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SOBRE AS PATAS>>Analu Faria

A melhor aquisição que fiz nos últimos tempos foi um par de tênis desses da modinha, confortáveis e sociais. Eu não sou a maior fã de aderir a essas coisas, mas o sapato era uma delícia no pé e bonito demais até para a resistência psicológica (um tanto infantil) de diferentonas como eu. A outra melhor coisa que tive por estes dias - sem, contudo, adquirir, por óbvia impossibilidade  - foi tempo.

Eu moro há duas quadras do trabalho. A uma distância igual fica o supermercado do bairro. Há uma padaria praticamente do lado da minha casa, e uma rede de farmácias abriu uma filial em frente àquele supermercado. Tem também um hospital veterinário a uns 200m daqui, caso as verdadeiras donas deste apartamento (duas gatinhas resgatadas)  resolvam ficar doentes. Tanta necessidade satisfeita com alguns passos e eu nunca havia caminhado pela vizinhança, nem quando precisei  comprar comida ou remédios. Dia desses, porque os sapatos novos já se tornavam os meus favoritos para qualquer ocasião, e porque eu tinha tempo - e também porque não havia mais ovos em casa -  desci a quadra, à pé.

Descobri, pela repentina vontade de comer omelete, que minha vizinhança tem um ritmo muito diferente do meu. Parece-se mais com o aconchegante ir e vir do bairro simples onde eu cresci. Uma ilha de sensibilidade interiorana no corre-corre da capital. É também mais viva e respira umas delicadezas que o meu desdém por algumas faces de Brasília não conseguiu captar antes. Há uma escola waldorfiana debaixo do meu nariz, onde algumas crianças brincavam e outras pareciam mexer com algo de carpintaria. Há inúmeras espécies de flores. As casas, no frio seco desta época, me convidavam a entrar, uma vez que se assemelhavam às gostosas casas de familiares de Minas, que as conservavam tão datadas quanto impecáveis (ao menos na fachada). 

Fui ridiculamente atingida por um lirismo raivoso: que cidade é essa que sai, absurda, dos  meus pés para o coração? Justo agora?! Que flores são essas que eu nunca vi? Que multitude de cheiros é essa que sinto, eu que recuperei a capacidade - longamente esquecida - de farejar, e que desde então não cesso de reconhecer caminhos com o nariz? Onde estavam todos os estímulos que os meus sentidos agora afiados falharam em captar? Tenho vontade de tirar os sapatos novos (benditos sejam!) e apertar entre os dedos dos pés a poeira que cobre o concreto onde piso. Sinto ganas de sair correndo pelos becos entre as quadras e saltar felinamente de muro em muro. Minhas narinas se escancaram sem que eu perceba. Preciso urgentemente vender o carro.





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