quarta-feira, 30 de setembro de 2009

AS BAILARINAS >> Carla Dias >>

Sonhei com bailarinas — delicadamente despenteadas — a sapatear sobre poças. Seus olhares eram brilhantes como o sol que despontava de fundo, clareando um cenário de saltos e rodopios. Não havia música... Ouvia-se somente a respiração compassada das bailarinas, como fossem palavras arrancadas de seus segredos.


Eu estava sentada numa cadeira, defronte ao espetáculo, as pernas cruzadas e a paciência ao meu lado, apontando os melhores momentos das meninas que tanto diziam sem mexer seus lábios; que faziam seu show de dança ainda que na falta de música.


A paciência, que em meu sonho era uma senhora muito educada e sábia, sorria o tempo todo. Eu não... Os lábios contraídos, a feição remexida pela preocupação, os dedos tamborilando sobre os braços da cadeira.


Ela me explicava que aquelas bailarinas eram de uma coleção de porcelana de uma mulher que viveu há muito tempo e que, depois de deixar seu corpo físico, resolveu morar nas suas pequenas companheiras. Então, apesar de tantas bailarinas a fiarem o espetáculo, era somente o espírito dessa mulher que lhes dava vida, como se ela tivesse se fragmentado e agora fizesse parte de um quebra-cabeça formado por mocinhas assustadas, silentes, os cabelos delicadamente despenteados.


As bailarinas continuavam sua coreografia e a Dona Paciência me fitava com... Uma paciência daquelas. E então as meninas de porcelana pararam e permaneceram estáticas, olhares injetados. De acordo com minha companheira de sonho, era nesse momento em que o espírito da mulher que habita as bailarinas as deixava descansar, cuidar dos pés fragilizados.


Acontece que as bailarinas interromperam o espetáculo justamente quando eu começava a decifrar os seus diálogos. Quando a curiosidade e a sofreguidão, por não saber o que e quando, seriam sanadas. Levantei-me da cadeira e murmurei desapontamentos. Cerquei as bailarinas com meus próprios rodopios, lamentando a ausência de vida nelas. Acusando-as de não serem capazes de terminar o que começaram. E o sorriso alentador da Dona Paciência me tirava do sério.


Eu ainda expurgava descontentamentos quando elas retomaram seus passos. Os braços jogados ao ar, a coreografia desalinhada como seus cabelos. Não consegui sair do cerco das bailarinas, e a única forma que encontrei de sobreviver a tal episódio foi me juntar a elas.


Eu escutava somente o som dos pés sobre o assoalho, o ritmo marcado pelos saltos. Sutilmente, passei a assimilar esses sons a uma melodia que vinha não sei de onde. Também passei a ouvir tambores... Que na verdade eram os nossos corações batendo num mesmo compasso.


À nossa frente, a Dona Paciência sorria uma amabilidade que pouco se vê por aí. Eu não conseguia tirar os olhos dela, daquela senhora com faces coradas, como se tivesse acabado de cometer uma traquinagem. E, aos poucos, passei a ter por ela o afeto de quem descobre que é preciso muita serenidade para não cometer a injustiça de definir a realidade somente a partir das nossas próprias conclusões.


Aos poucos, foi ficando mais fácil acompanhar as bailarinas. Minhas faces não se tornaram alvas e frias como as delas, tampouco meus cabelos se desalinharam de forma tão ingênua e bela. Entre elas, eu era uma diferença necessária, uma variação que completava a canção secreta e que emocionava profundamente aquela senhora sentada defronte a nós.


Imagem: The Dancers / Edgar Degas



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terça-feira, 29 de setembro de 2009

VOCÊ SABE O QUE É ISSO?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Todos sabem que o Brasil é conhecido por ter três coisas excelentes: futebol, samba e parlamentares.

É, resto do mundo, pode ficar com inveja, eu deixo. Fazer o quê? Somos um povo privilegiado. Hoje não falo do futebol nem do samba. Quero falar apenas dos notáveis parlamentares que você pode ter a honra chamar de seus.

Não falo dos federais. Esses são sublimes, ninguém discute. Mas não menos brilhantes são os admiráveis membros de uma câmara municipal no interior do Rio Grande do Norte. Todo mundo sabe que lá não há problemas, imagina. Os serviços públicos funcionam muito bem, não há corrupção, não falta remédio nem nada. Igualzinho ao resto do país.

Pois bem, nesta Suécia tropical, faltando o que fazer, os nobres vereadores resolveram inovar. Querem instituir o teste da goma. O leitor não sabe o que é isso? Bem, vamos lá. Hoje em dia é preciso explicar tudo.

Disseram que um dos vereadores era gay. Este, acusado, levou o assunto ao plenário. Seus colegas de partido (partido político, não pense bobagem) apoiaram o vereador chamado de gay, e tanto apoiaram que um deles, em aparte, sugeriu que o vereador fosse encaminhado ao ITEP (também não sei o que é), em Natal, para que fosse submetido a um "exame de conjunção carnal via reto", para provar que não tem nenhuma "prega quebrada".

Depois de feito o exame, sugeriram os colegas, ele, o acusado, processaria o radialista que o acusou. Mas houve outro aparte. Um vereador, do mesmo partido, não deixou por menos: sugeriu que a medida fosse geral, para todos os vereadores. Aí o barulho foi grande. A maioria dos vereadores não quis passar pelo teste da goma.

O vereador acusado disse que ia, que por ele tudo bem, desde que seus colegas também fossem. Aliás, não só os colegas, os radialistas dos programas policiais também, principalmente o que o acusou.

Muito bom! Eu sou fã do parlamento brasileiro. E ainda existe quem fale mal, veja só. O mundo é injusto, o mundo é perverso, é muito triste, os talentos não são reconhecidos mais. O pior de tudo: o brasileiro, esse povinho ingrato, não sabe valorizar os admiráveis parlamentares que tem.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

HISTÓRIAS E MATUTICES >> Albir José da Silva

Veio para o Rio de Janeiro aos sete anos porque precisava estudar. Na roça não havia escolas e o pai queria que ele “tivesse leitura”. Não entendia por que tinha que ler. Gostava era de brincar na terra, comer frutas e doces e ouvir histórias. Praticamente todos os adultos contavam histórias. Com elas conseguiam qualquer coisa do matutinho. Para que fizesse ou deixasse de fazer era só contar ou prometer uma história. Eram histórias para que comesse, dormisse, não chorasse. Não precisava que fossem inéditas, porque ele descobriu que cada pessoa contava de maneira diferente.

Na escola, assustou-se com tanta criança. Na roça os vizinhos e parentes moravam longe e não falavam tanto, nem tão alto. Achavam graça dele na hora do recreio porque comia bananas. Todos comiam biscoitos embrulhados na fábrica. A professora era muito bonita e usava roupas que ele não via na mãe ou nas mulheres que conhecia. Às vezes ela sorria e passava a mão na cabeça dele. Outras vezes ficava séria, com a testa franzida, brigona, e ele ficava com muito medo. Mas foi ali aprender a ler, e descobriu que as letras representavam sons; que, juntas, faziam sílabas; que, por sua vez, formavam palavras. Palavras que ele conhecia. Seu coração bateu acelerado como nas histórias que davam medo.

Tinha um brilho nos olhos quanto contou à mãe sobre a leitura. Só estranhou quando ela disse “muito bem, você está aprendendo a ler”. Como aprendendo? Ele já sabia! E começou a ler tudo: letreiros, manchetes e o que mais tivesse letras. Durante muito tempo, só leu. Nos intervalos é que comia, brincava, tomava banho e dormia. Sentia-se poderoso, o mundo não tinha mais mistérios, tudo estava escrito.

A escola não tinha biblioteca ou sala de leitura, nem se implorava aos alunos que lessem. Mas nas sextas-feiras, após o recreio, havia uma festa: caixas de madeira cheias de livros eram trazidas pelo servente. Cada aluno escolhia um livro, que a professora anotava, e que seria trocado na próxima sexta. Esse era outro momento em que o coração do matutinho batia muito. Escolhia seus livros sabendo que leria todos; que todos tinham histórias que contavam o mundo. E o mundo era dele. E de quem seria o mundo, se ele o descobrira?

Seguiu pela vida afora o matutinho, lendo histórias. Mas já não é o dono do mundo. A epifania agora acontece quando se descobre, nas histórias, pertencente ao mundo. E seu velho coração ainda dispara, já meio arrítmico, mas dispara.

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domingo, 27 de setembro de 2009

LIVROS, FILMES E DISCOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tem coisas que já nascem importantes, outras surgem sem pretensão.

Filhos, por exemplo, costumam nascer cercados de importância e preparativos. São um sucesso de público meses antes de estrear realmente. Árvores, pelo contrário, nascem sem alarde. O que não impede que haja filhos-surpresa, para os quais todos os envolvidos estão despreparados, ou árvores cujas sementes são plantadas com pompa e circunstância.

Na minha vida, quase tudo que tentei iniciar com festa e estardalhaço resultou em fracasso, no máximo tornou-se uma coisa comum. Os grandes projetos, os amores platônicos, os filhos planejados... ficaram engavetados ou não tiveram repercussão, não chegaram às vias de fato ou viraram desilusão, enfrentaram obstáculos demais e, mesmo se realizados, não havia o que comemorar: o cansaço era sempre maior que a alegria.

Quase tudo de bom que me aconteceu começou sem ostentação, sem barulho. Da maioria, não guardo sequer a data de início. Muitas vezes, não houve sequer qualquer tipo de planejamento ou projeto. Meus amigos, em que dia conheci cada um deles? Não lembro. Quando muito, tenho ideia do ano. E nunca começou assim: "vou ser amigo de fulano". Simplesmente acontecia. Minha já não tão pequena mas cada vez mais querida Julia... sim, sei a data de nascimento. Mas, quando ela surgiu, eu nem desconfiava da importância que ela teria na minha vida. Veio de mansinho e tomou conta de meu coração. Este site, o Crônica do Dia, a que dei início há mais de dez anos... O início está marcado porque a memória da internet é boa, muito melhor do que a minha. Mas eu jamais imaginaria então a quantidade de gente que passaria por aqui, como autor e como leitor, muito menos o significado que ele assumiria para mim: um lugar de expressão e exercício da escrita, um mirante para a qualidade literária desses meus amigos de letras.

Falo disso tudo porque dia desses dei início a uma nova atividade sem qualquer badalação. Chamei meus amigos Ota e Carla — Otacílio Batista e Carla Dias (essa vocês conhecem) — para fazermos juntos um blog com dicas de livros, filmes e discos, para deixarmos um rastro de nossos encantamentos com as artes da literatura, da música e do cinema. Talvez não dure, talvez a gente se canse, talvez pare de fazer sentido... mas por enquanto estamos lá, compartilhando o que temos lido, visto e ouvido.

Sei que dicas de livros, filmes e discos é o que não falta em tudo que é portal e jornal. Mas talvez tenha um amigo ou outro que queira saber o que estamos admirando pra admirar também. Como diz Bartolomeu de Campos de Queirós, "bonito é tudo aquilo que eu não dou conta de ver sozinho". Assim são esses discos, filmes e livros. Beleza demais só pra mim, pro Ota e pra Carla. Então essa crônica é um convite: http://livrosfilmesediscos.blogspot.com

Venha dar conta dessas belezas com a gente.

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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

SOMBRAS IMPROVISADAS >> Leonardo Marona



este relato usa nomes reais
mas não passa de uma ficção
sobre um momento histórico
para formar outro momento
não tão importante assim
nem tão histórico assim
mas meu.


No início das filmagens de Shadows, John Cassavetes telefonou para Charles Mingus, que na época vivia com seus óculos escuros de abelha, comendo tortas de merengue pelos becos do Village, criando suas epopéias, sempre – os cabelos como choque de alta tensão – da sua forma caótica e sangrenta. Combinaram de se encontrar para beber.

John precisava de uma trilha para seu filme. Um filme feito a partir de um estudo da improvisação, no qual Cassavetes atuava como um motor propulsor, incendiando seus alunos, que eram também seus atores. Miles Davis tinha refugado por causa do seu contrato de exclusividade com a Columbia. Mingus estudava cada vez em águas mais profundas, e era fácil encontrá-lo atrás de um rabo ou um trago ou uma dose nos arredores do Café Bohemia. Era o homem certo para o trabalho, se fosse possível encontrá-lo ainda de pé.

John explicou a Mingus o teor do seu filme, e porque precisava dele. Como sempre, Cassavetes queria o instante, o fogo ainda frio, na chama ainda azul, o cume da emoção capturado no instante exato. Mingus disse algo como "Cara, acho que gostei da sua idéia. Mas me deixe pensar", e desligou. Pouco tempo depois, John telefonou.

- Tudo bem, cara, queremos fazer – disse Mingus. – Vai ser com o Shafi no alto. Mas preciso de tempo para trabalhar. Quero fazer isso direito.

- Tudo bem, Charlie, sem problema – disse Cassavetes.

Houve um tempo de silêncio, durante o qual se ouvia uma respiração pesada como um bocejo de hipopótamo.

- Quanto tempo, Charlie? – disse John.

- Tempo. Eu te procuro quando encontrar o tema.

Mingus desligou o telefone.

Três meses se passaram, as filmagens já estavam bastante adiantadas, quando John procurou Mingus outra vez.

- Ei, Charlie, como vão as coisas?

- Mal, cara, muito mal... Tem uns gatos filhos-da-puta nessa merda de apartamento que ficam cagando sobre os meus papéis e não me deixam trabalhar. Impossível trabalhar desse jeito, escutou? Impossível me concentrar desse jeito!

- Os gatos são seus, Charlie?

- Sim, mas não sei como vieram parar aqui. Você precisa se livrar deles. Venha agora.

Mingus desligou o telefone. Isso já estava se tornando uma rotina. John não gostava de rotina. Seu filme não era sobre rotina.

John Cassavetes foi até o apartamento de Charles Mingus com alguns de seus alunos e se livrou de todos os gatos, escovou o assoalho, limpou os vidros, lavou até mesmo o banheiro. Deu trabalho. Era a típica espelunca de um viciado em heroína, muito comum no Village daqueles tempos. Tinha as janelas emperradas e completamente embaçadas, o mofo imperante descolando o reboco, tábuas de assoalho que rangiam por debaixo do carpete encardido mal-fixado, com muitos buracos de pontas de cigarro nele, as paredes descascadas como carrancas demoníacas num branco poroso, algumas garrafas esquecidas no chão, como bebês natimortos, e uma certa paz caótica que se encontra na mortalha deste tipo de ambiente que, apesar de tudo, ganhava naturalidade e até mesmo beleza, com o contrabaixo de Mingus intacto e muito bem polido no canto da sala.

Mingus observou tudo de pé, braços cruzados, com a cara amarrada por trás da escuridão das lentes escuras. Parecia contrariado com o fato de estarem mexendo nos seus papéis. Mas deixou que terminassem. No final ficaram apenas ele e John, tomando o que havia sobrado de um quarto de vinho de mesa e fumando cigarros na varanda, enquanto aviões supersônicos sobrevoavam os arranha-céus de Manhattan.

- O que você já tem para mim, Charlie? – disse John com delicadeza.

- Lady Johnny, não me pressione. Tenho o tema para o seu filme.

- Posso ouvir?

- Sim, é claro, garoto. Mas, por favor, não me pressione.

Mingus deu um forte trago no seu cigarro, cheio de manha, e solfejou seis notas que não pareceriam harmônicas, não fossem, é claro, de Charles Mingus.

- É isso? – disse John.

- Só que ainda não escrevi. Preciso de mais tempo.

- Tudo bem.

Cassavetes visitava o estúdio de Mingus quase diariamente. Estava cada vez mais irritado com a lentidão do seu processo de composição, mas o respeitava demais como músico para interferir. Um artista precisa de espaço, ele pensava, mas de onde eu vou tirar tempo?

Um belo dia, John chegou pela manhã com pães e leite e encontrou Mingus deitado no chão, dando cabeçadas contra a parede, sem nenhuma expressão no rosto, completamente nu.

- Você não parece muito bem, Charlie.

Mingus parou, firmou um joelho na frente do outro e se levantou com a ajuda da parede. Andou vagarosamente na direção de John e o agarrou com força pelo colarinho. Perdigotos como chuva ácida amarrotaram a manhã de sol.

- Escuta, cara, não posso trabalhar... Essa espelunca parece um consultório dentário! Tudo muito limpo, muito arrumado! Preciso dos gatos de volta...

***
Nesse ritmo seguiram as filmagens. Uma vez o tema estabelecido, Mingus passou a freqüentar um pequeno cortiço esfacelado – que todos chamavam carinhosamente de estúdio – com sua banda, onde assistia às imagens do filme, tocava livremente e discutia suas idéias com Cassavetes, mas só depois que estivesse embriagado. Antes disso, amaldiçoava as paredes e negava qualquer idéia que não a sua, com a justificativa de que o estavam pressionando e que um artista verdadeiro precisa de tempo para criar. Mingus detestava discutir sobre música, ou que lhe ditassem uma conduta. Batia o pé com relação a escrever formalmente a trilha. Mas virava uma criança dócil que se satisfaz com um pirulito em espiral quando estava bêbado. Parecia ser várias pessoas numa só, muitas vezes ao mesmo tempo.

- Que merda, Charlie! – gritou Cassavetes, irritado muitos diriam, não fosse a sua maneira de demonstrar entusiasmo. – Escutem, rapazes, vocês são capazes de improvisar... São formidáveis quando improvisam... Podem improvisar a partir do tema que já têm!

- Impossível, meu camaradinha. Não podemos fazer isso – disse Mingus. – Negativo. Somos artistas! É preciso que isso seja escrito devidamente. É uma bela música, cara.

No fim ficou estabelecido um acordo entre os dois. A banda de Mingus improvisaria a partir do tema composto pelo próprio, como se estivessem tocando num clube de jazz dentro do filme. Gravaram a trilha em poucas horas, e então Charles Mingus desapareceu.

John se deu conta de que precisava rodar mais algumas cenas antes de dar o filme por terminado. Convocou a atriz Lelia Goldoni, protagonista do filme, que estava tendo um filho na Califórnia.

- Precisamos de mais umas cenas, Lelia. Você pode vir?

- Eu cortei os cabelos, John.

- Te arranjamos uma peruca.

- Acabei de ter um filho.

- Já escolheu o nome?

- Ainda não.

- Então escolha logo e venha no vôo das nove horas.

É claro que era preciso encontrar Charles Mingus. Mas não havia sinal dele. Cassavetes ligou para Shafi Hadi. Mingus havia viajado para Tijuana, no México. Fazia alguns meses. Shafi também não tinha notícias desde então. Mas falou sobre o que parecia ser uma espécie de uma expedição musical.

- Esse filho-da-puta viciado fumando peiote e eu aqui comendo merda – bufou John.

Shafi não disse nada.

- Escuta, Shafi, você não quer fazer no lugar dele?

- Ele compôs a música, cara. Não tem como fazer da maneira que ele faz.

- Eu quero da sua maneira!

- Tá legal.

Shafi Hadi era muito magro e alto, tinha uma postura elegante e se vestia muito bem, por mais que estivesse sempre com roupas amarrotadas cheirando a bordel. Chegou no estúdio onde encontrou John com uma camisa abotoada e um colete puído, anotando num papel com a mão apoiada na testa, falando alto com ninguém.

- Ei, Lady Johnny! – gritou Shafi. – Falando com os mortos?

- Vamos gravar? – disse John se virando bruscamente.

- Espere só eu montar o meu cisne. Então você terá o seu lago.

John mostrou a Shafi os trechos do filme que sua música cobriria. Mostrou três vezes os mesmos trechos. Shafi Hadi permaneceu em silêncio o tempo todo, com os olhos semifechados. Então ficaram os dois se olhando em silêncio. John com as mãos nas ancas, Hadi abraçado ao seu sax.

- Você espera que eu toque dessa maneira? – disse o músico finalmente.

- Quero que toque pensando nas imagens que vê. Pensando no que elas te fazem sentir.

- Preciso de uma história.

- O quê?

- Preciso que você me conte a história da minha vida, para poder tocar sobre ela.

John ficou um minuto ou dois vidrado nos olhos de Shafi, pensando no assunto. Poderia tanto engolir sua cabeça quanto pular pela janela. Mas depois subiu na mesa e começou a contar uma história, uma história alucinada, uma história qualquer sobre um saxofonista que tinha problemas com a bebida e com as agulhas, e em pouco tempo estava pulando freneticamente de cadeira em cadeira, fazendo caretas monstruosas e passos de dança, esculpindo mensagens no ar com as mãos, desenhando sonhos enlouquecidos num mar opiáceo, pelo que Shafi Hadi soprou sua história de olhos fechados. E então foram as sombras. E nada mais.



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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

NOMES E SEUS DONOS >> Kika Coutinho

As pessoas não costumam acreditar nessa minha teoria, mas não tem jeito; a cada dia tenho mais certeza de que algo misterioso liga o jeito das pessoas aos seus nomes.

Todas as Sandras que conheço são fortes, ou parecem ser. Todas as Ritas que conheço são quietinhas e têm uma voz meio fina. Todas as Julianas que conheço são inteligentes, todas as Cláudias são falantes e bem articuladas, todas as Déboras são doces. Sempre que conheço alguém, ou que vão me apresentar a alguém, pergunto o nome e penso se vou me dar bem. Costumo me dar bem com as Lucianas e com as Andréias. Todas as Andréias são divertidas. Quando eu era criança, queria me chamar Luciana, mas, depois de grande, inventei que queria me chamar Luiza. Só que, se me chamasse Luiza, falaria baixo, só usaria sapatilhas e seria calma e sucinta como todas as Luizas são.

Se bem que as Luizas que conheço são crianças. Como as Júlias, se não têm 10 anos, parecem sempre que têm. São fofas, as meninas Júlias. Costumo ser muito amiga das Anas Carolinas. Olha, não é por nada, mas você não vê Ana Carolina que não seja divertida, boa gente, alto astral. Não vê mesmo. Também não vê Isabelas gritando e fazendo barraco. As Isabelas costumam ser calmas e delicadas. Agora, Renata? Cuidado com as Renatas, sabem armar um barraco e conseguem o que querem, como ninguém. Eu admiro as Renatas. Daria um bom adesivo, né? “Eu admiro as Renatas”. Mas também costumo gostar muito de Mariana, Adriana e Flávia. Já com Danielas, é bom ter um pé atrás, viu? Sabe que Daniela não me convence?

Tem os nomes masculinos que são igualmente espelho de seus personagens. Já reparei que Thiago com “H” costuma ser muito legal, mas sem “H”, hummm, é um traste! Ou seria o contrário?

Marcelos são legais, Gabriel é nome de gente super de confiança, mas, quando uma amiga me diz que conheceu um Alexandre, eu logo alerto que boa coisa não é. Fábios são bonzinhos, mas bonzinhos normalmente sofrem até. Eduardos também sofrem muito de amor. Vivem se apaixonando por mulheres erradas, cujos nomes nem vou falar. Rafael também é um nome ótimo, mas pode reparar que eles são sempre meio moles, meio indecisos, até meio zens. Deveriam ter uma Renata na vida, para dar uma animadinha.Mas bom mesmo é Bruno, viu? Se fizer par com Ana Carolina então, nem se fala. Se tiverem uma menina de nome Sofia, nossa!, esses são porretas, viu? Pode saber, minha lista não falha nunca, e é totalmente imparcial.

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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

CORAÇÃO PARTIDO >> Carla Dias >>

A nós que não evitamos os afetos,
mesmo quando dolentes.


Não há remédio para coração partido, mas houvesse e fosse possível comprá-lo nas drogarias, nas casas de ervas, nos supermercados, nas bancas de jornal, certamente seria um produto que enriqueceria seu criador.

Coração partido dói de um jeito que quase nada do que se sente cabe em palavras. Na verdade, tirando aquele que se propõe a ouvir as dolências confessas de um coração partido, há pouco que o outro diga que o faça se sentir inteiro.

Leva-se muito tempo para colar um coração partido, e sempre restam saliências, como as costuras de uma cirurgia que resultou em uma convalescença repleta de cuidados e limitações. Coração partido posa para fotografia todo choroso, como se uma flecha o atravessasse, impregnando esse pobre coitado de mais ausência e ansiedade.

E o coração se parte em muitos momentos, como quando percebemos que o que sonhamos ser um dia, com aquela determinação de quem foi criado para crer que tudo é possível, nada mais era do que uma venda que nos impedia de compreender que nem tudo é possível, por mais força de vontade que possamos empregar em tal desejo. Obviamente, há neste caso doses honestas de desejo pungente de que sejamos felizes, quase sempre oferecidas pelos que nos cuidam. Às vezes, até mesmo as boas intenções partem nossos corações.

Um coração partido perde o rumo com tanta frequência que acaba se tornando adepto da solidão como escape. E pela casa ficam espalhados os livros que desejava ler, como fossem toques sutis de um desapego imposto; as cartas fechadas, os armários escancarados, a comida no prato, a bebida no gole, telefone fora do gancho, o desespero nas lágrimas.

O coração partido é personagem principal de muitas das nossas decepções, mas também das descobertas, como quando alguém aponta uma violência sem tamanho e nos pegamos assim: de coração partido ao percebermos que ela existe.

O coração que se parte por amor é dos mais chorosos. Dá sempre de nos colocar nos cantos das casas em festa, no lugar do personagem traído do filme, na poesia mais profunda e melancólica impossível. Há momentos em que se sente tão animado que acredita que o pior já passou. Mas basta cruzar com quem lhe partiu o coração para que se compreenda: leva tempo para se acomodar um coração partido no peito. Tempo demais para permitir que nossa alma o receba de volta. Mas é um tempo que acontece.

Pensando bem, o criador de um remédio para coração partido poderia apenas flertar com a possibilidade de sucesso, mas não o alcançaria com tal invenção. Um coração partido remete a uma experiência que, antes de se tornar a ausência do outro, era sua presença. E por nele viver, também a ele ofereceu o aprendizado ao trançar sua história na dele.

Coração partido é sinal de que vivemos. E por mais que pareça o contrário, haverá o dia em que não será dolorido passar os dedos sobre as cicatrizes. Em que elas serão apenas o mapa de uma vida sendo vivida sem o medo de se entregar ao sentimento.




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terça-feira, 22 de setembro de 2009

O GUAXINIM
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Isso é triste, não devia poder. Acabei de ler que um guaxinim (puxa, que emoção, nunca tinha escrito guaxinim antes) andou quase trezentos quilômetros. Até aí tudo bem. Tudo bem em termos, não foi uma caminhadinha qualquer não. Nem para um guaxinim. Foi um recorde. Nenhum antes andou tanto.

E sabe para que tudo isso? Para encontrar uma fêmea. É, um guaxinim atleta, mas sobretudo romântico. "Machos são orientados pela reprodução e continuam caminhando, até achar uma fêmea apropriada", explica Frank-Uwe Michler, biólogo membro da GWN (uma tal de Sociedade para Ecologia Selvagem e Conservação da Natureza).

Mas o mundo não é justo. A épica jornada do bravo guaxinim em busca do par perfeito acabou na armadilha de uma caçadora, perto da cidade de Bremerhaven, longe, muito longe do Parque Nacional de Müritz, seu ponto de partida. O nosso herói morreu assim, sem homenagens nem amor.

Puxa, Waschbär, que coisa! E nem sua alma gêmea você achou. Pelo menos se morressem vocês dois juntos, a coisa tinha, sei lá, um ar romântico. Seria até possível que o Shakespeare de vocês escrevesse um Romeu e Julieta guaxiniano, mas você tem que se contentar comigo. O mundo não presta. (Ah, Waschbär é guaxinim em alemão. Puxa, leitor, tenho que explicar tudo?).

Estou abalado, nem vou acabar a crônica. Só faço um registro factual. Os guaxinins machos andam bastante, já vimos. As fêmeas, bem, as fêmeas não tanto assim, elas preferem outras coisas. O mesmo biólogo ressalta: "As fêmeas são diferentes. Elas se preocupam com boas condições de vida e não andam mais que o necessário".

É, as fêmeas são mais espertas. Sempre foram. Eu sempre achei.

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domingo, 20 de setembro de 2009

PROFISSÃO PRA QUANDO EU CRESCER
>> Eduardo Loureiro Jr.

"Eu quero ter um milhão de amigos
e bem mais forte poder cantar."
(Roberto e Erasmo)

Sei que já passei da idade em que me perguntavam "o que é que você vai ser quando crescer?". Agora já sou crescido — quem me acreditaria se eu dissesse que não? —, e sou apenas eu a perguntar-me o que vou ser quando crescer.

Sim, ainda me seduz a resposta da infância: Pipoqueiro. Eu queria ser pipoqueiro. Vejam que maravilha. Não, não se tratava de um sonho. Me parecia economicamente viável. Um pacote comprado no mercantil (coisa de cearense) era tão baratinho, e os sacos vendidos pelos pipoqueiros eram tão caros (e olhe que nem era eu que pagava), que a margem de lucro obtida deveria ser altíssima. Eu pensava em fazer fortuna como pipoqueiro. Investiria o lucro no próprio negócio e veria o dinheiro se expandindo, saltando feito pipoca. O negócio não foi pra frente porque eu comia MUITA pipoca. O lucro acabou se acumulando na minha barriga, em vez de em meu bolso, e me transformou num adolescente obeso. Hoje talvez desse certo: tenho mais disciplina alimentar, devoro uma única bacia de pipoca a cada mês e apenas de vez em quando compro uma caixa no cinema. Aquilo sim é que é margem de lucro. Com o dinheiro de uma única pipoca de cinema dá pra comprar dois ou três pacotes no supermercado, o que renderia várias caixas de pipoca a serem novamente vendidas por um preço exorbitante.

Mas mudei de sonho e de resposta. E se tenho pra mim que não sou crescido, que talvez esteja mesmo é descrescendo, é porque a resposta atual é ainda mais estranha do que a antiga. Há uns três anos, enquanto colocava no carro as compras recém-feitas num supermercado de Teresina, me ocorreu qual seria a profissão certa para mim. Sabe o Lampadinha do Professor Pardal? Pois ele se acendeu pra mim. Nunca tive um insight tão certo sobre mim mesmo. A verdade ainda não havia se mostrado tão clara pra mim antes daquele dia. Pico do Himalaia, mosteiro no Tibet? Que nada! Querem a iluminação? Vão ao Carvalho, no Riverside Shopping, em Teresina.

Ali eu soube. Ali, a quarenta graus de temperatura, entre o ar-condicionado do supermercado e o ar-condicionado do carro, eu tive a revelação da minha vida. E, se não a segui, a culpa não é do destino ou de Deus. Faltou-me coragem simplesmente. Achei economicamente inviável. Um total desvario. Talvez uma alucinação decorrente do choque térmico entre o frio e o calor.

Se demoro a dizer do que se trata, não tem nada a ver com suspense, com manter a atenção do leitor omitindo-lhe um fato que ele deseja obter porque esse fato foi supervalorizado artificialmente no início do texto. Não, não é nenhum artifício de escritor. É pura vergonha. É imaginar você, aí em casa ou, pior, no trabalho, soltando uma grande gargalhada, chamando a atenção de quem está próximo. "Que risada é essa, criatura?", vão lhe perguntar. E você dirá: "Vem ver isso aqui. Vê o que esse maluco, que já deve ter uns quarenta anos, quer ser quando crescer." E a pessoa virá, você lerá em voz alta e, juntos, darão nova gargalhada, que atrairá ainda mais gente e subsequentes risadas. E quando uns tiverem que abrir espaço para outros chegarem, um ou outro gravará de memória o endereço e enviará o link por e-mail para outras tantas pessoas que reforçarão a corrente de gargalhadas até que o mundo inteiro — ou pelo menos toda a comunidade de língua portuguesa — estará rindo de mim.

Se é assim, que seja logo, feito um esparadrapo que é melhor ser arrancado de uma vez para que a dor seja rápida, embora aguda:

— Quando eu crescer, quero ser amigo. Isso mesmo: amigo. Amigo profissional. Oito horas por dia dedicadas a conversar, passear, trocar e-mails, inventar projetos... Sou um bom amigo. Passo, com as pessoas, menos tempo do que elas gostariam que eu passasse. Ninguém nunca me disse "lá vem tu de novo", sempre me dizem "pensei que tinha esquecido de mim" e "que saudade". E se não me dedico completamente a meus amigos é apenas porque tenho que ganhar o pão de cada dia com o suor do meu rosto. E me angustia saber que nada do que eu faça é mais importante do que simplesmente ouvir meus amigos, lhes falar, e escrever, e fazer música, e beijar, e abraçar

Pronto, é isso. Podem rir. Gargalhem. Sei que é ridículo. Sei que não dá dinheiro, pelo contrário, gasta-se: com telefone, com internet, com transporte, com sorvete, com corda de violão. Mas é o que eu quero ser quando crescer.

Enquanto isso, continuo sendo explorado, com vontade de fazer um apelo às autoridades e à imprensa por estar perdendo minha não-crescida infância com tanto trabalho inútil. Deve ter um 0800 qualquer que a gente ligue pra delatar casos de exploração do trabalho infantil. Mas de que adianta? Quem me acreditaria? Melhor ficar por aqui, sendo amigo por hobby, nas horas vagas.

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sábado, 19 de setembro de 2009

O OUTRO [Sandra Paes]

Essa semana meus ouvidos ficaram vibrando em excesso o pronome Ele. Ele isso, ele aquilo, etc e tal.

Não sei quantas vezes devo ter ficado apenas no meu tradicional hum-hum, ouvindo e me perguntando um coisa básica: “Quem é o outro?”

Parece que virou um sintoma ou, quem sabe, um mistério, quiçá um abismo irresistível. Vi nos filmes os olhares adolescentes como que a descobrir esse ser, um dia encantador, outro desapontador. Vi no olhar da esposa um vazio tentando encontrar um fio que fosse de uma meada qualquer para desnovelar o nó que se punha diante de sua mente ao constatar alguma coisa que não ressoava bem.

Ah! As ressonâncias... Que gongos são esses que tocam em nossos ouvidos e nos fazem ter aquele arrepio de algo desafinado como se nossa alma fosse um diapasão que sabe exatamente o tom da melodia das danças de uma relação harmoniosa?

Quanto mais o tempo passa, mais confirmo a hipótese que o outro é mesmo um infindável mistério. A maioria de nós se perde no labirinto quase que infinito da tentativa de desnudar o outro. Grande parte nem quer saber. Apenas se queda ali, prostrada, rendida a um outro tipo de encanto que fascinantemente a mantém refém de algo que quase nunca se revela.

As novelas gastam seu tempo de enredo sempre em torno de, mais uma vez, desvelar um outro, aqui, alhures. E as pessoas continuam nessa saga, com enredos repetidos milhares de vezes, e nada aprendem com os livros, as tantas narrativas já documentadas, as peças montadas, as histórias contadas, os ditos dos mais velhos experientes a aconselhar em vão. Sim, pois, parece, encontrar e desvendar o outro é tarefa única. Cada um vai um dia fazer sua jornada pessoal nesse ritual de passagem com altíssimo índice de reprovação.

Dia desses falei com um jovem rapaz que estava tentando se recuperar da primeira experiência de coração partido. Se referia a tal relação com desolo, como que a pedir que a nova experiência pudesse ser bem sucedida, como se isso tivesse uma medida padrão possível, e, uma vez aprendida, nada mais de dores e derrotas ou o sentimento de.

E o que mede mesmo isso? O que será que cada um de nós inventa sobre o outro e pendura numa lista invisível de possibilidades como um jogo de loteria que carrega o segredo dos números vencedores? Como se fosse apenas possível que fôssemos o sorteado vitorioso? Sim, por que o encantamento que tecemos em torno do outro, quando ousamos pensar e sentir que o conhecemos, nos traz aquela sensação de ter ganho na loteria. Na verdade, acertar os números é uma pequena metáfora diante dessa voluptuosa sensaçao de “eu o ganhei”. Mais sinalizando de fato que colocamos esse alguém em uma moldura preciosa e ali o temos, mais na nossa imaginaçao que na realidade.

Pois o tempo, esse predador de todas as ledas posses, trata de ir desfazendo nosso prêmio, ou melhor, trata de nos colocar contra o muro dos equívocos e revelar de forma contundente que é mais fácil reconhecer: “não sei quem é esse aí”. Agora ele é realmente promovido a esse outro. Se nos propusermos a vasculhar o caderno da memória e das vivências, depois de termos passado quase que timidamente pela canção "Eu sou a outra na vida dele", percebemos de fato que, quando somos o outro, parece incomodar menos do que quando alguém se torna “aquele outro”.

O atestado de ignoro sua existêcia, um pedaço de papel invisível pra muitos, mas muito claro para quem o carrega na carteira como um documento ou um diploma na parede, inaugura uma coleçao diferente: a coleção de nossas perdas. E, catastróficamente, ele vira “falecido”, inimigo mortal, extraterrestre, excomungado... para não desfilar outros nomes mais usuais. Tudo isso guardado muito perto do escaninho da ignorância. Ali, bem ali naquele cantinho da mente ficam arquivadas as perdas não contabilizáveis. E o outro vai para lá. Com certeza.

Aceitamos perder na loteria, quase que naturalmente. Aceitamos perder o ônibus ou o táxi no dia de chuva. Lutamos para nao sofrermos com a perda de aplicações ou até mesmo de um telefone celular. Mas perder aquele que “foi nosso”, ah!, isso jamais. Pois exigiria um enorme estudo de nossa incapacidade de decifrar o outro.

Se não me sei, como saber quem es tu? E é nessa dança que a vida parece seguir. Imagine países densamente povoados como a China ou o Japão. Não dá pra viver sem o outro por que milhares deles fazem parte de nosso passo.

Agora saltando para um deserto, sim, aquela paisagem com dunas de areias, pouco habitadas de humanos onde alguém é algo raro. Como é o outro nessa área? Quem é o vizinho daquela fazenda lá longe?

Me dou conta que estou num prédio cheio de gaiolinhas e nada sei sobre os outros moradores. Nem eles de mim. Não, não chamo a isso solidão. Solidão é aquela sensação esquisita quando quem costuma dormir ao seu lado, um dia, ao virar de lado se torna um estranho. E nesse momento cru, constatar isso é quase cruel. Faz parte dos mistérios entre eu e o outro. Ou não? Fica registrado em algum cluster quase que de forma indelével, que não há reparo possível para essa descoberta. Eu acho que conheço o outro. Ele, não sei se me descobriu ou se encantou com algo que jamais saberei. E daí? Constatar que ele virou um estranho é no mínimo complicado de encarar. Como ficar com um estranho? O que fazer com a descoberta que ele não é quem eu pensava que fosse?

Inventamos ditados fatais como “cristal quebrado não se emenda” e ficamos com esse tipo de crença a guiar o sinal do abismo onde não queremos cair, ou a armadilha onde jamais poremos o pé. Mas a vida mostra que não é assim. Afinal, nossa percepção é quase sempre falha e mutável, e, evidentemente, nossa visão de tudo também.

Só não sei de onde vem o absolutismo de nossa percepção infalível, quase sempre usada com rigor nos depoimentos e posta a prova nos tribunais — esse espetáculo ainda vigente pra promover nossas fraquezas e escorregadas diante da lei dos homens.

Quantas gerações, quantas tropeçadas, quantas cabeças quebradas, quantos corações doídos, apenas pra um dia podermos ver que o outro, por vezes um suspeito, por vezes uma testemunha, por tantas outras apenas um passante, é exatamente como nós: mortal e falivel em suas crenças, percepçöes, atitudes e falas. Ainda assim, um bom exercício para o orgulho, a vaidade, o sonho e a desilusão. Enquanto ainda investimos em imagens, ícones vários, aparências fabricadas e tantos espelhos que só possam refletir nosso brilho e não sobra território para a exposição do ser.

Esse, sem rótulos, sem etiquetas e na maioria das vezes anônimo, só mostra sua face em pequenos intervalos de silêncio, pura contemplação, e nenhum juízo. Levamos anos, talvez vidas, pra descobrir de forma simples que o outro é um conjugado de nós mesmos. E tudo isso apenas pra se saber onde por o próprio eu. Onde mesmo?

Coube muito bem aqui, no travesseiro, segundos antes de apagar a luz desse corredor cheio de pensamentos, e se dissolver com o sono.

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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

HOSPITAIS >> Leonardo Marona

Hospitais sempre foram para mim um estímulo sexual indescritível e vergonhoso, quase de perversão. Depois de pensar sobre por que é assim, cheguei à conclusão provisória de que, como o sexo é a negação da morte e o hospital é o ambiente de morte por excelência, então o estímulo sexual que ele me provoca – através de portas entreabertas, jalecos brancos com assinaturas dos nomes das enfermeiras em letras de formato clássico, a brancura devassa dos pesadelos molhados de meias-calças até o início das coxas, e até mesmo as macas vazias num canto do corredor – talvez venha de uma tentativa desequilibrada de tentar inconscientemente equilibrar os pólos: contudo um instinto profundamente moralista.

No hospital, até mesmo os elevadores apresentam clitóris secretos. Tudo parece lascivo, como se não se pudesse escorregar por paredes geladas de éter, como se não poder pensar no assunto fosse mais erótico do que o próprio assunto pensado em pequenos atos. Um lugar simbolizado por cruzes, onde é proibido sorrir, por vergonha dos moribundos e mortos e vivos mortos que circulam. Num lugar como este, a libido é a única forma de reação carnal contra a putrefação. Isso ou os olhares baixos que dizem amém ao diabo. Porque pensar muito é mentir. E sentir é se corromper socialmente. Portanto, quem se veste de branco todo o tempo está fadado ao pecado.

Foi lá também, no refeitório, que pensei sobre outro assunto diretamente ligado ao sexo:

Por que é comum homens perderem a vida por mulheres desequilibradas de personalidade explosiva, violentas?

Porque o sexo, que é o que move as pessoas de encontro umas com as outras, acima de tudo, é um processo desequilibrado, sem igualdade. Ao contrário do que os pares exigem, e daquilo que dizem os especialistas e os hipócritas, o sexo não é uma negociação estabelecida em percentagens. É um jogo de azar injusto, violento, desmedido, mafioso, muitas vezes estúpido, bestificado. Essa é a verdadeira raiz humana, e sua tragédia. Por isso continuamos gregos, mesmo mortos. É o que nos torna verdadeiros, aliás, de acordo com a espécie quando observada com o devido afastamento. E normalmente a verdade não é fácil de suportar. A verdade não é equilibrada. A verdade não é nem mesmo verdadeira. E as mulheres desequilibradas são portanto mais livres, inteiras. E isso as torna sexualmente mais atraentes. O sexo que é a vingança da vida contra a morte. E que talvez seja a única verdade total, porque nega. Afinal, as relações humanas são apenas extensões sociais dos nossos instintos e erros, os mais vergonhosos e primordiais.

www.omarona.blogspot.com

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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

DESAPEGO >> Kika Coutinho

Estar grávida é desapegar-se. A gente começa se desapegando da cinturinha fina, das roupas da moda, do visual impecável. Aos poucos aceitamos calças jeans com o botão aberto e, se bobear, fazemos de conta que não notamos o próprio zíper aberto aparecendo, enquanto não cedemos aos velhos e bons moletons.

O desapego da beleza é o primeiro que aparece quando não podemos mais tingir o cabelo, fazer uma progressiva, nenhum bronze artificial. Nada pode ser muito artificial quando se está grávida, porque os artifícios nos são negados, um a um.

Desapegamos das aparências também quando vomitamos em público, fora tudo o que se torna incontrolável diante — pelo menos — do marido.

Nos desapegamos um pouco do emprego e dos horários que ele nos impõe, porque o sono torna-se a prioridade absoluta. Nos desapegamos de parecer inteligente numa reunião, porque a preguiça e o cansaço nos fazem ver que ser inteligente é a maior bobagem do século. Ser bonita, então, é uma idiotice completa. Bom mesmo é ficar quietinha vendo a barriga crescer, tal qual uma vaca ou uma égua. É, nos sentimos totalmente bichos nessa fase e desapegamos um pouco dessa condição estúpida de ser humano. Que ser humano que dá leite, gente? Qual?

Desapegamos das condições exigentes de higiene que nos impúnhamos antes. Você não vai a banheiro público? Espere até ficar grávida. Você tem nojo de banheiro de rua? Pois vai desapegar desses nojinhos e achar um banheiro de casinha, daqueles horríveis de festivais, como um oásis em meio ao deserto. Essa necessidade absurda de fazer xixi nos faz ficarmos desapegadas de bobagens. Eu, pelo menos, já sei a rota de todos os banheiros da minha região. Sou capaz de identificar, num raio de 50km, os banheiros mais próximos. Todos serão ótimos. Estou pensando, inclusive, em fazer um guia, tipo aquele da Vejinha: “Comer e beber, os melhores restaurantes de SP”. O meu vai se chamar: “Xixi e cocô, um guia dos melhores banheiros da capital”. Eu não faria isso antes. Nem falaria uma coisa dessas. Mas agora... Desapeguei.

Desapegamos do nosso próprio umbigo, desapegamos de ir a festas chatas, desapegamos de obrigações sociais que se tornam absolutamente sem sentido.

A gente desapega até da gente mesma, das próprias dúvidas e inquietações. No início toda grávida pira com qualquer dorzinha — “ai, senti uma pontada aqui” — e corremos para a internê para ver o que pode ser, perguntamos para as amigas e ligamos para o médico: “Dr, é urgente, senti uma pontada”. Depois vai passando o tempo e a gente desapega. Sente uma dor forte na costela e diz para si mesma, enquanto come mais um pedaço de bolo: “Não deve ser nada”. E não é. Desapegamos porque confiamos.

O desapego é sinal de que o que não importa está no lugar do que não importa e, aos poucos, todo esse desapego vai dando lugar a um novo apego. Um apego pelo que, de fato, importa: esse pequeno peixe que chuta sem parar dentro de nós. O resto? Todo o resto é bobagem...

www.embuchada.blogspot.com
www.docerotina.blogspot.com

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

É MAIS ALÉM >> Carla Dias >>


"eu enxergo no escuro a luz que a noite revela
o feio que é força bela

e ela que nem sabe a beleza da fera..."

Beatriz Azevedo

Ao amigo que enxerga além tão fácil,
de um jeito bonito que só de se ver.


A casa parece deserta, mas não está. Desde que nela habita, as paredes vem colecionando seus segredos. É certo que, vez ou outra, ele tenta despistar a atenção dessas sinuosas invasoras de privacidade. Mas não demora e ele desiste e se entrega ao gosto de contar a elas seus recentes devaneios, a voz embargada, o soluço, a gargalhada. Uma delinquência emocional.

Tem horror ao liquidificador. Não é apenas o barulho que o endoidece, mas principalmente a ideia de se triturar tudo para nunca mais se ter o inteiro. Ele sabe o que é ser despedaçado, da dolência de ter de catar os cacos de si e depois passar muito tempo a montar esse quebra-cabeça. E nem sempre se sente inteiro.

Ele adora o silêncio sendo invadido pelas canções, principalmente as que fazem de conta que dizem isso, mas dizem é aquilo, o que dá no isso mesmo. Aprecia a jornada que é a descoberta do gosto de uma canção. Para ele é necessário saboreá-la, a tarde vazando do tempo, a luz adormecendo sobre as costas da noite. Quando ninguém mais tem o que dizer e todos adormecem de cansaço ou libação — ou porque as histórias que seus pais contam os embalam até chegarem a esse mundo onde todos andam de olhos fechados e bocejam —, então ele sente: a vida tatuando na sua língua o gosto, invadindo sua alma com gosto, permitindo a ele, novamente, gostar.

Ao observá-lo de longe, poucos alcançam a inquietação que se acomoda em sua alma, até porque ela parece ter alma própria que vive à sombra desse homem que, às vezes, rodopia, gira e gira, cai no mesmo lugar achando que mudou de país. E quando percebe isso, e apesar da tristeza, do desapontamento, ele dá o primeiro passo adiante, reinicia a viagem. Corteja o destino e seus véus de futuro inusitado.

Tenho comigo que ele aprendeu a tirar esperança da cartola... Que até faz bolhas de sabão com elas. Que surrupiou das gargalhadas das crianças a graça que vê nas coisas nem sempre assim tão graciosas, fortalecendo a leveza da pessoa que foi, que é, que há de ser.

Numa das suas conversas com as paredes, descobriu que precisava ver a rua, como quando jogava futebol com a molecada lá do bairro, ou ficava girando e girando, os olhos fechados... Sabe os desenhos em que o personagem fica girando por um tempo no mesmo lugar e acaba abrindo um buraco no chão e sumindo? Ele não... Ele parecia criar asas, um menino saindo do chão, chegando tão longe, tocando o sol, o ser, o céu, as lantejoulas dependuradas no universo.

A casa não está deserta. As fronhas dos travesseiros abarcam lágrimas de noites em que não sabia como ou quando. Onde? Mas são apenas moradias para momentos em que se flerta com abismos. E ainda bem que existe a máquina de lavar que faz com que fronhas chorosas se transformem em acomodação para os perfumes de amaciantes de roupa. Alguns são bem agradáveis... E a gente acaba sonhando com levezas.

Já na rua, o homem vai brincar de menino, de ter ousadias que adulto bloqueia, porque sim, porque acha que é isso que gente grande faz. Lembra dos rodopios e os olhos fechados? Soubéssemos o que ele vê... Mas nem às paredes esse segredo o moço conta, apesar da insistência desvairada das tais. Porém é fato: ele enxerga muito mais do que aqueles que, vista boa, olhos grudados na vitrine da vida, jamais enxergarão. Quem não sabe que o olhar depende da cadência da alma?

Sair para ver o mundo é jeito bom de restabelecer contato com a vida que também é vivida com os outros. Ele gosta de andar de bicicleta, enquanto visita suas lembranças e bota reparo nos próprios sentimentos. As paredes de sua casa endoidecem de curiosidade: “O que será que ele não nos contou?”

O céu, as ruas, as praças, os labirintos urbanos são testemunhas dos passeios do moço. Posso apostar que, como observadora que não faz questão de lógica ou de corroborar fatos, que ele se enche de amansamento quando pedala sua bicicleta alugada, como divindades o visitassem nesse momento, sussurrando em seu ouvido os mistérios da sua própria humanidade. E o homem resgata o menino, sem medo, sem tempo, os olhos fechados de tocar o céu, o seu, o meu desejo de enxergar além.

O olhar liberto das amarras. O coração aberto.


Imagem: pintura de Rob Gonsalves




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terça-feira, 15 de setembro de 2009

O ZORRO QUE BEBE CERVEJA
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Perto de minha casa (isto é, do meu apartamento) há uma simpática loja de fantasias. Sempre nos cruzamos: eu, voltando do trabalho, olho para ela; ela olha para mim. Nos cumprimentamos com um discreto sorriso, e eu digo:

— Olá, lojinha simpática, como vão as coisas?

E ela responde, amável:

— Bem, obrigada.

É toda nossa relação.

Ou melhor: era. Essa semana, vejam só, precisei ser fantasiado. Não pensei que um dia fosse precisar da lojinha amiga, mas eis que me convidam, umas ex-alunas, para uma festinha, e me intimaram, sem desculpa, a ir fantasiado. Logo pensei: vou conhecer a lojinha amiga, minha quase vizinha.

E lá fui eu. Bem, antes devo dizer que existem, no meu bairro, outras lojinhas similares. Aliás, há de tudo, menos farmácias. Livrarias (puxa, quantas), bares (isso não é vantagem do meu bairro, pois em Belo Horizonte eles nascem até em árvore), restaurantes (onde o divino prazer profano se faz presente), umas padarias amigas onde consigo meu misto quente matinal, enfim, faço quase tudo a pé – a única coisa que não tem por perto é farmácia. Ainda bem. Prefiro a simpatia das fantasias à austeridade das farmácias.

Na lojinha tirei umas dúvidas que tinha. Perguntei assim: "Vem cá, loja simpática, as pessoas alugam fantasias sempre?" A lojinha me garantiu que sim, ainda disse que todos os dias. Não sei por que, mas fiquei feliz ao saber que, naquela segunda-feira morna, sem graça ou magia, há alguém vestido de toureiro ou imperador romano. Que aliás era como a Lourdes — a amável atendente — queria que eu fosse vestido. De imperador romano. Ponderei que não, "Lourdes, pense bem, eu não dirijo nem a minha vida, não vou dirigir um império. Não, nem por uma noite. Não tenho cara de imperador, logo veriam que eu não sou Nero, não ficaria convincente, não ficaria".

Ela então me veio com um homem das cavernas. Também assim é demais. Nem lá nem cá, né Lourdes! Tudo bem, não sou um embaixador inglês, mas tenho estirpe. Não vou sair por aí com um tacape na mão, derrubando a pauladas as mineiras que me atraem. Mesmo porque, se fosse assim, sobrariam poucas nas ruas.

Lourdes me trouxe o Zorro. Devo confessar que mal lembro do Zorro. Sei que tinha cavalo, máscara e chapéu. Lembro vagamente que ele fazia coisas boas. Não lembro quais. Me disseram depois que ele tinha um ajudante, algo assim. A minha fantasia veio sem ajudante, preciso confirmar isso para reclamar depois, se for o caso.

Devo dizer que fiquei bem de Zorro. Nem desconfiava, mas acho que nasci para isso. Quem me vê logo diz: eis o Zorro. Mesmo sem máscara, e até sem chapéu, está na cara que eu sou o Zorro. Foi o que Lourdes me disse, e eu logo concordei com ela, "Sim, Lourdes, você tem razão". Como vivi tanto tempo sem saber disso?

Lá fui eu com o Zorro embaixo do braço. Eu já quis sair de Zorro, mas fui convencido que era melhor deixar para depois. De qualquer forma, deixei a espada bem à mostra, para qualquer eventualidade.

Em casa precisei me segurar para não assumir minha verdadeira identidade. Já queria sair por aí fazendo justiça, o problema é que a festa só seria mais tarde. Não tem problema, pensei, a justiça já esperou tanto que pode esperar mais um pouco.

Dormi, que Zorro cansado não faz verão, e acordei pronto para inaugurar reinos de compreensão e bondade. Logo, porém, me deparei com um problema grave. Roupa de Zorro não tem bolso. Absurdo. Onde vou colocar o dinheiro que roubar? Nem o pouco dinheiro que me acompanha tem onde ir. Outro dilema logo se instalou, e disputou minha atenção com a falta de bolsos: não dava para usar óculos e a máscara do Zorro ao mesmo tempo. Não sei se o Zorro era míope, espero que não.

Sem bolsos e sem óculos, mas com alma pronta, me preparei para enfrentar os inimigos. O primeiro era o elevador do meu prédio. Se eu encontrasse algum conhecido, será que ele me reconheceria atrás da máscara e do chapéu? Outra dúvida: se fosse um vizinho rico, ficaria bem roubá-lo ali mesmo, para dar aos pobres, talvez ao pobre Zorro? Eram dúvidas sérias, que me perturbavam, mas que foram embora quando o elevador chegou. Notei, irritado, que os presentes não respeitaram muito o Zorro. Riram e zombaram. Na certa não perceberam a espada que eu trazia sob as vestes. Se vissem, respeitariam.

Preciso confessar uma fraqueza. Fui à festa de carro, não fui a cavalo. Já não se fazem mais zorros como antigamente. Acho que Zorro não combina muito com carro. A capa e o chapéu atrapalharam um pouco minha já atrapalhada destreza automobilística.

Para um carro, no sinal, ao meu lado, e é evidente o espanto de quem nunca viu o Zorro de perto. Talvez temam pela própria sorte, nunca se sabe quando Zorro atacará. Mas eu não estava com vontade de atacar ninguém. Quando o sinal abriu, e meu carro preto arrancou poderoso (meu carro é preto, claro, carro do Zorro é preto), pude ver o ar de alívio emocionado de quem agradece aos céus a graça de sair incólume de tão grave situação. Não é sempre que se sai com vida de um encontro com Zorro.

Chego na festa e percebo, abismado, que há outros Zorros. Quis começar o duelo desmascarando os falsários. Acho muito errado isso de outros Zorros além do verdadeiro. Depois pensei melhor, e concluí que Zorro tem alma generosa, perdoa os tolos de fraco espírito. Não matei ninguém, mas quando cruzava com um falsário deixava claro, pelo olhar, que não estava gostando da imitação.

Também não marquei ninguém com um Z na cara. É uma pena, só depois lembrei da minha marca registrada, que é deixar um Z maiúsculo na face dos malvados. Também não vi nenhum malvado na festa, vi só umas malvadas, que se estivessem com mais roupa talvez não perturbassem tanto meu confuso coração.

Estou meio sem jeito, mas preciso confessar outra fraqueza: bebi cerveja. O mais honesto seria colocar a frase no plural, mas eu vou deixar assim mesmo. Não sei se fiz certo. Acho que Zorro não bebe cerveja. A espada não gostaria disso. Felizmente não precisei tirá-la da bainha, quer dizer não sei se felizmente, mas o certo é que não tirei.

Também dancei, para o meu espanto, e para o espanto de Zorro, que talvez não aprovasse os passinhos ensaiados, que insistiam, bondosamente, em me ensinar. O Zorro sem cerveja tinha mais compostura, seguramente. E olha essa máscara, Zorro, é para cobrir os olhos, não a orelha. Não, esse chapéu não é o seu. Esse chapéu é de mestre-cuca, acho que o seu anda na cabeça de alguma cozinheira. Da próxima vez, vou ouvir Lourdes e vir de Nero. Combina mais com fim de festa.

Fui embora. Ainda tentei fazer justiça pelo caminho, mas devia estar tarde, pois nem uma injustiçazinha encontrei acordada. Encontrei foi uma blitz mal humorada que — suprema audácia — parou Zorro pedindo documentos. "Senhores, senhores, o que fazem? Não veem quem lhes fala? Minha capa não basta? Ela não fala por mim?"

Minha capa não falou. Se falou, eles não ouviram. Acho que Zorro já foi mais respeitado. Nem os heróis acatam, onde vai parar esse mundo? Fui dormir sem cavalo nem carro, que os policiais acharam melhor ficar guardado. Eu não concordei, mas achei exagerado matar homens da lei. Minha espada eles não levaram, expliquei que a fúria de Zorro é brutal e que paciência tem limite. Eles, assustados, concordaram, e Zorro foi dormir com fome.

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DRUMMOND PARA DISTRAÍDOS >> Albir José da Silva

Da primeira vez xinguei os palavrões de praxe e segui pensando na droga da vida. Praguejava ainda pela dor mas já nem lembrava do motivo. Tanta coisa incomodava: o chefe, a financeira, a glicose, o colesterol e o time despencando para outras divisões.

Quando aconteceu de novo me senti injustiçado. Ainda sentia a primeira dor. Por que eu? Afastei idéias de destino e fatalismo, mas o que estava acontecendo? Difícil não pensar em pragas, maldições e castigo divino. A dor subia em ondas pela perna, baço, fígado, costelas e coração. Coração acelerado sacolejava uma espuma vermelha com adrenalina, bile e outras substâncias de desamparo. Por que um ser humano tem de passar por isso quando só estava andando na rua – um direito constitucional que não encontra proibição em nenhuma religião? Nem mesmo tinha pensamentos pecaminosos naquele momento. E duas vezes no espaço de dois minutos! Ninguém se compadece. Cheguei mesmo a identificar sorrisos a minha volta. Egoísmo e crueldade – disso é feita a humanidade. Nenhum rosto amigo que perguntasse se eu precisava de ajuda. Respirei cachorrinho porque se ajuda no parto deve amenizar outros sofrimentos.

De novo! Assim já é demais. Três vezes! Descambei para razões médicas. Será que já não levanto suficientemente o pé? Falta de vitaminas? Pressão baixa, pressão alta? Parkinson, Alzheimer? A dor é estromboscópica: apaga e acende em vários lugares, pulsa nos ouvidos e fibrila no coração. Chamo a razão: calma, ninguém morre disso. As pessoas me olham, estou abraçado a um poste sacudindo a perna. Não me importo. Gemo baixinho, mas só porque estou sem forças. Saio cambaleando.

Agora manco dos dois pés e tenho vontade de me arrastar. Carros, buzinas e, ao meu lado, alguém que fala e gesticula. Não ouço as palavras e não entendo os gestos.

Nem vejo, no meio do caminho, uma pedra.

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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

É DIA DE SEGUNDA >> Claudia Letti

Teve um tempo, quase nos primórdios, em que eu detestava domingos — virei fã dos Titãs — era dia de descanso e nem precisava tanto. Também desconfio que eu possuía endorfina e serotonina pra exportar e um dia inteiro dedicado ao ócio cheirava a desperdício. Felizmente amadureci (ou me mudei para o Rio, não sei ao certo) e aprendi a pegar praia. Na pior das hipóteses, quando chove, sempre dá pra aprimorar alguma receita de bolinho de chuva. Foi então que a segunda-feira passou a ser o ó do borogodó do meu calendário.

Detesto.

Como confiar num dia que tem segunda no nome mas, na verdade (invejoso!) quer ser o primeiro? O primeiro (que se diz) útil, o primeiro de muitos de trabalho. Dia de Lua, sem a primazia dos prazeres, das requentadas sobras do domingo, não é hora nem dia da primeira feira, é xêpa. É o Dia Mundial da Dieta — e só por isso já não teria graça nenhuma.

Já trabalhei numa empresa onde se dizia, à boca pequena, que os donos não pagavam o salário às segundas porque acreditavam que ficariam pagando contas pelo resto da semana. Nunca soube se isso era de fato verdade mas, sempre recebíamos o pagamento do mês numa sexta ou numa terça.

O google me contou que, segundo uma pesquisa, este é o dia preferido dos suicidas no Japão, valha-me Deus. E falando Nele, eu também já ouvi de alguém em algum lugar que, no Gênesis, está escrito que Deus, admirando sua obra, ao final de cada dia da Criação, "viu que isso era bom". Mas, no segundo dia Ele pulou essa parte, não disse nada de bom e partiu para o terceiro de uma vez. Bom, se até O Cara Lá de Cima torceu o nariz pra segunda-feira, convenhamos...

Enfim, este deveria ser um dia abolido do calendário, tal qual o 13º lugar das (elegantes) mesas de jantar. É um dia tão sem noção que se ficar o bicho pega e se fugir dá na mesma. O único salvo conduto das segundas é ler o Joaquim Ferreira dos Santos mas, desconfio, que é pura estratégia do jornal, senão quem, em sã consciência, se arrastaria até a banca? Mas, também, pelo Joaquim dá pra arrastar um bonde — o que empresta um pouco de dignidade para as segundas.

Então, quando o editor deste espaço comunicou que, a partir de agora, escreverei às segundas, quase me revoltei, confesso. Mesmo que não estivesse cumprindo minha carga horária nas terças, mesmo que em algumas fases eu tomasse chá de sumiço, não me conformei de imediato. Pôxa, segunda-feira? E nem me lembre do Vasco na segunda divisão, porque eu sou mais carnavalesca do que propriamente esportista. Até deu mais samba, afinal, escola que não desfila no Grupo Especial está onde? Pensei até em fazer greve, mas greve na segunda-feira é alívio, até a procrastinação se faz de santa.

Depois é que fui entender que, talvez, eu não comparecesse tanto às terças porque a crônica se escrevia nas segundas, claro. Agora que ela será escrita aos domingos (depois da praia), a frequência há de melhorar. Quem sabe assim eu me acostume com a ideia de estar de crônica presente por aqui, para encontrar vocês semanalmente.

Por enquanto, me despeço na minha primeira segunda, como desejo que uma boa alma escreva em meu epitáfio:

Eis-me aqui.
Contrariada.

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domingo, 13 de setembro de 2009

PASSOS DE FORMIGA SEM VONTADE
>>Eduardo Loureiro Jr.


Não entendo. Juro que não entendo. Tem dias que não me entendo. Não sei o rumo. Quero saber o sentido das coisas e não atino. Onde é que essa estrada vai dar? Não tenho ideia.

UNO - Flickr.com

Admiro as pessoas que olham para a frente com convicção, que sabem onde vão chegar. Aquele tipo de gente que, quando criança, já sabe a profissão que vai seguir, para quem o futuro é tão claro quanto o passado. Mesmo as pessoas que não sabem para onde vão, mas que seguem agarradas a algo como um filho, um casamento, uma religião, um emprego, mesmo essas — que eu não admiro — talvez eu inveje por simplesmente seguir o curso dos dias sem se questionar tanto.

Às vezes — mais vezes do que eu gostaria — olho para frente e não vejo quase nada. Da mesma forma, olho para trás e vejo pouco. O que fiz da vida? O que vou fazer? Agora mesmo, o que faço? Falta-me vontade real das coisas como às vezes tenho vontade real de comer um balde cheio de pipocas. Não tenho esses desejos, quereres, gostares. E tampouco antipatias, mal-quereres: não tenho ojeriza a nada, tudo me parece aceitável dependendo da ocasião. Devo ter, então, inveja dessas pessoas que amam ou odeiam.

(Ainda ontem, assistindo ao meu São Paulo enfrentar o Avaí, num primeiro tempo difícil, zero a zero, lamentei — fazendo mesmo uma cara de grande insatisfação — que, após uma linda tabela com passe de letra, o time adversário não tivesse concluído a jogada em gol. Fiquei até mesmo desapontado com o zagueiro do meu time por ser tão eficiente e impedir aquele que seria um golaço, uma obra-prima. Entendem agora o que quero dizer?)

Invejo os que xingam o juiz por um pênalti não marcado mesmo depois que viram o replay e constataram que o atacante do seu time se jogou — cenicamente — na área. Invejo o evangélico de paletó que faz pregação — todo empolgado — no meio da praça. Invejo os que brigam e matam por um ideal — por mais torto, antiético e sem sentido que seja.

Meu balde de pipoca emocional, aquilo que costuma me mover com uma força que em tudo mais me é desconhecida, é a paixão. Quando me apaixono, quero o impossível que seja, mas quero; faço a besteira que for, mas faço. Não hesito, não vacilo. Sigo em frente. Entretanto, o que sobra de uma paixão? Desilusões, desfeitas, rompimentos... no máximo, algumas boas histórias para contar.

Esta crônica é outro exemplo. Neste domingo, não estou com vontade de escrever — o que é até raro. Mas em vez de me entregar a isso, de não escrever mesmo, de viver segundo essa ausência de vontade, o que faço? Escrevo. Não tenho constância no que quero nem no que não quero. Minha vida é curta, feita de momentos muito pequenos, de fragmentos que não se combinam. Sou uma bala ricocheteando sem atrito — e sem fim — num quarto vazio. Até aqui, tive o benefício da juventude. Mas até quando? Quanto tempo mais a vida parecerá estar se abrindo? E quando ela começar a fechar o cerco?

Terminarei feito uma crônica sem frase de efeito?



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sábado, 12 de setembro de 2009

DOS JILÓS [Monica Bonfim]

Sabe o que é? Um dos primeiros livros que minha mãe comprou para mim se chamava “Por quê?”. Deve ter sido porque eu estava naquela fase de criança que tudo quer saber o porquê e aí, para simplificar o trabalho, ela me deu o livro. Poderia dizer aqui que minha mãe era uma brilhante educadora e visionária que já me preparava para, num futuro, sempre que quisesse saber alguma coisa, pesquisar, desde a infância me ensinando a trabalhar com um índice e tal. Em que pese que aqueles que a conheceram bem me dizem sempre que ela era muuuuuuuuito inteligente — morreu quando eu tinha 9 anos — não creio que houvesse essa preocupação de futuro; ela tinha 33 anos à época e eu devia ser chata mesmo. Então, já que eu gostava de ler, era mais fácil responder com um livro.

Vou te dizer que essa coisa de procurar o porquê das coisas já me deu muito problema; cheguei à conclusão que algumas coisas são como são e procurar suas causas é uma perda de tempo, além do fato — eu sei que você vai dizer que é óbvio — de que não vai mudar a coisa em si, vai apenas deixá-la, se possível, mais palatável. Mas acontece que eu realmente não gosto de jiló, e compreender a razão do jiló ter o gosto que tem não muda o fato de que eu não consigo engolir. Portanto, vou vivendo minha vida e me afastando dos jilós.

Ah! Entender as causas das atitudes das pessoas é sempre muito bom: mantém os nossos pés no chão e evita que se gaste em paraquedas — a quantidade de vezes que a gente “cai das nuvens” é bem menor.

Mas fico pensando que a realidade de, ou para, muita gente que conheço deve ser bem ruim: o que ando conhecendo de gente que projeta suas fantasias e fala delas como se realidades fossem, é impressionante. E por mais que possa compreender suas razões — eu continuo querendo saber o porquê de algumas coisas — digo a vocês que isso me cansa mesmo.

Esse cansaço me perturba: acho uma total falta de compaixão, da minha parte, não conseguir ultrapassar essa realidade projetada. Muito embora eu consiga ver os méritos intrínsecos das pessoas, ficar ouvindo ilusões é muito chato. Fico até zangada comigo mesma, pelo perpétuo questionamento e a vontade de chegar para a criatura e desmascará-la aos próprios olhos para que ela, a partir do enfrentamento da situação, consiga ultrapassar suas dificuldades.

Não se dê, caro leitor, ao trabalho de pensar “mas quem ela pensa que é?”...risos... porque eu já fiz isso: "Menos, Mônica, menos, você não tem nada a ver com isso, vai cuidar da sua vida, vai se preocupar com suas dificuldades, vai atrás de se tornar, você, uma pessoa melhor e deixa os outros com os problemas deles."

Mas entendam que eu já estive ali: já aumentei as pequenas coisas que tinha de boas, já lapidei um passado tanto que ele virou um diamante, já agreguei valor imaginário ao que não tinha, já distorci uma história realçando os pontos que me favoreciam, já alardeei valores ao meu caráter que não consegui seguir. E eu sei que um dia a casa cai, que um dia a gente olha para o espelho e vê o ridículo daquilo, vê o desperdício de energia e pode até ser que aconteça o pior: que a gente se acostume ao pouco e vá completando esse pouco com a nossa imaginação e um dia acorde de mãos vazias, porque é só imaginação, é só ilusão.

Então meu coração se confrange, sabem? E a única saída que acho para meu dilema é me afastar dessas pessoas. Porque não consigo deixar de me irritar com as ilusões projetadas — eu detesto mentiras — apesar de compreender as razões por baixo delas, apesar de enxergar a infelicidade latente, apesar de compreender a necessidade das pessoas.

Talvez um dia eu me torne uma pessoa melhor que consiga ver e, apesar disso, realmente aceitar e, a partir disso, conviver harmoniosamente: cada um tem seu próprio tempo de encontro consigo mesmo.

Enquanto isso, vou fazendo como eu faço com os jilós... Só chego perto quando vou no supermercado.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

DOIS POEMAS PARA O FIM DE UM AMOR >> Leonardo Marona

"metáfora"

somos eu, a arena, o touro.
arena mínima, touro enorme.
eu danço na frente do touro,
tento apaixoná-lo por mim.
há doçura no olhar do touro,
doçura, loucura, catástrofe.
somos parecidos de certa forma.
mas eu sei disso, ele não sabe.
meu bailado parece irritá-lo,
faz o touro andar em círculos.
paro na frente dele, mas não
há como rezar, não há tempo
para se fechar os olhos, sou
levado a correr em círculos.
fora da arena os olhares frios,
sei que deixam o touro tenso
tanto quanto a mim, que tenho
menos pernas e a pouca sorte
de saber que, com frieza, eles
riem por dentro, se divertem.
além disso, o touro não sabe
como estou sozinho, na arena
que, maior que a arena, tem
o tamanho do mundo inteiro.
o touro não sabe o tamanho
do mundo inteiro, eu também
não sei, mas, por azar, posso
imaginar: vantagem do touro.
o touro não sabe da solidão,
mas, melhor que eu, ele sente
a brasa na pele todos os dias.
compreende melhor a saliva
que lhe escorre pelo focinho.
começa a corrida, somos dois
desesperados, atrás da trégua
que nos trará água, um cafuné.
não há água, cafuné: há palmas.
nem o touro nem eu entendemos
as palmas, o que nos aproxima.
sabemos apenas que as palmas
significam “nos tirem do tédio”.
estamos juntos, de certa forma,
e tenho vontade de abraçá-lo,
passar de leve a mão na cabeça
do touro, mas ele não tem mãos
para passar na minha, só sabe
que deve me espetar seu chifre,
só conhece o vermelho depois
do espanto, enquanto eu canso,
despisto o touro como posso,
peço calma, mas ele não fala
a minha língua e os olhares
frios indicam que nem mesmo
eu falo minha língua, e corro,
dou voltas, me desequilibro,
caio, levanto, corro ainda mais.
fugimos um do outro, o touro
e eu, mas as palmas, a frieza
são grandes inimigas, nos levam
a fazer o círculo tantas vezes,
o mesmo círculo, sem motivo.
em tempo, as palmas no fim
deixam-nos, a mim a ao touro,
como mestres com suas cartolas
e delas tiramos a paz evitada
já que nosso couro é a bússola
que justifica o tédio público
e nos faz seguir em círculos,
agora uma vez mais extasiados.
enquanto abandonam a arena,
somos dois corpos exaustos,
repletos de morte e passagem.
as cercas já não nos convidam
à fuga silenciosa dos presos
perigosos, somos apenas dois
iguais, com sede de aplauso,
e estamos os dois, no mundo,
entediados de nos sabermos
fortes, fora dos planos, enfim.

***

"segundo poema todo teu"

entra na casa, esta casa onde, por tantas
vezes, entraste sem perceber e, cada vez
mais dentro, saías de vez, mas agora não
sabes mais como sair – olha bem os móveis,
sente o peso das horas que, pela primeira vez
se apresentam arreganhadas, feitas de tecido
sem graça, soma de farrapos – mas olha bem.
não serão mais tuas estas horas, as paredes
te dão as costas, as portas de correr emperram,
estás sozinho onde tantas vezes disseste
a ti mesmo: “estou completamente sozinho”.
mas agora que estás, então não dizes nada.
percebes o ridículo: falas na segunda pessoa.
espera um pouco à porta, não olhes para dentro
do quarto pequeno, onde te espera à toa o corpo.
o ventilador roda noutra direção, e ali está ela,
que espantava as hienas e falava com mil sóis.
não te diz respeito o lugar para onde tantas vezes
fugiste sem pés de uma realidade seca, infame.
adeus ao quadro de Chagall, ao homem flutuante
em frente à Torre de Paris, adeus, Neal Cassady,
Kerouac, que primeiro te ensinou o abraço e,
acima de tudo, adeus aos braços, que se abrem
murchos para uma nova vertigem seca, sem pulo.
de costas para o muro ficas parado, voltas à porta:
não há mais porta, os caminhos se afunilaram
em gargantas abertas por navalhas de ferrugem.
não serão mais tuas estas horas e, em breve,
não serão mais tuas estas lembranças, nem tu
serás mais de ti mesmo, pobre órfão fugitivo.
ficaram algumas marcas de amor pelo chão,
agora ficam aqui lágrimas irreconhecíveis,
sabe-se lá de que são feitas, mas escorrem
como tudo o mais escorre para fora, adiante.
adeus incensos baratos à meia-noite pálida,
adeus às cortinas prateadas que escondiam
um segredo só nosso, e nem mesmo nosso.
adeus cigana de tantos dentes – diga adeus.
adeus Elis Regina, pintada por Andy Warhol.
adeus mesa feita de um antigo baú, adeus,
bares de esquina, cartas invisíveis de amor,
viagens não realizadas, concretizadas na cama,
até um dia bairro de Laranjeiras, vinho chileno,
adeus à toda intensidade da carne crua cansada.
“o mais profundo é a pele”, você dizia imitando
Paul Valery, mas agora adeus Paul, adeus pele.
ela que se encolhe agora na cama, sonhando
com tempos talvez mais leves, mas, meu amor,
se a vida não foi leve para nós, foi por dádiva,
porque somos os que podemos agüentar o peso,
somos os beneficiados com o espanto e a cura.
principalmente, agora, adeus manta africana,
com que ela te recebeu pela primeira vez,
jogando em seguida a chave pela janela.
aqui está a chave sobre a mesa, e dos dois
restou um livro de poemas, um livro médio,
um poema só dela, dos que fazem chorar,
e a chave do peito, essa que não devolverás,
essa que de tanto abrir e fechar fez carne viva
do que antes chamavas miséria, mas agora
chamas primeiro grito, susto que não se diz,
e não falarás mais nada, apenas amarás a ela
em preto e branco, como nos filmes antigos.


www.omarona.blogspot.com

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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

TRAUMAS >> Kika Coutinho

As mães sempre sonham com aquilo que deixarão para os seus filhos. Sonhamos com o que ensinaremos a eles. Se saberemos mostrar-lhes o caminho da justiça, da generosidade, do caráter firme e da lealdade aos seus. Se conseguiremos deixar para os nossos pequenos bons hábitos, boas atitudes para com os outros, para com o planeta e — principalmente — para consigo próprio. É normal pensarmos se acertaremos mais ou se erraremos mais, no entanto, as lições a serem ensinadas estão todas aí. Caminho de valores, de alegria e de bem é o que desejamos — quase sempre — que nossos filhos herdem de nós.

Mas não só de virtude é feito o legado de um pai para o seu filho.

Eu perguntei recentemente ao meu marido que traumas será que deixaremos à nossa filha. Ele não gostou da pergunta. Sentiu-se agredido, e achou-me por demais pessimista. Mas a conta é muito simples. Se os nossos acertos deixam o bem, e sabemos que nem só de escolhas acertadas vivemos, nossos erros deixarão algo não tão bacana. Pedi que meu marido olhasse em volta. Para os nossos amigos, familiares, conhecidos, para nós mesmos. Todos temos os nossos traumas e dores que resultaram de escolhas e atitudes não tão bem sucedidas de nossos pais.

Se não os vemos, é porque não enxergamos de perto o suficiente. Talvez estejamos míopes, mas ponha os óculos e admire a sua melhor amiga ou o seu primo. Eles também sofrem os erros dos pais deles. Não são crimes bárbaros... São erros de quem queria acertar. Achavam que esse erro não causaria mal aos seus filhos, ao contrário, tantas vezes pensavam que era um bem que lhes faziam. Aquela mãe que ensinou a competição e errou um pouco a mão, o pai que pesou demais no ensino da ambição; sempre queriam acertar. Ou, então, achavam que não chegaria no campo de visão dos filhos uma ou outra bebedeira a noite, um ou outro vício no jogo (ou no que quer que seja), uma ou outra dívida no banco, uma ou outra traição à esposa...

Achavam que deixavam na soleira da porta o que faziam de errado. Achavam que uma criança ou um adolescente não escuta ou não enxerga o que está diante de si e, assim, sem querer, deixaram aos seus filhos alguns medos, algumas decepções, outros tantos traumas.

Meu marido não se convenceu, mas eu ainda acho que é melhor assumir o óbvio: na mesma medida em que posso deixar a minha filha o bem, como mãe também posso dar-lhe tristezas e, sabendo do meu poder, prefiro manter os olhos abertos e a soleira da porta bem limpinha.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A WOMAN LEFT LONELY >> Carla Dias >>

Foi logo quando comecei a estudar bateria, em 1986. Uma amiga das minhas tias, ao saber do meu ingresso no universo musical, perguntou se eu conhecia a Janis Joplin e, mediante uma negativa, me emprestou um LP.

Janis Joplin Forever, uma das antologias lançadas com hits da cantora, foi direto para o toca-discos. Na época, meu conhecimento musical se limitava ao que ouvira nas rádios que minha avó costumava escutar, quando eu ainda era menina e passava muito tempo com ela. Eram sambas e músicas caipiras e, de Cartola a Sérgio Reis, meu vocabulário musical foi composto durante muito tempo. Adolescente, comecei a acompanhar a carreira de alguns artistas através dos programas de auditório.

Fiquei em pé, de frente ao toca-discos, esperando para ouvir a cantora que a amiga das minhas tias dizia fazer com que a música ganhasse um encanto a mais. Porém, consegui ouvir somente alguns segundos depois que Janis Joplin começou a cantar. A voz da moça me soou tão estranha, mas de uma estranheza tão intensa que não sabia dizer se gostava ou não. E, desacostumada àquele tipo de inquietação, coloquei Janis Joplin na prateleira das cantoras que não sabia escutar e devolvi o LP.

A música, eu viria a saber mais tarde, era Summertime, composta por George Gershwin, contando com letra de DuBose Heyward e Ira Gershwin. Essa canção foi gravada por muitos artistas e as versões são muito interessantes. Na lista das versões que mais gosto estão a de Ella Fitzgerald e a de Jill Scott e George Benson.



Às vezes nos perguntamos para que serve o tempo a não ser para nos conceder rugas e aposentadoria. Não demorou muito para eu compreender a importância do tempo que passa, de como ele desenha os caminhos pelos quais nos enveredamos. Em 1989, comecei a tocar com a minha primeira banda e os músicos eram adeptos da cultura hippie. O que me soou, num primeiro momento, raspas do que vinha de um movimento que eu acreditava fosse somente americano, transformou-se em um baú de descobertas, e sem fronteiras, o que dirá nacionalidade. Foi nessa época que aprendi que nem sempre devemos apostar no que nos é entregue pronto, mas sim que precisamos desafiar até mesmo as primeiras impressões. Principalmente as primeiras impressões.

Não demorou e Janis Joplin foi parar no meu walkman. Despida dos pudores, muito mais aberta à diversidade do som das vozes e dos instrumentos musicais, e completamente apaixonada pela essência da geração Flower Power — e pelas batas, pelas calças bocas de sino, pelos hits dos Mutantes, pelos cabelos longos, pelo símbolo da paz... pelo desejo de alcançá-la... —, permiti-me vivenciar um apaixonamento. E o que julguei estranheza, num primeiro momento, o era mesmo, mas nem por isso deixava de ser bom. Percebi que a estranheza, assim como o estranhamento, conduziriam a minha biografia de forma autoral. Eu seria quem fosse, num momento qualquer.



Janis Joplin é uma das intérpretes que mais me emocionam. Já escrevi muitos poemas ouvindo a moça, assim como imaginei desfechos diversos para histórias ainda mais diversas, tendo-a como provedora da trilha sonora. Lembro-me do livro que devorei sobre sua vida, o Enterrada Viva (Buried Alive), escrito por Myra Friedman, com quem a cantora trabalhou durante boa parte de sua carreira. Foi quase desesperador acompanhar a vida de Janis naquelas páginas, pois apesar de tudo de negativo que se sabe sobre ela, sempre proveniente do uso intensivo de drogas, Myra nos mostra a infância, a genialidade de Janis Joplin que, casada à paixão e à profundidade com que a artista interpretava canções, com a intensidade com a qual dominava o palco, tornou-a única.

A menina que nasceu no Texas (EUA) e que lá era considerada um patinho feio, satirizada por não se vestir como uma garota deveria se vestir, desprezada por ter amigos negros. A menina das inquietações, com talentos diversos, assim como a incapacidade de se enquadrar em uma vida moldada. A mulher de solidão aguçada. Uma das cenas descritas no livro de Myra que sempre me volta em lembrança é quando Janis sobe na mesa do bar e canta, o coração em evidência. Janis Joplin nasceu para não durar muito.

Uma das suas interpretações que mais me inquietam, que me tocam profundamente, é a da canção composta por Dan Penn e Spooner Oldham. A Woman Left Lonely tem música e letra tão melancólicas quanto a biografia de Janis Joplin.






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terça-feira, 8 de setembro de 2009

EU CONFIO EM VOCÊ
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Devemos acreditar nas pessoas? Até que ponto? Aqui, como em tudo mais, nossa capacidade de acreditar varia em função das experiências passadas. Quem tem um currículo de decepções e frustrações será, provavelmente, mais descrente. Mas claro, sempre nos resta um espaço: mesmo com os baques da vida, temos a opção de continuar acreditando.

Por que digo isso? Lembrei de algo curioso. Faz tempo que não lembrava, mas lembrei. O caso é simples: estava com dois amigos, à noite, de conversa fiada. Perto do mar que um dia morei, aquela coisa de não fazer nada, restos de um viver tão diferente do atual.

Chega um garoto. Quase adolescente. História triste, cores comoventes. Que aquela noite, apesar do seu esforço, não vendeu nada. E mostrou seu instrumento de trabalho - uma humilde bacia com várias pamonhas. Iam estragar, e ele não tinha dinheiro sequer para voltar para casa. O que diria em casa?

Os três, na verdade, se comoveram. Silêncio constrangido. Eu tomei a dianteira. Falei, vem cá, tudo bem, aqui estão vinte reais (ele só havia pedido um ou dois). Vai lá naquela banca de jornais, troque por duas de dez, que uma delas será sua. Ele exultou. Perguntou se queria que ele deixasse as pamonhas como prova que voltaria. Eu disse que não precisava.

Bem, eu podia estender a história, mas vou direito ao ponto: ele não voltou. Andaram minutos, dezenas deles, e ele não voltou. Meus amigos, pós-graduados em sacanagem, aproveitaram, dizendo que fiquei lá uns três dias esperando o garoto voltar.

Eu confesso: não esperava. A não volta me surpreendeu. Não cogitava, pelas circunstâncias, dessa possibilidade. O tempo passando e eu, contra as evidências, buscando desculpas: deve estar tendo dificuldades para trocar o dinheiro, é isso...

Não foi isso. Ele simplesmente não voltou. O que teima em voltar é a lembrança desse caso, meio que para testar meu grau de confiança na humanidade.

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sábado, 5 de setembro de 2009

VIAGEM DO NÃO AO SIM
>> Eduardo Loureiro Jr.


A cada negação se segue uma afirmação. E frequentemente se afirma justamente aquilo que acabou de ser negado.

Repare quando se pergunta a alguém: "Você queria falar alguma coisa?". A pessoa responde: "Não...". Mas, ao invés de ficar calada, continua. Ou seja, ela realmente queria falar alguma coisa embora tenha negado isso.

"Quem desdenha quer comprar", diz o ditado. A inveja costuma se fantasiar de negação para em seguida imitar a coisa negada. Tantas vezes fazemos justo aquilo que não admitimos que daí nasceu o conselho: "Nunca diga 'dessa água não beberei'". E o jeito mais certo de saber se alguém fará alguma coisa é avaliar a intensidade com que ele a nega. Nega pouco, fará pouco. Nega muito? Sai de baixo!

Comigo aconteceu de negar um simples comentário de uma amiga, coisinha à toa, dita de passagem: "Viajei com 23 pessoas", disse ela. E eu respondi: "Não sei se conseguiria viajar com tanta gente".

De noite, um sonho. Um não, dois.

No primeiro, eu estava dentro de um ônibus urbano, conversando com uma senhora já bem idosa. Ela era do Chile, e quando eu tentava dizer-lhe qualquer coisa, acabava me atrapalhando, metendo o italiano no meio do espanhol. De repente, alguém me puxou a mão direita, em que eu tinha um pequeno objeto de madeira em formato de coração. A mulher me aconselhava — ou repreendia? — dizendo que só "tal coisa" se "tal coisa"... Não, não faço mistério à toa nem guardo segredo. É que não lembro mesmo de que "tal coisa" ela estava falando. Assim como não entendo por que me chamou a atenção o fato de eu estar de gigolé, muito menos que tipo de relógio era aquele que eu trazia no pulso, um relógio redondo — feito um olho com ponteiros — pendurado numa pulseira.

No segundo sonho, eu participava de uma cerimônia religiosa e depois trocava de roupa num quarto de vidro-espelho em que eu podia ver as pessoas fora, enquanto elas não podiam me ver dentro. Então ouvia meus pais me chamarem: "Você vem ou não?" E lá fui eu, apressado, entrando no velho fusca marrom de minha infância.

Acordei de madrugada com aquelas imagens redondas: o relógio e o fusca. Evitei dormir imediatamente e fiquei gravando os sonhos na memória, pra anotar pela manhã. Enquanto repetia o sonho pra mim mesmo, me veio outra imagem redonda: a Terra. E me ocorreu um pensamento que não sei se foi meu, do sonho ou de alguma outra pessoa ou lugar: que a Terra é um veículo do Tempo, e que a gente viaja acompanhado. Com 23 pessoas?! Não, dá um "pouquinho" mais que isso, se eu contar apenas familiares e amigos mais próximos. Se eu incluir as velhinhas chilenas e as firmes conselheiras, o número sobe pra não sei quanto. Se eu me esforçar mesmo na conta, com certeza chego aos bilhões.

MASAYOSHI ETO - Corbis.com
Agora corrijo o que disse no início. A afirmação não se segue à negação. Quem nega já está fazendo. Quem fala que não quer falar já está falando. Quem desdenha já está comprando. Quem diz que não beberá já está bebendo. E eu, quer dizer, nós já estamos viajando.



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