quarta-feira, 27 de agosto de 2008

INTERIORES >> Carla Dias >>

Neste instante, talvez em outro, quem sabe? Minha existência confronta a serenidade. A intranqüilidade faz desconfortável a estadia neste universo novo em folha; envelhecido pela pressa com a qual seus habitantes constroem seus palácios, seja no mais requintado da alvenaria ou na emenda dos apodrecidos sarrafos.

Pense nela como a mulher que sabe que desejo nem sempre casa com realização. Quem não acredita que podemos tudo, pois tudo é sempre a mais, é extra, é o que não nos cabe. Ela acredita que o que nos cabe é um tudo disfarçado de fragmentada realização, então prefere saborear isso ao excesso impregnado de significativas perdas.

Mansões ou favelas comungam, atiçados um pela sorte do outro. O rico que esperneia para não empobrecer. O pobre sapateia para não engolir de vez a miséria. Há dores em cada lar desses, assim como há alegrias.

Pense nele como quem desvenda desfechos, correndo sempre atrás de uma nova oportunidade. Quem não se conforma com limites, joga-se ao imprevisível como fosse capaz de ler futuro nos olhos dele. A ousadia exposta nas suas palavras alimenta a intensidade da determinação que cultiva.

Mudam as batalhas, mas não as buscas. Todos nós desejamos o conforto de uma quase-felicidade, porque, no fundo, não estamos preparados para inquietação provocada pela total ausência dela. Também desejamos as certezas imobiliárias, o salário garantido; a condição de cidadão capacitado para viver em sociedade. São desejos pragmáticos, regados (em cumplicidade) pela euforia do desvario.

O que nos define nem sempre é claro. O mármore do chão toca friamente as solas dos nossos pés; os saltos batucam canções nas calçadas. Por isso alguns choram e outros dançam.

Ainda que cansado do que considera freqüentes provas de fé, ele regressa ao abraço dela sem vontade, ao menos hoje, de incitá-la a sentir o que ele sente, diante da vida. Ela, por sua vez, entoa uma canção sem letra, tirada de algum tempo da sua infância, que lhe faz bem ao conceder abrigo.

O pobre de espírito vocifera calunias aos deuses que desconhece. O rico em sabedoria observa silêncios, concebendo árias futuras. O moleque que vive na rua enfia o nariz na vitrine e sorri para um terno de fino corte, mas logo volta ao grupo de amigos para bater uma bola. O magnata remói saudade, sentado à sua escrivaninha imponente.


Imagem: Jander Minesso >>> http://www.flickr.com/photos/tantofaz

www.carladias.com



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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Isso é o que chamo de caleidoscópio de gente! :)

Marisa Nascimento disse...

Carla, que texto ritmado com cenário de fundo teatral. Amei!! Parabéns!!

instantes e momentos disse...

muito bom. A foto em complemento, belo post.
Tenha um belo final de semana.
Maurizio

Carla Dias disse...

Eduardo, Marisa e Maurizio...

Obrigada pelo comentários. É sempre um prazer saber como um texto de nossa autoria toca a alma do outro.

Bjs!