LIQUIDEZ << SORAYA JORDÃO
Minha avó não se cansava de dizer: minha filha, a vida é um sopro.
Aquelas palavras não me provocavam uma fome de experiências ou uma urgência de mundo. Pelo contrário, me causavam um misto de tristeza e revolta.
Como a vida poderia se reduzir a isso? Toda essa luta para estar vivo, amar e ser amado, construir e realizar sonhos resumidos a um ventinho de nada?
O tempo soprou os dias, os meses, os anos até me fazer interpretar a frase de minha vó em outros termos: a vida é um sopro, não porque é breve, mas porque é movimento, uma espécie de corpo que só se materializa no fluir do agora.
No passado, ela é sólida. Está petrificada, enterrada no ontem. Não importa o que se escreva na lápide, está morta.
No futuro, é gasosa, supomos sua presença, às vezes, podemos até sentir seu cheiro. Mas não conseguimos ver seu corpo dançante.
Somente no presente ela é líquida. Escorre, transborda, inunda os espaços, agita o barco, inaugura portos e caminhos. Materializa-se na pulsação do desejo.
Talvez seja sopro, como dizia Irene, mas não por sua brevidade, e sim pela força indestrutível que move tudo que há.
Já cheguei a achá-la injusta, elitista, ardilosa. Depois me dei conta de sua profunda vulnerabilidade e falta de paz. Eternamente perseguida, seja pela morte, sua prima falsa e inescrupulosa, seja por nós, seres possessivos e desejosos do seu controle.
Insistimos na busca de encarcerar aquela que samba graciosa no batuque do instante.
Por sorte, a vida é moleca atrevida, teima em seguir por aí, livre, rebolativa, sacudindo seus cabelos ao vento.
O melhor é pegar leve, deixar solta, a danada é tinhosa. Do nada se cansa da gente e cede lugar pra prima falsa.
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Sinal. Rs. Soraya