sexta-feira, 31 de outubro de 2008

"continue procurando" >> Leonardo Marona

não está nas salas de aula, ou nos bares de arredores. não está no bolso do poeta, ou na outra cor do camaleão. não está nas bochechas vermelhas, ou na vergonha do beijo traído pelas varejeiras da paixão. não está nas luzes do sucesso imediato – inanimado – anonimato, ou na vala do esquecimento saudável por pontos de audiência.

não está em gravatas coloridas sob encomenda, ou em calças milimetricamente rasgadas para quem quiser acreditar em fadas, feitas com trapos do que sobrou da bandeira. não está nos salões lotados de dança e fumaça e morte cronometrada em sorrisos felizes mais fáceis do que admitir, ou na azeitona do copo de martini seco do velho e pobre cantor de tango que esqueceu a dentadura em casa mas continua mais elegante do que você e eu.

não está no mais novo gênio do último momento, que passou e terminou sem que ele mesmo soubesse, porque nunca soube de fato, muito preocupado com o corte de cabelo de sua mais nova criação. não está nos versos sobre ondas preguiçosas, ou no pôr-do-sol assassinado pelo frio de uma rosa morta.

não está na mala do carteiro simpático e triste, ou no mesmo antigo caos do dia seguinte. não está nas listas telefônicas, ou nos dedos entre os cabelos embaraçados que assim ficam menos românticos do que se suporia se antes de amar fosse possível entender. não está nos direitos humanos, ou à esquerda do contratempo. não está na velha vestida com listras na frente do restaurante chinês, ou no camarada com sorriso canastra que traça a puta da novela das seis.

não está na bússola do náufrago atacado pelo escorbuto, ou na próstata do câncer letrado em dedos falseados de conhecimento histórico no queixo diante de mais uma pintura social. não está nos hinos dos patriotas, tampouco nos cânticos ecumênicos sob as saias eretas dos sodomitas de alma pelada que não tiveram infância e por isso precisam fodê-la enquanto choram de culpa. não está nas orgias auto-afirmativas em gritos transgressores de sereno desespero, ou nas serestas mudas sob a chuva ácida da usina.

não está no sujeito sem futuro com o rádio de pilha na orelha surda, ou no que diz o rádio sob a forma de ondas paralíticas, para quem pensa que tem um futuro – e ele passou enquanto se pensava sobre. não está na luta de classes pelo poder maior, ou nas desavenças embriagadas pelo ego menor. não está em hierarquias que estabelecem cicatrizes nos rostos sujos de lama, ou nos frutos podres feitos de papel timbrado na gaveta de uma repartição superfaturada.

não está na gaivota cansada que mergulhou fundo e não encontrou o peixe, ou no peixe que fugiu da gaivota cansada e foi engolido por um tubarão. não está na menina com mau hálito que me olha e não gosta do que vê, ou na outra, de cintura abaloada, que diz à amiga que detesta comida japonesa – pelo que a amo.

não está na menina de dentes separados que lê meus papéis e pede um sexo rápido – pelo que a amo e descubro o quão simples é amar, sem que ela saiba no entanto como, muito menos eu, sem que ela esteja aqui de fato, simplesmente porque amar pode ser fácil, mas tente fazê-lo fato e você vai ver uma coisa.

é um exercício saudável, depois de todas as bebedeiras, de todas as mortes instantâneas pela cruz do tempo, das amarguras escondidas por trás de sorrisos amarelados na fila do caixa rápido, dos corações ainda quentes abandonados sob a chuva forte, das razões perdidas em minutos de vida pura, que te matam, porque assim manda o estado de direito, é importante, depois de toda beleza que se esvaiu em lágrimas, perguntar a si mesmo onde não está.

e quando te gritarem – achei! não te assustes nem te afugentes. apenas sorria e ignore. não está ali também. mas um pouco de delicadeza nunca é dispensável quando se pode matar com as próprias mãos. e então, talvez um dia, quem sabe hoje, quem sabe agora, enquanto lá fora voa um passarinho na direção do predador, ou no dia em que, honestamente, soubermos identificar todos os lugares onde não está, saberemos por fim o que procurar.



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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O Alfaiate >> Ana Coutinho


Me deparei outro dia com a imagem acima, e tive um instante de susto. Eu sabia da história, mas nunca tinha me dado conta dela. Eu sabia que um homem, um humilde alfaiate austríaco em 1919, achou que seria capaz de voar e criou o seu próprio aparato para isso. Vestiu-se, como quem veste seu melhor terno e foi para o alto da Torre Eiffel. Subiu a torre, cheio de coragem e força, chegou ao topo, olhou para baixo, titubeou, respirou, pensou, andou um pouquinho para o lado, talvez até tenha cogitado desistir, mas, quem sabe pela multidão que o assistia lá de baixo, ou quem sabe pela própria fé, inventou de não desistir e saltou. Saltou do alto da torre Eiffel achando que iria voar. Ele acreditou, piamente, que iria pairar sobre aqueles que o assistiam, deve ter se imaginando voando, batendo os braços tal qual um pássaro, enquanto a platéia o aplaudiria.


Ah, quanta fé... Quanta coragem e — ao mesmo tempo — quanta ingenuidade. É quase uma criança o senhor alfaiate. Só a infância e a paixão nos permitem essa esperança insana de um suicídio. É um apaixonado, um homem e um menino, um humano que não se sabe humano, um humano que, ao contrario de nós mortais, se crê Deus. O alfaiate me despertou uma espécie de inveja, uma compaixão misturada com encantamento.

Quantas vezes me vi diante do abismo e desejei saltar? Quantas vezes senti que precisaria de um pouco mais de fé para enfrentar uma situação e, no entanto, recuei? Quantas vezes me paramentei de força e coragem, me preparei e desejei ardentemente um vôo baixo, nem precisava ser tão arriscado quanto o do alfaiate, mas, ao me ver humana e falível, desisti com medo do erro, do fracasso, da humilhação.

Para o alfaiate, a queda era pior do que uma humilhação. A queda era a morte. Errar não causaria apenas o desconforto e a falta de jeito que causaria a mim. Errar para o alfaiate representaria o fim das chances, das possibilidades de acertos e — inclusive — de novos erros.

Ainda assim ele saltou. Ainda assim o alfaiate se arriscou. Talvez preferisse a morte ao vexame que seria a falta de aplausos, a crítica e a crueldade alheia. Talvez... Mas não lhe foi perguntado. Ninguém tentou lhe tirar dali, ninguém lhe puxou pelo braço e disse: “Ei, meu amigo, venha cá. Vamos conversar, isso pode não dar certo...” Não... Uma multidão assistiu ao sonho desse homem. Várias pessoas, como eu, você, nossos pais, assistiam àquela tragédia em forma de poesia. É uma poesia torta, um sonho encantado e cheio de sangue, a doçura tonta do alfaiate.

Eu o invejo, sim. Todos os dias em que meus pés rateiam diante do desconhecido. Eu o invejo sempre que sinto minhas pernas bambas ao caminhar para o novo, ou quando minha voz não sai por medo de ser tola. A vida se fez tão cheia de regras e obrigações que não vejo espaço para essa esperança tão fora de propósito e irracional do alfaiate. Talvez por isso eu não consiga deixar de invejá-lo, ao menos um pouco. Porque ele deve ter sido o último tolo corajoso que já existiu. Tolo, corajoso e determinado, como eu quis ser tantas vezes, mesmo que depois me estatelasse no chão como, aliás, aconteceu com o pobre alfaiate.




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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

UM BEIJO ROUBADO >> Carla Dias >>


Ao contrário do que muitos pensam, a sutileza tem uma força extraordinária. Não é sinônimo de fragilidade, de quebranto; não idolatra medos ou apatias. Valer-se da sutileza requer habilidade para resguardar importâncias, protegê-las da vulgaridade.

A sutileza transgride o imperativo, mas nem por isso deixa de mostrar a que veio. É quase uma forma de arte... De se atrever a experimentá-la.

Gosto de filmes sutis, onde roteirista, diretor e atores conseguem trançar acontecimentos arrebatadores, dolentes, extasiantes, magnânimos, através de um olhar embebido por sutileza. Como se fosse possível observar sentimentos com a proximidade de quem cochicha segredos nos ouvidos dos outros. De quem os escuta, conhece e protege.

Acho que por isso “Um Beijo Roubado” (My Blueberry Nights) é um dos que mais me emocionaram no que se refere ao conjunto da obra: fotografia, interpretação, direção, roteiro e trilha sonora. A princípio, eu quis assisti-lo por ter Norah Jones no papel principal. Adoro a música dela, mas confesso ter ficado curiosa sobre seu lado atriz. Depois, Jude Law é dos meus preferidos, desde “Gattaca”, assim como Natalie Portman o é desde “O profissional”. Além deles, uma exuberante Rachel Weisz, que me fez lembrar de ótimos filmes, como “O Jardineiro Fiel" e "Constantine".


Quando o aluguei, esperava que fosse apenas um bom filme sobre solidões, como deduzi, depois de ler a sinopse. E se há algo que me faz um bem danado é me surpreender positivamente. “Um Beijo Roubado” fala sim sobre solidões - as impostas -, mas também sobre a coragem de vivê-las e sobrevivê-las. É o que Elizabeth (Norah Jones) decide fazer ao ser abandonada pelo namorado: redescobrir-se, antes de (re)iniciar-se na arte de tornar a vida mais simples e profunda.

É por conta do abandono que ela conhece Jeremy (Jude Law), o dono de um charmoso café que seu ex costumava freqüentar. Ela resolve deixar a chave do apartamento com ele, caso o ex queira pegá-la de volta. Mas há uma sintonia imediata entre eles e Elizabeth ingressa, primeiramente, numa viagem de reconhecimento do outro. Seja através do questionamento sobre o por que de a torta não ter saída, pelas chaves ou pelos abandonos, Elizabeth e Jeremy conversam todas as noites. Ele sempre a espera com um pedaço de torta sobre o balcão, mas um dia ela não aparece... É quando começa a aventura de Elizabeth, que vai de Nova York para Memphis, Tennessee, onde tem dois empregos, numa busca pelo próprio caminho.

Enquanto Jeremy espera pela volta de Elizabeth, ela envia a ele um cartão-postal, sem endereço. Ele até tenta localizá-la, mas sem sucesso.

Nessa jornada, Elizabeth conhece pessoas peculiares, como Arnie Copeland (David Strathairn), um policial que se tornou alcóolatra ao ser abandonado pela esposa, Sue Lynne (Rachel Weisz), que é responsável por um dos mais pungentes momentos do filme. Já em Nevada, conhece Leslie (Natalie Portman), garota complicada, que adora jogar pôquer e diz saber ler o rosto da pessoas.

Geralmente, eu não gosto dos títulos em português que dão aos filmes estrangeiros, mas dessa vez quem intitulou o filme merece o crédito. O tal do beijo roubado existe e, podem apostar, é responsável por uma das mais belas cenas do filme.

Outra coisa muito importante... A trilha sonora, elaborada pelo próprio diretor do filme e por Eli Wolf, é impecável, traduzindo com bom gosto o cenário do filme. Canções como “Living Proof” de Charlyn Marshall, interpretada por Cat Power e “Skipping Stone” de Amos Lee, são apenas aperitivos que precedem um verdadeiro banquete musical. “The Story” de Norah Jones merece ser celebrada como uma bela canção que nasceu para abraçar este filme. Também fazem parte da trilha sonora: “Ely Nevada” (Joachim Cooder) por Ry Cooder; “Try a Little Tenderness” (Campbell/Connelly/Woods) por Otis Redding; “Looking Back” (Benton/Hendricks/Otis) por Ruth Brown; “Long Ride” (RyCooder/Joachim Cooder) por Ry Cooder; “Eyes on the Prize” (Traditional) por Mavis Staples; “Yumeji’s Theme” (Shigeru Umebayashi) por Chikara Tsuzuki; “Bus Ride” (Martin Pradler) por Ry Cooder; “Harvest Moon” (Neil Young) por Cassandra Wilson; “Devil’s Highway” (Joachim Cooder/Juliette Commagere/Jared Smith/Ben Messelbeck) por Hello Stranger; “Pajaros” por Gustavo Santaolalla e “The Greatest” (Chan Marshall) por Cat Power.

As sutilezas impregnam "Um Beijo Roubado", o primeiro em inglês de Wong Kar Wai (2046/Amor à Flor da Pele) e, obviamente, não as desfiarei a vocês. Assistam ao filme com o coração aberto, permitindo-se embarcar nas histórias dos personagens e, certamente, terão uma ótima viagem.




www.carladias.com

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terça-feira, 28 de outubro de 2008

MAIS DOS MESMOS >> Claudia Letti


Há muito que li — ou ouvi — em algum lugar sobre uma pesquisa que apontava a preferência infantil por rever incontáveis vezes os mesmos filmes ou desenhos animados. As novidades nesse mercado, portanto, não são tão importantes assim, se a pesquisa realmente foi fiel ao perfil das crianças mundo afora. Se a mesma pesquisa fosse feita para adultos, talvez nos surpreendêssemos com as poucas variantes de hábitos da infância para a idade adulta. Nós pedimos por novidades, mas gostamos dos repetecos, reinventamos novas maneiras para fazer as mesmas coisas e compramos dvd's de nossos filmes e shows preferidos. Defendemos nossos ídolos musicais, comprando e cantando seus trabalhos, mesmo que sejam apenas mais do mesmo. As mudanças na idade adulta vão se fazendo num crescendo e, mesmo quando é sempre, é sempre devagar. Ansiamos pelo novo mas, nos agarramos no que nos é conhecido, seguro e — por que não dizer? — convencional.

Esta semana, devorei "Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia", de Nelsinho Motta, enquanto ouvia dois cd's novos na minha discoteca doméstica: "Labiata", de Lenine e "Satolep Sambatown", de Vitor Ramil muitíssimo bem acompanhado por Marcos Suzano. Eu, fanzoca declarada dos cinco supracitados, tive um claro déjà vu em ambos os cd's e, apostando que gosto, antes mesmo de concluir o sabor, cantarolei os refrões e acompanhei as letras, porque sei que quando a paixão não bate à primeira vista, vence pela repetição (ou rendição). Tim Maia, por exemplo, tinha essa sabedoria: dizia que não priorizava músicas novas em shows porque as pessoas gostam de cantar as velhas e conhecidas baladas. Nós somos assim mesmo, queremos o novo mas pedimos, gritando quase em uníssono, a música velha e sabida, se o ídolo não levá-la ao palco.

Nós temos esse pé no sapato velho e confortável, enquanto paqueramos novos modelos pelas vitrines, desconfiados se ficariam de acordo com nosso conhecido guarda-roupas. Admiramos Joãosinho Trinta pelo luxo com que revestiu a Apoteose, mas não entendemos direito quando ele cobriu o Sambódromo de famigeradas alas mendigas. Queremos mudanças políticas, mas aceitamos comodamente que político é uma raça complicada e fechamos as janelas para os bons ventos porque ventos novos despenteiam nossas chapinhas e bagunçam os papéis da nossa vida, sem os quais tememos não fazer parte de uma grande tribo de iguais. Queremos adrenalina mas temos medo de sofrer um infarto. Admiramos o verde, mas vamos de azul porque combina melhor com nossas calças, mesmo que sejam velhas e desbotadas. O novo é um ilustre desconhecido e nós crescemos cúmplices da previsibilidade.

Dos cd's que ganhei, a sensação de mais dos mesmos não me abandonou. Lenine tem algumas músicas que parecem autoplágio, como diz meu amigo Fausto Rêgo. É tão Lenine que, quando alguma coisa muda, dá pra sacar que Arnaldo Antunes — outro, inconfundível — está entrando em cena. Mas é Lenine, com sua batida, letras e estilo e por isso mesmo é um cd que não dá pra deixar de ter. Vitor Ramil se repete no estilo musical e mantém a poesia das letras, para mim, sua marca registrada. Aliás, eu às vezes acho que Ramil tem um tom sutilmente Caetano, daquele jeito que faz o jazz na letra e o jaz na voz mas, isso já é outra viagem. O cd de Ramil e Suzano traz uma participação bacana de Jorge Drexler e tem um colorido novo embora mantenha o tom do "Verde" — que a mi me gusta —, o que reforça essa sensação que gostamos mesmo do que nos é familiar.

Todos temos (quando não buscamos), em alguma área da vida, pra dizer o mínimo, a 'Síndrome Ivan Lins' (tá bom, já é um exagero, visto que esse sim é o rei do autoplágio), mas concordamos que o mais dos mesmos nos atrai em maior ou menor grau, dependendo da evolução patológica de cada um. Eu, que tomei o livro do som e a fúria de Tim Maia emprestado, assumo: vou já comprar o meu. Quero um exemplar na minha biblioteca modesta, senão pela vontade de ler de novo — que sei me acometerá dia desses —, pelas frases de Tim Maia, que valem tu-do! Muitas dessas frases são nossas velhas conhecidas, mas, inseridas nas histórias de onde nasceram, ficaram como novas.

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O DOCE SABOR DA DERROTA >> Albir José Inácio da Silva

Sou um perdedor de eleições. Mesmo sem nunca ter me candidatado, vivo apanhando das urnas. Com raras e importantes exceções, meus candidatos sempre naufragam. Tenho amargado muitos “day after” eleitorais.

Quando não nos era permitido votar, acompanhei muitas vezes as votações do nefando “colégio eleitoral”, sentindo antecipadamente o sabor da derrota, já que sabíamos que o general da vez seria eleito.

Restabelecido o direito ao voto, as forças conservadoras têm imposto, principalmente nas eleições locais, uma política que impede o desenvolvimento, mantendo este país pelo menos 20 anos atrás de nações que, miseráveis até o fim do século passado, deram um alto em direção ao futuro.

Cada derrota das forças progressivas significa 4 anos de manutenção do “status quo”. E quatro anos é muito tempo, se considerarmos que a vida não tem assim tantas vezes quatro.

Mas, passadas a frustração e a ressaca, como canta Milton Nascimento, renova-se a esperança. Esperança de avanço, que nem chega a ser esperança de mudança. A história tem seu próprio ritmo que não coincide com a nossa existência curta e urgente.

Da derrota se inferem dois precedentes: primeiro que tenha havido jogo e, segundo, que tenhamos participado dele. Os que não podemos comemorar a vitória, comemoremos o jogo.

Mesmo você, jovem eleitor, que nunca sentiu o gosto amargo da falta de eleições, comemore a frustração da derrota, na certeza de que foi reconhecida sua cidadania e preservada sua dignidade. Queira sempre mais, sabendo reconhecer a importância do que foi conquistado naqueles dias cinzentos em que não se podia enxergar nem mesmo a esperança.

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domingo, 26 de outubro de 2008

VÁ, DOR! >> Eduardo Loureiro Jr.

Rafael Alves de Souza / Flickr.com
Escrever não o que está sendo, mas o que há de vir... Como quem descreve o sonho antes de dormir. Feito quem planeja instantes sem planos de os cumprir.

Pouco tão me falta. Eu padeço é de raros excessos.

O corpo é corda — levemente tensa — de instrumento. Alguém que toca. O corpo que dança não é o que dança, é o que é tocado, e junto toca. Existe o silêncio do antes, o impacto do momento e a vibração do depois. Silêncio novamente.

Diz o sal:
— Vá, dor!
E a dor se vai em salgada obediência.

O bem é tão grande que envolve o mal em suas pequenezas e o faz girar: rodopios de dança.

Este mundo está levitando. A música está tirando nossos pés do chão. A alegria nos assombra feito um fantasminha. Brincadeira de criança: vida, tempo, som.

De vez em quando, levamos a sério. Crises, desastres, assassinatos, violações. A vida é tão amedrontadora quanto um teatro de assombrações.

Eu quero contar uma história, a nossa. Simples e tocante feito a que ouvi ontem...

Um homem pobre em Buenos Aires. O filho brasileiro que não vê o pai desde os 3 anos. Milhares de quilômetros — e uma língua — que os separam. A busca em listas telefônicas. O encontro marcado. O filho que toca o ombro do pai. O pai que, após 24 anos, sente e ouve o filho sem o ver: está cego. Um violino, que o pai músico esperava há meses, chega finalmente — no preciso dia — e é dado de presente ao filho. Revelações de distância: a mãe do pai escondia as cartas que chegavam da mãe do filho.

As histórias precisam do tempo que se sucede. E o tempo não se sucede mais em mim. Olho tudo e vejo tudo. O tempo se há convertido em espaço. Eu vejo tudo da minha distância. E — feito potente telescópio — vejo tudo em cada detalhe de tudo ser.

Mas desagradam-me as frases curtas, a prosa fria. Quero a alegria de ser quem não penso que sou. Estar na praia embaixo do guarda-sol ao invés de caminhar. Mover-me lentamente em engarrafamentos. Sambar um show inteiro. Passar a noite entre fumantes e bêbados.

Viajar devolve-me o coração. Viajar é chegar à beira de si: beira com beira de outro si. Viajar devolve-me as gentes. O corpo — corda — vibra com o olhar da menina, com o vestido da menina, com o canto da menina, com o toque. Meu corpo frágil feito uma bola de sabão — na mão espalmada.

Tudo por um triz. Avião que acelera antes vôo. Mão que vai abrir torneira. Sonho prestes já em carne. Texto quase sem palavra. Transição de relógio em meia-noite: muda tudo, muda nada.

Senhor do Bonfim, me dê um bom meio — porque o começo já foi há muito tempo.




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sábado, 25 de outubro de 2008

IMAGENS E ELEIÇÃO [Ana Gonzalez]


Quem sabe o que passa na cabeça dos eleitores no dia das eleições? Alguns levam a sério a responsabilidade de votar. Outros pensam mais nos candidatos que vão perder seu voto; outros ainda pensam na proposta útil para o seu bairro. Há aqueles que só vão cumprir a obrigação e os que votam branco ou nulo. Mas, na verdade, tudo isso faz esse evento.

Eleições são assim. Uma diversidade que é a cara da democracia. Bem ou mal é essa que temos no momento. Já vivemos períodos de história em que ela foi menos presente. Os escravos de séculos passados que o digam. Tá bom, mudou pouco. Mas, é assim que funciona. O crescimento de um país e o desenvolvimento de suas instituições andam devagar. Algumas vezes, devagar demais. Seja como for, eleições são sempre uma possibilidade de mudança, apesar de toda a frustração e desânimo com a classe política. E pensar nisso acorda em mim a lembrança de uma foto.

Certa vez, recortei de um jornal uma imagem que trazia uma moça magra, de cabelos escuros,um tanto em desalinho, com chinelo de dedo, camiseta e saia curta colorida. Ela segurava uma bandeira nacional, andando por uma rua de terra, possivelmente em um bairro da periferia.

A foto é privilegiada, momento único. Uma pessoa jovem empunha a bandeira nacional em um momento de comemoração. Minha memória falha nos detalhes. Não me recordo do que se tratava. Uma greve, um movimento de moradores do bairro ou o Sete de Setembro.

O que restou na peneira seletiva de minha escolha inconsciente foi a expressão de seu rosto: os olhos e a face em meio sorriso e os braços em movimento contraído, da força necessária para segurar a bandeira, sustentando um protesto, um grito, um sentimento de entusiasmo. Ela era viva. Embora frágil, a democracia em pessoa. Jovens empunham bandeiras, na França, pela queda da Bastilha, como no quadro famoso, no Brasil ou em qualquer lugar.

Essa é a imagem que me lembra agora a experiência das eleições. Minha memória insiste nela. Uma ação por ideais de liberdade, ou por outros valores quaisquer que valham mais do que miséria e violência. A resistência de um gesto pulando de dentro da passividade da rotina diária.

Talvez não haja palavras suficientes para descrever a cena. Um enorme paradoxo entre a imagem da pobreza do lugar e a riqueza do gesto generoso de uma vida na participação e no compartilhamento social.

Que cada um complete com o seu repertório a imagem possível de seu voto. A cena da bandeira empunhada e do gesto de quem sabe o caminho, de quem sabe uma esperança, essa é a imagem de meu voto nesta eleição.

Imagens: Debate RJ, Luiz Thiago Santos, UOL; Debate SP, Rogerio Cassimiro, Folha Imagem; Debate BH, Marília Juste, Globo (G1).

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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

“amor é bicho sem teto e dor é única morada, não cabe no coração” >> Leonardo Marona

Talvez que o poeta seja um pedaço em sangue de cada lugar, sempre à deriva a constante separação após o encantamento, o ato que desmembra e que prejulga o cadafalso, e cobre a cabeça com o capuz de prata.

Talvez que ao poeta sejam deixados os restos da carne utilizada, poeira na estrada de quem foi abismo, uma sutil abnegação dos termos como são dados, pela incrível vontade de permanecer em busca do cálice hipotético.

Talvez que ao poeta reste apenas um tanto de pele sob os pés atados, uma delicadeza do rosto retorcido em chamas, algo nos olhos que brilha feio como a última aurora de um condenado à morte, a testa protuberante.

Talvez seja preciso reconhecer sua condição de humilhado da cabeça baixa, anjo libertador pela moral adquirida do não saber julgar, apenas se deixar absorver como plâncton, guelra sem fôlego na fusão do espaço.

Talvez que justamente na improbabilidade de seus atos, na constante mudança de estação, esteja o toque frágil de uma alma fugidia, que nega o amor e pede perdão, porque é preciso ir – a boca falsa treme hesitante.

Talvez haja algo de gato no seu virar de cabeça, algo de um azul muito escuro no fundo de seus olhos, um azul que prenuncia uma falência meticulosa e um mergulho na vida, as mãos nos bolsos das calças, pronto para receber o som.

Talvez o vulto precioso que dobra aquela esquina, fabricante de momentos em pequenas caixas de música, talvez eu por um dia, por um minuto, talvez o sanguinolento tirano com mãos boas para o piano, a sutil contradição entre viver e deixar-se consumir.

Talvez o poeta seja a casa de máquinas vazia, pistão que arranca pedaços atribuídos a experiências vergonhosas, porque ao poeta não é dado o direito de escolher, o que parar terá atenção, o que brigar terá briga, e ao amor o adeus.

Talvez o poeta seja o que pergunta: "quem deixou esse buraco?", o que dança mal qualquer música, separado do corpo, mas dança sempre, se lhe arrancarem os pés, se lhe fizerem uma tiara de espinhos, ele dançará sorrindo, ele é amor.

Talvez ele se vire numa estação de trem e lhe diga: "não consigo mais ver", porque a opção do poeta é estar cego do mundo para em si concebê-lo, não alienar a carne falsa, dar adeus ao amor porque, sendo o amor, não carece de si mesmo.

Talvez não seja raro que as Escolas o abominem, o acusem de escandaloso, de parasita social, ele que não passa de um enfermeiro recém contaminado, esconjurado devido ao peso da pedra bruta, criminoso de cenho ereto.

Talvez não, é melhor dar como certo, que a condição primordial do poeta não é propriamente escrever poemas, apresentar mil facetas ao corpo prejudicado, muito mais é a febre da criança que não teve, e nunca terá.

http://www.omarona.blogspot.com/

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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

DEPOIS DA LIÇÃO >> Ana Coutinho

Nas minhas lembranças mais antigas existe esse período doloroso que as crianças atuais também conhecem: a lição de casa. Ela sempre foi um tormento para mim. Quando eu terminava de almoçar, minha mãe me mandava ir até o quarto, e eu só poderia sair de lá quando completasse a fatídica lição de casa. Era ela contra mim. Papéis e mais papéis cheios de números e perguntas, frente a frente com uma menina que só queria ir brincar no térreo. Mas não podia. Não antes da lição. Essa era a minha multa, o meu pedágio, o preço a pagar por uma alegria tão fugaz e banal quanto um pega-pega...

Por muitos anos, eu sonhava com o dia em que conseguiria terminar a tarefa em 10 minutos. No entanto, isso nunca aconteceu. A minha dura rotina era ficar horas (a mim, sempre pareceram longas horas) sentada à escrivaninha marrom, olhando para aqueles papéis todos, lápis em punho, sem nem saber por onde começar. Às vezes, o tempo passava e só o que eu tinha feito era gastar toda a borracha colorida, só para juntar seus fragmentos. Outras tantas, eu tinha feito desenhos, falado sozinha, cantado no quarto ou simplesmente ficado ali, parada pensando na vida, enquanto meus amigos - mais velozes e espertos do que eu – brincando satisfeitos no térreo, faziam barulho e me matavam de inveja.

A lição de casa não era meu único martírio na infância. Havia outros: A sobremesa só depois da alface, o presente só depois da obrigação, a coca-cola só se – antes - eu tomasse um golinho de suco... Por que o prazer, a nós, sempre tinha de ser seqüência de uma chatice? Por que às crianças não é dado o prazer livremente, de graça, sem que ele sempre custe tão caro, sem que, sobre a alegria de um pega-pega com os amigos, haja tamanha incidência de imposto? Se não podíamos ter almoço grátis na infância, quando então poderíamos? Ainda não entendo bem o que pretendemos ensinar às nossas crianças afinal.

Hoje, mulher feita, pago minhas contas, escolho minhas roupas, decido a hora em que vou dormir, tenho talão de cheques e cartão de crédito com algum limite disponível. No entanto, em muitos dos meus dias, vejo-me exatamente como a menina de 10 anos, horas e horas a sofrer com o lápis nas mãos, observando de longe o lugar onde eu quero estar.

Chego ao trabalho e, como aquela menina, estou cheia de tarefas para terminar. Planilhas a completar, relatórios para montar, problemas a resolver. Sou ocupadíssima e, talvez, a olhos alheios pareça uma executiva feliz em seus saltos altos. Mas não é verdade. A verdade é que eu, tal qual a menina, torço para que as horas passem depressa e aceno para o prazer, logo ali, no térreo. Faço isso o tempo todo. Cada vez que entro em um blog, cada vez que anoto uma idéia para um texto, cada vez que ligo para uma amiga, vejo-me de novo menina, dançando no quarto, cheirando a borracha cor-de-rosa, roubando da obrigação alguns poucos minutos de distração e prazer.

Portanto não é errado dizer que fui enganada. Disseram-me que, depois de adulta, eu poderia decidir a minha vida, escolher o que fazer, e, se odiasse matemática, teria a opção de abandoná-la na maturidade. Afinal de contas, depois de anos tentando entender os números, haveria de chegar a hora do prazer. Depois da chatice, a alegria. Depois da alface o chocolate, lembra? Pois eu devo ter perdido alguma coisa. Quando é que me deram esse superpoder? Em que bonde foi que passou isso que eu não vi? Se eu poderia abandonar os números, há algo errado com a tela à minha frente. Nela, perco-me tentando entender os =SUM(VLOOKUPM (!@#$%@ptaquepariu&¨%) e quase que choro como um bebê quando, depois de muito esforço, recebo a informação #VALUE! Pois então, me devolvam aqui aquela lição de fração, que acho que eu prefiro...

Enganaram-me e – pior- enganei-me eu mesma, por anos e anos a fio. Talvez ainda me engane hoje, quando troco rapidamente a tela de um blog por uma planilha de excel, apenas porque noto que estou sendo observada. Sou o ALT + TAB mais rápido do oeste e deve ter alguma coisa errada nesse meu talento adquirido... Engano-me quando prometo a mim mesma que, depois de pronta a apresentação, poderei ler o resumo da novela; depois de feito o relatório, poderei ver a crônica do dia; depois de encerrado o expediente, poderei escrever livremente aquele texto que não me sai da cabeça, ou contar aquela novidade àquela amiga. Aquela doce amiga para a qual eu aceno, às vezes, enquanto estou encarcerada na escrivaninha marrom, e ela, livremente, brinca no play...

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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

CONTEMPLAÇÃO >> Carla Dias >>

Todos construindo realidades...

E ela gosta de pensar que, na sua maioria, e contrariando as manchetes dos jornais, há mais realidades acolhedoras do que trágicas. Por isso a fascinação pelas entrelinhas, os olhos seduzidos por frestas e gestos amiúdes, que se erguem em grandes feitos.

Particularmente hoje, as realidades alheias lhe enchem a alma de inquietações. Observa, detidamente, as pessoas caminharem pelas ruas; as suas pressas e olhadelas no relógio. A consternação diante da mudança de rotina com a greve dos motoristas de ônibus, ou o tráfego atrapalhado por absurdos, atiçado por um acidente em alguma marginal.

Detém o olhar nas duas mulheres que se abraçam; abraço longo, repleto de suspiros, palavras ininteligíveis, falta de fôlego e... Saudade sendo sanada, num desespero cultivado por distâncias diversas. A mais jovem sorri o sorriso do alívio, e como se a dor estancasse ali mesmo, pronuncia o nome da mais velha: mãe.

Também ela confidencia pressas aos ouvidos do dia. Chega mesmo a esbarrar em estranhos, enquanto tenta alcançar a rotina. Mas ela lhe escapa, e suas mãos ficam soltas ao ar, num balé excêntrico que, para muitos, é sustentado pelas vibrações maléficas da loucura.

Mas para ela a loucura sempre foi plural, por isso não ousa colocar no mesmo balaio todas as loucuras. Busca, nas que lhe são apresentadas, indícios daquela característica que muito se confunde com a loucura: a genialidade.

Cultiva possibilidades com um carinho distraído, assim como coleciona intensos “e se”, classificando-os como iguarias para o sustento da criatividade. Ela vê na criatividade o bálsamo para o desajeito com que andam sendo tratados sentimentos que antes chamávamos pelo nome; que convidávamos para freqüentar a sala de estar do nosso coração, embasados não pela certeza, já que os sentimentos tendem a curvá-las, mas pela honestidade com a qual lidávamos com eles.

Pensa demais sobre o motivo de alguns transformarem o amor em homicida, deixando-se guiar pelas mágoas e carências que vêm de onde? Esse onde... Ela quer saber desse onde, dessa nascente das loucuras que são sandices mesmo. As que são capturadas e mantidas sob a tutela do destrato, do desamparo. Esse canto escuro onde muitos de nós guardamos revezes para mais tarde.
Fosse possível dissipá-los com um assopro, ainda nos primórdios da cólera...

É humana, e assim como outros da sua laia, quer se fartar de afetos. Sonha andar de mãos dadas com a paixão, sem o medo de perdê-la, antes mesmo de conhecê-la por fora, por dentro, às avessas. Que a habitem e lhe permitam habitar, também. E sem que se coloque em risco a identidade, porque apesar de nos empanturrarmos de cópias, imitações, sósias, é justamente aquele quê – meu, seu, dela – que mantém cada um de nós sendo um vivendo na companhia de outro um.

As realidades lhe parecem ríspidas, às vezes, mas ainda assim demandam agrados. Como agora... Ela resguarda a alma da realidade que convalesce de perdas. E na urgência de cuidá-la e torná-la saudável para apreciar horizontes, arrebanha uma série de histórias que não são suas, mas que lhe cabem tão bem.

Os amantes que se encontram no ponto de ônibus.

O menino choramingando pelo brinquedo exposto, na banca de jornal.

O encontro entre filha e mãe.

O senhor xingando o farol que, sem consideração, abanou a cor vermelha e o impediu de correr com sua pressa.

O entregador da floricultura que já se cansou da beleza das flores, e quer mais é parar na padaria e tomar um pingado.

A vida... As vitrines... As loucuras.

A contemplação...


Imagem: "Water Lilies", de Claude Monet

www.carladias.com



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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE >> Albir José inácio da Silva

Fez até trabalho na encruzilhada para se livrar do maldito e da peste do filho dele. Não adiantou. Lá estava aquela coisa com o filho piolhento que lhe chutava as canelas.

Já ia para seis anos agüentando aquela situação e não conseguira nada, além de cabelos brancos e marcas nas pernas. Marcas que carregaria pela vida afora. O diabinho já chegou com ele, e ela, burra, ainda se deixou engravidar e parir. Ah, se arrependimento matasse! Sua filha não nascera grande coisa, sendo filha de quem era, mas não se comparava àquela coisinha pestilenta que ela tinha de aturar.

Pensou em levar o demoninho para uma sessão de exorcismo, mas teve medo. Não queria consertá-lo, queria se livrar dele. Ele agora usava umas botas, segundo o pai por causa das pernas em arco, mas que eram armas. Sempre que ouvia a menina gritando, sabia que ela tinha sido atingida pelo artefato de couro. No início gritava com ele, reclamava com o pai, tentou mesmo lhe dar uns cascudos. Depois desistiu. Trazia pelas pernas marcas roxas, vermelhas, negras e feridas que nem deixavam mais saber a cor original. Empenhou-se na tarefa de livrar-se dele. Deles.

Não adiantou dizer ao marido que não o queria mais, que não agüentava mais seu filho remelento. Que lhe desse uma pensãozinha por todos esses anos e ela iria embora. O miserável ainda sorrira: - Deixa de conversa fiada, mulher, anda logo com essa comida.

Fez corrente de oração e chegou à sexta semana. Às vésperas de conseguir a bênção, alguma fofoqueira contou ao pastor que o motivo de tanta devoção era afastar o marido. Sem devolver as contribuições, sua esperança foi desautorizada: - Ainda se fosse para trazer o marido de volta, gritou o reverendo.

Só lhe restava a justiça. Não queria. Não gostava desse negócio. E tinha medo de não receber seu direito. Que não podia ser pouco, não. Agüentar o que ela agüentava não era coisa pra pouco dinheiro, não. Conhecia gente que vivia de pensão. E muito bem. Tinha até empregada. Mas, nesse mundo de injustiças, nunca se sabe.

E foram esses os argumentos que ela repetiu ao juiz na esperança de ficar livre do marido, do enteado e ainda conseguir um dinheirinho para ir cuidando da filha, que não era grande coisa, filha de quem era, mas era sua. O diabinho, que vivia infernizando a menina, deu-lhe alguns beijos e passou a audiência alisando seus cabelos.

- Considerando a vontade firme e inabalável da autora, mesmo contrariando o desejo do marido que é a manutenção do vínculo, decreto a separação do casal – começou o juiz. E olhando para as crianças, o irmãozinho alisando o cabelo da irmãzinha, continuou: - No interesse dos filhos, que muito se ressentiriam com a separação, deixo-os sob a guarda do pai.

O coração disparou. Ela esperava livrar-se dos dois... mas dos três?! Seria efeito retardado? Do trabalho ou da corrente?

Mas o juiz continuou:
- A mãe visitará livremente os infantes e pensionará sua filha com vinte e cinco por cento do salário-mínimo.
- Quer dizer o quê, seu juiz? - perguntou assustada.
- Quer dizer que a senhora vai pagar pensão para sua filha.
- Ele não vai me dar nada e eu ainda vou ter que dar dinheiro pra ele?
- Pra ele não. Pra sua filha. Ele recebe, mas é pra ela.
- Seu juiz... vamos esquecer tudo isso... me devolve o traste, o trastinho e a minha filha que não é grande coisa filha de quem é, que eles não vão conseguir se cuidar sozinhos não.

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domingo, 19 de outubro de 2008

Encantado >> Eduardo Loureiro Jr.

Detalhe de foto de André Guisard / Flickr.comEncantar as pessoas desencantadas, eis o meu lema.

Quem não está em seu canto, onde está? Desencantou-se para onde? Em que outro lugar alheio a si mesmo se esconde?

As pessoas desencantadas não têm a cara do lugar em que estão. Algumas reclamam: querem que o lugar em questão seja o canto. Outras desistem: não sabem tomar o rumo de volta e deixam-se ficar por cansaço de perdição. Há uma plaquinha em sua testa: ESTE LUGAR NÃO É O MEU CANTO.

Encantar as pessoas desencantadas, eis o meu leme de barco, e navego.

As pessoas desencantadas estão entre pedras sem serem das pedras. Estão dentro d'água sem serem da água. Estão inflamadas sem serem do fogo. Estão avoadas sem serem do vento.

Têm dor de cabeça, as pessoas desencantadas, pelo peso da placa que carregam na testa. Nem lembram como saíram de seus cantos para os cantos de outros. O canto do outro é o desencanto do próprio canto.

Encantar as pessoas desencantadas, eis meu lembrete — de gente — de barco que passa.

Encanto meu não traz ao meu canto. Meu canto não é destino, é viagem até o canto teu.

Desencantado que se alheia no encantador apenas troca o canto que não é seu por outro, que também não.

Encantar as pessoas desencantadas, eis o meu lê-me.

Encanto meu está nas palavras que movem de lugar. Encanto meu vem do meu canto quando me deixo estar. Encanto meu é de pedra para os que são de pedra, de água para os que são de água, de chama para os de fogo, de sopro para os de ar.

Desencantado que me lê assim — sabendo o próprio canto a que é seu chegar — me desencanta, também, do meu não-lugar.

Encantar a pessoa desencantada: eis-me a me remar.

Braços de meu próprio canto levando o resto de mim para o meu lugar. Tempo já e tempo ainda no balanço de navegar.

Braços que roçam outros braços até o destino chegar: um para mim, outro para ti. Fica, que eu me vou. Vai, que eu fico cá. Ou fiquemos juntos. Ou vamos juntos. Quem saberá.

Encantar a pessoa desencantada, eis o que há.

Cada qual no seu canto. Até que se possa levar o próprio canto para qualquer lugar. Então o teu canto será o meu canto sem riscos de desencantar.

Destino final desse navegar é desencantar do próprio canto encantado. Viajar. Depois desencantar do barco, e mergulhar. E, enfim, desencantar do mergulho e encantar-se mar.



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sábado, 18 de outubro de 2008

TRÊS TRILHÕES [Sandra Paes]


A notícia tinha sido dada na hora do jornal, mais cedo: Europa injeta três trilhões de euros nos bancos na tentativa de salvar a economia.

O pensamento focado nos zeros, virou carneirinhos. Quero dormir e lá vem mais uns zerinhos...

Pensar na economia como uma doente precisando de transfusão, já é uma coisa complexa e difícil de imaginar, por mais que tentem explicar toda essa onda de efeito dominó começada, dizem nos USA. Agora, ficar imaginando uma enorme quantidade de zerinhos pra resgatar a doente, fica ainda mais difícil. Mais zerinhos...

Três trilhões de euros na Europa, não sei quantos bilhões de libras na Inglaterra, mais alguns bilhões na Rússia, mais oitocentos bilhões de dólares nos USA. Com todos esses zerinhos dava pra fazer uma transfusão em toda a população do planeta. Só a classe média do mundo, por exemplo, que é quem se mata, se esfola, pra sustentar todos esses cifrões acumulados, se beneficiaria diretamente se tivessem intenção de salvar mesmo alguém. E se pegam todo esse dinheiro e distribuem simplesmente pras pessoas pagarem suas dívidas, acabava o problema, com certeza.

Como assim? Quem deve é quem esta no mercado produtivo e distributivo. Se pegarmos as pessoas físicas, e déssemos a elas um abono pra liquidar as dívidas acumuladas, com certeza os bancos se encheriam de vitaminas e ficaria tudo sanado.

O mundo tem hoje cerca de sete bilhões de habitantes. Os que participam do sistema produtivo de finanças, não chega a isso. Solução simples pra se reiventar o mundo com mais qualidade de vida e saúde: pega-se todo esse dinheiro acumulado e distribui-se para as pessoas pagarem suas dívidas, saudarem seus compromissos financeiros, aliviarem suas preocupacoes e angústias todas.

E pensar que essa onda veio no Dia do Perdão - o feriado judeu de maior importância. E o perdão está diretamente associado com perdoar as dívidas. Então? Era só fazer cumprir o mandamento, exercer o que a Lei Maior determina. Simples assim.

Sabendo-se que essa dívida também é virtual, por que toma-se o dinheiro das pessoas em nome de sustentar o estado, com seus impostos? O doador básico, além de doar seu tempo, sua força produtiva pra ter alguns trocados, ainda tem que pedir ajuda financeira pra sustentar a casa e a família.

Quem fica com tudo? Os donos do dinheiro - que os guarda muito bem nos cofres dos bancos centrais de todos os paises, pra jogar pela janela quando a coisa aperta, ou seja, o povo não tem mais dinheiro pra pagar suas contas. Trabalhou tanto e não conseguiu poupar nada. E quando o faz, acredita estar sendo acionista de empresas, comprando ações na bolsa de valores, e fica de boca aberta esperando que as tais empresas se valorizem, e assim ele pode dizer que “teve um quinhão de lucros” junto com as empresas que apostou ser bom alvitre. Qual o que! Banqueiro só joga pra ganhar - e pra ganhar alto.

Pois é... Dizem que a prostituição é a profissão mais antiga do planeta. E até houve um tempo em que fecharam as casas de tolerância ( o nome é bem curioso). E foram fechadas numa época da vida por chamarem de “mulher de vida fácil” as trabalhadoras do local. As casas de tolerância financeira com suas tetas gordas só vão acumulando notas em suas cintas, cobrando juros altíssimos pra emprestar o dinheiro que foi recolhido indevidamente de quem deu o sangue e o suor durante todo o ano.

E todos esses zerinhos rolando na minha mente não vêm pra me ninar não, mas pra tirar o sonho - se é que ainda restou algum.

Sonhar o que? Comprar o que? Viajar para onde? Sim, por que tudo acaba sobrando sempre pra gente mesmo. Tudo que se quer ou precisa fica mais extorsivo depois que todos os trilhões vão pros cofres de quem já lhe cobrou nocivamente e ainda, insatisfeito com o sangue que lhe retirou, ainda ganha mais transfusão pra gente pagar de novo de forma indireta.

Deve ser por isso que se diz que Dracula é imortal. Claro, quem vive do sangue do outro, se imortaliza até em forma de cartão de crédito, de dividendos, de caderneta de poupança, de CDB’s, de consórcios, e as ruas cada vez mais entupidas de carros, a gerar mais poluição, as cidades mais entupidas de barracos e “apertamentos” vários, empilhados em cima dos outros, gerando mais violência, e mais extorsões pra se administrar os pombais, e, enquanto isso os hospitais públicos cada vez mais entupidos de macas e gente moribunda. Sim, por que a doença da miséria e do confinamento se espalha como epidemia, e o discurso de mais saúde e educação para o povo, continua.

E ainda votam em vereadores, em governadores, em presidentes... A cegueira não é mais um ensaio, é um espetáculo de apresentação permanente e continua, e é claro, ninguém vê. Será?

Imagens: Euro/Dolar, Jornal O Globo; Dolar/Real, Revista DW-World DE; Euro us Dollar, Revista Option One

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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Do lado de fora do umbigo do mundo >> Leonardo Marona

Do lado de fora do umbigo do mundo, nas ruas, havia carros virados tomados pelo fogo com pessoas dentro se contorcendo sobre tripas expostas como rosas urbanas.

Lá dentro, Jaime Bortoloni contava caroços de feijão por cima de um pano de prato pouco limpo, ouvindo a rádio MEC e querendo desmaiar sem sentir nenhuma dor. Não existem movimentos sem dor, ele sabia. E separava os bons caroços dos maus caroços, sem saber o que se passava lá fora e que, em algum lugar, em alguns muitos lugares, estavam também separando os bons dos maus, como sempre fizeram – a partir de quais critérios?

Jaime estava pensando. Isso era um mau sinal. Sinal de que, se não cuidasse o rumo pelo qual as idéias sujas tentariam arrastar sua idiotice tremenda, estaria muito em breve dentro da banheira novamente, ouvindo Tom Waits cantar everybody goes to heeeeeeeeeeeeell, mergulhando a cabeça e fazendo bolhas com o nariz até os dedos do pé murcharem.

Mas era divertido imaginar a tristeza alheia. Por isso ele separava os feijões olhando pela janela. A vizinha da frente masturbava-se inexpressivamente, como nos filmes sobre a decadente realidade norte-americana, tentando se esconder da própria existência, triste como a solidão do sexo sintomático, com os olhos grudados no passado, a testa retesada para a direita feito mula manca olhando um pedaço de cenoura sem poder comer. Pouco acima, um senhor de uns 210 anos diante da janela, a boca mexendo e o corpo independente, indo para frente e para trás durante oito horas seguidas, segurando um rosário e sentindo o câncer lhe avançar pelo ânus. Uma outra velha pendurada no parapeito de um prédio, limpando o mármore negro sem entender como ele continuava negro independentemente da força com que ela esfregasse a bucha e rebolasse as ancas por dentro de um mini-short com as cores do arco íris.

Lá embaixo, junto às explosões de óleo diesel, aos chafarizes de sangue, às panturrilhas estilhaçadas e às sirenes intermináveis, um vendedor maneta de ioiôs procura saber de alguma forma se algum dia vai conseguir vender algum ioiô, sendo ele um vendedor maneta de ioiôs. Ao lado dele um velho mendigo – todos parecem velhos, mesmo os novos – com um camisão de flanela furado na altura da bunda, as calças bastante arriadas, chora de olhos apertados e com a boca frouxa, com as mãos em concha pedindo perdão e qualquer moeda que sirva para que, assustadas, meninas de braços dados avancem o sinal verde, rindo porque alguma coisa deve ser – tem que ser! – muito engraçada nisso tudo.

No que Jaime pensava durante os dias mortos? Passos. Passos para frente, passos para trás. Você dá um passo para frente e tem sempre alguém que fale: “por favor, senhor, dois passos para trás”. Daí você volta dois atrás e então te olham com um nojo disfarçado de desprezo e você fica imaginando qual a vantagem em disfarçar uma sensação com a outra. Então finalmente sempre vai ter alguém para dizer: “Ei, você! Você mesmo, não vai se mexer, olhar o mundo lá fora?” Então Jaime sente que alguém o está esperando. “Não seja egoísta” – em algum lugar continua a voz. “Não se desespere. Jamais perca o manejo da situação. Você. Você mesmo. Estou falando com você! Você tem que mostrar seus nervos de aço”. Jaime até o parapeito. “Tem que agüentar firme. Não adianta se esconder como um rato. Não seja mole! Vamos lá! Avante, camarada! Pela massa! Por todos nós!” Pobre Jaime, que sente mas não sabe.

Jaime preferia os que mandavam dar passos para trás. Pelo menos falavam menos. “E será que alguém seria realmente capaz de dizer sinceramente o que estamos esperando disso aqui?”, ele dizia a si mesmo. “Sem essa conversa de paz, liberdade, saúde e esfaquear alguém se for necessário”. Jaime encontra um feijão branco no meio dos pretos. “Porque eu adoraria saber o que estamos esperando junto com o fim de tudo que importa”. Ele então abandona os feijões e segue até o banheiro e liga o gás. “Eu mesmo não consigo imaginar dois minutos além de agora”. O gás estoura forte – necessita-se de um bombeiro. “E quando tento, os olhos me ardem”. Agora a torneira virada. “E se ando para trás, o peito incha”. Quatro minutos até encher. “Então fico preso aqui a esse agora pavoroso sem escolhas e cheio de cobranças e atitudes explodindo sobre o meu rosto, e nem mesmo sou totalmente mau”. A água corre quente, um pouco enferrujada – necessita-se de um bombeiro urgentemente. “E se fico no agora coberto por atitudes esperadas e cheio da gente cuspindo nojo sobre o meu rosto e colocando buracos infinitos na minha frente ao mesmo tempo em que me convidam para jantar e brindar, então a cabeça dói”. E lá estava Jaime novamente na banheira. EVERYBODY GOES TO HEEEEEEEEEEEEELL! Sim, é isso aí, Tom Waits.

E ele sabia disso há três minutos e o peito inchou e a cabeça doía. Porque ele não podia ter o passado e o presente ao mesmo tempo. Menos um dia, mais um. Quem consegue abandonar a contagem? Explosões e gritos lá fora. Cotações subindo e descendo, gravatas apertadas para o compromisso e frouxas para o mundo lascivo logo mais tarde, tudo isso sem ninguém entender por quê. Umas pessoas presas atrás de grades chorando, outras soltas nos jardins chorando mais ainda. As boas se fodendo, as más também, cada uma a seu tempo. Isso não fazia o menor sentido. Daí a solução dos prêmios e promoções. Os gênios não se sustentam por idéias velhas. Todo gênio se torna amargo, e os medíocres continuam medíocres – alguém mais esperto deveria dizer. Por isso você deve escolher entre apagar tudo e bola para frente ou pegar a bola e estourar com os dentes. Palavras não são absolutamente nada, não representam nada. Nós criamos as complicações quando estamos mudos, quando somos de certa forma poéticos e, por isso, nos reconhecemos como algo além do humano. A dor do mundo é simples, indelicada. Isso não admitimos. Vejam no que resultaram as obras geniais. O fim dos gênios, quando existem tantos por aí mastigando risadas cheias de cansaço e desatenção, rezando para não serem descobertos por ninguém, porque assim manda a moda antiga, e quem sabe morrer no sofá assistindo à programação televisiva vespertina de domingo.

Algumas opções para o fim provável de um gênio: um milhão na conta, publicado, faceiro, bebendo pesado e alisando gatos com um BMW preto na garagem. Morrer aos 74 anos. Ou então pouca grana, uma única mulher amada, duas pernas amputadas pelo doce exagerado, com vários fracassos de um lado e duas ou três marcas na história. Ah! Cego também. Morrer aos 74 anos. Poderia ser também passear por bares e festas, trepar vedetes de cabelos curtos, tomar vinho em odres amansando touros e cansando peixes enormes, com dois ou três fracassos e algumas boas marcas na história, de repente bebendo rum em Cuba com Fidel Castro, de repente roubando livros em Paris ou nadando em algum lago na divisa com a Espanha dominada por Franco. Quem não se mataria depois de tudo isso? Respondam sinceramente. Por isso existem tantos gênios hoje. Porque ninguém se mataria depois de tudo isso – não hoje. Por isso temos valorizado tanto as coisas e chamado tudo de qualquer coisa. Como um saco de feijão. Olha, isso aqui para um lado, isso aqui para o outro. E temos alguma coisa de fato? Eu sou melhor que fulano, tenho muito mais a acrescentar ao funcionamento do Estado. Eu sou melhor que fulano, tenho muito mais a acrescentar à literatura universal. Eu sou melhor que fulano, matei menos gente que ele e ainda por cima engulo hóstias aos domingos. E assim até o fim, até a próxima esquina, por muitos e muitos anos, desde que Jaime entrou na banheira e só saiu para contar os feijões para depois voltar ao gemido rouco de Tom Waits.

“Por que devo me mexer?”, se perguntava Jaime. “Já não temos coisas se mexendo o suficiente lá fora? Já não temos carros voando pelos ares o suficiente? Já não temos pessoas com os crânios esmagados pelos carros voando pelos ares o suficiente? Pés entrando e saindo dos bares. Pés sendo decepados para não haver mais escolha. Pessoas alterando constantemente o sentido das coisas, até elas virarem uma omelete de catarro. Pessoas vivendo para dar sentido às coisas num portal virtual qualquer, com a foto da pessoa no canto superior da tela”. Jaime preferia contar feijões a ser parte do mundo. Isso é um pouco complicado. É sim.

Ao pegar a toalha após o banho ouviu a campainha tocar. Secou-se um pouco se olhando no espelho. Sovaco, virilha, calçou os chinelos, vestiu uma bermuda e se arrastou até a porta. Já haviam cessado os toques na campainha. Agora esmurravam violentamente a porta. Alguém parecia estar com pressa. É sempre assim.

- Que merda! Já vai, porra! Que pressa toda é essa, puta-quiu-pariu? – disse Jaime, a mão na maçaneta, o olho no buraco do olho mágico.

- Precisamos falar com Jaime Bortoloni. É você, não é? Abra a porta. Somos do recrutamento.

- Mas eu já cumpri meu serviço. Fui dispensado por insuficiência física.

- Abra ou vamos ter de arrombar.

- Vocês têm um mandato?

POW! A porta veio para cima de Jaime, que deu um pulo para trás. Dois sujeitos de terno e gel nos cabelos não entrariam no apartamento de alguém dessa forma se não houvesse algo de muito errado acontecendo.

Colocaram Jaime sentado debaixo de uma luminária. Uma bacia cheia d’água ao lado. Jaime olhou para a bacia e pensou por três segundos sobre ela: “Com mil demônios!” Depois achou melhor pensar em outra coisa ou pelo menos tentar. Um dos sujeitos de terno tinha cara de açougueiro e segurava Jaime pela nuca. O outro parecia ter comido um fígado humano ainda quente, e dos bem usados, andava de um lado para o outro com os braços cruzados.

- Precisamos te fazer algumas perguntas – o primeiro homem disse.

- Se incomoda se eu ligar o som? – disse Jaime.

- Qual é a sua ocupação? – e pressionou um pouco mais a nuca de Jaime para baixo.

- Nada de especial.

- Você acredita em alguma religião?

- Isso vai depender.

- Exatamente do quê?

- Vai depender se você vai me delatar para minha avó! Olha aqui, amigo, eu não tenho feito nada de mais ultimamente, fora feijões. Então...

O sujeito que havia comido fígado humano recentemente se aproximou e penetrou uma agulha na altura do ombro de Jaime. Instantaneamente ele tomou a fisionomia de um idiota do mais alto grau, portanto se acalmou. O açougueiro sacou então um bloco e começou a anotar: “Candidato número 50.896 – Ala Sul”.

- Jaime, vou te fazer algumas perguntinhas, tudo bem? Basta responder com toda a sinceridade que podemos tomar umas cervejas depois, oquei?

Jaime fez que sim com a cabeça. Ele babava um pouco, tinha o pescoço ereto e os olhos viravam de vez em quando para dentro.

- Jaime, qual é a sua ocupação?

- Não tenho nenhuma, senhor.

- Puta que me pariu, Jaime, você precisa cooperar!

- Escrevo, finjo que trabalho e ouço alguns discos, senhor.

- Isso não foi uma boa resposta, meu camarada. Nada bom mesmo. Você tem alguma religião, meu jovem? Você acredita na moral dos bons costumes?

- Eu acredito na moral dos bons costumes, senhor. Exatamente por isso não tenho nenhuma religião, apesar de a minha avó se importar muito com isso. Ela ficaria triste se...

- Não me interessa! Chega dessa merda! Apenas responda ao que lhe for perguntado. Então você não tem religião, apesar de acreditar na moral dos bons costumes... E também não trabalha...

- Desculpe, senhor, mas eu não disse que não trabalho. Disse que finjo que trabalho.

- Ah! Então obviamente você poderia me explicar a diferença entre uma coisa e outra, não?

- Eu tenho um trabalho, vou lá e faço as coisas, trato as pessoas bem, tento ser prestativo. Acontece apenas que eu não me importo com isso. Não ambiciono nada disso. Nem sei se ambiciono qualquer coisa. Claro, isso me preocupa. Algumas noites eu como os travesseiros e dou murros na cabeça, chuto poste na rua. Às vezes fico um pouco apertado e tenho que me virar, fazer qualquer coisa, levantar algum, mas normalmente trabalho apenas pela moral dos bons costumes, e não porque gosto ou porque preciso. Por isso eu digo que finjo que trabalho. Acho que o senhor entende o que estou dizendo, não entende, senhor?

- Olha aqui, seu filho da puta – disse o açougueiro depois de espremer o pescoço de Jaime na parede – quem faz as perguntas aqui sou eu! E por acaso eu tenho cara de médico de cabeça? O mundo caindo lá fora! Você não lê jornal, não vê televisão?

- Não, senhor. Eu não leio o jornal nem vejo televisão – Jaime retorquiu, ainda em transe.

- Você não faz nada! O que você faz, porra!? – começou a gritar o homem que havia comido fígado ainda quente, andando em círculos com os braços para o alto, do outro lado da sala.

Então o açougueiro se recompôs, ajeitou o terno, estufado com os movimentos bruscos, limpou a testa com um lenço, depois o buço vagarosamente, então disse, depois de morder a boca, tentando permanecer calmo:

- Veja bem, meu amigo. Veja se você compreende. O mundo está no fim. Os gases estão acabando e uma bomba está sendo feita com o pouco que ainda resta deles. Essa bomba vai mandar tudo isso aqui pelos ares. Alguns vão se safar, outros vão se foder. A lógica do negócio continua a mesma. Portanto, nosso trabalho é escolher aqueles que vão para o paraíso e aqueles que vão precisar rezar por isso. Um trabalho nobre, não acha?

- Sinceramente não, senhor.

- Ah, então você acha que é um trabalho de merda?

- Não quis dizer exatamente isso, senhor. Mas, provavelmente, o senhor não vai conseguir escolher os humanos que realmente são imprescindíveis para a continuidade da espécie. Então, o que provavelmente vai acontecer é que os que se safarem vão morrer dizimados de uma maneira ainda mais cruel e violenta do que os dizimados imprescindíveis. Provavelmente roendo uns as canelas dos outros. E o senhor, em boa parte, será o culpado. Por isso não acho que seja um trabalho nobre.

- Olha aqui, seu merda! – e o comedor de fígado humano veio correndo e levantou sua botina lá no alto, voltando com tudo de bico num dos joelhos de Jaime, que caiu imediatamente. Depois o açougueiro deu três chutes no seu rosto fazendo um rastro de sangue fugir pela parede encardida da sala.

Deram com as algemas nos pulsos do homem ainda fora de órbita, o arrastaram dali. Jogaram Jaime dentro de um caminhão do serviço sanitário estadual. Pessoas corriam e gritavam e caíam pelo chão com pavor, esticando os braços, fechando os punhos e abandonando seus membros vitais soltos pelo caminho. De perto a cena parecia pior, como qualquer coisa é pior quando vista de perto. O fim do mundo acabava num antigo depósito de sapatos, transformado num enorme forno a gás, para onde seguiam os caminhões adaptados do serviço sanitário estadual, com os feijões estragados. De cima do depósito bamboleava uma fumaça preta com cheiro de churrasco passado e de nenhum lugar, num raio de mil quilômetros, podia-se ouvir Tom Waits cantar.



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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O DEPOIS >> Ana Coutinho >>

Ele foi logo falando que era um assalto. Disse que queria o dinheiro ou o celular e eu, pasma, tive todas as palavras e idéias apagadas da minha mente por um instante. Minha cabeça era puro pânico e desespero, mas, não sei como, consegui não dar nenhum real para o menino e acelerei meu carro rumo à avenida, longe dali.

Em casa, refeita, eu pensava em tudo o que poderia ter feito ou dito. E as opções eram tantas! Como não fiz nada? Por que eu não disse a ele que meu dinheiro era fruto de trabalho duro? Por que eu não lhe dei uma guardachuvada ou chamei a polícia antes de alcançar o próximo farol? Depois, as idéias me vinham aos montes, uma atrás da outra, todas excelentes, mas eu as desperdiçara.

Perdera o momento em nome de uma insanidade, de uma ausência, de uma coisa meio bicho que tomou conta de mim e me fez perder o sentido básico de raciocinar apenas.

Aconteceu numa reunião também. Alguém me fez uma pergunta inesperada. Titubeei, rateei e respondi de forma meio tonta, meio tosca, uma resposta que nem eu entendi bem. Em seguida, já dentro do meu carro, rumo à minha casa, a resposta me vinha fácil, desenrolada, tão clara, tão bem formulada. Por que eu não disse isso, por que eu não disse aquilo, por que não dei cambalhota, por que não gritei, por que não pulei, por que não cuspi na cara dele? Eu não sabia. Mais uma vez eu perdera sentidos básicos e – de novo – desperdiçara o tempo, as palavras, o momento, por causa de qualquer coisa sem explicação. E aí o depois tornou-se meu inferno. No depois eu penso tudo, eu falo tudo, eu faço e aconteço. Depois eu sei o que deveria ter dito, o que deveria ter feito, e as respostas são todas claras e simples.

Acontece com todo mundo. Teu marido te diz um desaforo e você fica sem reação. Briga com ele, vai pro trabalho e uma amiga sensata lhe pergunta por que você simplesmente não falou aquilo. Pronto, é o depois clareando as idéias. Mas já era tarde. Você já tinha se magoado, gritado e chorado. Só depois é que viu. Puxa, por que mesmo eu não falei isso, mas que droga, deveria ter dito isso, claro, claro, por que não fiz, ai, por que, por quê?

O depois ataca a todos. Filhos e pais, inclusive. Todos os pais ficam sem ação diante de seus filhos ao menos uma vez na vida e, depois, talvez apenas um dia depois, percebem que não precisariam. Que poderiam ter agido de outra forma: Meu Deus, por que não fiz assim ou assado? E desejam agarrar o instante, trazê-lo de volta ao momento, refazer o tempo que passou só para responder certo, agir certo, fazer o que é o correto e tão, tão absolutamente claro.
Sartre estava errado. O inferno não está nos outros. O inferno está no depois.

Vivemos de momentos, dizem, e é verdade. Mas vivemos principalmente do que não fazemos naqueles momentos. Vivemos, depois, de arrependimento dos momentos. Vivemos formulando o que deveria ter sido dito, a cara que deveríamos ter feito, o beijo ou o abraço que deveria ter sido dado. E a resposta disso é simples. Fazemos tantas bobagens, erramos tanto, nos bloqueamos tantas vezes por uma única razão, e essa razão é o medo. Tememos a palavra fora da boca, o carinho em ação, tememos a exposição, tememos a covardia e tememos – talvez ainda mais – a coragem. Talvez se fôssemos mais verdadeiros e naturais, conseguíssemos pensar menos (e melhor) e agir mais (e melhor), enxergar as coisas com mais clareza, sem o véu nublado do nervosismo, do pavor, do temor alheio. Somos todos da mesma espécie afinal, por que nos aterrorizamos tanto uns com os outros?

Eu não sei. Mas tenho feito uma força danada para antecipar o meu depois para o meu agora. Quero a clareza das janelas abertas da minha casa ainda na tensão obscura do escritório. Quero a certeza que tenho numa madrugada insone durante um dia assustador com quem quer que seja. Quero inverter a ordem das coisas. Quero ser um hero, uma x-woman, e paralisar o tempo por 5 minutos ou, então, me serviria também retornar ao passado por - quem sabe - 2 minutos.

Basicamente, ter superpoderes é a solução mais simples que consigo encontrar: agora e, certamente, depois também.




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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O QUE NOS CABE? >> Carla Dias >>


- E se for hoje?
- Então, viveremos o dia com o desespero em êxtase.
- Será hoje...
- Pode ser...
- Será que será?
- Vai saber...
- O tempo tem dentes... Vai nos mascar feito chiclete.
- E de qual velocidade seríamos partidários?
- Nesse dia? Do desejo desmedido; daquele quê oferecendo prazer insustentável.
- Comeríamos?
- Frutas desmascaradas de estação. E engoliríamos o ócio... Só haveria espaço sem tempo para ações... Desmascararíamos teorias.
- Teorias podem ser construtivas, fortalecer realizações...
- Ações dão na poesia que me ganha e disso não consigo me desfazer, e nem quero. Afinal, as teorias que ficam na teoria acabam por desbotar sonhos.
- Arrepios provocados por beijo na nuca...
- O quê?
- Pedirei uma porção deles... Se for hoje...
- Pra quem?
- Sei lá!
- Sabe lá?
- “O que é morrer de sede em frente ao mar?”
- “Sabe lá?”
- Sei... E você?
- Talvez...
- E?
- Surrupiarei trocados de amigos tacanhos para comprar balas de hortelã.
- Por que balas?
- Balas de hortelã me lembram a infância com meu avô. A língua refrescada, atiçando gargalhadas. Era troco do pão, da pinga, da lata de molho de tomate. Bala de hortelã era o tipo de troco que se dava ao menino apaixonado pela infância, pelas suas brincadeiras e suas seriedades, como era o amor que eu tinha pelo meu avô... De uma seriedade imensamente feliz.
- E se não for hoje?
- Pode ser amanhã, né?
- Pode...
- Pode ser nesse presente que, de um fôlego se torna passado. Pensa bem... Eu te conheço no raso. Se não for hoje, poderei me identificar com descobertas sobre você. Aprofundar-me a respeito da sua humanidade, qualidades e defeitos.
- Mistérios particulares à espera da companhia das traduções. Por que esperamos tanto para mergulhar um na alma do outro? Por que tanto receio em nos entregarmos a tal jornada?
- Talvez temamos nos identificar com quem não poderemos compartilhar a vida.
- Mas no receio, nessa proteção exacerbada, não há também o risco de não lapidar a capacidade de reconhecer a intimidade? Essa distância me endoidece, sabe? Todos nós merecemos ser desvendados, ainda que jamais alguém chegue a nos traduzir as entrelinhas.
- Eu já sei que você gosta de horizonte... Por que seu olhar se perde nele desse jeito? O que há de tão especial no além de?
- É meu jeito de alimentar a alma. Na verdade, o horizonte me permite outro tipo de olhar, aquele despido de alvos. Não há precedentes, esquetes, conjecturas. É um olhar honesto, que não julga, não manipula emoções. Abraça o que alcança.
- Crueza...
- A beleza que pode haver nela...
- Matará a tal sede com? Sendo hoje?
- Sutilezas... A chuva caindo no rosto, os pés dançando músicas que não escutei antes desse dia. A dança da novidade num momento de partida. E colarei lembretes pela casa, pelas ruas, pelo mundo, para que jamais nos esqueçamos de quem fomos e quem nos tornamos. As importâncias... Você?
- Farei de conta que será somente amanhã, não hoje. Retardarei o inevitável, ao menos dentro de mim. Porque não quero deixar de existir, justo agora que começo a compreender inquietudes. Gostaria de desfiá-las, criar futuro com essas compreensões.
- Mas e se for hoje?
- ...
- Não há resposta certa, não é mesmo? De um jeito ou de outro...
- Morreremos de sede...
- Em frente ao mar...
- Ironia sermos ceifados pela solidão justo agora que sabemos um pouco mais um sobre o outro.
- Mas há o medo que nos afasta da proximidade.
- Ele sempre estará presente entre nós.


- Sempre é quando?
- Logo mais... Hoje ou amanhã... Sendo hoje, daqui a pouco.
- Daqui a pouco nos distrairemos um do outro, das nossas reflexões. Apagaremos as descobertas, colocaremos a culpa de não conseguirmos ficar um pouco mais na nossa humanidade, e seguiremos com a vida.
- Sós...
- Olha, foi bom te conhecer.
- Pois é... Uma pena que me desconhecerá daqui a pouco... Hoje ou amanhã não é tempo suficiente para nós.
- Ainda haverá o seu olhar...
- Despido de alvos...
- Desnaturado com os rótulos.
- Melancólico, porque ele sempre buscará por esse momento e, sem encontrá-lo, sofrerá de desabrigo.
- Antes fosse daqui a um ano...
- Aprenderíamos a ficar, nesse tempo?
- Não sei... Acho que não... Começo a me dar conta de que não se trata de tempo.
- Bastaria um segundo, se realmente estivéssemos prontos para mergulhar um na alma do outro.
- E o medo?
- O medo... Quantos fins de mundo ele nos oferece durante a vida, não?
- E temos de aceitá-los?
- Cabe a nós transformá-lo em começos, não em fins.

Imagens: "Descending Angel"/ "Ascending Angel" >> John Wimberley

www.carladias.com


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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Da arte de desaniversariar >> Maria Rachel Oliveira



Aniversários são, teoricamente, momentos de reflexão e de aprendizagem. São? Bem, para mim, não este – ao menos não exatamente. Como o aniversário foi meu, e com ele faço o que quiser, decidi que este ano e em alguns outros, oportunamente, não quero saber de aniversário. Só de desaniversário – modalidade na qual estreei anteontem, dia 11, sábado. Sábado, que pra me contrariar, não me deu um arco-íris de presente, embora houvesse sol e nuvens muito, muito cinzas.

A propósito, podem dar os parabéns atrasados que eu os aceito todos. Desaniversários merecem também.

Não vou dar pra mentir idade, nem tentar me fazer passar por tchutchuca universitária. Desaniversariar também não significa começar algum projeto esdrúxulo para virar uma velha ridícula de cabelos longos, loiros e com peitos siliconados.

Trata-se de desaprender.

Eu, astróloga iniciante, posso tentar interpretar sabidamente alguns aspectos desta Revolução Solar; talvez até achar alguma justificativa para essa sandice; mas não quero. Porque descobri que um dia eu já quis coisas sem motivo algum, e que no final das contas elas eram boas.

Quero reaprender a gostar sem medo. Ou desaprender a gostar com; o que dá no mesmo. Eu, que voltimeia tenho saudosismo de mim mesma, porque amar logo que a gente aprende como é tem o lado gostoso de se jogar sem pensar muito nos 'e se...' e nos 'mas'; duas pragas da experiência.

Quero esquecer como é fazer tantos planos; mantendo vivos bem menos de meia-dúzia - e ficar aberta aos imprevistos que virão pelo caminho. Como naquele Natal em que você queria uma boneca Chorinho, mas ganhou um Genius, sabe? No final das contas não foi uma bela surpresa? Pois é! Não ter o que a gente pensa que quer não é necessariamente uma coisa ruim.

Carece também descobrir como a gente desaprende a ter culpa das coisas, esse sentimento que não leva nada a lugar nenhum. Afinal, melhor uma autocrítica construtiva do que uma culpa inútil e bolorenta ocupando espaço.

Talvez essa estranha proximidade com o Dia da Criança, que foi ontem, tenha lá seu significado de ser. Desaprender será pra mim o leitmotiv do ano-novo. E Oxalá os anjos estejam de acordo. Ao menos a primavera finalmente chegou, e há sol aqui nas proximidades do Trópico de Câncer.

***

Mal educada que fui, nem me apresentei para vocês, que agora vão me ler. Já tive duas crônicas publicadas no antigo Crônica do Dia, uns anos atrás. Sou jornalista de formação, aspirante a psicanalista, fotógrafa e astróloga; e desaprendente. Paciência comigo; já que estou começando tudo de novo, peço-vos. Embora ainda não tenha colocado todo meu novo plano em prática, creio que, relativizando, não há contra-indicações e que deveriam tentar fazer o mesmo.

Até a próxima esquina de alguma segunda-feira.

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domingo, 12 de outubro de 2008

A CRIAÇÃO DO CORPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Elisa Lazo de Valdez / Corbis.com (editado com excesso de brilho)Para Liliana e Tia Liginha

Se no princípio era o verbo, e o verbo se fez carne... então o corpo começou pela boca. No princípio era a voz, e a voz se fez língua, dentes e lábios.

A boca fala do que o coração está cheio, logo falo para tomar conhecimento de meu próprio peito.

*

Quando eu era bebê, e minha mãe uma estudante de Odontologia, as colegas dela se reuniam lá em casa para estudar. Meus olhos não distinguiam rostos, meu pensamento não adivinhava palavras. Eu só escutava o som das vozes e, quando tinha fome, minha mãe me dava de mamar no peito. As vozes das colegas de minha mãe se faziam carne no quente de seu seio.

*

Os lugares de minha vida são muitos, e especiais. Mas o mais constante é o menos notável: o posto odontológico onde minha mãe trabalha desde que eu era criança. De lá, lembro a aplicação de flúor numa espécie de dentadura sem dentes cheia de um líquido gelatinoso que não podia ser cuspido nem engolido durante cinco infindáveis minutos: minha primeira lição de eternidade foi ali, no Centro de Treinamento Odontológico. Mas, uma vez feitos os reparos necessários em minha boca, eu tinha direito a um sanduíche na cantina: primeira lição de simplicidade deliciosa. Minha mãe, e todas as suas colegas, vestiam-se de branco. O leite não estava mais restrito ao seio, vestia-se no corpo inteiro. E eu, agora menino, compreendia as palavras e me envergonhava quando algumas delas me diziam respeito.

Os lugares que eu freqüentava iam mudando com a idade, mas as visitas ao CTO continuavam: uma cárie aqui, uma restauração acolá, um siso a arrancar, um dente extra-seriado a acompanhar na radiografia... O tempo passava e o CTO se transformou em Centro de Especialização Odontológica. Minha mãe agora trabalhava no CEO (céu de quem pronuncia, que nunca é o céu de quem lê): paredes claras, pessoas de branco, luzes potentes...

Um dia ligaram para lá:
— De onde fala?
— Do CEO.
— Do céu? E quem está falando?
— Jesus.

Jesus do CEO é uma mulher simpática, dentista alegre que faz as crianças que atende pensarem que foram a um parque de diversões. Isso até o motorzinho começar a funcionar e a broca entrar em contato com o dente. Quando eu era criança, minha mãe primeiro xiringava (seringava, que seja!) água em meus dentes. Quando eu fechava os olhos, ela trocava de instrumento; eu me contorcia de dor e ela dizia: "É só água, meu filho. É só água." Eu cresci pensando que água doía.

Semana passada, visitando Fortaleza, adivinhem qual o lugar a que fui mais vezes. O Pacheco? A Praia do Futuro? A casa de minha avó? Não, fui ao CEO. Minha mãe já não me atende mais: talvez porque tenha ficado claro, para mim, que broca não é xiringador e que metal não é água; e, para ela, que seu filho não pertence mais a si, agora é do mundo.

A pessoa encarregada de me atender, uma grande amiga de minha mãe, é capaz de fazer um adulto pensar que foi, se não a um parque de diversões, pelo menos a um museu ou a um teatro: ela cantava, contava histórias, informava-me sobre cada procedimento que realizava e, quando minha mãe entrava na sala, ela mostrava minha boca como se estivesse diante de um livro: era mesial para cá, distal para acolá... E eu me sentia mais uma vez um bebê diante do incompreensível: os sons eram, novamente, mais palpáveis que as palavras.

Sentar na cadeira do dentista é conformar-se ao silêncio: até os gritos são mudos. A anestesia esconde uma dor que você sabe que está lá. Eu só podia usar o pensamento: até a necessidade de cuspir foi substituída por um sugador de saliva. E eu ficava pensando que verbos a amiga de minha mãe cutucava na carne de minha boca. Sim, em minha boca devem estar impressos, visíveis para quem for capaz de ler, tudo que eu já disse: as primeiras palavras; os palavrões ditos durante a primeira e única briga de rua; a declaração de amor no portão da casa da primeira namorada; as desculpas de tantas separações; os rascunhos vocais de todas as canções... Não, não era apenas uma questão de obturações e restaurações. Liliana lia o verbo na carne de minha boca. E, mesmo assim, esses dias no CEO foram menos traumáticos. Porque havia algo de divino naquela intimidade.

Às amigas de minha mãe, é difícil pagar. Como se minha mãe já tivesse pago tudo adiantado. Moeda de minha mãe tem cor para além dos dourados. Não adianta ter dinheiro numa hora dessas. A conta bancária também tem de se conformar ao silêncio. E, tentando achar um jeito de fazer aquele justo pagamento, eu lembrei daqueles pacientes que, nas cidades pequenas, enchem o consultório do médico de galinhas e queijos e rapaduras. A algumas daquelas pessoas, talvez falte dinheiro. A todas, deve sobrar agradecimento. Na galinha, no queijo, na rapadura... não está só o pagamento: está o reconhecimento dessa intimidade para com quem se entranhou em seu próprio corpo, recriando-o, feito um escritor que remove palavras, desentorta sentidos, antes de devolver o verbo à carne. Há que se pagar, então, com a própria vida gravada no que se cria e produz.

Eu, bicho urbano, não tenho à mão essas coisas do sertão. Minha criação é só palavra: verbo feito em carne fraca. Dou do que sou porque não pude dar do que tenho. E agora sei que paga melhor é ser do que ter. Porque quem dá o que é não fica sem o que deu.

*

Há um tempo entre o início do verbo e o final da carne. A crônica não se segue imediatamente ao acontecido. A vida se intromete no escrito, com intimidades de reescrevê-lo. A criação do corpo principia na boca, mas não termina ali.

*

Ontem, já de volta a Brasília, fui a uma festa de aniversário: um ano do filho de um primo querido além de qualquer grau de parentesco. A mãe dele, minha tia de não sei que grau, que eu não via há quinze anos, veio lá de Campina Grande. Nossa separação, nossa ausência da vista um do outro, completava seu décimo quinto triste aniversário, de uma tristeza que eu nem mais me dava conta, e que só senti retroativamente. Percebi a tristeza de quinze anos na alegria daquele encontro. E a enxurrada do presente tanto trouxe à tona quanto levou na corrente os anos ausentes.

Minha tia tem palavras de gentileza. E seu verbo já chegou às mãos. Nela, está completa a criação do corpo. Suas mãos são maduras, crescidas, não temem o contato. Põem-se na cabeça de um sobrinho, nas pernas de uma sobrinha, nas costas do marido, no braço do filho, em meu peito. Suas mãos dizem tudo que a gente tenta dizer com a boca e não diz direito. Verbo amar fez-se carne nela até as mãos. O fim dos tempos já chegou nos dedos de Tia Liginha. O juízo final é claro: o verbo é um só, sendo todos: amar.

*

A crônica chega ao fim. O verbo que ouço virou carne de texto. E percebo que minha voz fala pelos meus dedos na esperança de um dia amar até o limite do que não tem fim.



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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

BR 3 >> Leonardo Marona

Algum escritor uma vez disse que as boas famílias são iguais, mas cada família ruim tem sua particularidade fundamental, que permanece. Não me lembro quem disse isso, era um início de romance, talvez um russo. Os russos podem não saber mais, mas sabem melhor.

Mas isso não importa, não vou procurar saber. Pobres das famílias ricas de afeto, que são iguais entre si. Prefiro as famílias turvas, cada uma com um abismo próprio e infinito, porque não-diagnosticado. Elas são a negação da natureza - e esse é o papel fundamental do ser humano: sabendo de antemão que sairá derrotado, negar com todas as forças aquilo que o limita, que oprime sua contradição, que fornece tudo e não explica nada. As famílias ruins duram mais. Elas mantêm o mundo girando, torto mas próprio, perfurando conveniências.

Exige-se uma especialidade para que se atinja a normalidade - e ainda não se sabe que tipo de cérebro pode se satisfazer com esse tipo de metodologia. Mas não me especializarei, de minha conta, porque isso não apenas não convém: isso não importa. Isso é o que importa: que isso não importa. O mundo não é especializado - digo veja o que somos capazes de fazer um com outro apenas por não estarmos preparados - e tudo o mais resultará em estupenda frustração.
Especializando-me deixarei de conhecer muitas coisas em detrimento de poucas, mas, no entanto, sem me especializar não conhecerei nada. Isso me parece mais coerente diante do tamanho da catástrofe, mais próximo do que não podemos mas chamamos de "verdade original". Aquela inapelável, a chance dúbia de duas patas e uma cabeça que nega a verdade porque ela não é satisfatória, foi programada para não ser.

Não conhecer nada: nosso drama habitual. Sigo nessa direção vendado e com as pernas amputadas, me arrastando com os lábios trêmulos e o coração gelado. Do que estou atrás? Não saberia dizer e isso, ao passo que me mata, me liberta. Mas de que me serviriam as pernas se eu fosse especializado em viver? O que são as perguntas quando se esperam as respostas certas? Especializado eu teria que permanecer parado, com a seta sempre em riste e o corpo tranqüilo, até a falência inevitável. A gente não morre porque cansa, a gente morre porque não se desespera mais.

Não seria preciso andar de qualquer forma. Acontece que o abismo vem sempre em nossa direção. Eles se movem, isso é simples. O caso é que os especialistas não sabem disso, pois atingiram a normalidade. A normalidade é como forçar o mundo para dentro de uma caixa de espinhos dourados.

Mas, por sermos extremamente limitados, andamos em frente. Não sabemos que frente, mas nos ofendemos se nos questionam. Andamos pelas vielas sem que nos dêem por vistos, em busca da SENSAÇÃO. Essa fugidia, em caixa alta. Andamos e não dormimos direito. Nossos quartos são escuros, pequenos cadafalsos. E nem mesmo sabemos descrever a sensação de estar, pois uma vez estando, estamos insatisfeitos e não pensamos em mais nada, aceitamos tudo. Descrever é mentir, o verbo amputa o sentido.

Parece que o mercado financeiro quebrou, os bancos estão em greve, os investidores fantasmas em pânico, alguns aposentados não conseguem seu dinheiro e passam fome ou morrem de doenças leves. Aqui nada disso importa. Estou seco no meu canto, e nada me falta além da noção de galho pisado. A noção, eis a única condição prestativa para a morte. O resto não importa.

Queria dizer algo mais, mas o cansaço me incomoda, como um tiro no cerne. Brigar e amar são a mesma coisa: não há dignidade. A verdade nua incomoda mais do que uma crônica para explicá-la por si própria: o tal sonho dentro do sonho de Edgar Allan Poe. Não há sujeito depois do verbo. Essa massa disforme, eis a grande dissonância. O teto preto da verdade estupenda, em prol da verdade de cuecas.

Mas por que perseguimos e fugimos de pessoas queridas pelas ruas que não acabam e nem queremos conhecer? A explicação disso, ao meu sentir, iria em direção ao extermínio. Não haveria o que dizer. Se ao menos pudéssemos nos ver nus, alheios ao destino incompleto. Mas não admitimos, seguimos senhores da razão, usamos verdades como gravatas apertadas. Mas as verdades são inconvenientes, e não sabemos onde achar a verdade voto de minerva.

A língua de fora, os ossos quebrando por dentro, "nada disso é verdade", a fome legitima a doença. Agora como dormir com ela, proliferá-la sem que seja câncer, o método desconhecido que prova a existência de deus? Senhor, abençoai os que não sabem rezar e babam nas horas equivocadas. Os que se vestem com milagres e deságuam nos colos alheios. Abençoai os entrevados com sangue nos olhos. Os inaptos para o vôo, que comem terra suja. Eles pagam pela vida plena, pelos desejos vagos de quem se diz feliz. É preciso o equilíbrio, e alguém deve sofrer. Mas estamos aqui e não conhecemos outra glória, somos tapete de sonhos.

E daí já não importa mais a família, a extração do membro, o reduto do espírito são. Mentimos inevitavelmente porque a verdade é intragável. A cada minuto mentimos: isso é estar vivo. Quando dizemos a verdade estamos dizendo simplesmente: "meu tempo é curto, não sei o que fazer". Mas não pedimos ajuda, somos seres humanos.

O cheiro da distância é o suficiente para planejar pecados. O pecado é o que, em nós, culpa deus – inexistente ou cômico. As traições tornam-se pequenas, o peito arde, "nada importa", diz o mundo por nós paralisado. Poesia é para quem pára o tempo. Coragem é para quem tem pouco. Para com o resto, há que ser leve, reparar na dobra entre as partes – e cada parte é um mistério.

E ficaremos apenas com o que importa: estrada onde corpos caem à revelia, e onde estivermos estaremos os dois, quem sabe um, e morreremos da mesma solidão que renova o mundo, de mãos dadas.


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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O DESENLACE >> Ana Coutinho >>

Não há forma fácil de encerrar uma conta em banco. Não há forma fácil de emagrecer, não há forma fácil de enriquecer. Definitivamente existem coisas que serão sempre difíceis. Nunca será fácil tomar chá verde, por exemplo.

Mas, do que é difícil na vida, talvez despedir-se seja o que há de pior.

Assistir a partida de quem se ama é o mais doloroso espetáculo da terra. Mesmo que saibamos. Mesmo que a partida seja boa, mesmo que seja de comum acordo, mesmo que precisemos, mesmo que esteja sol, mesmo que estejamos inteiros, firmes e convictos; uma separação, uma despedida, um rompimento, um desenlace, seja ele qual for, é um transtorno cuja dor e tristeza não podem nunca ser medidas.

Todos odeiam despedidas. Todas odeiam dizer adeus. Mas sempre, todos os dias dizemos. Ou quando não dizemos a dor é igualmente imensa.

O desenlace é a prova cabal de que somos animais, embora humanos. Somos tolos e sentimentais, tolos e apaixonados, tolos e incoerentes, embora humanos.

Há casais que suportam-se mutuamente, vivendo com pequenas doses de dores e tristezas rotineiramente. Cansando-se e praguejando a vida todos os dias, apenas porque não suportariam a única dor maior do que a de viverem juntos: separarem-se.

Depois, depois eles sabem que seria bom. Depois eles sabem que se acostumariam e se apegariam à independência e as delícias de uma vida de solteiro. Mas para chegar aos depois têm de passar pelo desenlace. Tem de passar pelo adeus. Tem de arrumar a mala, tem de separar os CDs, tem de rever os livros, tem de fazer as contas e ela nunca será justa. Nunca haverá equilíbrio. Sempre a conta será maior para um dos lados. Sempre haverá quem pague mais, quem sofra mais, que perca mais e quem ganhe mais. Embora ambos percam e ganhem em grandes medidas nessa situação. Mas não a escolhem sempre. Não conseguem optar pelo desenlace.

Eu não os condeno. Nossa decisão — idiota — diante da possibilidade de tamanha dor e devassidão, não pode ser julgada com olhos sãos. Porque quem as toma são os doentes. Os fracos doentes. Ou os fortes doentes. Quem suporta a morte em pequenas fatias, porque não a agüentaria em uma única parcela, são bravos guerreiros fracos, ainda que não pareçam. Eu os compreendo.

Talvez até mais do que compreenda os outros. Os loucos doentes que aceitam a dor e a angústia de uma separação, porque crêem que há vida após a morte.

Esses, os fracos guerreiros bravos que se jogam na arena da frustração e do ódio, são os que enxergam além do possível. Como o paciente que opta por uma cirurgia plástica, ainda assistindo ao Dr. Hollywood. Ele vê ali como se corta a pele, como sangra o rosto, como se raspa o nariz, como se martela os ossos e, ainda assim, com uma força a mim desconhecida, segue para o hospital, paga (!) e entrega-se para o médico, como que aceitando a sua pena. Como um prisioneiro entregando-se ao seu algoz. Ele acredita num outro caminho e escolhe percorrê-lo, ainda que tenha grandes hematomas.

Não há forma certa. Não há forma fácil. Soltar as amarras pelas quais demos a nossa vida, despedir-se do que acalentamos por tantos anos, assumirmo-nos fracos e impotentes diante de uma situação e deixarmos partir ali, a olhos vistos, aquilo que gostaríamos de agarrar com o fiapo de força que nos resta, é a dor que não tem nome. Aquela que nos faz burros, tristes e incapazes, é a mesma dor que nos torna esperançosos, racionais e humanos.



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