu tava nessa parte aqui, ó: “escárnio, desesperança e lágrimas hipócritas. Estas são as flores do meu túmulo!”

- Hum... Essa parte eu adoro. Bom, então vamos lá. Um... Dois... E... Gravando!
Hugo estalou os dedos.

- Escárnio, desesperança e lágrimas hipócritas. Estas são as flores do meu túmulo! E você nada pode fazer a não ser se unir a eles. Cuspa-me! Com todo o amor que...

- Corta, corta! Lola, você tá se confessando com um padre? Você é uma mulher de merda que está prestes a se matar, porra! Seja mais dramática. E, deixa eu ver aqui... Eu imaginei um enquadramento que começaria assim...

Hugo juntou polegares e indicadores formando um quadro na frente dos olhos. Esticou os braços à frente do tronco, fechou um olho e inclinou um pouco o rosto de lado, assim como fazem alguns cineastas ou qualquer outro tipo de picareta que não sabe muito bem o que fazer. Começou a passear pelo mezanino nesta mesma posição. Andou de um lado para o outro por uns três minutos. Parava, coçava o queixo, se acocorava. Então decidiu.

- Vai ser assim... Olhem. O percurso sai da estante de livros. Na verdade, a primeira imagem vai ser do Sexus, do Henry Miller, que é muito foda, aliás. Depois a câmera vem aqui pela lateral, passa pela tubulação de esgoto no teto... Eu vou ficar um tempo ali... Depois desce até passar pela Lola lendo o texto e, finalmente, chega na televisão desligada.

- Por que a televisão desligada? – interferiu Lola. - Por que não ligamos num filme qualquer? Seria bem mais poético dessa forma.

- Porque não, Lola. Porque isso já foi decidido. A tv fica desligada, oquei? Vamos lá... Um... Dois... E...

- Eu concordo com a Lola, amor – dessa vez foi Tina quem interrompeu. – É muito mais lógico se ligarmos a tv.

- Puta que pariu, Tina! Vamos ver, então.

Hugo ligou a tv. Colocou no Canal Brasil. Estava passando um filme em que um sujeito babaca dançava como um retardado mental enquanto uma música tocava. A música era do Caetano Veloso. O irmão também era dele. O que dançava como um retardado mental. O filme também era dele. O roteiro, tudo. A cena durava uns cinco minutos. A mesma coisa. Uma música e um retardado mental dançando a música. Hugo adorou.

- Lindo, gente! "Cinema Falado", do Caetano. Esse cara é um gênio mesmo. Foda! Fica perfeito com esse filme passando. Vamos usar a tv ligada então. Vai ser uma ótima citação. Então... Um... Dois... E... Gravando!

- Escárnio, desesperança e lágrimas hipócritas. Estas são as flores do meu túmulo! E você nada pode fazer a não ser se unir a eles. Cuspa-me! Com todo o amor que tiver retorcido no seu estômago, com todo o afeto que eu não mais puder enxergar...

- Corta, corta, corta! Eu tava pensando... Preciso de uma coisa pro cenário. Um copo de vodca... Ali... Ao lado da Lola. Você consegue isso, Tina?

- Hum... Pode ser um copo com água em vez de vodca de verdade?

- É claro que não! Tem que ser vodca de verdade. Porra, o teu pai tem umas três garrafas no congelador e nunca bebeu nenhum gole de nada! Tem aquilo tudo só pra se exibir. Não custa nada pegar um copo da vodca dele. Pode ser daquela dinamarquesa mesmo. Vamo lá, Tina, produção, produção! – disse Hugo batendo as mãos. – Você não quer ser uma produtora?

- Meu pai vai ficar puto com isso. Eu tenho certeza.

- Sem o copo de vodca não tem filme. É só isso. Porra, eu aqui me esfolando pra fazer o filme e vocês duas não ajudam em nada.

- Claro. Você quer fazer tudo sozinho – disse Lola.

- Lola, vai tomar no cu, tá bom? Eu sou o diretor, quer que eu faça o quê?

- Não vão brigar de novo – disse Tina. – Esperem aí que eu vou buscar a vodca.

E foi até a cozinha.

Lá dentro, Lins chupava uma coxa de frango com molho enquanto Mara não tocava na comida, vendo a novela. Assim que Tina entrou Lins levantou os olhos até ela. Ela não disse nada e foi direto ao armário. Pegou um copo, abriu o congelador e pegou uma garrafa de Danska, que já tinha com uma grossa camada de gelo em volta, tanto tempo sem ser tocada. Encheu o copo até a metade e fechou a porta do freezer. Ia voltando para o mezanino, quando Lins:

- Não sabia que você bebia vodca segunda-feira na hora da novela.

- Pai, não enche! É pra filmagem.

- Vocês estão filmando o que exatamente? Uma sauna russa?

- Pai, você não ia entender, valeu?

- E por que você não enche um copo com água? É a mesma coisa.

- Porque o Hugo quer que seja com vodca. E ele é o diretor. Agora, se vocês me dão licença...

E saiu. Lins terminou com os ossos secos no prato. Estava com molho nos cantos da boca e na ponta do nariz. Limpou os cantos da boca. Levou seu prato até a pia.

- Lins, pode deixar que eu lavo depois – disse Mara. – Pra não fazer barulho.

Mara levantou-se também e jogou sua comida no lixo. Estava praticamente intacta. Mas não tinha muita coisa no prato de qualquer forma. Lins não disse nada quanto a isso. Simplesmente se aproximou por trás de Mara e enfiou a mão por dentro da seu calção folgado, ela de frente para a pia. Enfiou a mão por baixo, pela abertura do calçao para as pernas. Mara estremeceu um pouco e Lins chupou sua orelha direita exatamente como se fosse uma coxa de frango com molho. Ela estremeceu novamente e apoiou-se com as duas mãos na pia. Lins continuou pressionando o corpo de Mara junto à pia, lambendo-lhe o buraco do ouvido. Sabia as estratégias. Ela rebolava no pau de Lins, que estava chegando lá. Começaram com um movimento ondular cíclico. Mara estava ofegante. Meio caminho andado. Lins estava com os olhos fechados e tinha alguns problemas agora com o papel celofane enrolado na cabeça de Mara, com os dispositivos, enfim, estava ficando difícil. De repente um prato escorregou da pia e caiu no chão, partindo-se ao meio. Mara desligou completamente. Lins não.

(Cochichando)

- Puta merda, Lins! Olha só o que você fez. Olha o barulho que fez.

- Não fui eu. Fomos nós. – E Lins voltou a se encaixar na bunda de Mara.

- Sai, sai, sai! Você não vê que acabou o clima?

- Não vejo, não. Olha aqui, o meu pau explodindo. Não acabou nada.

- Às vezes você me assusta, sabia?

- Queria assustar mais.

- Pára de bobagem, homem. Eu vou me deitar – e se agachou para colher os cacos e jogá-los no lixo. – Você apaga as luzes todas quando subir, por favor?

- Mas, Mara!

- SHHHHHHHHHHHHHH!!!

E Mara subiu. Lins foi até a sala e apagou as luzes uma a uma. Depois voltou no escuro até a cozinha e abriu o Drambuie. Serviu um copo e pegou outra cerveja na geladeira. Apagou as luzes da cozinha também e ficou ali na penumbra, em frente à pia, com as mãos apoiadas, olhando pela janela. Na casa vizinha havia um galo de madeira numa haste enorme que ficava com as asas girando conforme o vento. Estava com bastante vento dessa vez e as asas rodavam sem parar. Lins ficou olhando para aquilo durante um tempo. Depois sentou e ficou olhando para o teto. O pau inchado ainda estava lá dentro do calção florido e ridículo. Lins era apenas mais uma personagem que iria morrer muito em breve, como a personagem de Lola, lá em cima. Terminou seu licor, sua cerveja, então subiu as escadas no escuro, apalpando as paredes e se arrastando para não fazer muito barulho.

Quando ia passando em frente ao mezanino, resolveu parar para ouvir o que estava acontecendo lá dentro uma última vez antes de se deitar. Encostou a orelha na porta e ficou.

- Ui, ai, ai, ai, vai, não pára... Ufff! Lágrimas e escárnio... Vai! Ai, vai, mete, mete! Shhhhh! Você não sabe a dor... Vai, lá no fundo, vai, mete fundo, porra! Ai, ai, ai, ai, ai, ai, AAAAAaaaaaaaaaaaaaiiiiiii!

Lins tentou ver pelo buraco da fechadura. Não conseguiu ver nada. Mas nem precisava. Eram um homem, sua filha e uma amiga ali dentro. Ficou lá mais três minutos, quando todo e qualquer barulho cessou. A escada rangeu quando ele tentou se virar. Então subiu em disparada.

Entrou no quarto e Mara roncava. Roncava desde a época em que haviam se casado. Isso não era um problema. Mas era sempre a mesma coisa. Lins encostou a porta do quarto e foi até o banheiro. Estava atônito. Precisava de alguma coisa. No meio do caminho ainda parou em frente ao aparador e folheou um dos exemplares da revista REALIDADE, que ele guardava com muito carinho, achando que um dia aquilo tudo daria algum dinheiro num leilão para velhos obcecados.

Por fim entrou no banheiro, sentou na privada tampada e respirou fundo. Mas não conseguia controlar o fôlego. Ai, ai, ai, ai, Ui, mete, mete fundo! Isso ia e vinha o tempo todo, zunindo no seu ouvido. Estava trêmulo e com tesão. Principalmente trêmulo. Olhou para a porta do blindex e viu uma calcinha preta de renda transparente torcida e pendurada, recém-lavada. Pegou a calcinha, depois a retorceu e expôs seu forro contra a luz do banheiro, procurando um pentelho solto. Encontrou um e imediatamente o levou à boca. Sentou novamente na tampa da privada, arrancou o calção florido e ridículo e fechou os olhos, com a calcinha apertada junto ao nariz. O cheiro era bom. Ranço de buceta e sabonete misturados.

A calcinha devia ser de Mara. Mas primeiro ele imaginou que fosse de Lola, ele vindo por trás dela, ela parada e arrebitada, ele puxando seus cabelos com força e dizendo coisas sujas. Depois imaginou que fosse de Tina. Depois pensou em deus. Estranhamente ele veio à sua cabeça. Então tentou com Mara mas não conseguiu se concentrar. Daí voltou para Lola, ele descendo até sua cintura, lhe mordendo os grandes lábios e a fazendo urrar de prazer. Então lhe veio à cabeça a Aldine Müller. Ficou com a Aldine. Gostava dela. Depois se encheu de imaginar coisas e gozou de olhos fechados, tristes por dentro da capa de pele murcha. Só faltava agora se limpar para dormir ao lado da mulher que roncava. E amanhã talvez, quem sabe.




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