sexta-feira, 15 de agosto de 2008

HOMEM-COTOCO >> Leonardo Marona

Ali está ele, sobrando em calças velhas, espalhado pelas calçadas da cidade em que não há mais tempo, catando latas e pequenos bibelôs ou pedaços de coisas quebradas.

O homem de poucos membros principalmente sorri. Só existe desespero nos que são vaidosos a ponto de sentirem que têm muito a perder. O homem-cotoco magistralmente sorri, pois dificilmente perderá mais alguma coisa, e nem a vida é mais alguma coisa. O homem-cotoco sorri porque não está na disputa imbecil pelo tempo. Ele está dissolvido no cimento entre carros e restos de macarrão que as pombas renegaram.

O homem-cotoco sorri, eis a cena deplorável. O homem-cotoco, apesar de tudo, é mais feliz do que você e eu. Ele não tem pelo que existir e, portanto, tem direito a uma felicidade sublime, posto que não é uma felicidade material. A felicidade do homem-cotoco desnuda o homem de fé. Nada poderia ser mais cristão que a felicidade do homem-cotoco. Um homem que passou por uma provação e por isso pode sorrir como quem tem direito a isso, por ter passado por aquilo. O homem-cotoco está ao lado de Cristo, Joana D’Arc, Madre Teresa, James Mason.

Além do mais o homem-cotoco não sabe que não tem do que rir, e esse é o melhor motivo pelo qual um ri. É como algo que se espera muito. Enquanto se espera pela coisa, sente-se tremedeiras, dorme-se mal, anseia-se horrivelmente pela coisa, conta-se os dias e o estômago se retorce. Misteriosamente, pouco antes de a coisa acontecer, a alma se embota e o sangue foge à face, então somos tomados por um completo desinteresse pela possibilidade iminente da coisa.

Mas com o homem-cotoco não há possibilidade iminente. Ele é uma possibilidade resolvida para sempre. Pelo fato de a felicidade dos homens saudáveis ser no fundo um embuste, uma fábula que não se completa nada bem, pois que o homem saudável só é feliz enquanto espera, o homem-cotoco, por não fazer nada além de esperar, sente-se genuinamente livre do pavor da proximidade de qualquer concretização. É portanto feliz e mora num eterno interstício.

Enquanto isso, olhamos para o homem-cotoco, o feliz e satisfeito homem de poucos membros, e negamos a ele uma moeda ou ao menos os dentes. E dizemos que é porque não temos moeda, mas temos. E temos dentes também, apenas não mostramos e os deixamos apodrecer numa cena lamentável. Moedas, as temos muitas, não gostamos delas inclusive. Aliás, muitas vezes não sabemos o que fazer com elas. Elas provavelmente acabarão um dia no câmbio negro.

Não damos nossas moedas inúteis ao homem-cotoco porque precisamos esconder a nossa hipocrisia. Porque se déssemos seria como ser cúmplice de um sistema opressor de classes falido e corrupto que não repassa devidamente o dinheiro capitalizado pelos altos impostos etc e tal.

Mas no fundo queremos que o homem-cotoco desapareça com seu sorriso genuíno. Queremos que ele morra porque é mais feliz do que nós e não tem nada. Queremos que ele suma porque ele é a prova mais clara da nossa frustração. Ele deve, sim, desaparecer porque olhamos para ele e vemos nós mesmos desesperados e com pressa para sermos açoitados numa espécie de repartição sem fim. Devemos tirá-lo do mapa, o homem-cotoco, pois ele é a verdade inconcebível, que mora nua no fundo de um poço.

O homem-cotoco permanece entre a pastelaria chinesa e o amolador de facas. Ele sacode as moedas dentro do copo de plástico. Acima de tudo ele sorri. Seu sorriso é quase um desaforo e, por isso, ou damos dinheiro ou ignoramos, das duas uma, dois jeitos de chamar a morte. Porque foi descoberto que a morte vem da falta de atenção e da ganância. E o homem-cotoco é um ultraje, uma prova de que somos desatentos, se passamos reto. E uma prova de que somos gananciosos, se jogamos moedas.

Mas uma senhora surge num belíssimo carro, abre a janela e sorri para o homem-cotoco. Isso é uma revelação quase mítica e um clarão, uma aura absurdamente clara parece envolver a cena. O homem-cotoco se aproxima com as palmas das mãos sobre o asfalto quente, a senhora lhe coloca um cigarro na boca, acende o cigarro. Eles riem, sorriem, eles estão com as bochechas vermelhas. Conversam sobre algum assunto e o homem-cotoco parece estar dando à senhora algum conselho, pois permanece sorrindo, mas ela não. Seus traços estão suaves, mas compelidos. Algumas pessoas tropeçam nas calçadas diante da cena. Outras passam aos cochichos, indignadas.

A senhora abre a porta do carro, as pernas de seda, o salto de bico preto bem-polido. Ela se agacha e beija o homem-cotoco na testa, depois nos olhos, então na boca. O homem-cotoco segura as nádegas da senhora com suas mãos, enormes como pés. A senhora volta para o carro, bate a porta, buzina duas vezes e vai embora. Eles acenam um ao outro. O chinês da pastelaria sai de trás do balcão com o pano de prato na testa. A senhora rica dos cabelos vermelhos extravagantes não havia jogado moedas nem ignorado o homem-cotoco. A senhora era a vida ínfima, o que sobra ao eterno recomeço. A vida pura, que passa pelas brechas e encontra o sórdido sem asas, correndo de volta para a caverna. É quando deus se contradiz e nos sentimos mortos. E estamos por um triz, mas temos pernas.


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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, impressionante essa sua facilidade de viajar ao submundo humano! Dá gosto de observar cada detalhe!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, esse comentário será egoísta, só pra facilitar meu futuro trabalho. No dia em que eu resolver atender aos apelos de reunir algumas das crônicas do dia em livro, essa sua já está dentro. Uma crônica clássica!

leonardo marona disse...

poxa, edu, egoísta, vc diz? isso é uma lisonja, e me deixa muito orgulhoso. obrigado mesmo pela leitura e pela consideração em alta cota.

aquele abraço,

leo.