sábado, 31 de agosto de 2013

REFLEXÕES SOBRE A SÉTIMA DÉCADA [Heloisa Reis]

Desceeeendoooo...? Será?

Sensações, constatações, sinais de que a porta de saída está mais próxima e é real, existe mesmo... A trajetória de vida é tão vasta, são tantas as lembranças, que percebemos que as coisas mudam mesmo que pareçam ser as mesmas...

Nossa apreensão da realidade é que muda. Pode ser que os sentidos já não tão aguçados desenvolvam-se mais internamente. As intuições passam a ser muito mais importantes, e as vontades mais controladas. Já não se precisa provar nada a ninguém. Apenas precisa-se viver cada dia com sua qualidade especial , descobrir-se seu sabor de novidade e suas particularidades únicas mesmo que repetidamente.

Recursos criativos são a chave. Mudar hábitos frequentemente, lembrar de coisas, prestar atenção, buscar e re-buscar a vitalidade – são os segredos.

Terceira idade? Quarta? Sem bengalas, ou com elas, o estímulo do encontro com a essência desenvolve ainda mais a intuição, aplica a sabedoria adquirida nos sucessos e nos fracassos, em busca da manifestação do mais alto grau do Amor. O incondicional. Pura sabedoria de integração do conhecimento adquirido com a vivência realizada.
O que há ainda por realizar? Onde encontrar a vitalidade necessária para a superação das conseqüências do tempo? Na abertura às mudanças, pode ser uma resposta. Na busca do Amor Incondicional, outra. Na integração corpo-mente-espírito, talvez outra ainda. Cada um vai encontrar a sua. Certo é que pintar, bordar, fazer estrepolias, escrever, passear, viajar, ousar, ler, etc. e tal, nos ajudam a mudar a visão de mundo e a aceitar a própria vida como ela é.

Preconceitos... para que os queremos? Deixemos o sol entrar e aquecer nossos corações na direção do outro – ser muito mais importante que nós mesmos! Xô hábitos arraigados! Liberdade para as borboletas! Transformações à vista! Corpo mais leve... calor interior, florescendo, tornando-se transparente, espírito à tona, envelhecer bem. É possível!

É o universo em transformação, subiiindoooo! Eu? Apenas estou me preparando... falta pouco ainda!

*Ilustração: Obra da Artista. Série “Conurbações”. Cerâmica e tintas acrílicas sobre madeira.

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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

PELA ÚLTIMA VEZ >> Zoraya Cesar

Sempre fui apaixonado por ela. Aliás, sempre tive uma queda por femmes fatales, pistoleiras, periguetes, mulheres que levam um homem desavisado à desgraça. Se você reparar bem, todos esses epítetos fazem referência à fatalidade, perigo, morte. Muitas vezes, no sentido literal. 

Karla nunca prestou. Desde pequena usava sua beleza e poder de sedução para manipular os outros e conseguir o que queria. Sua tia-avó dizia que uma morena de olhos verdes nascida em família pobre jamais seria uma mulher direita. Karla cumpriu fielmente o vaticínio da tia-avó, talvez a única coisa à qual tenha sido fiel na vida. Crescemos juntos, eu sempre babando por ela, e, até nos separarmos à época do vestibular, ela fazia de mim o que queria. Cada vez que me traía ou escorraçava eu dizia que era a última vez, mas sempre voltava ao primeiro estalar de dedos. Meu consolo, se é que há consolo na fraqueza, era vê-la fazer isso com todos os homens. 

Karla era linda e gostosa, poderia ser modelo internacional, capa de revista, qualquer coisa. Inteligente, também, tirava boas notas sem estudar, podia ser engenheira, advogada, o que quisesse. Mas não quis.

Já no colégio se envolveu com o traficantezinho local. Cada um escolhe o seu destino, acredito. Mas sabe Deus se o ódio que eu sentia por aquele delinqüente que a beijava não despertou meu desejo de ser policial - para desespero da minha família, batistas pacatos que acreditavam ser a justiça dos homens obra do diabo. Tornei-me um bom investigador; melhor, aliás, do que minhas notas no colégio faziam antever, e gostava do meu trabalho. Estava quase achando que era feliz, quando Karla cruzou o meu caminho de novo, depois de anos afastados. 

Também ela escolhera seu destino. 

Irresistível e astuciosa, Karla seduziu o contador de uma importante firma de exportações, convencendo-o a lavar dinheiro para um amigo. O sujeito era um burguesinho barrigudo e feio, não teve chance com ela. Apaixonado por aquela deusa, o contador não só lavou o dinheiro como ainda desviou algum para sustentar os luxos de sua adorada. Homens são bichos tolos. E esse contador era um espécime perfeito. E porque não tinha muito jeito para bandido, acabou sendo descoberto e preso.

Karla armou tudo tão bem, que saiu da situação com um bom dinheiro e não foi sequer chamuscada pelo incêndio que destruiu a vida do desinfeliz, o primeiro de uma extensa lista de homens que caíram na ignomínia por sua causa. Foi também o primeiro de seus crimes de grande porte. Karla alçou vôos maiores e, quando tive notícias dela, estava sendo procurada por tráfico internacional de obras de arte. Fez todo o sentido para mim. Uma obra de arte cuidando de outras, mesmo que de maneira tortuosa, como sempre fora seu jeito.

Os caminhos se cruzaram nessa fase. Karla, uma marchand do crime; eu, um delegado da Polícia Civil, de plantão naquela segunda-feira chuvosa, na qual ela fora presa por dirigir alcoolizada – mesmo os mais inteligentes fazem bobagem de vez em quando. Mal acreditei quando a vi entrando na minha delegacia. Nos reconhecemos imediatamente; meus joelhos viraram gelatina, minhas mãos tremeram. Dispensei a equipe, tinha que ficar sozinho com ela alguns momentos, antes de o agente da Polícia Federal chegar.

A carceragem estava vazia. Abri a porta. Entrei. Mantive, no entanto, alguma distância entre nós, não estava muito seguro das minhas reações. Ela estava ainda mais linda que minhas memórias.

- Então – sorriu Karla, fazendo minhas entranhas darem um nó – parabéns, virou pessoa importante, delegado...

- Não mais importante que você, procurada até pela Interpol – disse eu, a boca seca.

Ela gargalhou, e a risada dela agiu como um ímã sobre mim. Cheguei mais perto.

- Eficiente e certinho como você sempre foi, já deve ter chamado a Polícia Federal, não é?

- Sim. 

Ela suspirou, e seus seios, livres sob o vestido vermelho, balançaram, sacudindo também minhas estruturas.

-– E por que você está tão longe, querido, tá com medo de quê?

De mim, pensei, me aproximando mais e abraçando-a pela cintura. Apertei-a contra meu corpo, mordi seu pescoço, e seu cheiro me deixou tão inebriado que custei a conectar o barulho surdo que ouvira com a dor aguda que senti logo em seguida.  

Pelos breves instantes em que me perdi em sonhos, como um calouro qualquer, a sempre prática Karla pegou minha arma e atirou em mim. Ela atirou em mim! Meus joelhos se dobraram lentamente e eu caí no chão. A arma era uma Taurus .38SPL que me atingiu à queima-roupa, traçando meu destino. Mesmo os mais inteligentes...

- Me desculpe querido, mas agora que estou rica não poderia envelhecer na cadeia. Você vai ficar bem. Acho – e saiu rindo, passando por cima de mim com seus saltos altos de bico fino. 

Ouvi o clapt-clapt dos sapatos se afastando, junto com o perfume, tão doce que me senti enjoado. Ou talvez fosse o cheiro do meu sangue se esvaindo caudalosamente que me deixava assim. Ainda vi Karla se virar para trás, me atirar um beijo e, sorrindo, ir embora, pela última vez.




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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

SABER GANHAR >> Fernanda Pinho




Ganho muito mais presente do que eu espero e do que eu mereço. E isso vem desde sempre. Tenho várias fotos minhas em diferentes aniversários soterrada por uma montanha de presentes. Muitos repetidos. Sempre havia mais de uma pessoa interessada em me dar o brinquedo da moda. Mesmo depois de adulta e já tendo abandonado as festinhas, continuei sendo presenteada no meu aniversário e, principalmente, aleatoriamente. Vira e mexe ganho alguma coisa de alguém.

Já atribui isso à minha sorte, mas analisando bem, acho que existem outras explicações (se você não ganha muitos presentes e gostaria de up na situação, tome nota).

1 – Eu gosto de qualquer coisa. Me julguem, mas eu sou assim. Tenho uma tendência a achar que tudo está bom, bonito, barato. E quando chega até a mim sem o menor esforço da minha parte, melhor ainda. Além disso, em se tratando de presente, eu sempre levo em consideração o gesto, a intenção, o fato da pessoa ter pensado em mim e, se o carinho do outro não for motivo suficiente, o que será?. Pra não dizerem que não tenho personalidade, dou um exemplo: eu não gosto da cor azul. Então eu não compraria nada azul pra mim. Mas se eu ganho, uso até virar pano de chão.

2 – Faço coleção. De girafas. Se você não sabe disso, prazer, Fernanda. Todo mundo que me conhece já foi devidamente comunicado do fato e, sem querer, criei uma estratégia de marketing pessoal incrível. Me conhece e vê uma girafa? Lembra de mim. Então diariamente eu ganho fotos de girafas no mundo virtual e, frequentemente, no mundo real, ganho pelúcias, esculturas, chaveiros, bijuterias, camisetas e uma infinidade de objetos girafescos. Vejam bem, eu não peço, as pessoas simplesmente me dão e eu fico imensamente grata e feliz por isso. E aí chegamos ao terceiro tem.

3 – Eu demonstro satisfação com as coisas que eu ganho. Não fico inibida e não digo que não precisava (a pessoa sabe que não precisava. Mas resolveu me presentear por livre espontânea vontade, certo?). Minha única preocupação é conseguir demonstrar minha gratidão do jeitinho que eu a sinto. Sabe esse povo que mostra o presente pra todo mundo, que quer arrancar a roupa e botar a que ganho na hora? Sou dessas.  Às vezes até choro. Ser for livro, então, começo a beijar as páginas, uma sem-vergonhice danada.

E sabe o que eu acho? Que talvez tenha escrito os dois primeiros itens só pra dar emoção, porque sinto que  o terceiro é o fator determinante. Meu marido já comentou como quem não quer nada (ou talvez como quem quer ganhar mais presentes) que a mãe dele dá mais presentes pra mim que pra ele. Por que será?

Cena 1: Eu recebendo um presente de minha sogra:
Ai, que lindo, é a minha cara. Muito obrigada! Não acredito, lembrou de mim outra vez. Vou usar hoje, combina com minhas botas. Posso usar aqui no Chile e no Brasil também...

Cena 2: Meu marido recebendo um presente da minha sogra:
Obrigada, mãe. Vou ver se fica bom. Veio com nota fiscal para troca?

Quer dizer...

Menos mal que ele é assim só com presente. Com outras coisas costuma ser bastante grato. O problema é quando a pessoa é assim com tudo na vida.  Nada está bom. Tudo é insuficiente. Sempre existe um “porém”.  Recebe milagres e nem se dá conta, de tão ocupado que está procurando problemas. Todo mundo fala sobre saber perder. É importante, também acho. Mas talvez saber ganhar seja tão importante quanto. Uma hora a vida cansa de tanta apatia e ingratidão e para de dar presentes. Aí eu quero ver.


(Esse texto não tem nada a ver com o fato do meu aniversário ser agora em setembro. Juro!) 


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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

DESABRACE >> Carla Dias >>


Desabrace.

É o que posso lhe aconselhar no momento, que não fiz faculdade de aconselhadora sobre técnicas para desatar nós, que meu método autodidata pode lhe fazer sofrer desaforos enviuvados da delicadeza. E nem pensar em lhe colocar esse peso na alma.

Só que você precisa compreender que desabraçar é de necessidade urgente. A vida não nos espera para acontecer, e as frases feitas a respeito disso, desse movimento que não se permite influenciar pelos nossos desejos pessoais, elas são mais do que repetições amparadas pelos artifícios dos partidários da – e beneficiados pela - autoajuda. Elas são verdades sem verniz.

Não vou embelezar um discurso disfarçado de sábio, meteórico, profundamente correto. A verdade, tão sem verniz quanto as tais frases feitas, é que meu coração, o músculo, o dono do batuque que me coloca de pé a cada dia, e seu véu de sensibilidade, que preenche de nuances o repertório das emoções, detectaram em mim uma cobiça indiscreta em lhe desejar o melhor. E quer saber? Nem sempre do melhor vêm os melhores desfechos. O considerado melhor pode ser - em um nível mais pessoal impossível - cavoucado do umbigo das nossas expectativas, tão frágil, parido aos trancos e barrancos, trincado de nascença.

Bom seria se você desabraçasse, feito bailarino concluindo coreografia requintada, que assim esse pouco de leveza poderia adornar as cruezas, amansar infortúnios, quem sabe lhe salvar o gosto na boca. Que ele viesse agridoce, sem pender para lado que fosse. Que viesse acalentador, sem limite de duração. Fosse anfitrião para os acenos da tranquilidade.

Como observadora das suas querenças, e acolhedora dos seus sonhos, partidária das suas vontades, eu lhe informo, com o pesar próprio de mensageiro de notícias indigestas, que o mundo jamais chegará à perfeição de caber nas suas expectativas. E amém por isso, meu caro, que a linearidade é uma dona paparicada pelos bons modos, que não se exalta mediante problemas ou felicidade. E o que seriam dos rompantes se ela reinasse soberana? O que seriam dos beijos apaixonados, das decisões desafiadoras, dos mergulhos interiores?

Não seriam.

Por isso lhe digo, vestida com a minha condição de itinerante do seu afeto, que desabraçar é de necessidade real. Apesar de parecer adequado e confortável, de soar bom, acalentador. Sem qualquer habilidade em sucumbir ao desejo intermitente de fazer de tudo para não lhe ferir - ainda que me ignore por um tempo ou dois, que não me enxergue por três décadas ou quatro -, eu sei que tenho de lhe abrir os olhos. Tenho de ensiná-lo a compreender que, vez ou outra, é preciso desabraçar, espreguiçar-se demoradamente. Olhar para o céu, banhar-se no mar e abrir os braços para que sejam bem-vindos os novos acontecimentos. E ainda que haja repetição, a hora é outro, o motivo: outro.

Que ao se desabraçar das desculpas para manter a si intacto à vida, você também se permita buscar outras palavras, as fisgadas por beijos roubados, confissões espontâneas, declarações de afeto. As desinibidas, que ate então se mantiveram silenciosas, ainda que barulhentas na sua cabeça.

Desabrace para abraçar, meu caro.


Imagem: sxc.hu




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terça-feira, 27 de agosto de 2013

VOCÊ TEM DIREITO A TRÊS PEDIDOS >> Clara Braga

Saber pedir é uma arte. Me lembro de quando era menor e assisti a um episódio de um desses seriados que tinham na época, acho que era Blossom ou Clarissa ou algo do tipo, não me lembro bem. Em um dos episódios, uma fada madrinha aparecia e dizia para a protagonista que ela tinha direito a fazer os famosos três pedidos. A menina ficava confusa e pedia algumas coisas que a fada não considerava muito importantes, então, a criticava e dizia que sentia falta das pessoas que sabiam pedir, como uma menina que seu primeiro pedido foi poder fazer mais mil pedidos.

Eu não acredito em fadas madrinhas nem em gênios da lâmpada, mas atire a primeira pedra quem nunca quis poder fazer os tais três pedidos. Apesar de não acreditar nessas coisas, eu acredito que quando a gente quer algo de verdade e realmente pede que esse algo aconteça, a gente manda algum tipo de energia pro universo e de alguma forma existe chance daquele algo acontecer, desde que a gente acredite que pode acontecer. Deu para entender mais ou menos ou é muita loucura da minha cabeça?

Bom, por mais besteira que possa parecer, eu realmente acredito nisso e tomo muito cuidado com as coisas que eu peço, pra não acabar jogando energia negativa por ai, sei lá, por exemplo, eu não desejo que ninguém fique doente nem que morra, a pessoa não vai morrer só porque eu desejei, mas a energia que eu estou passando com certeza não é boa nem para ela e muito menos para mim.

O problema é que normalmente a gente só percebe que pediu errado depois que o pedido já foi atendido. Há pouco tempo, se eu tivesse a chance de fazer três pedidos o primeiro seria poder fazer mais mil, assim como eu aprendi no seriado, e o segundo seria para que surgissem coisas mais interessantes para fazer aqui em Brasília, que a programação cultural melhorasse e que fosse possível trazer para cá os grandes shows que eu morro de vontade de ver mas que só vão para São Paulo e Rio de Janeiro.

Eu já quis tanto isso que nesse mês estamos tendo aqui o cena contemporânea, que é um festival de teatro muito bom, o porão do rock, festival de bandas de rock e o cirque du soleil. Mês que vem tem o show da Beyonce e no outro tem o show do Aerosmith com abertura do Whitesnake. Vai dizer que meu pedido não está sendo atendido? Com certeza está, o problema é que antes de pedir para que tivesse muitas coisas interessantes para fazer aqui eu devia ter pedido para eu arrumar um emprego que me pagasse bem, porque com salário de estagiária está difícil conciliar a programação com o bolso!


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domingo, 25 de agosto de 2013

A DEDICATÓRIA >> Whisner Fraga

O livro estava em destaque na estante e minha mãe ficava radiante quando alguém o via e perguntava qual assunto ele abordava. Ela aproveitava para mostrar a dedicatória na folha de rosto: "A queridíssima Izolina, com profunda admiração e carinho, de sua amiga, Fulana de Tal". Não me lembro o nome da autora e tampouco o título da obra. Em duas ou três vezes em que estive em Uberlândia, ela me perguntou se eu sabia algo sobre o autógrafo. Não, eu não fazia ideia.

Então ela relia o pequeno texto e tentava decifrar a idade daquelas frases. O livro fora lançado em 1973, disso eu me recordo bem, mas a bonita inscrição datava de 1998 ou algo do tipo. Questionava-me se era coisa minha, se eu solicitara à autora que assinasse. Não, não mesmo. Então ela pedia para que eu examinasse outra vez a letra, que era até familiar para mim, mas nada além disso. Daí, ela franzia as sobrancelhas, tentava recuperar algo perdido na memória e, com um suspiro doído, recolocava o exemplar em seu lugar de honra.

Em outra ocasião eu revia aqueles caracteres quando meu irmão chegou. Mamãe imediatamente requisitou a ajuda dele, que, sério, seriíssimo, alegou desconhecer completamente qualquer detalhe daquele oferecimento. Disse que talvez alguma amiga dela fosse a responsável. Dona Izolina o encarou, fez cara de descontente e concluiu que não era nada daquilo. Era um mistério, isso sim.

Como nada daquela história nos afetava, esquecíamos o assunto tão logo o livro de autoajuda era recolocado na prateleira. Só que, para minha mãe, a coisa toda fazia muita diferença. Para ela havia uma pessoa famosa, uma sábia,que a considerava amiga e que tivera a consideração de lhe escrever algo tão bonito, tão sensível. E ela não podia simplesmente esquecer que tinha uma conhecida tão chique. E me questionava: "Essa editora é conhecida, não é? É uma editora grande, né?" Sim, eu replicava.

Era setembro e combináramos, eu, minha irmã, sobrinha, irmão e mãe, de ir a um boteco vizinho para comer uns espetinhos e beber uma cerveja. Sempre que podemos vamos ao bar do Pedrão, que fica bem no centro da cidade. Naquela esquina, certa vez, sequestraram meu irmão e roubaram seu carro. Abandonaram a caminhonete em uma fazenda a 50 km dali - certamente eram bandidos fugindo de algum outro crime.

Acertamos de nos encontrar no apartamento de mamãe, que nunca havia mostrado a dedicatória à minha irmã. Aproveitou a ocasião, sacou a obra da estante e falou: "Você conhece essa pessoa? Sabe como foi que ela autografou esse livro para mim?" Ariadne começou a rir, continuou a rir, gargalhou e não queria dar uma pista sequer. Deixou Dona Izolina maluca. Ao fim de dez ou quinze minutos de tortura, ela soltou: "Essa letra é do Weslei". Minha mãe fez cara de "Como assim?" Certeza, a letra é do Weslei. Meu irmão, lá do canto, não se aguentava mais. Sim, a letra era dele. Depois de cinco anos de mistério, descobríamos que tudo não passava de uma sacanagem que meu irmão fizera com mamãe.


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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A ATMOSFERA LOUCA DE UM BANHEIRO DE ACADEMIA >> Mariana Scherma

Reza a lenda de que os homens sentem uma curiosidade monstra de saber o que as mulheres tanto conversam no banheiro. Confere? Bom, eu só frequento banheiros femininos desde que nasci por razões óbvias e, confesso, ando meio cansada desse bate-papo, principalmente no banheiro da academia, onde a gente toma banho – fator que prolonga um pouco mais as discussões de mulherzinha. Admito que nunca aprendi nada nesses momentos entre uma passada de xampu e outra de condicionador. Só desenvolvi a curiosidade de saber o que os homens conversam no banheiro masculino, na esperança de ser um papo mais divertido. Porque você sabe, a grama é sempre mais verde do outro lado...

Alguma coisa na atmosfera do banheiro da academia deve forçar as mulheres a falar de dieta, comida e quem pode ou não usar calça legging. Acho que não é culpa nossa essa paranoia, deve ser o vapor dos chuveiros pós-ginástica, só pode. Dia desses, quando entrei esbaforida para o meu banho, a cena foi impagável. Uma mulher no centro da roda e outras quatro em volta recebendo dicas de regime: “não compre pacotes grandes de bolacha, compre aqueles individuais da Bel Vita, assim você não come o pacote inteiro!”. “Não coma bolachas recheadas, duas delas fazem você perder todo o seu treino”. Ainda não sei, mas acho que a fulana tem ações da Bel Vita, sei lá... Tentei vestir minha capa da invisibilidade e fui correndo pro chuveiro, mas me detectaram e me chamaram pra conversa: “o que você come no café da manhã?”. “Como uma banana com iogurte e tomo café”, respondi já entrando no chuveiro. Mas elas não se contentaram, queriam saber qual iogurte, se é light ou não e blábláblá. Ah, e se coloco açúcar ou adoçante no café. Porque se eu coloco açúcar, também perco meu treino. Oi?

Só sei que quando terminei o banho, a fulana do meio da roda estava passando uma receita de torta de brócolis com ricota para suas seguidoras. Nisso, entrou uma outra mulher no banheiro e sugeriu que ela fizesse com queijo cottage light, que tem menos gordura ou menos algo do tipo. Menos sabor, de certo. Será que toda academia tem esse bate-papo? Será que quase toda mulher no mundo é viciada em falar de regime? Será que as intelectuais também conversam sobre como cortar calorias? Fiquei pensando se as grandes pensadoras que fazem academia se juntam nesse tipo de conversa. Como se o banheiro da academia tivesse uma dimensão que deixa toda a intelectualidade de fora... Será que se a Simone de Beauvoir, se fizesse academia, trocaria receitinhas e sugestões da Bel Vita da época com as colegas? Eu sou o tipo de pensadora que só pensa besteira, sou uma intelectual bem meia boca, mas tenho a maior preguiça dessa conversa de regime. Malho porque adoro a sensação de endorfina, pra repetir a sobremesa no domingo e – de forma nenhuma – compactuo com essa turma do banheiro. Ah, não mesmo.

E aí, fico viajando na cena: imagina se um homem desavisado entrasse no nosso banheiro e ouvisse a conversa. Sentiria tédio ou fome, no mínimo. Porque, pra mim, falar tanto de comida me faz sentir fome, só isso. Na sequência, ele contaria aos amigos o tipo de conversa que existe no banheiro das mulheres e o mito talvez morresse aí. Mas não rola generalizar os banheiros e as mulheres, porque eu ainda acredito que exista algum banheiro de academia por aí no qual as mulheres contem piada, falem um pouquinho de futebol e nem sonham em falar mal da roupa da fulana de corpo sarado. Se ela tem corpo sarado, ela pode usar legging. Ela pode usar legging branca se ela quiser. Se ela não tem, também pode. Ninguém paga as contas dela. Seria um banheiro dos sonhos. Se alguém souber de alguma academia onde role esse tipo de conversa, por favor, me avise. Enquanto isso, vou entrando muda e saindo calada, mas cheia de dicas sobre regime e com vontade de comer a bolachinha Bel Vita.

P.S.: fui fazer meu café e quase desisti do açúcar pra "não perder meu treino". Mas acho que café com adoçante não é coisa de Deus, não...


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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

VOCÊ DUVIDA? MAS FATO É: EU SEI CAMINHAR
>> Carla Dias >>


Eu gosto de caminhar. Falta-me, confesso, o tempo dos calibrados pela disposição. Morro de inveja de quem não usa a frase “trabalho demais, então, não dá”, porque ainda não encontrei esse botãozinho que se aperta para que dê. Minha amiga diz que tudo gira em torno de um botãozinho sapiente que nos desperta para capacidades que julgávamos impossíveis: o início da dieta, a visita aos pais, a confissão de amor secreto, a caminhada, a primeira de.

Eu já caminhei muito nessa vida, pode acreditar, porque não tenho motivo para mentir. Caminhei por prazer, mas também por necessidade, usando aqueles passos que nos cansam, antes mesmo de acontecerem, como se fossem inapropriados para a jornada.

Antes que reverberem advertências: não tenho preguiça de caminhar. Na verdade, é algo que me dá muito prazer, principalmente porque tenho gosto pela observação da arquitetura das casas, dos prédios, do residencial e do comercial. Gosto de observá-los, enquanto passo por eles, música se engraçando comigo pelo fone de ouvido. Até a arquitetura das pessoas eu gosto de observar. Assim como as casas e os prédios, elas têm personalidade. Algumas revidam meu olhar com indiferença, outras, com curiosidade. Há aqueles que sorriem para mim a troco de contemplação. Em dia de boa sorte, há pessoas que me dizem gentilezas, emendando, mesmo sem saberem, a minha fé na humanidade.

Caminhar também incita o meu sonhamento. Quer me ver sonhar acordada é me botar para caminhar um caminho longo, longo, mas que não grite por retorno imediato. Retornos imediatos me fazem sentir cansaço antecipado. Aí já viu, descaminho. E a vida fica apressada, como se disputasse uma maratona.

Já caminhei muito para mostrar novidade a quem dela não sabia, como um novo restaurante, uma nova casa de show, e a melhor de todas: aquela padaria. Parar no meio do caminho para um café espresso ou expresso ou expressivo ou apenas experimental, gastar tempo com conversa fiada em cadência de agradamentos, que eles combinam lindamente com o perfume e a quentura do café.

Agora mesmo eu estou caminhando. Enquanto teclo meus pensamentos, caminho. Pode não ser a caminhada que se encaixe, perfeitamente, na sua concepção de caminhar. É que a literalidade tem seus momentos de preguiça e permite metáforas. E este é um milagrezinho que me apraz.

Caminho sem que tempo me segure pelas mãos, temperatura e temporais me impeçam de dar o passo. Nem mesmo o cansaço, o excesso disso e daquilo dos afazeres cotidianos me seguram. Eu caminho. Minha alma caminha. E apesar de ela não colaborar com a minha forma física, eu só desejo bem a ela. Desejo longas, atrevidas, inconstantes, infiéis à simetria, lúdicas, inspiradas, musicais, gentis, desbravadoras, sábias, catárticas caminhadas.

E quem quiser, pode me acompanhar.

carladias.com.br



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terça-feira, 20 de agosto de 2013

É TUDO QUESTÃO DE ACREDITAR >> Clara Braga

Há um bom tempo escrevi uma crônica sobre uma amiga que havia perdido o irmão inesperadamente em um acidente de carro e como eu fiquei impressionada com a forma positiva como ela soube lidar com a situação, por mais dolorosa que pudesse ser.

Há uns dias essa mesma amiga veio pedir para que eu compartilhasse no facebook e ajudasse a divulgar a situação de um amigo de infância desse irmão dela. O rapaz já havia se recuperado de um câncer, mas ficou doente de novo e estava precisando urgente de um transplante de medula. Ele havia conseguido uma doadora 100% compatível, o que é raro, mas de última hora a mulher desistiu e parou de atender aos chamados do hospital.

Minha amiga estava impressionada com a forma forte e até alegre como o amigo dela estava lidando com a situação, justo ela, que nem percebeu o quão forte também foi em uma situação difícil. Mas claro, estavam todos preocupados, afinal, a chance de encontrar outra doadora podia não ser tão grande. Então começamos a divulgar e compartilhar no facebook, compartilhávamos inclusive o post do próprio rapaz em um blog após ter feito toda uma pesquisa sobre o transplante e explicar o quão simples era, para caso a moça tivesse desistido por medo e o recado chegasse até ela, ela pudesse ver que não havia porque ficar com receio da cirurgia.

Confesso que compartilhei querendo ajudar, mas sem acreditar muito que aquele recado pudesse chegar até a mulher, até porque, a única coisa que sabiam sobre ela era que ela morava em Rondônia. Como um compartilhamento meu chegaria a Rondônia? Ou mesmo que meus amigos também compartilhassem o que eu já havia compartilhado, a maioria dos meus amigos não conhecem ninguém em Rondônia, seria pouco provável chegar até lá, mas tudo bem, o que importa é que a gente faça nossa parte.

Poucos dias depois minha amiga veio falar comigo e disse: Clara, lembra da história daquele meu amigo que está internado precisando de transplante? Pois é, a doadora voltou atrás, ela vai fazer o transplante!!

Eu não conheço o garoto, nunca vi na minha vida, nunca vou saber se o fato de eu, especificamente eu, ter compartilhado o post ajudou nessa história, mas não pude não ficar emocionada e feliz. Acho que esse é o exemplo perfeito de que pequenos atos podem mudar a vida de uma pessoa e que não tem nada mais forte do que ter fé, não importa no que você acredita, o que importa é que você acredite!


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domingo, 18 de agosto de 2013

COMO UMA LUVA >> Sílvia Tibo



Num dia desses, enquanto passeava pela página do facebook, me deparei com a seguinte frase, compartilhada por uma amiga: “Tem coisa que só sai da gente por escrito”. 

Não faço a menor ideia de quem seja o autor da mensagem, mas, ainda assim, tomei a liberdade de reproduzi-la aqui, entre aspas, porque seu conteúdo me caiu como uma luva. 

Nunca fui de falar muito. Na escola, era das mais quietinhas da turma. Escolhia sempre um lugarzinho mais ao fundo da sala, a fim de me concentrar sem ser vista. Quanto às dúvidas, tratava de ir anotando uma a uma ao longo das aulas e de encontrar resposta pra elas sozinha, pesquisando por aí, ou, em último caso, numa conversa reservada com o professor, quando a isso ele se dispunha. 

Nem mesmo o curso de Direito foi capaz de desenvolver em mim o dom da oratória. Ao longo dos cinco anos de faculdade, precisei passar por cima da timidez e me virar pra falar em público por inúmeras vezes. Mas, a despeito disso, jamais me considerei (nem me considero) boa nesse departamento. 

Invariavelmente, durante o curso, preferia as avaliações escritas, dissertativas, àquelas provas orais, durante as quais eu tremia dos pés à cabeça, antes que as palavras começassem a sair, aos trancos e barrancos, da minha boca. E a impressão que eu tinha, ao final da apresentação, era sempre de que alguma informação importante havia ficado pra trás, presa na garganta. 

É. No meu caso, acho que “quase tudo só sai por escrito”. Angústias, medos, decepções, assim como afeto, alegria, satisfação. Quase nunca consigo externar qualquer desses sentimentos através da voz. Por outro lado, basta ter papel e caneta ao alcance das mãos para que venha aquela coragem deliciosa de expressar tudo o que se passa na cabeça e, sobretudo, no coração. 

Ah... o coração! Não tenho dúvida de que o meu quase desconhece a linguagem falada. E talvez por isso escrever seja minha grande paixão. Sem dúvida, a escrita é, pra mim, a linguagem do coração. 


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sábado, 17 de agosto de 2013

LAURA, ISSO PASSA [Ana González]

Ela tem vinte e cinco anos. Clara e cabelos escuros na altura do pescoço. Maquiada, brincos e uma roupa alinhada. Era um almoço de aniversário, um churrasco no alto do prédio, com ampla visão do bairro e da cidade, o Museu do Ipiranga ao longe, com farta vegetação à volta, o céu azul e um calor convidativo à cerveja e à celebração.

Mas, ela era só tristeza. Dos lábios vermelhos de batom, saíram palavras de mágoa. O namoro tinha acabado havia quinze dias. E o que doía mesmo era a maneira como ele terminara o relacionamento. Foi se afastando, devagarzinho e depois, pelo telefone, rápido e sem muito tempo para conversa. Na verdade, isso era o grande desconsolo. Frustrante. Como? Sem explicação?

Durara por longos cinco anos e meio. Onde empacotar e guardar tanta memória? Em que desvão da vida enterrar um amor desastrado? Chegara a hora de revisão dos comportamentos: aquele dia, aquela conversa, aquele telefonema. Agora talvez tudo fizesse mais sentido.

Infelizmente, uma história pouco original. E a reação de Laura possivelmente também repetirá o lugar comum. Ela vai chorar, sofrer, conversar tempos longos com amigas, ao vivo e por telefone, skype e msn, envelhecendo e encorpando a tristeza e as mágoas, ouvindo as opiniões variadas, medindo e comparando as sugestões.

Entretanto, nada aliviará as sensações de altos e baixos, de humores e emoções voláteis, imagens a lhe visitar os olhos vidrados, a atenção distraída. Quem solucionará o problema? Quem lhe falará a palavra mágica que a libere da dor de amor?

Ninguém, Laura. Essa demanda será tempo perdido. As soluções são, em geral, paliativas e não vão á raiz.
 
Sei que será muito difícil você me ouvir, pois todo o contexto social lhe conta uma história diferente, que pesa em seu comportamento de forma muito sutil. Ouvi escapar de sua boca a reclamação com tom fatal: “Já tenho vinte e cinco anos.” Você talvez acredite mesmo que sua vida só será completa quando se casar. Talvez se sinta sem opções e - pior - velha.

Você se permitirá outras alternativas? A sugestão para abrir espaço entre sua dor e a realidade talvez não faça sentido. Se eu lhe pedir que coloque em outra perspectiva o sofrimento, no canto que lhe cabe, fará menos sentido ainda. Como observar de forma mais distante se dói tanto? É difícil relativizar o sofrimento neste momento de falta em que escorregamos para um buraco que se abre.

Em vão tento um diálogo mudo e me faço cúmplice a partir do feminino que nos une. Lembro neste instante de todas as mulheres que já se sentiram assim tão sem esperança em momento de plena juventude. Tão aberta à parceria e a uma vida a dois. O peso que sobrou para você, muitas mulheres já levaram e continuam levando nos ombros. Uma espécie de luto pela perda de um sonho, sem contar o abandono da própria identidade em relação a um conceito social cobrador e até repressor.

Laura, esse tipo de homem não dá. Você apostou muitas fichas nesse jogo. Foi fiel. Hoje, você pede revanche à vida: “Ele ainda vai se lembrar de mim.". Não vai, Laura. Ele vai tentar esquecer tudo e vai fazer novos relacionamentos, criar novas situações. Para se lembrar, teria que ser outra pessoa.

Seja você outra pessoa. Seja a mulher linda que você é. Lembre-se agora das mulheres de Atenas, das turcas de hoje, das mulheres de todos os tempos e de todos os lugares. Ponha-se ao largo dessa tormenta. Nem é necessário queimar sutiã ou dizer palavras de ordem. Faça uma revolução interna. Que seja breve este momento triste.

Depois dele, faça a sua hora de preparo para o momento seguinte, para o encontro com o masculino, em outra esfera de grandeza. Haverá outro homem à sua espera. Mude a cor do batom e refaça a maquiagem.

Isso, com certeza, vai passar.

www.agonzalez.com.br



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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O INQUILINO >> Zoraya Cesar

D. Otília morava há muitos anos naquele apartamento.  Saía de casa pouquíssimas vezes, apenas para tomar chá com Padre Tércio, mas, em compensação, recebia muitas visitas, todas com hora marcada. Uma vez, o porteiro, Seu Eli, comentou que era bom ter tantos amigos, e a velhinha riu:

- Eles não vêm me visitar, Seu Eli, mas o inquilino que mora comigo.

Ele não discutiu, sabia que D. Otilia morava sozinha, devia estar meio matusquela, coitada. Seu Eli gostava de ver a diversidade de pessoas que visitavam D. Otília: senhoras elegantes, trazidas por motorista particular; moças tímidas, que entravam de olhos baixos; homens, também, geralmente com ar desconfiado; até uma atriz famosa da novela das oito aparecia de vez em quando. Jamais perguntara coisa alguma, Seu Eli não era bisbilhoteiro, era trabalhador. Conformava-se em observar o vai-e-vem dos visitantes.  

E assim passava a vida, seguida, inescapavelmente, pela morte. Sim, porque, um dia, D. Otília morreu. Seu Eli ficou profundamente triste, gostava da velhinha e das visitas, que o distraíam do enfadonho trabalho de porteiro.

Padre Tércio veio, cuidou da parte prática da morte, marcou a Missa, fez tudo o que estava ao seu alcance, como religioso e como amigo. Inclusive avisar ao filho da falecida, que há vários anos não falava com ela. E entregou a chave do apartamento ao porteiro, orientando-o a deixar as visitas subirem. A cada dia 10, ele deveria pegar o dinheiro de um cofre no quarto da finada, pagar todas as contas do apartamento e ficar com metade do que sobrasse, dando a outra metade para um abrigo de idosos. Padre Tércio se despediu:

- Esse ano o senhor compra a casinha de sua Mãe, lá no Recife.

Seu Eli levou um susto, como o Padre adivinhara? Nunca falara disso a ninguém!

A rotina voltou, para alegria do porteiro, que se divertia com o desfile de visitantes, nem parecia que D. Otília morrera. Esperava ansioso o dia 10, quando finalmente descobriria o que de tão estranho acontecia no apartamento. 

Antes desse dia, porém, quem chegou foi o filho de D. Otília - um sacripanta interesseiro que abandonara a Mãe porque ela sustentava um abrigo para pobres, mas não lhe dava dinheiro – intitulando-se seu herdeiro e subindo ao apartamento sem pedir permissão. Seu Eli avisou Padre Tércio, mas este lhe disse para não se preocupar, as coisas seguiriam seu próprio rumo Divino. 

D. Otília dormia no quarto de empregada, onde havia um catre e um armário quase sem roupas. Geladeira, fogão, uma poltrona, um aparelho de som e uma estante cheia de livros, era só o que havia. Seu filho a maldizia pelo ascetismo, furioso por nada encontrar de valor. 

No quarto principal, porém, contrastando com a humílima decoração do resto da casa, encontrou um sofá finamente estofado; uma mesa de mármore rosa com pés e cadeiras de ferro trabalhado; e uma cômoda de jacarandá, pesada e maciça, sobre a qual cartas de baralho, punhais, taças de cristal, pedras e imagens pagãs misturavam-se às de Santos. Havia também um cofre de prata, que ele escondeu na mochila. As outras coisas, jogou, displicentemente, num saco de lixo, enquanto calculava por quanto poderia vender aqueles móveis. Ainda vou lucrar alguma coisa com aquela velha chata, pensava. Deu uma última olhada em volta e só então notou o quadro pendurado na parede. 

Nele, um homem de meia idade, com severos olhos escuros e cavanhaque louro sobre a boca irônica, vestido de calças pretas, blusa azul brilhante de mangas largas e uma faixa vermelha na cintura na qual se acomodava um grande punhal. A figura era impressionante e parecia olhá-lo de maneira tão desaprovadora, que o filho de D. Otília colocou-o no chão, virado para a parede. Deixe estar, resmungou, que vou vender você também. 

E foi embora, ansioso por chegar em casa e apoderar-se do conteúdo do cofre.

A primeira coisa que viu ao abrir a porta foi a mulher sentada ao sofá, vendo novela. E, ao lado dela, o homem do quadro, com as mesmas roupas, o mesmo olhar severo, o mesmo punhal embainhado. 

-  O que você está fazendo aqui? – berrou o filho –Vou chamar a polícia!

- Tá doido?– pergunta a mulher, atônita – Tá falando com quem?

- Com esse homem aí do seu lado.

- Que homem, tá doido?

O filho de D. Otília sentiu um baque no coração. 

- Já que você me desalojou, vou morar na sua casa até que tudo volte ao normal. E devolva o cofre, ou vou assombrá-lo até o final dos seus dias – falou o Cigano, acariciando significativamente o cabo do punhal e dando uma gargalhada.

A mulher ainda gritava que ele estava doido quando o filho de D. Otilia desmaiou. 



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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

FORA DE ÓRBITA >> Fernanda Pinho



E aí que está rolando uma seleção para formar um grupo de pessoas que deverá iniciar o processo de colonização de Marte. Pois é, Marte, o planeta. O mais bizarro é que mais de 100 mil pessoas já se candidataram para participar do processo seletivo para a viagem SÓ DE IDA que deverá acontecer em 2022. Eu li a matéria perplexa, imaginando o quão infelizes, tristes, solitários e sem perspectivas deviam ser esses candidatos (afinal, quem quer viver pra sempre numa redoma controlada?). Mas, para minha total surpresa, eu estava equivocada. O que passou pela minha cabeça parece estar longe de ser o perfil de pelo menos uma das candidatas. Brasileira, de 21 anos, estudante de Ciências Sociais pela UFRJ, a moça mostrava riso fácil nas fotos que ilustravam sua entrevista e dizia estar feliz por estar entre os candidatos mais cotados.

Olha, moça, desculpa. Eu sei que você não me conhece e que eu não tenho o menor embasamento para discutir os pormenores científicos da empreitada, mas vou falar a verdade: estou torcendo para dar errado e você não embarcar coisíssima nenhuma. Pronto, falei.

E são tantos os motivos que tenho para achar tudo isso um absurdo que nem sei por onde começar. Iniciemos, então, tentando entender o que se passa na cabeça dessa gente. Será que o atrativo é o fato de ser uma experiência única? Olha, pra mim não é experiência, muito menos única. Experiência é quando existe troca. Quando você viaja para uma terra distante, compartilha a sua cultura com o povo de lá e volta pra sua terra compartilhando o que aprendeu com o povo daqui. Experiência é vivência e o que esses “turistas” terão em Marte será, no máximo, uma sobrevida. E com relação ao pioneirismo, balela. Milhões de anos atrás nossos ancestrais já inauguraram a condição de serem os primeiros humanos a povoarem um planeta.

A parte essas ideologias de mártires interplanetários,  e a vida aqui na Terra, como fica? Se você é do tipo que engrossa o coro dos descontentes já deve estar torcendo o nariz pra mim e pensando “ah, mais a vida na Terra nem é tão boa assim”. Ok, ok. Em Marte você nunca mais irá se decepcionar com uma pisada de bola de um amigo de infância. Em compensação você nunca mais terá ao seu lado um amigo de infância, com quem você se comunica apenas pelo olhar. Você nunca mais será obrigado a inalar o ar poluído de uma grande cidade. Mas nunca mais sentirá a brisa marítima tocando seu rosto durante uma caminhada à beira-mar. Você nunca mais será perturbado por ruídos de buzinas, sirenes, britadeiras e vizinhos ouvindo funk. Mas nunca mais se arrepiará com os sons de uma orquestra,  com um tango sendo executado ao vivo, com a voz dos pais dizendo que te ama. Você nunca mais correrá o risco de sair e sair assaltado. Nem correrá o risco de sair e encontrar pessoas que te matem de rir, de sair e encontrar alguém que faça seu estômago gelar e seu coração parar por um segundo, de sair e...viver!


O que me consola, na minha posição de indignada-intrometida, é pensar que essa moça tem apenas 21 anos. Quando a viagem acontecer, ela terá a idade que eu tenho hoje - e as coisas mais incríveis da minha vida, diga-se de passagem, aconteceram dos meus 21 anos pra cá. Espero que na vida dela também aconteçam coisas que a faça reavaliar uma decisão tão definitiva. E espero mais ainda que aconteçam coisas no nosso planeta que faça todo esse projeto ser revisto. E nem venham me acusar de romântica pois não estou falando só de coisas boas não. Mas principalmente das coisas ruins que só nós podemos consertar (na falta de marcianos dispostos a virem resolver nossos problemas). Acho mais lógico querer fazer história melhorando a Terra, que já está toda avacalhada mesmo, e deixando o pobre coitado de Marte em paz.


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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

SE GOSTAR: CURTA. SE AMAR: COMPARTILHE. SE GOSTAR AMANDO: SEJA. >> Carla Dias >>


Acredite, sou das que sabem que toda teoria, quando tem a ver com o aspecto pessoal, raramente combina com a prática. Disso eu sei pela minha mania de inventar personagens e depois transformar a história deles em livro. É muito fácil e agradável criar alguém que seria você, não fosse o que ele é e você jamais seria.  O que ele faz e não combina com a sua realidade.

Inventar-se é divertido, acabamos até adotando algumas dessas invenções, transformando-as em tempero para a nossa realidade, e assim, reinventamo-nos. O que não é divertido é a falta de noção de que há um espaço bem grande entre a pessoa que muitos dizem ser, por meio de uma longa descrição, um “monologum vitae”, e aquela que realmente são.

Até aí, eu sei, nenhuma novidade.

Só que não me importa a falta de novidade. Meu apego é com a falta de noção mesmo. Desde que a internet passou a reinar soberana no território da comunicação, as pessoas realmente acreditam que podem dizer o que lhes der na telha e ser seja quem for. E aí mora o perigo. Quando o que você diz é raso ou ofende, e quando quem você deseja ser atropela quem o outro é de fato, a situação fica mais complicada.

Algumas coisas me incomodam nesse reino dual. Não me levem a mal, porque adoro a internet, acho as redes sociais uma ótima ferramenta para uma série de ações interessantes. Porém, nela fica estampada a falta de noção e informação generalizada. Às vezes, dá até uma tristeza daquelas contemplar tal território. É que as pessoas têm essa ideia completamente errada de que, por não ser físico, ser esse espaço livre, elas podem tudo. Só que, como na nossa realidade, tudo é demais da conta. Não podemos tudo, porque há outras pessoas que vivem no planeta, além de nós mesmos. Esse tudo pertence a todos nós, não apenas a um de nós.

Limite não é prisão. A liberdade é justa somente quando não ultrapassamos o limite e somos intolerantes, cruéis com as outras pessoas. Ter liberdade pede responsabilidade. O que você brada pelos quatro cantos do mundo, e em todos os seus perfis em redes sociais, ecoa. E tudo bem você se inventar, trazer para o virtual a pessoa que gostaria de ser. É um direito seu, que cabe na sua liberdade. Mas cuidado para não se tornar somente um curtidor distraído, que se torna partidário de comentários funestos, apenas porque curte tudo o que um amigo ou celebridade diz, porque sim. Cuidado para não compartilhar protestos que não passam de panfletagem de pessoas com segundas intenções, só porque quer fazer parte de uma mudança. Aprenda que, no mundo virtual ou no real, o que você diz, as suas opiniões e escolhas, são importantes. A partir do momento em que compreendermos isso, nos tornaremos mais sábios em relação à vida.

E não se esqueça: janelas são bem-vindas para a apreciação de imagens expostas na tela da vida. Abraços são essenciais para o coração.

Imagem: sxc.hu

carladias.com

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domingo, 11 de agosto de 2013

Mudanças

Quando, em meu primeiro dia em Araraquara, dois policiais me pararam, armas à mão, bradando para que eu abaixasse os faróis do carro, pressenti que não teríamos uma boa estadia nesta cidade. E assim foi. Foram sucessões de momentos ruins, que desejamos esquecer. Quis a profissão que eu fosse para a capital e, mesmo tendo construído uma casa nesta pequena cidade do interior de São Paulo, acho que não ficaremos mais por aqui.

Sinto um pouco por Helena, que nasceu num hospital barulhento, que não respeitava ele próprio os inúmeros cartazes pedindo silêncio. Nossa menina sofreu, em seus primeiros dias de vida, com os ruídos frenéticos de furadeiras e martelos. E por isso chorou bastante. Como pode um hospital não respeitar seus pacientes? Aqui pode.

Sinto um pouco por Helena, porque eu sou bobo. Não há mais essa história de raiz. Existia na minha época, porque meus pais viveram trinta, quarenta anos na mesma cidade. Hoje os jovens não fazem mais isso. Trocam de casa como trocam de roupa. Então, tenho certeza que, quando perguntarem a ela sobre sua terra natal, ela dirá que nada sabe sobre ela e virará o rosto, procurando um assunto mais importante.

Mas eu quero criar raízes. Quando viemos para Araraquara pensamos que ficaríamos aqui, mas acho que não vai dar. Chegamos a construir uma casa, mas isso nunca prendeu a gente a lugar nenhum. Então, desta vez, vamos tentar escolher com mais cuidado para onde ir. Sempre disse que queria terminar a carreira em São Paulo, talvez na Vila Mariana ou na Lapa, e parece que abreviaremos nossos planos. Podemos adotar a capital como nosso lugar, quem sabe?

Sempre foi difícil morar em um local que não tem supermercado 24 horas, que não tem zoológico, que não tem pet shops decentes, que não tem teatro (apesar de ser a terra natal de José Celso Martinez). Literatura aqui é coisa de louco, apesar do curso de Letras da Unesp e da fama de Ignácio de Loyola Brandão. O que rola aqui é barzinho, boate e papo-furado sobre futebol. Nesta minha idade, nada disso me interessa muito.

Só que eu quero ensinar a Helena que não devemos nos apegar a nada - e me refiro às coisas - e o que vale a pena nesta vida é o apoio e o amor da família. Mais nada. Temos um amigo e outro, que passam pelas nossas existências, de acordo com a conveniência e com a correria do cotidiano e é o que chega mais perto de podermos contar com alguém. Assim, quero Helena e Ana perto de mim, porque sei que, juntos, nos daremos sempre todo o apoio de que necessitamos para ignorarmos a inveja e a maldade do ser-humano.

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