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SÓ QUERIA ESCREVER UMA CARTA DE AMOR >> Carla Dias >>


Não o culpem... o olhar perdido, a postura de quem não aguenta mais ter de aguentar sabe-se lá o quê. Deve ser difícil ser ele. E aposto que nenhum de vocês gostaria de interpretar esse papel.

Não. Definitivamente, não.

Ele mesmo não gostaria, mas não tem escolha. Esgueira-se por essa biografia distorcida, tendo de engolir o que de fato pensa, porque a vida, o trabalho e o acesso às oportunidades exigem, e ele, assim como eu e você, tem de sobreviver. 

Antes que me esqueça, sou eu novamente, o narrador intrometido.

Contudo, não deduza que se trata de um rebelde sem voz, porque ele alimenta suas silenciosas rebeldias com promessas que irá cumprir, simplesmente por não conseguir enxergar-se no mundo sem cometê-las. Talvez as cumpra num grito, só para provocar os que apostam que ele é vazio de importância. Elas podem parecer insignificantes para você, mas não para ele. Elas alimentam seu espírito com frondosa esperança, daquelas que mudam o rumo de roteiros de vida pré-definidos, e, adivinhem... acontece de vez ou outra a mudança ser para melhor.

Viu, eu disse que você não gostaria de desempenhar esse papel. Quer coisa mais sofrida do que manter viva a esperança?

O que acho que lhe incomoda nele é a cadência do andar, não? Parece até que ele não se importa com os revoltosos acontecimentos contemporâneos, esses vilões que admiramos, porque queremos que outros sintam um dó lascado de nós. O dó embriaga. Não o dó de quem sofre o diabo, que chega a perder-se de si, como se jamais pudesse reencontrar-se no próprio dentro. É o dó destinado a quem sobreviveu àquele corte no dedo, cruelmente cometido pela folha de sulfite. 

Tudo nele é profundo. Há quem considere essa profundeza um desacato à realidade. Há quem a resuma em alienação. Acredita que ela é a tal da esperança que ele alimenta, diariamente, vivendo segundos de deleite colhidos durante horas de indiferença. 

Há no caminhar dele, nessa marcação de tempo, um desandar que irrita os desesperados. Como poderia ele, com seu olhar anuviado, sua feição questionadora, sua irritabilidade inadequada, caminhar de maneira tão pacífica? Incomodam-se aqueles que enxergam nele a capacidade de não se embrenhar na onda de provocações e infortúnios que horários comerciais promovem, ao decidirem que você tem de ser mais, e melhor, e flanar acima de todos. 

Ele nunca desejou isso, essa viagem em que seria considerado um deus a comandar oferendas que inspirassem seus prazeres, eles baseados na dor de outros. Ele nunca desejou a indiferença que rege essa miséria travestida de magnitude. Contudo, nada de reduzi-lo a um simplista sisudo, dos que deixam importâncias passarem por pura preguiça de mergulhar nelas.

Há tanto nele que passa despercebido. Feito agora... Ah! Esse narrador intrometido adora quando esse olhar o toma. Não vou justificar esse arrebatamento, porque essa história não é sobre mim. É sobre ele, que enquanto escuta verdadeiros monólogos de egocêntricos que acreditam que tudo o que dizem é lei, pensa somente naquela função que o aguarda. Aquela contravenção que assanhará sua felicidade. 

Porque tudo o que ele deseja, nesse momento, é escrever uma carta de amor.

Você conseguiria ser tão transgressor?

Imagem: Birth of Love © Vladimir Kush

carladias.com
baseadoempalavrasnaoditas

Comentários

branco disse…
Carla, Carlinha. Que coisa linda ! Uma não transgressão transgressiva. Me identifiquei com muitas linhas, nas restantes era como se fosse pra eu estar ali. Dizem que se você consegue transportar as pessoas para o seu mundo, você é uma artista realizada. Realizou-se em mim, e merece todas as virgulas, ponto e maiúsculas que eu possa usar.
Carla Dias disse…
Branco, que felicidade saber que meu texto o tocou tão profundamente. Obrigada!