sábado, 31 de dezembro de 2016

AOS MEUS NETOS >> Sergio Geia

 


 
Para João Cláudio e Maria Alice 

Era um pedaço de papel com uma mensagem de afeto escrita à mão: “Aos meus netos: Que eu envelheça. Que na minha pele possam surgir rugas. Mas que meu coração jamais fique indiferente ao amor. Que eu jamais perca o poder de demonstrar um gesto de ternura”. E a mensagem de um avô que se dirige aos seus netos termina aí. O texto é datado de 20 de março de 2013, quatro meses antes de seu falecimento. Sua filha o encontrou e o postou. E hoje, somente hoje, mais de três anos depois, eu o encontrei.
Sua filha, a propósito, é prima do Geia; pois ele, o avô, o autor de tão singelo gesto, é tio. E o pensamento que ele escreveu quatro meses antes de morrer é de uma autora chamada Rachel Free.
Pois consigo imaginar a cena: quarta-feira, 20 de março de 2013, uma bela manhã de sol, passarinhos voando, cigarras chiando, Claudio em seu apartamento na frente do computador, lendo coisas, pesquisando um assunto, lendo as notícias do jornal, vendo a sua caixa de mensagens, quando se depara, depois de muito navegar, com um texto leve de uma autora de nome Rachel, numa página de pensamentos; um pensamento que o cativa, que o emociona, e tão forte revela-se essa emoção, a delicadeza de palavras tão honestas, e verdadeiras, que tem vontade de copiar; pega um papel, um simples pedaço de papel e uma caneta; mas não quer apenas copiar e deixar a anotação perdida no fundo de uma gaveta; quer passar adiante, despertar alguém sobre a singularidade de palavras tão fortes, e logo deita no pensamento a imagem inocente dos netos mergulhando numa piscina; então, começa a escrever: “Aos meus netos...”.
Imagino também que seus netos já tenham lido com carinho e certa curiosidade a mensagem que o avô lhes deixou; até algumas lágrimas já devem ter rolado; sim, porque até no Geia, que não é neto, mas apenas sobrinho, espelhos de água se formaram nos olhos, e um pequeno filete desceu até o queixo. Alguns, pela tenra idade, não devem ter compreendido nada, mas gostado de saber que o vô, que não está mais entre eles, deixou uma mensagem, e devem sorrir ao ler o bilhete.
Talvez lá na frente, quando forem pais, ou também forem avós, quando os netos estiverem a correr um atrás do outro, a pular numa piscina ou a jogar bola, eles se lembrem das palavras do vô “Aos meus netos...”, ou não se lembrem (nem é mais preciso), porque dia a dia nessa confusa vida, seus passos seguiram firmes na direção desse oceano chamado amor, não economizando sequer um simples gesto ou palavra de carinho, de ternura, e se tornaram pessoas de bem, amorosas, solidárias, preocupadas com o semelhante, atentas às necessidades do outro e às vicissitudes da vida, semeando amor, paz, compaixão, guiadas por um despretensioso bilhete escrito à mão, com traços elegantes e firmes, numa manhã clara de março de 2013. 

P.S.: Obrigado, amigo leitor, por me acompanhar em 2016; que o Ano Novo seja repleto de muito amor e grandes realizações.
 


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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

UMA AVENTURA DE NATAL DO VELHO PADRE >> Zoraya Cesar

Pleno verão de 40°C. As ruas estavam tão movimentadas e repletas que era impossível andar sem empurrar, pisar ou acotovelar alguém. O nível de irritação parecia prestes a explodir numa grande comoção dramática e violenta. Era entrar e sair de lojas, comparar preços, comprar os últimos itens para a ceia, presentes, roupas, tudo, qualquer coisa. Todos cumprindo seus afazeres com olhos vidrados, boca apertada, punhos fechados.

Na contramão de toda essa correria e nervosismo, um homem caminhava calmamente, olhando as gentes sem julgá-las, compadecendo-se apenas, sabendo que todas tinham uma necessidade a ser suprida, uma dificuldade a ser superada, uma dor a ser consolada. Ele, porém, continuava seu caminho, naquela azáfama toda, sem que nada o importunasse; parecia que dele emanava algo como um campo energético, que o protegia da confusão reinante.

E, talvez, por, inconscientemente, perceberem isso, algumas pessoas o paravam, de vez em quando, a pedir uma bênção, um conselho,  uma conversa, um algo que fosse. Aproximar-se dele era ter, por aqueles instantes, um pouco de paz.

Sempre fora assim com o Velho Padre. As pessoas achegavam-se instintivamente atraídas pela bondade, alegria, amor que dele irradiavam. O encantamento era duradouro, pois ele tinha amigos espalhados pelo mundo, alguns bem inusitados. Pois estava o Velho Padre percorrendo sem pressa os 20 quilômetros que o levariam à casa do irmão, onde passaria o Natal. Levava consigo uma imagem de São José, entalhada em madeira, para completar o presépio, a pedido da cunhada, devota fervorosa do santo. Ele também gostava muito de São José, com quem compartilhava o gosto pela carpintaria, o amor por Nossa Senhora e a adoração ao Menino. Estava feliz. Para ele, essa era a data mais especial do ano - mais até, que o Senhor o perdoasse, que a Páscoa (o Grande Pai, porém, tinha o Velho Padre em grande conta, nem se importava com suas esquisitices).  

A tarde já ia pelo meio quando o Velho Padre sentiu-se um tanto cansado e faminto. Entrou em um bar, pediu café e sanduíche. Sentada à sua frente, do outro lado do balcão, uma senhora ossuda e ressabiada comia um salgado enquanto encarava, disfarçadamente, o último pedaço de bolo já meio despedaçado, debaixo de uma redoma de plástico bastante arranhada e gasta. Para o Velho Padre, aquela senhora e o bolo pareciam-se um com o outro: sozinhos, alquebrados e cobertos por um recipiente desgastado.

Ao terminar de comer, incluiu o bolo em sua conta e pediu ao atendente que o entregasse à mulher, junto com a imagem de São José. Intuíra o Velho Padre, mais uma vez, com razão, que aquela senhora não podia pagar pelo bolo e que precisava, muito, de um milagre. Depois ele se entenderia com a cunhada. Saiu.

Saiu e não viu o espanto da mulher, nem seu contentamento em comer o bolo, nem a prece que ela fez ao Santo, padroeiro dos trabalhadores. Não viu, também o milagre acontecer assim que a mulher terminou a oração: seu filho ligou, gritando de felicidade, pois fora chamado para trabalhar, ele que estava desempregado e desesperado. O Natal estava salvo. A mulher pegou São José  (que bonita era a escultura, parecia viva!) com suas mãos calosas, mas gentis, e agradeceu-lhe fervorosamente, sem esquecer de pedir pelo homem misterioso.

O homem em questão já estava longe, andando com seu passinho miúdo e cadenciado, fazendo, sempre que a oportunidade aparecia, uma bondade, uma gentileza, compadecendo-se pelo sofrimento que pressentia em algumas almas, comprazendo-se com a alegria que percebia em outras.

E de tanto fazer um desvio aqui, parar ali, ajudar acolá, conversar com quem se aproximava, acabou que a noite caiu sem que ele chegasse ao seu destino. Pior, estava perdido. Perdido e sem celular – que esquecera na igreja. Não havia vivalma por perto, todos se recolhendo às pressas, para passar o Natal em suas casas. A rua estava mal iluminada e, no escuro, ele enxergava mal (ah, os achaques da velhice, pensou, sem reclamar). Não fazia ideia de onde estava ou de como sair dali. Andou mais um pouco, até chegar em uma encruzilhada de ruas das quais nunca ouvira falar. Cansado, mal enxergando e sem saber o que fazer, esperou.

Não fosse ele o Velho Padre, homem de fé, acostumado ao extraordinário, teria ficado preocupado. Medo e estranhamento, no entanto, há muitos anos não faziam parte de sua vida.

Por isso não se assustou quando, do nada, surgiu, gingando em sua direção, um homem amulatado e esbelto, elegantemente vestido de terno e camisa imaculadamente brancos, e uma vistosa, quase luxuriante, gravata vermelha. Ele foi se aproximando, e, sorrindo, perguntou:

- Está perdido, meu bom? Quer ajuda?

O Velho Padre sorriu de volta, sabendo muito bem de quem se tratava. Os caminhos do Senhor são realmente estranhos, pensou.

Conversando amigavelmente, os dois saíram do emaranhado de ruas até perto da avenida principal. De lá, o Velho Padre poderia ir sozinho. Ele abençoou a exótica criatura, que, ajoelhando-se, beijou-lhe a mão e, antes de sumir na escuridão, agradeceu-lhe pela chance de ser útil a quem tanto fizera pelos outros naquele dia. 

São José, milagreiro que só,
 chegou a tempo de participar do Presépio
 e brincar com Menino Jesus
Sentado em sua poltrona preferida – que a cunhada mantinha em perfeitas condições especialmente para ele -, o Velho Padre piscou para a figura de São José (aquela mesma, que deixara com a mulher no bar), que, misteriosamente, estava no presépio. O Santo acenou-lhe e voltou a brincar com o Menino.


São José e eu hoje vivemos aventuras e voltamos para casa por caminhos extraordinários, pensou. Essa vida é mesmo maravilhosa. E, lembrando dos acontecimentos do dia, suspirou, feliz, reafirmando que, realmente, não há data mais afeita a milagres que o Natal. 




Outras aventuras de Natal do Velho Padre
Um feliz e extraordinário 2017 para todos.
Porque a vida é também feita de maravilhas








Foto São José - http://fatherbroom.com/blog/2015/12/st-joseph-and-joy-of-christmas/
Foto Natal - Clem Onojedho in Unsplash Free Photos



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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

SOMBRA>>Analu Faria

Acho que a melhor coisa que podemos fazer por nós mesmos é admitirmos que temos os defeitos mais deploráveis do mundo. Nós mesmos é que somos egoístas, mesquinhos, cruéis. Não é o mundo, não é a vida. É você mesmo, colega. Sou eu também. É aquele parente querido e o vizinho gente boa. 
Não existe "eles" e "nós". Isso é uma divisão humana, criada para que o mundo pudesse caber em caixinhas classificáveis e, assim, nós pudéssemos ter a ilusão de que pode controlá-lo. Uma vez me disseram que isso tinha a ver com o que nossos ancestrais tinham que fazer com o mundo natural que os cercava: era preciso dividir para conquistar. E conquistar, no tempo das cavernas, era basicamente ter passado pelo dia com a incolumidade física em 100%. Então, para meramente sobreviver, era preciso dividir o mundo, saber o que era cada coisa, para, então, poder tomar alguma atitude

Se aprendemos a separar o " bom" do "ruim" e conectá-lo, respectiva e necessariamente ao "nós" e "eles" por conta da nossa ancestral fragilidade física, então, olha, o ser humano é intrinsecamente burro mesmo. Porque mistura alho com bugalho e cozinha a receita errada. Negar que você tem em si um assassino em potencial é perigosíssimo para você e para o mundo todo, por mais bizarro que essa ideia pareça.

Certo mesmo é saber exatamente o que te incomoda e saber conviver com isso. Usar aquilo que te amedronta, antes que essa coisa te use. "Traga os demônios para o banquete", disse um dia um amigo meu praticante de budismo tibetano. Minha maior resolução de ano novo é esta. Proponho que você faça o mesmo. Ao final de 2017, espero que possamos trocar histórias de como dividir a mesa com monstros.



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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O NÓ >> Carla Dias >>

Deram-nos um nó. Não daqueles que desatamos facilmente. Também não foi um nó dado por um motivo exclusivo, o que facilitaria o desatamento. Trata-se de um nó baseado em uma série de acontecimentos ligados não somente a mim ou a você, mas à maioria de nós. Caso você não tenha detectado esse nó, provavelmente é por ter encontrado uma forma de seguir seu caminho, distraidamente, como um personagem de uma história de autoria desconhecida.

Não tem sido um ano fácil para a maioria. Indivíduos, lutamos para lidar com as escolhas de alguns que só fazem subtrair o básico para sobrevivermos. Humanos, assistimos à crueldade tão de perto, que nossos espíritos se alardeiam fácil, mantendo-nos em ponto de questionamento: para quê?

Por quê?

Por quem?

Questionar é o princípio da revelação. Mas de que nos adianta questionamento quando não estamos preparados para as revelações? Para o reconhecimento da nossa responsabilidade diante da vida, do outro, de nós mesmos?

O nó foi dado de um jeito, que não apenas nos sentimos incapazes de desatá-lo, como passamos a considerá-lo parte da nossa rotina, da essência da nossa existência. Um nó que é um estranhamento contundente a respeito da vida que levamos. Não há teoria ou “ismo” que aponte a saída. É o nó coletivo, dado por nós a cada decisão que tomamos e que, automaticamente, afeta ao outro.

Tem sido um ano complicado, do qual não descartamos a possibilidade de ele se tornar cenário de mais algumas tragédias, pessoais ou coletivas, até o seu fim. Então, vem esse olhar poético sobre o fim. O início de um calendário que nos proporciona a esperança forjada pela necessidade de mudança. Este ano tem sido difícil, e ainda há tempo de sê-lo mais algumas vezes. Mas o próximo, que ele venha com as bênçãos da boa sorte.

Eu acredito em boa sorte, mas não coloco nas mãos dela a autoria do que pode desatar esse nó. Acredito na boa sorte como um sopro de inspiração para que possamos analisar profundamente o impacto de quem somos nesse mundo.

Acredito que esse nó será desatado quando pararmos de postergar decisões urgentes e destinarmos nossa esperança de novos e bons tempos à virada do calendário. O hoje tem importância crucial. O que neste hoje faz esse nó parecer mais apertado que nunca? O que pode ajudar a desatá-lo? E daí que vai dar trabalho? E daí que vai levar mais tempo do que até sexta-feira, comprometendo o fim de semana? E daí que machuca se dar conta de que não será como planejado, mas tão diferente que será trabalhoso se detectar o que há de positivo?

Claro que espero um próximo ano mais leve, e que direi às pessoas que meu desejo se estende a elas. Há muito tempo esse desejo deixou o âmbito familiar e se espalhou pelo mundo. O mundo melhor que eu busco não se restringe ao meu mundo particular.  A esse desejo se soma o de não precisarmos do poder da mudança de calendário para alcançarmos uma vida mais justa e pacífica.

Então, que a felicidade se espalhe pelo nosso ano, fortalecendo nossa capacidade de lidar com reveses, em vez de incluí-los em lista de resoluções do ano que vem.

Agora pode desatar nós.



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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

LÁ VEM ELE DE NOVO >> Clara Braga

Amor não se define, mas quando a gente sente aquele amor bom, quer que o mundo sinta igual!

Aquele casal que briga e ela se recusa a atender as ligações dele, por mais que se entendam depois, não parece amor para alguns.

Tem também aquele casal que as vezes não consegue nem dormir na mesma cama, cada um precisa do seu canto ou parecem enlouquecer! E então alguns se perguntariam, e isso lá é amor?

O outro casal quebra um pau que poucos acreditam, falam coisas um para o outro que você jamais falaria  ou jamais perdoaria seu parceiro caso ele falasse, mas em questão de minutos já estão conversando como se nada tivesse acontecido! E você pensa: ah, comigo isso seria muito diferente, eu não deixaria nunca meu relacionamento chegar nesse nível.

O outro casal gosta de sair com outros casais, o outro curti rir junto das fotos engraçadas do tinder, o outro se vê todo dia enquanto aquele outro prefere fim de semana, ele fica em casa enquanto ela curte a balada, o outro só sai se for junto, e você aí se perguntando se sair junto ou separado significa mais ou menos amor.

Oras, se existe uma imensa dificuldade em se definir o que diabos é o tal do amor, é porque ele não se define, cada um ama a sua maneira, e desde que todos os envolvidos estejam felizes, não nos cabe julgar, apenas aprender com as diferentes formas de amar!


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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

AI, MEU CORAÇÃO! .. Albir José Inácio da Silva

Atravessou a quadra silenciosa naquele horário e subiu a escada que dava acesso à secretaria do clube. Havia algo estranho. Primeiro o portão encostado, que ele se lembrava de ter fechado ontem, depois a porta destrancada e agora a luz acesa. Arakém proferiu a clássica pergunta que antecede os assassinatos.

- Quem está aí?

A reunião da diretoria só começaria às oito, mas ele chegou antes das sete da manhã. Queria examinar documentos, além dos que tinha lido durante a madrugada, queria mais provas porque sabia que além de fraudes, superfaturamentos e desvios, havia outros crimes praticados pela quadrilha, que há anos se instalou na administração do Grêmio Recreativo Tarietense. Depois da reunião, iria direto à delegacia.

O escritório estava desarrumado porque ele mesmo o deixou assim ontem à noite, quando recolheu às pressas alguns papéis e foi pra casa. Agora sentia algo de errado no ambiente. Um arrepio subiu-lhe pela espinha. Entrou na sala de reuniões que estava escura, mas não conseguiu acender a luz, foi agarrado por um encapuzado. Seu braço foi torcido para as costas, e um outro capuz surgiu à sua frente com uma faca.

- Nada disso precisava acontecer, Arakém, era só você ter perdido como das outras vezes.

Arakém soube que ia morrer porque o outro nem disfarçava a voz. Reconheceu também a risada de quem o segurava e perguntou:

- Pra que o capuz?

Bóssi admitiu que era bobagem esconder o rosto, enfiou a lâmina no peito do presidente eleito e torceu a mão para os dois lados. Não devia sobreviver. Arakém dobrou os joelhos e caiu pra frente porque Neném soltou o seu braço e virou de costas - não podia ver sangue.

- Quê que foi, ô mariquinha, vai desmaiar? - desdenhou Bóssi, que agora tinha pressa. – Segue o combinado, corre e desaparece com tudo. – disse e apertou o botão do alarme que, àquela hora da manhã, trouxe os vizinhos para as janelas e parou os transeuntes que iam pra o trabalho. Entregou a máscara e a faca pro Neném, abriu a porta do escritório e gritou do alto da escada:

- Socorro! Socorro!

Neném, de capuz, roupa preta e um saco grande na mão, cruzou a quadra correndo, subiu no muro e saltou na calçada. Nesse momento, uma moto, sem placa, com tinta barata cobrindo a pintura e escapamento aberto, parou no meio-fio com estardalhaço. O piloto também tinha o rosto coberto. Neném pulou na garupa e o veículo saiu roncando pelo asfalto.

Aos primeiros que chegaram, Bóssi explicou chorando que tinha marcado com Arakém um encontro antes da reunião da diretoria para cuidarem da transição. E que ao chegar encontrou o presidente numa poça de sangue. E que quando foi à porta gritar por socorro ainda viu o ladrão encapuzado pulando o muro.

Bóssi repetiu a história quando o delegado chegou, e os presentes confirmaram ter visto o fugitivo desaparecer numa moto sem placa. Bóssi confirmou que algumas coisas foram roubadas, incluindo os pertences do morto. Lembrou que Arakém não tinha inimigos, só adversários políticos - gente honrada, incapaz de fazer mal a uma mosca.

Latrocínio. Se havia alguma coisa a investigar, era a autoria, muito difícil, aliás, porque encapuzados que somem de moto na estrada podem já estar muito longe. A violência das grandes cidades tinha chegado à pacata Tarietá.

Arrasados com a tragédia, os outros membros da diretoria se recusaram a tomar posse. E Bóssi aceitou o sacrifício de dirigir o clube, naquele momento difícil, até que houvesse novas eleições.

- Uma boa gestão é a melhor maneira de homenagear o presidente assassinado. O Tarietense não se furtará às suas responsabilidades e continuará encantando a vida da cidade – disse Bóssi, já em franca campanha.


(Continua em 15 dias) 


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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

ENTRE NATAIS E natales >> Paulo Meireles Barguil


Natal, conforme o Houaiss, pode ser um adjetivo – relativo a nascimento, natalício; onde ocorreu o nascimento (de alguém ou de algo) – ou um substantivo – dia do nascimento, natalício; festa do nascimento de Jesus, celebrada no dia 25 de dezembro desde o século IV pela Igreja ocidental e V pela Igreja oriental; cântico natalino de origem medieval.
 
Ainda conforme a compilação lexical supra, nascimento significa o começo ou princípio de algo; nascença.
 
Celebrar, comemorar, louvar, agradecer a vida, presente do Universo ao Homem. 
 
Um sopro...
 
Uma chama...
 
Um grão...
 
Uma gota...
 
Quão pequeno é cada um de nós!
 
Quão grande é quem nos lembra de onde viemos e para onde voltaremos, possibilitando-nos desfrutar aqui o júbilo inerente à morada celeste.
 
Jesus, o Cristo, há 2 milênios, nos convida e ensina a viver o Amor, não com discursos, mas com atitudes e sentimentos.
 
A cada ano, a cada mês, a cada dia, a cada segundo...
 
Sabedor da nossa fragilidade, indicou-nos a necessidade do perdão para que possamos prosseguir na jornada, sob pena de pararmos em virtude do peso das nossas falhas, omissões, agressões...

A sua intensa Luz continua a brilhar para quem deseja usufruir mais Natais e menos natales!


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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

ONDE BROTA A CONFIANÇA >> Mariana Scherma

_ Mas e se ele me achar uma loser?
_ Por quê?
_ Porque eu sou...
_ Ah, não é. Você é linda, engraçada, com emprego bom... Tá longe de ser loser
_ Ah, obrigada. Mas você é minha amiga, né?

Essa conversa é real e acontece sempre entre mim e minha amiga. Minha amiga é uma pessoa incrível, cheia de potencial, mas que não passou na fila do amor-próprio. Na verdade, ela passou longe dessa fila e tem o péssimo hábito de se colocar pra baixo. Confesso que fui achar meu pote de autoestima (que nem é dos maiores) na vida adulta apenas, mas isso fez toda a diferença.

Na adolescência, eu queria muito ser aquelas meninas lindas e cheias de admiradores. Era tímida, lotada de espinha, zerada nas curvas, de óculos, com cabelo arrepiado e aparelho nos dentes. Adorava passar despercebida, me rebaixava sempre e me enfiava nos livros, adorava ficar em casa e coisa e tal. Ainda bem que naquela época não havia Snapchat, Instagram e cia. porque eu lidava mal com a minha imagem. Bem mal.

Não sei quando o barco virou. Na faculdade, eu me reinventei um pouco e virei uma menina que adorava sair, popular e com amigas populares. Domei meus cachos com o creme certo, tirei o aparelho, perdi as espinhas e boa parte da insegurança. Pós-faculdade, eu já não sou mais popular, mas ganhei em segurança. Obrigada, universo. Adoro meu corpo porque é ele que me sustenta. Amo meu cabelo porque ele emoldura meu rosto e equilibra minha boca grande, que eu também adoro.


Veja só, não sou perfeita. Mas sou o mais perfeita que consigo ser e isso me basta. Minha confiança redobra sempre que tenho uma tirada engraçada, quando leio algo que mexe com minhas estruturas e me faz questionar o que penso e, oras bolas, quando passo rímel e batom vermelho. Se não valorizam minhas ideias, sinto a pontada, mas não sangro por isso. Faz tempo que luto para a falta de valorização não me afetar, não me fazer retornar à adolescente tímida e cheia de espinhas. 


Preciso garantir que minha amiga encontre seu caminho pra confiança. Confiança é a melhor coisa. Só com confiança a gente pode ligar o botão do fuck yourself pra muita gente. É com esse atributo que damos conta de sair à rua toda mal-arrumada e muito cheia de si. É com confiança que a gente se gosta e espalha nossa energia para o mundo. O universo sente e retribui. Um problema sério a tal da confiança não ser vendida e, sim, cultivada com uma semente que brota em nós mesmos. Receita pra isso não existe, mas uma coisa é bem certa: o que faz essa semente brotar deve ser só entre nós mesmos, mais ninguém.


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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

APESAR DA IRONIA >> Carla Dias >>


Notícias sobre política, violência urbana, malabarismos marqueteiros e várias versões a respeito das mulheres de Aleppo. Das meninas de Aleppo. Das pessoas de Aleppo.

Há cinco minutos, o destaque era a fragilidade da pele diante das tatuagens. Não tatuem em locais inclinados à flacidez, se não quiserem que a tatuagem se torne outra coisa com o tempo.

O tempo.

Às vezes, o tempo transforma para melhor.

Aniversário de querido alguém que já não está aqui, celebra-se a vida diante da ausência irrevogável. A sensação de impotência - que nos faz engolir o fato de que nem sempre podemos mudar isso e aquilo - toma o dia. Ainda assim - apesar do peso da morte -, ainda é a vida que desvela belezas e preciosidades. As lembranças - esse livro de recortes da vida que mora dentro da gente - são fortes e trazem momentos de alegria.

É permitido sorrir e sentir alegria por tudo o que foi vivido com a pessoa que partiu.

Os barulhos de carros, de gritos vindos do bar, entoados por bêbados matutinos, contando histórias desconexas que, certamente, fazem sentido para alguém. Barulho de caminhões de entrega de comidas que muitos não podem comprar. Comidas superfaturadas em época de recessão, quando às portas dos supermercados praticamente moram aqueles que aceitam qualquer pacote de bolacha.

Vigarista-guru que jura pelos deuses que pode fazer uma bela manutenção em seu espírito, e que, durante o horário comercial, é funcionário qualificado de agência de publicidade. Ele alega aos meios de comunicação que o endeusam – nada como vigarista-guru bom de lábia e em tempos de escassez de fé no homem -  que o pior já passou. Agora é questão de aceitar isso e trabalhar arduamente para melhorar de vida.

Mas a vida segue complicada, com o mundo abarcando insanidades diversas. E aquele cliente do vigarista-guru, que se consultou há mais de ano, pagando a consulta com seus últimos míseros dinheiros do mês, ele continua trabalhando feito escravo para viver com menos do que o necessário. Às vezes, ele grita em silêncio, para não acordar as crianças que foram para a cama com o estômago vazio. Dormir é melhor... É melhor.

A mulher que pede ajuda para ler o preço da carne na bandeja, diz ao estranho no supermercado que esqueceu os óculos. No carrinho, uma criança inquieta. Depois de saber o preço, pergunta quanto sobraria de troco se ela pagasse com uma nota de vinte reais. Porque também não está com cabeça para contas, pois perdeu a mãe no dia anterior. O estranho se compadece, sente vontade de se sentar no corredor de carnes e chorar pela mãe da desconhecida. Diz que sente muito pela perda dela e cada um segue pelo seu corredor.

México, Síria, Alemanha, Turquia, Rússia, Brasil...

Muitos dizem por aí que o pior do mundo é o ser humano. Ironia ou esperança saber que também o ser humano é o responsável por muitas belezas, alegrias, descobertas importantes, gestos louváveis. Talvez os sábios de botequim, assim como religiosos e políticos que trabalham em prol de si mesmos, devessem repensar seus feitos e se calarem e retirarem por conta. Os deuses devem estar exaustos de levarem a culpa pelos seus erros, assim como o povo.

O que sei, como espectadora da vida, um desses seres humanos com habilidade para o bem e para o questionável, é que sempre me apegarei à esperança, em vez da ironia. Considerem-me ingênua, não me importo. Ainda acredito que o melhor do mundo é o ser humano. Claro que esse melhor não é travestido de perfeição. É um melhor diante das intempéries e da crueldade. É um melhor que encara o pior, diariamente, e ainda assim, sobrevive.



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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

DESMISTIFICANDO PAPAI NOEL >> Clara Braga

Quando saímos da faculdade e entramos no mercado de trabalho parece que somos obrigados a deixar de lado algumas de nossas ideologias para nos enquadrarmos à realidade.

Enquanto estava estudando, prometi para mim mesma que não permitiria que minhas aulas de arte fossem resumidas a criar cartões de dia das mães, coelhos dos olhos vermelhos na páscoa e produção de bandeirinhas na festa junina! Embora tenha conseguido fugir de muitas dessas datas, percebi que nem sempre trabalhar datas comemorativas é preguiça do professor, mas pode ser sim um desejo dos alunos. E foi assim que eu acabei passando para meus alunos uma atividade sobre o natal, mas nunca imaginei o problema que isso poderia me trazer!

Depois de ver sua coleguinha desenhando o Papai Noel, o garoto não se aguentou, foi até a mesa dela e disse sem titubear: não desenha o Papai Noel, ele não existe! Quando ouvi aquela frase eu já me tremi, sabia que sobraria pra mim! Então a menina respondeu toda confiante: existe sim, ele leva presente todo ano nas nossas casas! O garoto se apressou para esclarecer: quem compra são seus pais, Papai Noel não existe! Se Papai Noel fosse as fadinhas do Peter Pan que morrem quando alguém diz não acreditar nelas, o natal desse ano estava arruinado. E então o momento indesejado chegou quando a menina afirmou duvidosa: existe sim, não existe Tia Clara?!

Travei! Vi minha vida passar na minha frente, pensei fingir não ter ouvido ou mandar eles pararem de conversar e irem fazer a atividade, não sei, pensei até em mudar de nome, mas não ia adiantar, todos aguardavam minha resposta naquele silêncio ensurdecedor! Então eu disse: se você acredita nele, então ele existe! Tudo aquilo que nós realmente acreditamos existe para a gente, independente dos outros acreditarem ou não!

Tenho certeza que dei essa resposta depois de incorporar algum espírito que estava passando por ali! Não era possível, não só respondi como filosofei! Fiquei orgulhosa de mim, minha frase foi quase tão boa quanto "tudo pode ser, se quiser será, sonhos sempre vem pra quem sonhar!"

Os pequenos se contentaram com a resposta, ou talvez nem tenham entendido nada, mas sentaram e voltaram a desenhar o natal! E eu me peguei de novo pensando: de fato teoria é teoria e prática é prática! Não adianta fazer milhões de matérias sobre como agir em sala de aula, quando você entra na sala é que vai se virar para descobrir a melhor forma de agir! Mas que eu ia curtir se alguém criasse a matéria lidando com datas comemorativas: desmistificando o papai noel sem traumas isso eu ia!


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sábado, 17 de dezembro de 2016

QUINZE ANOS >> Sergio Geia


 

Eu preparava a pequena lista havia dias: cerveja, coca-cola, pratinhos para bolo, velas, copo de cachaça (pois tenho aqui em casa apenas dois e precisava atender bem os meus convidados, apreciadores de uma boa cachacinha); presunto, queijos, patês e salsicha para o cachorro quente. Mais à noite, pegaria o bolo, de chocolate com morangos, encomendado na véspera.
Uma festa simples. Na verdade, uma singela comemoração para não passar em branco. Já são quinze anos, e, se estou aqui, mais entusiasmado com a vida do que antes, se estou aqui assistindo a vida correr, a evolução, os progressos, a vibração e a vida não para, a vida voa, e tudo vai ficando pelo caminho , é preciso comemorar.
Há quinze anos acordei com dor de cabeça; era um sábado alegre, promissor, quente, primaveril. E com a cefaleia, insistente, a sensação de aperto no peito, de dor na nuca, de esgotamento profundo. Na farmácia, fui aconselhado a procurar um pronto-atendimento. Nessas alturas, a pressão atingia os píncaros.
Há quinze anos nascia em mim, não uma cardiopatia grave, mas o que a medicina denomina de hipertensão arterial. Nasciam também algumas necessidades especiais, como a ingestão contínua de comprimidos um composto de carbonato de magnésio, gelatina, laurilsulfato de sódio, amido, amidoglicolato de sódio e estearato de magnésio; a necessidade de redução permanente de sal, de controle do peso, de alimentação saudável.
Quando bateu a doença, o Geia ficou atônito, sem saber o que esperar da vida. É comum ouvir que alguém tem pressão alta; grande parte da população tem. Mas quando aconteceu com o Geia os dias ficaram estranhos. Questionamentos como por exemplo “E a cachaça? A cerveja? O futebol? Vão ficar pelo caminho?”, a questão da idade “Uma doença dessas, tão cedo, seria sinônimo de encurtamento da vida?”, a submissão a um rigor de tratamento até então desconhecido, apenas para manter a pressão em níveis aceitáveis, uma vez que hipertensão não tem cura.
Mas a vida seguiu, o Geia seguiu, sem abandonar os hábitos prazerosos que a vida oferece, mas também sem deixar de se cuidar, e quinze anos se passaram. Nasceu há quinze anos no Geia uma doença crônica, silenciosa, perigosa, ardil e controlável. Mas também nasceu você.
Depois de pequenas agruras, de inquietações, de dissabores por conta de um mundo que da noite para o dia tornou-se cinza, o sábado foi terminar na antessala de um hospital, à base de chás, calmantes e de grande tensão. Não por causa da pressão, mas por sua causa. Na virada do sábado pra domingo, nascia você, e o mundo, alguns minutos atrás, estranho, acinzentado e feio, parecia recuperar todo o seu colorido, a sua beleza, a sua graça.
Vendo o seu sorriso doce agora, você com quinze anos dentro desse vestido floral e leve, sinto que a cada novo começo meu encantamento por você só aumenta; você me encanta. Seus olhos negros e vívidos, sua força brutal, sua afeição por tudo que a vida tem de belo e bom, suas posições firmes contra tudo que a vida tem de feio e ruim, numa idade tão tenra, essa precocidade que talvez só a mulher tenha, me faz acreditar que você é muito especial, e que especial é a sua missão nessa vida dura e confusa.
Eu preparava para a tua festa a pequena lista havia dias: cerveja, coca-cola, pratinhos para bolo, velas, copo de cachaça; presunto, queijos, patês e salsicha para o cachorro quente. Mais à noite, pegaria o bolo que você havia escolhido, de chocolate com morangos, encomendado na véspera.
Uma festa simples (você não quis aquela festa grandiosa, com damas, príncipes e tudo). Na verdade, uma singela comemoração para não passar em branco esse momento singular de sua vida. Já são quinze anos, e se estou aqui, mais entusiasmado com a vida do que antes e cada vez mais encantado com tudo o que é você, se estou aqui assistindo a sua vida correr, a sua evolução, os seus progressos, a sua vibração e a vida não para, a vida voa, e tudo vai ficando pelo caminho , é preciso comemorar. 

Ilustração: www.mensagenscomamor.com

 


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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

JANTAR SANGRENTO >> Zoraya Cesar

Anyta estava ansiosa. Aquele jantar significava muito, muitíssimo, para ela.  Seria a primeira vez que receberia os amigos de Osmar como anfitriã, noiva, futura esposa, não mais a amante escondida, relegada a um quarto e sala com vista para um muro quebrado e cinza. Nascera pobre mas, por sorte, bonita. Bonita e inteligente. Bonita, inteligente e astuciosa, capaz de qualquer coisa para casar com um homem rico.  

Seus ardis tiveram sucesso, pois Osmar largou a mulher e dois filhos para casar com ela, a linda, sexy e 20 anos mais nova Anyta. 

Onze convidados, mais o casal, seriam 13 à mesa. Que estava posta como nas fotos das melhores revistas de decoração - flores brancas, talheres de prata, guardanapos de pano, copos de cristal, louça inglesa. Mais chique, impossível, deliciava-se Anyta. Iria impressionar a todos com sua elegância e maneira de receber. E ia entuchar aquele bando de parasitas com comida de rico. Para evitar contratempos, contratara o bufê e a cerimonialista mais caros da cidade. O homem se conquista pela boca, aprendera. Não tinha dúvidas que tudo sairia conforme seus planos. Nada daria errado. 

Os convidados chegaram. As mulheres, algumas arrivistas, como Anyta, usavam roupas de grife e tinham um pensamento em comum: iriam ficar de olho naquela vadia que seria capaz de roubar-lhes os maridos, deixando-as na mesma penúria da desgraçada Ilia, largada à deriva com os filhos. Os homens, impecáveis, mal disfarçavam a malícia em seus semblantes, invejando Osmar por ter saído de um divórcio deixando a ex com o pires na mão e ainda arranjar uma gostosa daquelas. Sim, os convidados chegaram. E os vinhos foram imediata e fartamente servidos. 

Vieram os hors d’oeuvre. Ninguém notou que as mãos de um dos garçons estavam ligeiramente trêmulas, e que o outro garçom carregava um semblante amarrado e raivoso, incondizente com a ocasião.  Ninguém presta atenção em meros serviçais.

O jantar começou. Eram 13 à mesa, sabemos, mas quem se importa com superstições? Primeiro, a entrada, uma sopa Borscht roxa e pulsante, com estrias vermelhas enfeitando a superfície. Estava um pouco amarga, como que ferruginosa, mas todos aceitaram o estranho sabor pensando se tratar de um modismo, afinal, aquele era o bufê mais sofisticado da cidade. O próprio anfitrião achou o gosto meio desagradável, mas, como todo novo-rico, era afeito a elogios e, ao ver seus convidados apreciando a comida, convenceu-se de que era assim mesmo.  Exótico, disse alguém. 

Os pratos foram retirados, sem que ninguém notasse o paletó amarfanhado de um dos garçons, nem o rasgão na costura do ombro, que, como um sorriso mal feito, deixava à mostra uma parte da camisa branca. O outro garçom trazia o lábio inferior ligeiramente inchado, mas isso também passou despercebido. O vinho já tomara conta dos convivas, a alegria corria solta de cadeira em cadeira, quem repararia?

Chegou o  prato seguinte, steak tartare com batatas. As mulheres experimentaram com um certo nojo, mas, à primeira garfada, renderam-se à carne macia e bem temperada. Tão absortos e entretidos estavam, que não houve um sequer a notar que a carne servida não era filet mignon. O vinho solapava, cada vez mais, os parcos poderes de observação dos convivas, que, por consequência, não repararam, também, que o garçom do uniforme rasgado veio cambaleante recolher os pratos, enquanto o outro, o de cara raivosa, retirava os talheres com a mão esquerda, trazendo, à mão direita, uma faca de carne ensanguentada. 

Finalmente, a sobremesa, creme brûlée. O garçom com o terno rasgado veio com o maçarico e queimou o primeiro creme. A mulher a quem ele servia mal o notou - nem ela nem qualquer outro àquela mesa olharia um reles garçom – e sem esperar que ele terminasse, foi logo enfiando a colher, comendo de qualquer jeito. Aquilo pareceu irritá-lo, pois, num gesto abrupto, queimou os dedos da mulher que, assustada e dolorida, gritou. 

O grito inusitado despertou os outros comensais de sua exaltação etílica. Fez-se silêncio no salão. O dono da casa preparou-se para passar uma descompostura humilhante no imbecil que ousara queimar logo a irmã de seu advogado. Só não teve tempo. 

O garçom de fisionomia iracunda entrava trazendo o corpo inerte – por morto - da cerimonialista, cujo peito fora perfurado por um enorme garfo de trinchar, jogando-o em cima da mesa. Tomado por um frenesi, o garçom da roupa rasgada ligou o maçarico no máximo, ameaçando tostar os convidados, a defunta, o colega, tudo. Atracaram-se, ele e o outro, numa luta mortal, finalmente tendo a atenção dos 13 à mesa, que olhavam, aparvalhados e atônitos, ora para o corpo morto, ora para a dança macabra protagonizada pelos garçons.

O jantar pode ser elegante.
Convidados, anfitriões
 e demais envolvidos, não necessariamente.
Na cozinha, o chef, segurando as entranhas abertas, dizia a si mesmo que 13 à mesa dá azar, alguém sempre morre, algo sempre dá errado. E pensou que, realmente, ele não deveria ter contado ao marido da cerimonialista que ela e o outro garçom tinham um caso. Pior, pensou, eles não deveriam ter servido meu bucho, o fígado cairia melhor com o molho e... 









foto: Annie Sprat in Unsplash | Free HD Photo


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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

35 + >> Analu Faria

Depois dos 35 você ganha o irritante direito de dizer que "na sua época" _______ (insira aqui qualquer coisa) era melhor. Como eu tenho 36, vou começar exercendo esse direito e dizendo que o rock dos anos 90 era melhor que o de hoje. Me julguem, eu tô velha mesmo e gente velha não liga muito para isso.

Na verdade, não foi o rock que mudou. Fui eu. Fiquei "vintage" demais para ouvir o que eu - do alto da minha pretensão - acho um rock leite-com-pera. Para quem foi adolescente ao som de Nirvana, não tem Imagine Dragons que chegue. Tudo bem que curto coisas como Arctic Monkeys, mas o resto de rock de que eu gosto ou é Foo Fighters ou Rolling Stones ou já morreu.

Redescobri - ou melhor - voltei a ouvir essas músicas, talvez porque estamos perto do Natal e eu estou nostálgica, talvez porque estivesse cansada de ouvir mantras - coisa de balzaca estressada -  e me sentindo plebeia demais para ouvir jazz - coisa de gente cult. Benditos sejam os aplicativos que te sugerem música, principalmente perto das festas de fim de ano.  Lembrei-me de que gosto de rock. Lembrei-me, um pouquinho, de que há algum tempo havia um lirismo do qual eu me apropriei, em um estilo de música que eu gostava. Esse lirismo continua comigo (revisitado em mantras e jazz?).

A adolescência é uma época muito subestimada da vida da gente.

E eu estou nova demais para ter crises de meia-idade.




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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

CARDÁPIO >> Carla Dias >>


Hoje tem silêncio. Uma penca deles a se embaraçar às curiosidades sazonais. Tem roupa lavada, casa varrida, comida engolida, verdade berrada. Hoje tem desaforo. Uma leva deles a desfilar nas passarelas do fim de tarde.

Hoje tem música repetida à exaustão. Mentira repetida à exaustão. Ilusões vividas à exaustão. E jardins suspensos imaginados por conta de desejos de se criar jardins suspensos legítimos. A insistência em permanecermos em modo “talvez amanhã...”.

Hoje tem colecionadores se desapegando de seus badulaques e de umas e outras obsessões. Como a de seguir alguém com o olhar e se sentir morrendo quando esse alguém se mistura à multidão. Perde-se da vista.

Hoje tem humor negro bebericando da boca entreaberta da leveza, simplesmente porque deseja um desafogo. Antagonistas enchendo os salões de baile para valsarem aos pares. Hoje tem trégua, bebidas exóticas, amarração e bênçãos. Tem liberdade com data de validade, livros de arte servindo de mesa de centro para xícaras de café morno. Perfumes diversos que se misturam quando os personagens nos quais se hospedam se negam a se misturar.

Hoje tem saudade sendo iludida por estancamento com impecável treinamento. Trava-língua, línguas baralhadas, palavra desdita para enfatizar o dito, orações murmuradas aos santos que em nada se importam. Discussões por insignificâncias, lágrimas escapadas de severo controle. Sabores novos, mistura de ontem, flor morta dentro de livro agindo feito marcador. Encontros às cegas, descobertas deslumbrantes. Desvelamento capaz de escancarar com as portas das prisões.

Hoje tem prazer e dor e incapacidade de resolver problema e feira livre onde se vende companhia em quarteirões de bairros. Chá de boldo, incenso, o putrefaciente desejo de um vencer à custa da miséria do outro. Morte de uns e vida de outros e o meio-termo, aka morte em vida, que na verdade soa feito o quinto dos infernos.

Hoje tem tempo destinado ao fazer nada, vagabundear pelos sentimentos contidos e permitir que eles gritem. Bilhetes lançados do décimo terceiro andar para desejar aos transeuntes que os pegarem um tanto mais de alegria.

Porque hoje tem vida.

Imagem © Pablo Picasso

carladias.com



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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

TUDO NOVO DE NOVO >> Clara Braga

2016 definitivamente foi um ano instável! Um ano cheio de surpresas e mudanças que deixaram todos receosos, independente de estarem felizes ou não, afinal, a dúvida do que está por vir sempre nos deixa com um pé atrás! 

E diante de tanta mudança, foi difícil se manter na estabilidade! Parecíamos estar o tempo todo andando em uma corda bamba, o que acabou obrigando muita gente a mudar também!

Aquela menina que sentava na frente decidiu assumir os cachos! E que mudança maravilhosa, ela percebeu a beleza e o poder que tinha dentro dela! Aquele lá do fundão conseguiu, finalmente, mostrar o que realmente gosta de fazer, e desde que pôde se expressar da forma que sabe nunca mais foi o mesmo!

No fundo tinha também um outro, que surpreendeu todo mundo com os deveres e as provas bem feitas, como pode, ele só dormia! Obrigou todo mundo a mudar seus conceitos, nem sempre quem dorme demais é vagabundo, é apenas mais uma pessoa cansada e, afinal, não estávamos todos?

Teve quem foi obrigada a aprender a administrar seu tempo entre estudo, trabalho, família e namorado! Posso estar errada, mas não é demais para um adolescente? Teve quem administrou família, teve quem administrou cursinho pré vestibular, teve quem administrou tão bem os estudos que se deu ao luxo de sair de férias antecipadas e teve quem desistiu, e sabe de uma coisa? Percebi que as vezes é preciso ser muito mais forte para desistir do que para continuar custe o que custar!

Quase todos enfrentaram uma das grandes decisões da vida, a carreira que vai seguir! Sempre me questionei se era correto fazer com que pessoas tão novas tivessem que tomar uma decisão tão importante, mas têm situações na vida que nos ajudam a amadurecer, o importante é saber que a maioria das decisões que consideramos erradas são reversíveis e, por isso, não se deve deixar de fazer nada por medo de errar!

Também é confortante ver que mesmo com tanta mudança o essencial ficou ali, aquela risada daquela menina é a mesma e ficou sempre por ali, o sarcasmo daquele outro também esteve sempre presente, o clima de romance entre casais, o esforço daquela que sempre dá o seu melhor, até os conflitos que sempre aconteciam permaneceram, mas na hora "h" o que tinha que ser feito era feito, e muito bem feito!

E no final, o que importa é isso! Não interessa quem aprendeu mais ou menos de cada matéria, interessa que no fim prevaleceu a união, a lição mais importante foi entendida, agora todos estão prontos para encarar a nova fase da vida com a tranquilidade de quem sabe que fechou a etapa anterior da melhor forma possível! 

Agora é tudo novo de novo!


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ACADEMIA, LIVROS E HALTERES >> Albir José Inácio da Silva

- Você está muito perto. Suas pernas são compridas – além da boa-vontade, a voz também era gentil. Ajustou ele mesmo o aparelho e o meu exercício ficou mais fácil.

Na semana passada, última vez que vim à academia, fiquei observando esse mesmo marombeiro, confesso, com algum desprezo. Ele era a futilidade em movimento e ritmo. A cada gesto olhava-se no espelho, procurando o melhor ângulo para os músculos retesados e mal contidos pela camiseta. As logomarcas famosas brilhavam nele em tênis, camiseta e meias.

Mas havia alguma gentileza no seu olhar, e isso me dava algum remorso. Pouco, mas dava. Pouco porque percebi várias vezes que também me desprezava. Chegou a fazer careta olhando meu tênis com lama seca, mas disfarçou com um sorriso.

Eu era desleixado como fica bem a um intelectual, camiseta grande e esgarçada, short grande e desbotado e um indefectível livro de sebo para abrir no painel da ergométrica. No fundo ele tinha uma humildade de marca e eu, uma arrogância maltrapilha.

Eu só estava na academia por conselho médico, ia lá de vez em quando, irregular e enfastiado. Ele reinava por ali, falava com todos, sorria. Estava no seu habitat, feliz e adaptado. Éramos uma antítese. Mas, como o que conta para a amizade é o que se fala e não o que se sente, fomos nos aproximando.

Lado a lado nas esteiras, desfilamos nossas biografias, gostos, diferenças e pouquíssimas coisas em comum. Ele correndo a dez quilômetros por hora e eu caminhando e resfolegando a minha disritmia.

- Esse negócio de livro não é pra mim não – repetia ele com um sorriso de menino grande a cada autor que eu referia.

Passou pela faculdade olhando alguns resumos, colando aqui e ali, assinando trabalhos em grupo. Mas aceitou interessado o Nietzsche que estava na minha mão. E falamos sobre consumismo, culto ao corpo, frivolidade e outros defeitos que eu costumo identificar nos outros.

Ele ajudava nos aparelhos, quase como um personal, e me ouvia, atento, discorrer sobre a vida, o homem, o pensamento e o poder. Demorávamos à porta da academia em prolongadas despedidas.

Por semanas seguimos essa rotina.  Ele cada vez mais interessado, levando os livros que eu trazia, fazendo perguntas e propondo temas. Quanto a mim, a regularidade dos exercícios me fazia bem. Estava mais disposto, passadas mais firmes, coluna mais reta.

Eu estava feliz com o meu trabalho: ele já não se admirava no espelho, e parava longos períodos olhando o vazio como se estivesse finalmente raciocinando. Cumprimentava as pessoas, mas sem efusividade. Sorria, mas sem afetação.

Ainda me ajudava nos exercícios, mas já não estava tão atento. Às vezes eu tinha que pedir a ajuda. Em certas ocasiões me atrapalhava mesmo com suas perguntas e comentários insistentes que me faziam perder a conta dos movimentos. Claro que eu sentia amizade e comemorava seus progressos intelectuais, mas precisava concluir minha série.

Passou a me esperar à porta da academia com algum livro ou artigo na mão, e me seguia por todos os aparelhos. Percebi alguma ironia nos sorrisos à nossa volta, como se aquela ligação fosse mais que amizade. Mas ele não se importava. Para evitar constrangimentos, preferi marcar nossas conversas em cafés ou bibliotecas.

Até que ele sumiu. Depois de uma semana liguei preocupado e ele disse que estava estudando aí umas coisas, que aquela academia já não o interessava mais, talvez voltasse à universidade. Eu quis marcar em algum lugar, mas ele disse que me ligava.

Não ligou nem apareceu mais. Eu toquei a minha vida porque já tinha me dedicado bastante àquele moço.

Hoje saí cedo pra academia e, ao cruzar a praça, vi o ex-quase-fisiculturista sentado no banco. Transtornado e sujo, com um semblante de quem não tivesse ainda concluído a noite, levantou a lata de cerveja como quem oferece, e me olhou através da fumaça que soltava em anéis concêntricos.

- Quer conversar sobre futilidade, culto ao corpo e ostentação? – perguntou sarcástico.

Por instantes busquei as palavras para um discurso incisivo e acachapante, mas nenhuma pareceu adequada.

Ele ainda murmurou alguma coisa sobre depressão, limite e suicídio, mas eu preferi me afastar, jurando pra mim mesmo que voltaria com o texto apropriado.

Segui para a academia repassando métodos, assoviando remorsos e arrotando filosofias.



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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

TIPOS DE ALEGRIA >> Paulo Meireles Barguil


Na crônica passada, intitulada Desafios de aprendizagem, escrevi, na versão inicial, que "A alegria, embora não seja uma boa mestra, é uma ótima companhia.".
 
Uma estimada leitora, educadamente, indagou-me: "A alegria não é mestra, mestre?".
 
Após lhe explicar que o texto era apenas uma crônica, ou seja, não tinha, tem ou terá qualquer intenção pedagógica ou científica, quiçá literária, informei-lhe que o trecho havia sido reescrito, com a explicitação da justificativa da minha blasfêmia, nos seguintes termos: "A alegria, embora não seja uma boa mestra, uma vez que não nos prepara para aceitar o efêmero – muito pelo contrário! – é uma ótima companhia, pois com ela nos lambuzamos com odores, sons, texturas e sabores agradáveis do Universo.".
 
Ocorreu-me, então, a necessidade de clarificar, mesmo que brevemente, os motivos que me fizeram proferir tal asserção.
 
Durante décadas no século passado, acreditou-se que as gorduras eram nocivas para a saúde humana.
 
Os crentes e seguidores de tal axioma, então, deixaram os porcos e demais animais com generosa camada adiposa em paz, contudo sem venerá-los!
 
E, então, descobriu-se que existem vários tipos de gorduras, sendo algumas saudáveis e outras não, e que o consumo daquelas é necessário para a absorção de vitaminas.
 
Explicações mais detalhadas desse assunto escapam dos tacanhos conhecimentos do escriba e dos objetivos deste fragmento.
 
Paralelo traçado com grãos de areia, retorno ao contexto: a alegria é necessária para o Homem, mas várias são as espécies dela!
 
Considerando que somos o casamento entre matéria e espírito, bem como o fato de que a constituição e os objetivos de ambos são distintos, os gostos deles também o são...
 
Afastando, de início, qualquer pretensão moralista, é prudente destacar a disparidade com que ambos compreendem (e vivem) o espaço-tempo.
 
Um acredita em passado, presente e futuro; o outro não, pois os percebe como uma totalidade.
 
Um reclama, constantemente, ser alimentado de fora para dentro, sob pena de morrer; o outro não, visto que, liberto do jugo temporal, sabe-se imortal.
 
Ambos necessitam de nutrição, sem dúvida, mas, em virtude de suas idiossincrasias, possuem demandas díspares.
 
A alegria que ambos sentem, portanto, é deveras assimétrica: uma se esvai, a despeito do desejo do sujeito de perenizá-la, fruto da ignorância, do desconhecimento da sinfonia da natureza, a outra, contudo, é fitada pelo Homem com suavidade e veneração, ciente do mistério e da bonança do mergulho...


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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

NÃO CULPE OS ASTROS >> Mariana Scherma

Eu não curto essa ideia de que fazer aniversário traz junto a questão do inferno astral. Culpar a astrologia e suas conexões místicas porque derrubei isso, porque aquilo deu errado, porque o rodinho quebrou no meio da faxina (sim, faço minha faxina e lavo minha roupa com muito orgulho) não tá certo. Eu derrubei isso porque me descuidei. Aquilo deu errado porque alguma falha rolou no meio do processo. O rodinho quebrou porque estava velho e uma hora aconteceria.

Agora em anjos eu acredito. Eita que sim. Principalmente quando parada no trânsito, um filha da mãe de um assaltante escolhe os coitados do carro de trás como alvo. Poderia ser o táxi onde eu estava. Sorte minha. Tristeza do de trás. Maldição da violência, da nossa desigualdade, da nossa falta de governo. Se fosse o táxi onde eu estava, será que culparia o tal do inferno astral? Talvez. Mas ainda seria errado, a culpa é da violência, da impunidade, da desigualdade, não da proximidade do meu aniversário.

Não acho que os astros desejam tanto mal assim pra uma pessoa que está ficando mais velha. A idade em sim já é o próprio presente de grego, né? A experiência e o conhecimento, não. Mas o cansaço... Dá pra envelhecer sem aparentar? Queria! Ficar mais velha com o pique dos anos da faculdade. Talvez todo aquele sono perdido tenha resolvido aparecer aos 30 e pouquinhos.


Eu, mais velha, acredito mais no nosso poder. Os astros podem ajudar, mas não atrapalhar. Eles só atrapalham aqueles que colocam tudo na conta mística. Hoje é dia do meu aniversário. Teoricamente, deixei todo o inferno astral pra trás. Então na prática vou correr atrás, acreditando que dá, sim. Acreditando nas pequenas alegrias, e esquecendo os probleminhas. A gente é tudo aquilo que carregamos no coração. Então, vamos deixa-lo mais leve. Nunca foi bom carregar mala pesada em viagem, não é mesmo?


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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

PERFIL >> Carla Dias >>

Cena do filme Bonita Como Nunca |  Fred Astaire e Rita Hayworth

O telejornal que eu assisto, não é o mesmo que você assiste. Na verdade, abandonei telejornais há cinco escândalos, que eles deram de competir com programas de entretenimento. Isso vem confundindo a realidade como nunca.

Manifestações públicas de ignorância me tiram do prumo, quando seus autores tendem a ser inflexíveis. Por que não aceitar de vez que opinião não é lei, justiça, nem sempre é amparo para quem dele necessita, tampouco verdade?

Ah, a verdade... Essa Dona Doída que tende a aparecer nua, crua, desleixada, avessa ao desejo vigente.

Não me importo de ser acordada pela conversa animada de um bando de maritacas. Não maldigo pássaros, árvores, café e dias de chuva. Tento não maldizer pessoas, mas frequentemente sou tentada por elas. Humana, pessoa que sou, acabo abrindo a boca, a alma, a cabeça, a porta de saída. Maldigo, desdigo, às vezes, cinco minutos depois, quero bem de um jeito que somente maritacas alucinadas entenderiam. Aquele jeito do quando cada sentimento grita, ao mesmo tempo, no nosso dentro.

Angustio-me com facilidade ao pensar no universo. O infinito me enche de desolação, porque remete à solidão que habita o sem-fim de quem sou. Já vi quem dormisse felicidade e acordasse rancor, como se aquelas horas, olhos fechados, tivessem se dedicado ferrenhamente a lapidar injúrias em um espírito frágil. Não foi cena bonita de se ver. Não foi período agradável de se viver.

A tristeza me inspira começos. Quando ela me atinge, desdenhosa e luxuriante, banco a temerária e me jogo ao desconhecido. Foi assim que aprendi a fazer crochê, torta de palmito, vestido. Pintei os cabelos de azul, as paredes de casa de amarelo. Estudei estrelas, outro idioma, as relações do eu com o misticismo. Aprendi a dançar bolero, entoar mantra, tive longas conversas com padres, pastores, benzedeiras e xamãs.

Sintonizei meu coração na consciência de que não gostamos dos mesmos livros, da mesma série, da mesma música, da mesma comida. Que seu Deus é o meu, ainda que você insista em dizer que não. E em vez de me desapontar com as nossas diferenças, decidi embarcar nelas, levando as minhas a tiracolo. Vai saber aonde nossas diferenças podem nos levar, certo?

Em tempo: manifestações públicas de afeto me encantam.

carladias.com

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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

NÓS E AS METÁFORAS >> Clara Braga

No início do caminho tudo é dúvida. Será que fiz a escolha certa? De onde surgiu mesmo a ideia de trilhar esse caminho dessa forma?

Antes que desse tempo de elaborar outras questões já deu a hora de começar a jornada, e é bem ali, na linha de partida, que somos logo contemplado com uma das imagens mais bonitas que já vimos na vida: um lindo nascer do sol aparece para dizer que mesmo que as coisas não saiam como planejamos, já valeu a pena.

E assim começamos. A jornada vai ser longa, e por mais que a gente se prepare para lidar com imprevistos, podemos sempre ser pegos de surpresa. E é por isso que quando, na parte mais difícil do percurso, começa aquele temporal, temos que estar abertos para a mudança repentina de estratégia. 

De que adianta querer repetir uma experiência anterior se as condições não são as mesmas?

A única regra é não desistir.

O caminho é longo, e por mais que a gente corra, o horizonte parece sempre distante. Os pensamentos voam, e depois de passarem vários filmes na cabeça chegamos a uma conclusão importantíssima: não precisamos carregar o mundo nem nas costas nem nos ombros, precisamos de leveza. 

Também não precisamos ir sozinhos, sempre temos quem vá com a gente e, o mais importante, respeite nosso ritmo. Alguns não vão ao nosso lado, mas a certeza de que estarão na chegada nos esperando de braços abertos também torna o caminho mais leve.

Quando vamos chegando ao fim desse caminho, dessa escolha, o foco é essencial. O cansaço parece maior que qualquer vontade de continuar, e é aí que entendemos que quem manda é nossa cabeça, por isso temos que estar sempre com a cabeça no lugar, lembrando sempre que para ter a cabeça no lugar é preciso se deixar levar, se perder de vez em quando. É preciso equilibrar nosso lado racional com nosso lado louco.

Aliás, desconfio que na vida estamos sempre buscando equilíbrio. Mas não, não era sobre a vida que eu queria falando, queria apenas compartilhar como foi a segunda meia maratona que consegui completar, mas percebi que corridas são belas metáforas da vida.


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sábado, 3 de dezembro de 2016

O PADRE E O GEIA >> Sergio Geia

 

Somos dois operários da mastigação; nem bem amanhece o dia, lá estamos batendo o ponto. Sem uma ajudante, ele toma o café e faz as refeições na rua; eu, sozinho, também.
Conheço Eugênio de longa data, desde os bons tempos em que ele, um magro seminarista, frequentava os Castilhos. Eu, um magro coroinha, também frequentava os Castilhos; e a igreja. Nunca tivemos uma amizade na acepção usual do termo, apenas o conhecia, mesmo porque, depois, Eugênio sumiu — seminarista é assim; costuma andar pra lá e pra cá, a conhecer realidades díspares em comunidades centrais e periféricas — e virou padre; eu fiquei, cresci, larguei a batina (de coroinha), virei coordenador de pastoral da juventude, depois cresci mais, casei, sumi.
Agora, Eugênio é pároco do Santuário, e eu não sou nada; ou, talvez, seja apenas um simples sujeito que gosta de escrever. Pois topo com o Eugênio quase todos os dias na padaria. Outro dia escrevi sobre ele e um carteiro (ele nem sabe); hoje escrevo sobre ele e o Geia; porque hoje, somente hoje, depois de tantos encontros, de tantas idas e vindas, depois de tantos bons-dias e jubilosas degustações, paramos um pouco pra conversar.
Disse-me que um tio meu é vizinho seu; que outro dia foi visitá-lo em sua residência; que conhece bem os Geias, o Marcos, o Milton; disse-lhe que o conhecia da casa dos Castilhos; e da igreja; que fui coroinha, coordenador de grupo de jovem, cantador dominical da missa das seis e meia; que quando o conheci, ele era um fino seminarista (disse apenas que era um seminarista, para lhe ser bastante honesto).
Conversamos muito sobre o saudoso Monsenhor Teófilo; disse-lhe que Teófilo havia morrido muito cedo; que prezei muito a sua amizade; que sinto falta. Eugênio disse que quando Teófilo assumiu a paróquia da Santa Teresinha, vindo de São Bento do Sapucaí, ele já apresentava problemas no coração. Não sabia; minha lembrança é vaga. Tenho apenas comigo a imagem turva de alguém dizendo que ele passara mal numa consulta médica.
Falou-me sobre o Seminário Diocesano Santo Antônio, lugar que o Geia tanto frequentou, onde tanto jogou bola, tanto namorou em animadas festas juninas, tanto bebeu e tão pouco rezou. Hoje o seminário não está mais na Granadeiro Guimarães; mudou-se. Disse-me que parte foi para o Alto do Cristo e parte, para a Casa do Menor; disse-me que a manutenção da casa, que era muito grande, estava salgada; que reduziu enormemente o número de seminaristas; que o senhor bispo achou por bem alugar o prédio para duas escolas de origem diocesana, e transferir o seminário para outras bandas.
Naquele tempo eram muitos os seminaristas, tanto que havia o seminário maior e o seminário menor; eram trinta, quarenta homens vocacionados. Foram fraternas amizades, boas companhias de bar, muitos recebi em casa para almoçar. Um tanto abraçou a vocação, guiados pelo Senhor e com fé; outro tanto preferiu abraçar coisas mais mundanas, sensuais, mas não por isso menos dignas ou distantes dos caminhos do Senhor.
Confesso que o Geia certa vez pensou em entrar para o seminário. Foi um pensamento vago, uma ilusão passageira. Mas a vida no seminário parecia atraente; relevem, porque o Geia, ao tempo daquele pensamento, era uma criança inocente, que não sabia nada da vida. Lembro-me que quase foi a um encontro vocacional no seminário; era uma espécie de apresentação das coisas aos candidatos. Estava tudo certo para ir, porém, não foi, e a dita vocação, a dita vontade de entrar para o seminário, se desmanchou, como um pudim malfeito.
Conversamos mais alguma coisa, falamos de política, da situação preocupante do país, dos amigos Castilhos; logo ele terminou o café, se despediu e foi. Eu fiquei, fiquei mais um pouco bebericando o expresso, imaginando que aquela conversa boa poderia ser o princípio de uma sincera amizade.  

Ilustração: obra do acervo do artista plástico frei Miguel Lucas Peña


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM>>Analu Faria

Assisti ontem ao filme que dá título a esta crônica. Que delícia! Lembro como se fosse ontem de uma longínqua Analu dizendo a alguém que Harry Potter era para crianças (essa Analu de outros tempos tinha 19 anos quando o primeiro livro saiu no Brasil). Também me lembro de alguém respondendo: "Confie em mim, você vai gostar." Ponto para essa pessoa que sabia das "ressonâncias humanas" daquela mocinha cheia de si.

Desde o primeiro livro de Harry Potter*, aprendi a não subestimar a fantasia. Freud explica!! - eu, que vivo no mundo da lua, costumava achar o fantástico uma coisa "de criança"! Sabe-se lá porque ainda não investi em escrever um livro, um conto ou inventar qualquer coisa que envolvesse um mundo fantástico. Quando o martelar da realidade vira lugar-comum, talvez faça mais sentido escrever sobre uma mulher que vive com um véu mágico sobre os olhos do que rabiscar uma crônica sobre alguém que acha Harry Potter infantil.

"Animais Fantásticos e Onde Habitam", por exemplo, não é sobre criaturas que não existem. É sobre preconceito e repressão (e sua terrível consequência). De quebra, chacoalha o senso comum sobre o  que é um atributo "feminino" e o que é um "masculino" :Newt e Jacob, os mocinhos da história, não são fortes ou rápidos ou leem mentes; são, respectivamente, cuidador de animais e confeiteiro; duas das mocinhas da trama são uma auror (uma espécie de policial) e a autoridade máxima da "circunscrição bruxa" de um país. 

Se eu puder te dar um conselho - mas lembre-se que conselho, se fosse bom, era vendido! - vá ler literatura fantástica. Em tempos de Bolsonaro e Trump, pode ser um senhor abre-olhos. 







*Como toda mocinha cheia de si que se preza, nessa época eu, do alto da minha intelectualidade de fim de milênio, fazia concessões ao realismo de Gabriel García Marquez. 


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